“Carnaval Carioca” de Mario de Andrade, por Maurício Hoelz (CAPES/PPGSA/UFRJ)

“Carnaval em Madureira”, de Tarsila do Amaral (Fonte: imagem retirada da internet)

“Carnaval Carioca” (1923), de Mário de Andrade

O Clã do jabuti, publicado em 1927, reúne poemas escritos por Mário de Andrade entre 1923 e 1926. Nesse livro, o traje de losangos do trovador arlequinal que canta as contradições da modernidade e sua vivência de choque numa jovem metrópole na periferia do capitalismo (sua “Pauliceia desvairada”) seria definitivamente substituído, como assinalou João Luiz Lafetá, pela máscara do poeta aplicado, imbuído da missão “trabalhar a matéria brasileira” e repertoriar a diversidade de matrizes da nossa cultura popular. Desconstruindo a oposição entre a civilização do litoral e a barbárie do sertão, os poemas nele recolhidos incorporariam o folclore e as manifestações da cultura popular à prática erudita literária e à própria forma artística.

Clã do jabuti é, assim, peça-chave do programa de abrasileiramento do Brasil do modernista paulista, o qual ganha expressão emblemática na adoção da língua portuguesa falada, adaptada e recriada no cotidiano. Abrasileiramento que, lembremos, não se confunde com nacionalismo; muito pelo contrário, significa “ter espírito religioso para com a vida”, como diz em carta ao jovem Drummond, ou seja, conferir atenção e se relacionar intensamente com toda e qualquer manifestação dela. E é com gente chamada baixa e ignorante que se aprende a sentir, segundo Mário, e não com a inteligência e erudição livresca. É por meio de um gesto de abertura para o outro – tal como aquele deflagrado pelo carnaval – que se pode conferir visibilidade, voz e agência a essa “gente”, sem que tal “empatia” se dilua no suposto fetiche de uma autenticidade popular reificada, em detrimento da percepção das desigualdades sociais. Afinal, “juntos formamos este assombro de misérias e grandezas, /Brasil”, diz a voz lírica ao final de “Noturno de Belo Horizonte”.

Em “Carnaval carioca”, escrito em 1923 e incluído no Clã, a cena do poema, registrada pela “máquina cinematográfica do subconsciente” do poeta, se passa na avenida Rio Branco na terça-feira, 13 de fevereiro, como a de hoje, e se estende até um pouco mais das quatro da manhã da quarta-feira de cinzas do carnaval de 1923. O poema é, porém, a transfiguração da experiência dionisíaca que Mário tivera nos 4 dias sob a regência de Momo em que caiu na folia e “perdeu tudo, menos a faculdade de gozar”, como conta a Manuel Bandeira. Nos versos do poema: “Tremi de frio nos meus preconceitos eruditos/ Ante o sangue ardendo do povo chiba frêmito e clangor”. Em carta ao mesmo amigo Bandeira: “Meu cérebro acanhado, brumoso de paulista, por mais que se iluminasse em desvarios, em prodigalidades de sons, luzes, cores, perfumes, pândegas, alegria, que sei lá!, nunca seria capaz de imaginar um Carnaval carioca, antes de vê-lo. Foi o que se deu. Imaginei-o paulistamente.” A fim de captar a “invasão furiosa das sensações” experimentada pelo eu lírico, Mário recorreria a ideias já estabelecidas em suas poéticas iniciais, inspiradas na simultaneidade sonora da composição musical, tais como a de “polifonia poética” e “simultaneísmo” e também ao verso harmônico, em que as “palavras em liberdade”, ao quebrarem a sequência gramatical linear do discurso, ressoariam entre si, produzindo um efeito de superposição e sinestesia.

