Ressurgências | Coluna de Alcida Rita Ramos e Francisco Sarmento

Chegamos ao último texto de Ressurgências, coluna assinada por Alcida Rita Ramos (UnB) e Francisco Sarmento (KAAPI). Para coroar a jornada, os autores recebem Luciana Keller Tavares, doutoranda em Antropologia Social na UnB que pesquisa junto aos Kanoé e Akuntsú, dois povos indígenas que resistiram a sucessivas tentativas de extermínio.

Esta é uma edição que ajuda a pensar a diferença entre sobreviver e viver. A colonização tentou destruir tanto as condições materiais de existência dos povos indígenas quanto seus parentescos, afetos, modos de vida. Ressurgir diante de tamanha violência não é nada trivial. E uma das respostas está na capacidade de criar novas relações e formas de bem-viver, mesmo diante da devastação. Esta é uma leitura sobre a reivenção da vida.

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Coluna Ressurgências

Por Alcida Rita Ramos (UnB) e

Francisco Sarmento (KAAPI)

Fechamos a Série Ressurgências desta coluna com um exemplo lapidar de como ressurgir das cinzas contra tudo e contra todos. Diante de tanta vontade de continuar a viver, eu, Alcida, sinto a força da humildade que povos resistentes ao extermínio me imprimem. Que momento iluminado vivi quando escolhi trilhar o caminho da etnologia indígena! Que inspiração oportuna ao convidar Francisco Sarmento para compartilhar esta jornada pelo mundo, ao mesmo tempo sólido e etéreo, da inspiradora Biblioteca Virtual do Pensamento Social que, prontamente, se abriu ao som das vozes indígenas!

To you they are birds, to me they are voices in the forest

[dizem os Kaluli da Nova Guiné]

Steven Feld, Sound and Sentiment

O lirismo da fênix

Alcida Rita Ramos

Da região de Corumbiara, em Rondônia, oito pessoas pertencentes a dois grupos étnicos amplamente desconhecidos ainda afastam as cinzas do apocalipse que extinguiu todos os seus parentes. São os remanescentes Kanoé do Omerê e Akuntsú, vizinhos de Tanaru, o homem que ficou conhecido como “o índio do buraco” e que, ao morrer, legou aos brancos o seu silêncio insondável. É uma história de dor, resistência e beleza. Quem a conta é Luciana Keller Tavares, doutoranda de antropologia na Universidade de Brasília. A exemplo da saudosa Carmen Lúcia da Silva e seus oito interlocutores Xetá, Luciana teve a coragem de tomar como foco de pesquisa apenas quatro mulheres, dois homens e duas crianças, na contramão da tradição etnográfica e à revelia de alguns olhares acadêmicos propensos a julgar que, na etnografia, uma andorinha só não faz verão. Mais uma vez, constatamos o juízo equivocado de imaginar que, extinta uma comunidade, extinta a sua cultura. Pelo depoimento de Luciana, fica muito claro que poucas andorinhas fazem, sim, um esplêndido verão.

Não é a primeira vez que esta coluna expõe o escândalo do extermínio de povos indígenas. Já passaram por aqui tragédia inomináveis, como a dos Xetá e dos sobreviventes solitários Tanaru no Brasil e Ishi nos Estados Unidos. Não ouso pensar em quantos outros, anônimos, que morreram sós num mundo destruído.

Desta vez, temos novamente a conjunção de um grupo de pessoas alegres por terem sobrevivido e uma etnógrafa sensível, afoita e engajada. Ambos ‒ eles e ela ‒ apreciam a beleza, essa benção dos sentidos que pode nos salvar do desespero e do niilismo. Lembremos do caos em que o garimpo afundou os Yanomami nos tempos da pandemia. Quando tudo parecia cinzas, o geógrafo Estêvão Senra e Davi Kopenawa reforçaram o lado belo da vida indígena. Num artigo intitulado “Precisamos falar sobre a beleza dos Yanomami” (publicado na Folha de São Paulo em fevereiro de 2023), escrevem: “Em meio à tragédia, é urgente não perder de vista a beleza desse povo. A beleza das festas reahu, das danças de apresentação. Céu azul, corpos pintados de vermelho, o balé das palhas amarelas. ”

No caso aqui descrito, depois de sacudir a poeira da hecatombe que os deixou em total privação, os sobreviventes Kanoé e Akuntsú voltaram-se para a beleza do mundo e deixaram que pássaros lhes devolvessem o sentido da vida. Antes alheios uns aos outros, esses homens e mulheres juntaram seus destinos por força da penúria comum, num exemplo extraordinário de solidariedade, otimismo e sabedoria.

