
A virada. Após a mobilização durante o segundo turno das eleições presidenciais, que chamamos de Escolher a democracia, a BVPS Edições abre espaço para que, no calor da hora, colegas se manifestem, trazendo análises, desafios e testemunhos sobre este momento, talvez o mais importante desde a redemocratização do Brasil. A tarefa política urgente parece ser a de desbolsonarizar o Brasil, e ela perpassa todo o espectro ideológico, da direita à esquerda. Se é assim, cabe aos intelectuais compreender e problematizar o fenômeno para desconstruir a própria ideia de legitimidade do bolsonarismo. O fascismo não é legítimo. E, como já sabemos, é por suas mãos que as democracias morrem.
Para abrir a série, Lilia Moritz Schwarcz, uma das principais intelectuais públicas do nosso tempo, compartilha suas anotações e reflexões sobre os dias da virada e vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, a favor da qual já vinha colocando sua longa, consistente e ampla experiência como antropóloga e historiadora e ativista. Lilia pensa os últimos dias como parte de um aprendizado social da sociedade brasileira que, entre outras coisas, pode nos levar a problematizar a ideia de polarização.
Que venha uma nova virada: a da mobilização permanente, nas ruas e nas redes. A luta continua. Boa leitura!
A gente se encontra na quadra certa da história
Por Lilia Moritz Schwarcz (USP)
Dizem que a história tem “dessas coisas”: às vezes, o que parecia decidido muda de direção e o que surgia como impossível, de repente, se torna exequível: deixa de ser utopia e esperança para se inscrever na agenda da realidade.
Sabemos também que o relato de testemunho, muitas vezes, padece de racionalidade. Falta-lhe distância temporal, mas, quem sabe, lhe sobre afeto, fruto da chamada emoção da hora.
Algo mudou nesse Brasil que ligou seu despertador cívico a partir do resultado doloroso do primeiro turno das eleições de 2026. Os setores progressistas recuperaram as ruas e, como dizia Juscelino Kubitschek, ainda no final da década de cinquenta, o “Gigante acordou”. A sociedade civil resolveu se rebelar e o chamado não veio apenas do partido político; ele veio pelas pontas: com os estudantes nas ruas e a terceira idade comparecendo às urnas eleitorais.
Ainda precisaremos de alguma distância para entender tudo o que aconteceu, mas foi emocionante entender o tamanho desse Brasil que desfilou na avenida, ou ver – no meu caso tão particular – a minha sogra (minha segunda mãe) de cadeira de rodas votando feliz na sua seção eleitoral.
Por outro lado, há um fenômeno social novo que penso valer a pena anotar. Finalmente, as esquerdas entraram maciçamente nas redes sociais. Um certo preconceito difuso parecia impedir que usássemos as redes como forma de divulgar boa informação, com raras exceções, como é o caso desse blog da BVPS.
A democracia precisa de argumentos, mas também de imaginação, de razão combinada com emoção. Precisa igualmente de convicção e, sobretudo, de pessoas dispostas a agir e a ter certeza de que não é possível separar a natureza do trabalho intelectual da militância política. Ou seja, é hora de fazer das redes um espaço permanente de resistência e de boa informação e, nesse sentido, qualificá-las.
Outro aspecto que precisaremos analisar, com calma, é a importância das regiões Nordeste e Norte nos resultados eleitorais e como elas têm nos ajudado a pensar em novas formas de lidar com a desigualdade, realizando verdadeiros vocabulários democráticos – a exemplo do que temos feito no projeto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), chamado “Instituto Igualdade – Instituto Nacional de Aprendizado Social e Promoção da Igualdade”.
Acredito que outro tema fundamental de nossa agenda contemporânea é o bolsonarismo e o crescimento da extrema direita no país – assunto que, bem sei, já tem sido explorado por estudos de vários colegas. Mas o caso dessa eleição representará, sem dúvida, uma crivagem relevante: o que significa Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, construir o seu herdeiro e legado? Qual o sentido da corrupção orgânica do PL? Como esse grupo domina (ou dominava) a linguagem das redes e dos algoritmos?
Particularmente, discordo do termo “polarização” para definir o atual cenário nacional. Ele prevê, no meu entender, uma divisão equidistante entre os campos, o que, na minha compreensão, gera todo tipo de equívoco: intelectual e político. Julgo que não há equilíbrio entre os extremos e isso tem ficado muito claro na diversidade de linguagens, projetos e até nas previsões de futuro.
Por outro lado, teremos que entender como o crescimento dos escândalos associados à família Bolsonaro e, em especial, a Flávio Bolsonaro encontrou difícil aderência não só na campanha deles, como em parte da população brasileira. Afinal, por onde quer que olhemos, nesse feliz day after, não há como esquecer que o país sai das urnas, mais uma vez, profundamente dividido.
Esse artigo não é, por certo, um “viveram felizes para sempre”, mas gostaria de destacar, para terminar, a importância da virada histórica que vivemos no dia 25 de outubro.
Impressiona como a grande imprensa insistiu, à exaustão, numa certa “tradição”, diziam eles, de que candidato que perde no primeiro turno “nunca” ganha no segundo. A afirmação implicava concluir que seria impossível mudar essa “realidade”. Conhecemos à exaustão o termo já clássico de Eric Hobsbawm, que mostrou como se “inventam tradições”, e ficou claro, com os resultados finais, como a história não é sentença: é disputa de narrativas, de informações, de redes, das ruas.
Por fim, com o tempo poderemos entender melhor a quantidade de “opositores” que foi preciso enfrentar: o poder das big techs e os algoritmos da Meta, as decisões ideológicas do TSE (na figura de seu presidente, o ministro Kassio Nunes Marques), as ameaças de violência política, o boicote dos governadores e prefeitos bolsonaristas que, mais uma vez, quiseram limitar os transportes e impedir a chegada dos eleitores – sobretudo aqueles que votariam em Lula. Mas, se eles já haviam escrito o epitáfio de Lula e do PT, hoje estão tendo que desenterrar os falsos mortos.
Enfim, a história nunca caminha em linha reta. Ela avança, recua, tropeça, surpreende. E, sobretudo, nunca é propriedade, inteiramente, daqueles que se declaram vencedores antecipadamente.
Dizem que a democracia pertence a quem não desiste dela. E talvez essa seja a maior conquista desta campanha: descobrimos, mais uma vez, a força que temos quando saímos de casa, encontramos os outros, ocupamos as praças e avenidas e transformamos a indignação em ação coletiva. E o futuro não é feito de umas previsões certas e passa sempre pelas conquistas da sociedade civil.
Foram poucos dias, mas que pareceram uma eternidade. Escrevo esse pequeno relato de memória no calor da hora e, cientista social que sou, bem sei que nada disso é recomendável.
Entretanto, e como escreveu Hannah Arendt, testemunha é aquela que fica para contar. E estamos aqui para narrar o que vivemos, muito intensamente, nessas curtas, mas longas, três semanas. E o certo é que vencemos – pelo menos até nosso próximo desafio, que surgirá, já, já, na esquina dessa nossa democracia que, como disse Darcy Ribeiro, sempre “amanhece”. Amanhecemos mais uma vez.
São Paulo, 26 de outubro de 2026.
