
Dentre as manifestações que ligaram ruas e redes e culminaram na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro, o protagonismo dos entregadores por aplicativo, especialmente em São Paulo, no dia 21 de outubro, chama a atenção.
Em mais um texto da série A virada, Cibele Rizek (USP) discute-o como espaço de resistência e mobilização popular e destaca os sinais do que pode ser uma nova forma de politização em gestação no Brasil. O protagonismo dos entregadores por aplicativo, jovens estudantes e demais trabalhadores contribuirá para a reinvenção das formas de organização da ação coletiva na contemporaneidade? A autora aposta que sim e ainda ressalta o entrelaçamento de diferentes gerações que ocuparam espaços públicos e digitais na reabertura de caminhos para a democracia, a cidadania e a esperança de transformação social.
Boa leitura!
Nas redes e nas ruas: em defesa da democracia brasileira
Por Cibele Rizek (USP)
É preciso reconhecer a alegria e a força que impediram a vitória de mais um membro do clã Bolsonaro no último dia 25 de outubro. Foram mobilizações que demonstraram vitalidade impressionante, mas também trouxeram de volta a rua como lugar da festa. Ganhamos fôlego, ganhamos tempo e espaço para existirmos. Para além do baixo astral da derrota – pequena, mas significativa – do primeiro turno, o que se assistiu foi uma ascensão e uma presença popular nas redes e nas ruas, usando todas as linguagens e os meios possíveis, criando brechas, abrindo lugares no mundo físico e no mundo digital, onde era possível afirmar LULA 13.
É preciso apontar aqui alguns traços que sinalizavam viradas importantes no percurso de ascensão de Flávio Bolsonaro e de um ethos ao seu redor, de ares muito nefastos. Uma dessas viradas diz respeito ao engajamento de jovens adultos – especialmente cicloentregadores e motoboys – em suas manifestações pró-Lula, em seu engajamento na reta final entre o primeiro e o segundo turno, em São Paulo. É só um exemplo, mas muito significativo, de formas de politização consideradas até então improváveis, rumo ao segundo turno das eleições presidenciais. Os sinais de que essa virada seria possível relampejaram aqui e ali, sobretudo nos breques dos APPs, nos discursos das lideranças – youtubers e influencers – nos últimos anos marcados por transformações do mercado de trabalho e suas formas de engajamento no país. Uma dessas formas pode ser identificada como plataformização e hoje se estende a aproximadamente 2 milhões de pessoas no país (o que representa 1,9% da população ocupada). Dentre esses, mais de 376.000 entregadores circulam nas ruas das cidades brasileiras.
Cabe notar aqui a mediação das redes sociais como elemento que atravessa e emoldura tanto o cotidiano de trabalho quanto um modo de existir desses jovens trabalhadores. Cabe também observar que tanto as práticas do trabalho, como as formas de organização e resistência se transformam rapidamente em dados – uma nova e poderosa mercadoria e uma ameaça permanente às ilusões de privacidade. Também é preciso ter em conta que esses jovens trabalhadores passam seus dias conectados, à espera do próximo chamado, à espera dos avisos sobre horários e “praças” das entregas onde deverão se reunir no dia seguinte. As redes e as empresas que as produzem e gerenciam sabem disso e operam como poderosas máquinas de subjetivação, como poderosas formas de fabricação dos critérios de justiça, de legitimidade, de sentido, como máquinas de fabulações desejantes, de horizontes de ascensão, de modos de vencer na vida, de promessas de prosperidade. Ao mesmo tempo, a escuta das falas desses trabalhadores indicava que, no movimento e nas práticas cotidianas de vida e de trabalho, era preciso pagar as prestações dos celulares, bicicletas e motos, ou pagar os aluguéis desses veículos, aparelhos e contas, pagar combustível, pagar pela alimentação fora de casa, endividando-se e produzindo novas urgências.
A esse enovelamento de novas condições de trabalho e novas mediações cotidianas, outros indícios foram ganhando corpo: nos movimentos que ganharam o nome de breques dos APPs, os entregadores passaram a se reconhecer como trabalhadores. Em meio a essas transformações, duas novas formas de representação e organização ganhavam sua certidão de nascimento: em 2022, o Movimento dos Trabalhadores sem Direitos, que mobiliza trabalhadores da “economia informal” e, em 2023, o Movimento Vida além do Trabalho, constituído por jovens trabalhadores contra a escala 6×1.
Quando Flávio Bolsonaro passa à frente de Lula no primeiro turno, esses sinais se constelaram e permitiram entrever a fermentação de um novo caldo que mesclava ruas e redes – exatamente os nichos onde vivem e circulam real ou digitalmente esses trabalhadores – em suas formas de mobilização e resistência, distantes das formas clássicas de mobilização e organização. Emendas parlamentares que regulam as jornadas e o pagamento por corridas, autorreconhecimento de plataformizados como quem ganha a vida com e pelo trabalho, a mistura de jovens secundaristas e universitários que são ou se originam de famílias de trabalhadores, numa fusão possível graças às cotas e ações afirmativas, um conjunto enorme de pessoas entre 19 e 30 anos que queriam e podiam desejar mais: mais vida, melhores condições de trabalho, saúde, educação, moradia, condições de uma existência menos sujeita à ação e à letalidade policial, menos sujeita às formas de genocídio de crianças e adolescentes negros, pobres e periféricos, menos passível de se tornarem alvo de investidas racistas, misóginas e homofóbicas. Finalmente, uma espécie de apatia morna, uma apatia encoberta e continuamente produzida pelo protagonismo e pela inciativa das forças de direita, assim como das redes e empresas digitais, cedia lugar a um outro protagonismo e a uma politização que eclodiram como há muito não se via.