Deixemos que Luciana nos conte essa história.

O fim do mundo e o nascer dos pássaros

Luciana Keller Tavares1

Os Kanoé do Omerê2 e os Akuntsú são dois coletivos indígenas, sobreviventes de sucessivas tentativas de extermínio, que hoje habitam a Terra Indígena Rio Omerê, no sul de Rondônia. Em 1995, três Kanoé e três Akuntsú foram contatados pela Funai às margens de um afluente do rio Corumbiara, dentro de propriedades particulares leiloadas nos anos 1970 pelo Estado brasileiro como um território inabitado. Agora, vivendo sob a proteção desse mesmo Estado, os Kanoé do Omerê e os Akuntsú contam como sobreviveram à destruição total.

Era tempo de seca no Omerê. Eu e Purá estávamos sentados numa caçamba da Funai à espera dos homens voltarem da caçada aos “bois bravos” deixados na Terra Indígena depois da expulsão dos fazendeiros invasores. Purá ficou para me fazer companhia, pois os caçadores achavam muito perigoso que uma jovem e inexperiente antropóloga branca acompanhasse uma caçada com armas de fogo. Enquanto esperávamos, Purá apontou para uma cicatriz na minha perna e eu lhe disse que ganhei aquela marca quando caí de uma árvore. Ele então passou a me contar sobre suas próprias cicatrizes. O relato o transportou de volta ao tempo em que seu grupo familiar vivia na mata fugindo do contato com os aparabia, os brancos. Contou sobre sua mãe, iamõe e sobre a angústia e o desespero em vê-la chorar sempre que ouvia o barulho do motosserra e o cheiro da fumaça das queimadas cada vez mais perto do seu acampamento. Hoje, Purá é um dos dois homens Kanoé sobreviventes do genocídio no Vale do Corumbiara.

Purá Kanoé brinca com peixe em frente à base da Funai na Terra Indígena Rio Omerê, julho, 2017. Foto da autora.

Os Kanoé foram contatados pela primeira vez quando da passagem da Comissão Rondon pelas margens do rio Pimenta Bueno, em 1914. Alguns anos depois, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) instalou ali o Posto Indígena de Atração (PIA) Pedro de Toledo, atraindo e assentando as populações indígenas que viviam nas proximidades. Em 1947, para dar lugar à construção da futura BR-364, que acompanhou o traçado das trilhas de Rondon, o SPI deslocou esses grupos para o PIA Ricardo Franco, onde está atualmente a Terra Indígena Rio Guaporé, a cerca de 400 km do Posto Pedro de Toledo. Alguns Kanoé, no entanto, escaparam da remoção. Foram, provavelmente, os antepassados dos que hoje vivem na Terra Indígena Rio Omerê.

Quando os militares tomaram o poder em 1964, a Amazônia tornou-se a menina dos olhos do regime, figurando como suposta solução para grande parte dos problemas do país, da seca no Nordeste à concentração fundiária no Sudeste. A retórica dos vazios demográficos passaria então a ser o grande mote da colonização do território. Era a “terra sem homens para homens sem-terra”, como declarou o General Emílio Garrastazu Médici logo após o lançamento do primeiro grande projeto de colonização da Amazônia brasileira, o Programa de Integração Nacional (PIN).

