BVPS Edições | A virada | Antes seja torrente, mais do que represa!, por Luiz Duarte

Em mais um penetrante texto da série A virada, o antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte assinala que, entre o objetivo de conter aspirações autoritárias/populistas de extrema direita e o processo de construção de um horizonte democrático renovado, o Brasil enfrenta o complexo desafio de transformar a esperança em participação popular, criatividade política e renovação coletiva efetivas.

Para resistir ao avanço do neofascismo, seria necessário, argumenta o autor, ampliar a comunicação digital, desenvolver práticas associativistas, revitalizar os partidos políticos e abrir caminhos para uma democracia plural, inclusiva e participativa. Como sugere sua aguda reflexão, não seria suficiente represar as ameaças, mas tornar a esperança uma torrente capaz de transformar ativamente nosso futuro.

Boa leitura!


Antes seja torrente, mais do que represa!

Luiz F. D. Duarte

Na noite do dia 25 de outubro, o presidente Lula, espetacularmente reeleito no segundo turno, tomou a palavra, concedeu-a preliminarmente ao fiel vice-presidente Alckmin, e logo enveredou por uma longa mensagem, entusiasmada, cheia de promessas de grande alcance. Algumas mais evidentes, como as da ênfase na educação, na saúde e na política climática – pontos de máxima distância dos interesses bolsonaristas. Outras – muito bem-vindas – decorrentes da experiência invulgar de mobilização popular que levara a uma vitória pouco previsível – depois do relativo marasmo precedente ao primeiro turno.

Duas delas permitiam reconhecer que o velho líder compreendera parte das grandes mudanças ocorridas no país e no mundo desde o tempo de suas primeiras memoráveis vitórias políticas – há duas longas décadas! Nos seus termos, seria necessário “fazer o povo participar mais nas nossas decisões” e a “comunicação digital (…) ganhar um espaço muito grande no meu [seu] governo”.

Nada de mais lúcido para um governante que, em seu corrente mandato, manteve uma política bem convencional, mais voltada para a recomposição de um Estado devastado por seu predecessor do que para os novos desafios de grande porte a bater à porta de nosso país. É claro que as disposições obscurantistas e patrimonialistas do Congresso e o descalabro moral do STF não ajudaram a precisar um foco mais criativo e ambicioso no período. Mas, realmente, é chegada a hora! As disposições morais e políticas muito diferentes, cultivadas nos mais variados meios sociais desta nossa enorme nação, têm se mostrado favoráveis a muitos aspectos do populismo de direita – afinal metade da população votante acolheu como possível presidente o filho do golpista preso, acusados ambos publicamente de inúmeros desvios e desgovernos. Não têm faltado, ao longo da última década, análises críticas percucientes dos cientistas sociais sobre esse fenômeno – mas sua circulação é restrita, como não poderia deixar de ser. 

Aumentar a comunicação digital – não como variante ingênua de uma imprensa oficial – mas como intensa e criativa forma de fazer circular a informação moral e política, de baixo para cima, de todos os lados para todos os lados, permitirá talvez que alguns dos preconceitos conservadores e reacionários sejam desafiados, pouco a pouco, de modo eficiente. Não será suficiente, é claro, se não for acompanhada – essa agitação generalizada – de políticas que ensejem o avanço democrático sem atentar contra sensibilidades muito arraigadas. Foi estimulante ouvir também na fala do presidente reeleito uma menção forte à religião – elemento crucial, como todos sabemos, da vida corrente da maioria da população brasileira. Uma religiosidade cada vez mais complexa, variegada, carregada de contradições, mas também de potencialidades de comunhão e cuidado coletivo. Não basta enfatizar a liberdade religiosa – certamente ameaçada aqui e ali –, mas permitir que se entreteçam suas membresias a outras formas de agremiação, mais cívicas, mais imediatamente republicanas. Outra frente delicada é a da proteção das identidades minoritárias ou subalternizadas, frequentemente confundidas no sentimento popular como traição a seus próprios anseios de autoafirmação. Essa proteção não pode fraquejar, em um país de imensa miséria e violência. Mas é preciso demonstrar que essa não é uma política exclusiva para os “fracos”; ela é a chave de um universalismo humanista, em que a participação de todos deve se dar de modo igualitário, abrangente, coletivo – ombro a ombro.

Este é – a meu ver – outro aspecto crucial do chamamento à “participação do povo”. O fascismo prospera onde a associatividade plural e generalizada é restringida em direção a uma ordenação central hegemônica – e crescentemente autoritária. Os “partidos” são uma engenhosa invenção moderna para canalizar essa distribuição por “partes” da consciência coletiva, que ganham em discutir, se contrapor, competir, se inter-emular. Um “partido único” é uma contradição em seus termos. Mas nem por isso – e nem porque a tradição de fortalecer os partidos vem se perdendo na república brasileira atual – se pode prescindir de manter ativos e altaneiros os partidos que dispõem de uma coerência cívica constante, como tem sido exemplo maior o PT. No entanto, mesmo no brilhante calor desta recente mobilização, senti falta de maior ênfase nesse partido especial, a que tantas benesses temos devido. É claro que os slogans, os memes, as palavras de ordem tiveram de se concentrar na figura mágica do Lula, dada a urgência que enfrentávamos contra a extrema-direita. Já é hora, porém, de revitalizar a sua estrutura partidária, sua organização por bases, seu dinamismo popular, mais do que contar com os mesmos apparatchiks de sempre – inevitáveis, mas mornos. Que a magia vermelha reentranhe o partido!

A pior coisa que poderia suceder com o novo mandato do presidente Lula seria que funcionasse apenas como um katechon, uma represa contra o avanço do fascismo no país. Esse conceito, oriundo da patrística cristã, designava o necessário anteparo mundano, teológico e político, contra o advento do Anticristo, preparador da Parúsia final. Foi retomado em uma das últimas obras do eminente jurista e filósofo Carl Schmitt, que justificava o domínio do partido nazista na Alemanha como uma represa contra o caos do mundo liberal e a ameaça do bolchevismo. Tem reaparecido em contextos do autoritarismo e do neofascismo contemporâneos, entre a Rússia, a China e os EUA.

Que mais um mandato executivo democrático e republicano conforte nossas mentalidades ilustradas e esconjure as ameaças mais imediatas que se acumulam no horizonte de todo o mundo atual é mais do que bem-vindo. Quanta devastação se poderá assim evitar em todos os níveis da vida nacional. Mas quatro anos passam rápido! O presidente Lula não é imortal, nem passa incólume pelo envelhecimento. Seu precioso carisma precisará ser transmitido adiante (e transmissão de carisma não é coisa fácil, como bem sabemos, nós que frequentamos Max Weber…), para que uma política progressista avance na história, não apenas represando a contínua ameaça pulsante, mas ensejando uma torrente de criatividade, empenho, envolvimento, cuidado com a res publica, abertura para o verdadeiramente novo – aquilo que é sempre antagônico à remissão a tradições peremptas.

Lilia Schwarcz terminou oportuno e recente texto com a lembrança de que “amanhecemos mais uma vez”. Felizmente, amanhecemos plenos de júbilo e esperança. Mas o novo dia exige arregaçar as mangas, lutar com unhas e dentes, hora a hora. Se não for torrente, terá sido apenas represa, até que venhamos a enfrentar novamente, mais à frente, as mesmas fauces tremendas do dragão fascista.


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