BVPS Edições | A virada | L, a transnacionalização de um símbolo e de uma vitória, por Lena Lavinas e Monica Herz

Como fazer o L com os dedos das mãos, símbolo do apoio ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das nossas recém-encerradas eleições presidenciais, está ganhando o mundo? Nesta atualização da série A virada, Lena Lavinas (UFRJ) e Monica Herz (UERJ, PUC-Rio, ILAM) se debruçam sobre o fenômeno.

Entre as ruas e as redes sociais digitais, a resistência democrática brasileira vai ultrapassando fronteiras nacionais. Ressignifica-se, num momento mundial decisivo, a própria ideia de “brasilianização do mundo”, comumente associada à precarização do trabalho? Numa espécie de cambalhota no trapézio mundial, a América Latina e o mundo vão aprendendo e se apropriando do Brasil. O texto convida a pensar a circulação de um repertório forjado a partir da periferia, que parece estar logrando universalização. Nova contribuição brasileira para a reinvenção de possibilidades e abertura de horizontes para o futuro da democracia mundial.

Boa leitura!


L, a transnacionalização de um símbolo e de uma vitória

Por Lena Lavinas (UFRJ) & Monica Herz (UERJ, PUC-Rio, ILAM)

Possível, ainda que improvável. Altamente improvável. Mas, assim mesmo, possível. E não era por causa da tal da margem de erro que apontava empate. Não era fé tampouco, nem torcida. Era um sopro novo, um alento, a percorrer a cidadania que se despia da apatia que lhe roubou protagonismo por longo tempo, em busca de um destino. Que fazia falta.

Nesse país grande, de tantas vidas e tantos rincões, de uma língua matizada por sotaques sutis e singulares, tão diversos quanto a tez de nossas gentes, onde muito divide e pouco agrega, deu-se um encontro. As ruas e as redes passaram a caminhar numa mesma direção. A da recusa da fatalidade, das derrotas já impostas, do cenário distópico que o recordar dos anos Bolsonaro fazia despontar no horizonte.

A virada foi um levante pacífico. O vermelho a incendiá-lo, uma paleta de emoções a colori-lo. Olhares cruzados sorrindo, carregando alegria, propagando contágio. Por muito tempo há de se refletir sobre as forças, os afetos e as circunstâncias que resgataram a democracia como um bem maior, valor coletivo pelo qual se luta. Armando um exército digital para resistir, invadindo as ruas para ganhar potência, forjando símbolos para criar identidade e liga. O L se tornou linguagem universal. Aqui e alhures. Na França, vem com rima: “Liberté, Égalité, Faz o elê, Janones”, enquanto grupos políticos mundo afora replicam o Exército do Lula para enfrentar pleitos polarizados que se avizinham, estratégia que a New Yorker denominou “tech-savvy miracle”. 

É a brasilianização do mundo, desta feita para o bem, para retomar os termos de Paulo Arantes. Impõe uma derrota ao trumpismo, escanteia a supremacia da Meta, vence aqui a extrema direita, derruba o centralismo democrático da esquerda e sua racionalidade estéril, ensina que nada está predeterminado. A esperança vingou e pôs semente. Contaminou também o centro.

Esse ímpeto irrepressível e feliz de retomar as rédeas de um futuro em risco cruzou fronteiras e revelou, através de uma extraordinária repercussão internacional, uma sintonia coletiva surpreendente entre todos/as que anseiam por transformação verdadeira. De baixo para cima. É disso que se trata. Não apenas resistir, mas vencer e fazer da agência ponto de inflexão para mobilizar e fazer do mundo, de novo, nossa casa. São as gentes criando os comuns.

Rasgos de utopia subvertem, assim, o tabuleiro político e deslocam as linhas de força.

Essa foi nossa eleição mais transnacionalizada, marcada pela interferência norte-americana e das big techs, pela atenção internacional, pela presença de observadores estrangeiros que legitimaram o processo eleitoral, pela relevância atribuída preventivamente ao reconhecimento internacional dos resultados, pela mobilização dos mais de 900 mil votos brasileiros no exterior, pelas implicações para o futuro do multilateralismo e do projeto de Washington para uma zona de influência latino-americana. 