Os vazios, contudo, não passavam de uma falácia que teve um efeito brutal sobre os habitantes locais. O vazio fictício deu carta branca à produção dos vazios reais, mascarando, durante séculos, o livre extermínio das populações indígenas brasileiras. Em Rondônia, a colonização dos “vazios demográficos” ficou em grande parte a cargo do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), responsável por executar a Operação Rondônia, projeto de ocupação acelerada do território, cujos dois principais instrumentos eram a consolidação da rodovia BR-364 e a distribuição de terra com projetos de colonização. A BR-364 foi um divisor de águas na formação de Rondônia. Cortando o estado diagonalmente, era uma das únicas vias terrestres de acesso ao território. Foi inaugurada ainda no governo de Juscelino Kubitschek, mas sua pavimentação se deu apenas no início da década de 1980 com recursos do Banco Mundial para o Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil (Polonoroeste).

Foto na revista “Informe do Poloroeste”, divulgada em Rondônia e Mato Grosso na década de 1980.

Paralelamente à consolidação da rodovia, a expansão da fronteira oeste também se dava com o assentamento de colonos. Mas a intensa propaganda, tanto oficial quanto informal, ocasionou um fluxo populacional tão grande que fugiu muito do controle do Incra. Milhares de famílias de pequenos agricultores migraram para o estado com a promessa da terra boa e farta, para afinal, ao chegar, descobrirem que, realmente, não havia terra para todos. Como agravante, a partir de 1975, houve uma mudança na estratégia de distribuição fundiária da autarquia, com a licitação de grandes glebas e o favorecimento da apropriação da terra por grandes proprietários. O território foi então dividido em quatro grandes partes. O filé desse banquete era a Gleba Corumbiara.

A região dos rios Tanaru, Pimenta Bueno e Corumbiara já aparecia nos mapas do Ministério da Agricultura no fim dos anos 1970 como a área com maior potencial agrícola do estado. A Gleba Corumbiara, composta por cem lotes de dois mil hectares, foi leiloada a alguns poucos empresários paulistas que, usando familiares como intermediários, conseguiram acumular até doze lotes cada um. Dentre eles estava Antenor Duarte, proprietário da Fazenda São Sebastião, onde os Kanoé do Omerê e os Akuntsú foram localizados em 1995.

Os Akuntsú foram o segundo grupo contatado pela Funai naquele ano. Eram sete pessoas, entre adultos, velhos e crianças, falantes de uma língua da família tupari (tronco Tupi). À semelhança de tantos outros etnônimos na Amazônia, “Akuntsú” não é uma autodenominação. Foram os Kanoé que assim os chamaram, depois que os dois grupos se encontraram pela primeira vez na região do igarapé Omerê, no início da década de 1990. Ambos fugiam do contato com os brancos e vinham de uma trajetória de sucessivos massacres. Os Akuntsú autodenominavam-se Babawro, pica-paus. Seu antigo costume de pintar os cabelos com tinta de urucum e, nas noites de lua nova, dançar até o raiar do dia, tornava-os semelhantes àquela ave. Hoje, os Akuntsú são apenas três mulheres adultas: Aramina, Aiga e Babawro.

Segundo seus próprios relatos, antes do avanço da fronteira agrícola sobre os seus territórios, os Kanoé do Omerê e os Akuntsú sequer sabiam da existência uns dos outros. Viviam em áreas contíguas, mas os limites de uma terminavam onde começavam os da outra, limites que eram respeitados mutuamente. O Estado colonial, no entanto, não compartilhava do mesmo respeito. Conforme as fronteiras da colonização avançavam pelo território Kanoé e Akuntsú, ambos eram empurrados para um dos poucos espaços restantes de floresta na margem do igarapé Omerê. Lá eles se encontraram pela primeira vez. Como falavam línguas muito distintas, inicialmente, a comunicação se dava por trocas materiais. Os Akuntsú conseguiram manter seu roçado e tinham sementes que os Kanoé haviam perdido nas constantes fugas pela mata. Por sua vez, os Kanoé haviam desenvolvido suas técnicas de caça e eram mais habilidosos na obtenção de fontes de proteína. Em pouco tempo, estavam trocando parceiros sexuais e intenções de casamento. A aliança entre eles, que em outros tempos teria sido improvável, tornou-se uma das ferramentas no enfrentamento ao genocídio.