Em meio às manifestações de rua, uma chamava a atenção: o movimento dos motociclistas e entregadores, no dia 21 de outubro, esses mesmos trabalhadores frequentemente identificados como uma das bases sociais da extrema direita. O ato em São Paulo teve como eixo de mobilização o apoio à democracia e à candidatura à reeleição do presidente Lula.
“A gente sabe que todos os direitos conquistados até aqui estão em jogo. E é por isso que os entregadores de aplicativos estão aqui hoje lutando pela democracia”[1].
Os atos e mobilizações nas redes e nas ruas tiveram papel central na derrota da extrema direita. As dimensões geracionais e intergeracionais – netos e avós, jovens trabalhadores de aplicativos e idosos, se mobilizaram e foram mobilizados nos exércitos digitais, mas também nas panfletagens e nos ganhos voto a voto, aqui e ali, ostentando adesivos, bandeiras e botons.
“Trabalhador, olha pra cá. Eu tô na rua pro seu filho estudar”. Pelo SUS. Pelas universidades públicas. Pela educação pública e gratuita. Pelos direitos do trabalho. Pelas aposentadorias. Macumbeiros com Lula. Evangélicos com Lula… Algumas dessas palavras de ordem contra a extrema direita foram ganhando corpo, densidade e visibilidade entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais. As primeiras passeatas foram de estudantes de institutos e universidades federais. Depois, os atos de campanha foram crescendo e quem quer que tenha estado nas ruas viu hordas de jovens, de famílias com crianças, de estandartes religiosos, aos quais foram se somando, nos dias anteriores ao segundo turno, os cartazes e bandeiras com a indicação das entidades: União Nacional dos Estudantes – (a UNE SOMOS NÓS), União Estadual dos Estudantes, CUT, MST, MTST, as camisetas antifascistas, os adesivos e muitos – muitos mesmo – jovens que vinham das periferias e/ou fizeram manifestações nos bairros periféricos. Esses jovens promoveram rodas de conversa nas escolas, chamaram professores e funcionários e ganharam as redes por meio de grupos de WhatsApp, YouTube, Instagram e exércitos digitais, ensinando os mais velhos a dobrar e manipular algoritmos. Com isso, romperam as águas mornas de uma política institucionalizada e bem-comportada, de uma esquerda governamentalizada e adaptada aos acordos, aos lugares predefinidos, às emendas parlamentares, à capacidade de manipulação dos centrões e aos orçamentos secretos, que impuseram alvos e formas de financiamento vinculados às suas clientelas e currais eleitorais, distribuindo verbas que nada têm a ver com a disputa de fundos públicos e sua politização, tampouco com direitos, sonhos e possibilidades de uma vida melhor numa sociedade profundamente desigual.
Diante de um governo Lula 3, um tempo de desmobilização e acomodações, de uma governabilidade na corda bamba, renascia uma esperança equilibrista. Um raio num dia de céu azul? Não para quem estava atento a alguns desses sinais, não para quem estava mapeando indícios e sinais de que havia vida embaixo dos escombros das velhas formas de trabalho, de que também havia vida nas novas práticas e movimentos populares à brasileira, há muito mantidos em seus próprios nichos. Aparentemente, a extrema direita tinha aprendido a mobilizar suas bases nas redes e ruas como uma esquerda adormecida não era mais capaz de fazer… Só que não! Com um saber e uma capacidade de mobilização impressionantes que se constelaram a partir de novos e velhos modos de trabalhar e de viver, a festa e a irreverência se refizeram a partir de sintomas e sinais que derrotaram as empresas digitais globais, os movimentos internacionais da extrema direita, as máquinas de dessensibilização compatíveis com os genocídios e violências de Estado, com as mortes que não causam escândalo, com a violência autorizada e legitimada contra mulheres, movimentos antirracistas, lutas antifascistas, trabalhadores.
Para quem busca compreender as novas formas de trabalho, as solidariedades, associações e movimentos nos bairros populares, foi muito bom ouvir as jovens lideranças dos entregadores, acompanhar as manifestações e perceber que, para além do seu próprio ato pró-Lula, essas figuras emergentes e suas práticas construíram resistências dentro e fora das redes às quais estão atrelados, somando-se a outros segmentos de trabalhadores que moram e vivem nas periferias de São Paulo e de outras cidades do Brasil, onde o L de Lula 13 gritou mais alto do que a meritocracia, do que os grandes e pequenos negócios de todos os tipos permeados pelo endividamento que despolitizam todos os dias a pobreza, a segregação urbana e a desigualdade. Nesse ascenso impressionante, foi possível entrever a organização popular à brasileira, como foi e é possível, vencendo o desmanche das formas de solidariedade e sociabilidade por meio da individualização radicalizada dos mercados de todos os tipos e recompondo um horizonte de retomada e continuidade de luta pelos sentidos da democracia e da cidadania (essa palavra que nos foi roubada), pelo direito de estudar, morar, circular, trabalhar e viver.
Preservar essas possibilidades não é tarefa simples e exige a continuidade da presença, mobilização e engajamento necessários tanto para a continuidade do governo Lula 4, como para recuperar a politização e as formas de organização que mostraram que há um lugar neste planeta onde as investidas mundializadas da extrema direita fascista ou neofascista podem ser contidas pelas ruas, pelas redes e pela festa, por jovens trabalhadores e estudantes, por famílias de todos os tipos, por antigos militantes de cabeça branca que sabem o que foi e o que continua sendo a luta pela democratização das formas de governo, do tecido social e de suas tramas no Brasil.

Nota
[1] Cf. JR Freitas. In: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/entregadores-e-mototoboys-fazem-motociata-pro-lula-no-centro-de-sao-paulo.shtml. Acesso em outubro de 2026.