O lugar que os vinte dias de rebelião entre o primeiro e o segundo turno das eleições brasileiras ocupam no processo de resistência ao autoritarismo e ao conservadorismo que se dissipam por entre comunidades políticas nos últimos anos é notável, e vai ser construído e interpretado como parte deste mesmo processo político de resistência. A concentração de recursos e de poder foi o mais importante objeto dessa rebelião, na medida em que a lei (na forma de nossa Constituição), as políticas públicas distributivas e de suporte a direitos sociais e a visão de uma comunidade política plural foram foco da agregação de sentidos.

Está em jogo a constituição de uma referência histórica para a prática e o debate sobre a participação política. A partir de uma diversidade de formas de articulação coletiva, é possível criar um movimento político que, apesar de fragmentado, se consolida em agência de transformação com uma clara direção e imagem do futuro. E essa referência vem sendo incorporada, expressa e defendida em diferentes partes do planeta. A história de Lula, dos governos do PT e de nossa política externa durante esses governos (mas não somente) explica parte dessa incorporação. A defesa do multilateralismo, do respeito pela diferença, dos direitos humanos e do direito humanitário, de um universo internacional em que a concentração de poder militar não determina o desenho de interações é lembrada por líderes na Europa, na América Latina e por populações oprimidas como os palestinos. Contudo, a rebelião em si é ainda mais potente e acolhe os olhares sobre a capacidade de mobilizar-se, sorrir e cantar.

A reação internacional à vitória do PT vem associada à possibilidade de recuperar, reestruturar e fortalecer o multilateralismo. No campo ambiental, isso foi particularmente claro: de um lado o negacionismo e, do outro, a liderança de Marina Silva, o envolvimento do governo com tal agenda e a defesa da terra pelos povos originários. Em tantos outros âmbitos em que o multilateralismo pode ser um espaço social para a construção de agendas de inclusão, de defesa do humanitarismo e da limitação ao uso da violência, podemos ter esperança. 

A regulamentação das big techs esteve no centro da disputa desta eleição. Por um lado, a proposta de limitar o enorme poder destas empresas. De outro, o projeto hiper liberal característico da extrema direita latino-americana e de outros países, de permitir que a lógica do mercado e do darwinismo social prevaleça. A economia política da internet demanda um processo de democratização que envolve regulamentação, assim como a gestação de um espaço digital, soberano, que não seja exclusivamente privatizado. O controle do fluxo de informação, ideias, conhecimento no universo digital e a mediação de nossas relações sociais está em disputa. Reivindicam-se autonomia e transparência em relação aos algoritmos e liberdade de expressão como uma agenda progressista. A virada brasileira de 2026 pode iluminar o caminho para esse enfrentamento, para além da resistência.

Na América Latina, em particular, está em questão o projeto de afirmar o controle norte-americano sobre a infraestrutura estratégica, recursos como minerais estratégicos e terras raras e nossas políticas externas (em particular, em relação à China), além da demanda absurda por alinhamento à perspectiva política do governo Trump. O uso da força tornou-se uma sombra sobre a região, seja definindo políticas altamente repressivas de segurança pública a partir de Washington, estabelecendo a presença militar norte-americana em nossa região, ou mesmo usando-a para definir quem governa. O “Escudo das Américas” avançou uma proposta de coordenação hierárquica em desrespeito à soberania dos Estados latino-americanos e adequada a uma lógica de coerção em contraposição a formas cruciais de cooperação bilateral ou multilateral, como os mecanismos da Organização do Tratado Amazônico, em processo de construção.

O rápido reconhecimento da vitória de Lula por parte da grande maioria dos governos e a reação de júbilo das ruas e parlamentos por todo o continente abrem uma janela para voltarmos a apostar numa América Latina mais solidária. Soberana nas suas escolhas. A perspectiva geopolítica norte-americana não há de definir os termos da nossa inserção internacional.  O governo americano acabará por revisar sua política para a região, pois, afinal, o “Brasil não é quintal de ninguém.”

A virada apenas começou.


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