Mas a aliança não foi a única tática. Os Kanoé do Omerê e os Akuntsú relatam diferentes estratégias para sobreviver às perseguições e à invasão de seu território. Fizeram adaptações necessárias em suas formas de vida para resistir à destruição. O aumento da mobilidade foi uma delas. Tanto os Kanoé quanto os Akuntsú citam a variedade de cultivos que tinham em seus roçados e perderam nas constantes fugas. Essa mobilidade forçada, que nada tem a ver com a prática tradicional dos povos da Amazônia, provocou uma mudança em seus hábitos alimentares. Como vimos, os Kanoé do Omerê perderam todos os cultivos, mas desenvolveram habilidosas técnicas de caça, exemplificadas pelos diversos tipos de flechas que ainda hoje fabricam, envolvendo uma sofisticada engenharia adaptada ao biótipo e comportamento de cada animal. Já os Akuntsú conseguiram manter boa parte dos seus cultivos, ironicamente, graças à mobilidade. Mantinham um roçado ao qual retornavam periodicamente sem ali permanecer, pois viviam em constante movimento entre tapiris (abrigos temporários) na floresta.

Bukwá Kanoé mostrando algumas de suas flechas, fevereiro, 2018. Foto da autora.

Hoje, depois de assistir à morte de quase todos os entes queridos, as três mulheres Akuntsú vivem na companhia apenas de seus pássaros e de um filhote de macaco-da-noite. A última vez que estive lá, contei 15 aves de várias espécies, todas mantidas na casinha de ripas hermeticamente fechada para não fugirem. A cerca de 20 metros está da base da Funai. Nas últimas décadas, a criação e o cuidado com os pássaros passaram a ocupar boa parte do dia dessas mulheres. Os mais queridos são os maracanãs, ave da família dos papagaios, psittaciformes, que levam nos ombros ou apoiados numa vara para onde quer que forem. Referem-se a eles como u mempit peru, literalmente, “meu filho papagaio”. A importância das aves na vida das mulheres Akuntsú reverbera um mundo devastado pelo genocídio onde as crianças não nasciam mais. Os pássaros são os últimos, os que restaram.

Aramina, a mulher mais velha Akuntsú e seu “filho papagaio”, julho, 2017. Foto da autora.

É irônico que hoje os Kanoé possam caçar os bois selvagens deixados pelos fazendeiros expulsos, já que a criação de gado foi uma das atividades que destruíram o seu povo. Recordo-me de ler, certa vez, numa pichação no centro de São Paulo, a seguinte frase: “Sobreviver nunca foi sobre viver”. Fiquei com a frase na mente como se eu tivesse encontrado, num mergulho no mar, uma mensagem numa garrafa. Pensei nos Kanoé e nas Akuntsú. Sobreviver é ter condições materiais de continuar a existir, é manter-se no limite da existência com o mínimo necessário: saúde, alimento, terra, teto. Viver, no entanto, vai além, é a possibilidade de manifestarmos toda a essência do nosso ser. Para viver, os seres humanos precisam de outros. Somos o emaranhado de sensações e afetos que surge das relações que criamos. No Omerê, aprendi que viver é compartilhar a existência, criar relações e afetos. Aprendi que viver é bem-viver. Os colonizadores tentaram tirar dos Kanoé do Omerê e dos Akuntsú não apenas a possibilidade de sobreviver, mas, sobretudo, o seu sentido de viver. Mataram seus parentes, suas companhias, seus afetos. Não contavam, no entanto, que sobreviveriam e, mais ainda, que criariam novos parentes, novos afetos e novas formas de bem-viver.

Men who were murdered become a form of solitary parrot with blood-red plumage

[entre os Kaluli da Nova Guiné]

Edward Schieffelin, The Sorrow of the Lonely and the Burning of the Dancers


Notas

1 Luciana Keller Tavares é doutoranda em Antropologia Social na Universidade de Brasília, bolsista CAPES e consultora do Ministério dos Povos Indígenas. Desde 2017, desenvolve pesquisa na Terra Indígena Rio Omerê, na região do médio Guaporé, com os Kanoé e Akuntsú.

2 Para diferenciá-los dos grupos Kanoé que habitam outros territórios, adoto Kanoé do Omerê para denominar o grupo contatado pela Funai em 1995, então monolíngue.