Nesse poema, acompanhamos a transformação do paulista frio, erudito e preconceituoso, além de carregado de “policiamentos interiores” e “temores de exceção”, primeiro em poeta – pela perda de si mesmo – e depois em “carnavalesco puro”, dançarino brasileiro, que se dissolve como vivente anônimo e descentrado no calor libertador do povo. A partir da festa popular, o eu lírico coloca o Rio de Janeiro, “aquário multicor” cosmopolita e poroso, em relação com outros tempos e espaços, “desgeograficando-o” e figurando-o como “a mais pujante civilização do Brasil”. A voz que canta a mistura de cores e tipos não silencia, no entanto, sobre o caráter ambíguo, porque excludente, dessa mesma sociedade: “Eu enxerguei com estes meus olhos que inda a Terra há-de comer/ Anteontem as duas mulheres se fantasiando de lágrimas/ A mais nova amamentava o esqueletinho./ Quatro barrigudinhos sem infância, / Os trastes sem aconchego/ No lar-de-todos da rua…”).

A religião do Carnaval carioca, ao colocar em suspensão as normas e as identidades, o tempo e o espaço, propicia o gozo imanente do “heroísmo do prazer sem máscaras supremo natural”, excepcional e excessivo, e nela o intelectual descobre a felicidade. Ao fim do transe ritual dessa festa profana, o “eu” renascerá, das cinzas, profundamente modificado.

Indicações de leitura:

Pucheu, Alberto & Guerreiro, Eduardo (org.). O carnaval carioca de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

Rodrigues, Leandro Garcia. Carnaval carioca – a complexa biografia de um poema. Disponível em <http://centrodomvital.com.br/carnaval-carioca-a-complexa-biografia-de-um-poema/&gt;.

Souza, Cristiane Rodrigues de. Festa profana. In: Clã do Jabuti: uma partitura de palavras. São Paulo: Annablume, 2006.

Maurício Hoelz é pós-doutorando PNPD/Capes pelo PPGSA/UFRJ, pesquisador do NEPS (UFF-UFRJ) e Editor Executivo de Sociologia & Antropologia.

 

Carnaval Carioca (1923)
a Manuel Bandeira

A fornalha estrala em mascarados cheiros silvos
Bulhas de cor bruta aos trambolhões
Setins sedas cassas fundidas no riso febril…
Brasil!
Rio de Janeiro!
Queimadas de verão!
E ao longe, do tição do Corcovado a fumarada das nuvens pelo céu.

Carnaval…
Minha frieza de paulista
Policiamentos interiores,
Temores da exceção…
E o excesso goitacá pardo selvagem!
Cafrarias desabaladas
Ruínas de linhas puras
Um negro dois brancos três mulatos, despudores…
O animal desembesta aos botes pinotes desengonços
No heroísmo do prazer sem máscaras supremo natural.

Tremi de frio nos meus preconceitos eruditos
Ante o sangue ardendo do povo chiba frêmito e clangor
Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular…
Ris? Todos riem…

O indivíduo é caixeiro de armarinho na Gamboa.
Cama de ferro curta por demais,
Espelho mentiroso de mascate
E no cabide roupas lustrosas demais…
Dança uma joça repinicada
De gestos pinchando ridículos no ar.
Corpo gordo que nem matrona
Rebolando embolado nas saias baianas,
Braço de fora, pelanca pulando no espaço
E no decote cabeludo cascavéis sacoteando
Desritmando a forçura dos músculos viris.
Fantasiou-se de baiana,
A Baía é boa terra…
Está feliz.

Entoa atoa a toada safada
E no escuro da boca banguela
O halo dos beiços de carmim.
Vibrações em redor.
Pinhos gargalhadas assobios
Mulatos remeleixos e buduns.
Palmas. Pandeiros – Aí, baiana!
Baiana do coração!
Serpentinas que saltam dos autos em monóculos curiosos,
Este cachorro espavorido
Guarda-civil indiferente,
Fiscalizemos as piruetas…
Então só eu que vi?
Risos. Tudo aplaude. Tudo canta:
– Aí, baiana faceira,
Baiana do coração!
Ele tinha os beiços sonoros beijando se rindo
Uma ruga esquecida uma ruga longínqua
Como esgar duma angústia indistinta ignorante…
Só eu pude gozá-la.
E talvez a cama de ferro curta por demais…

Carnaval…
A baiana se foi na religião do Carnaval
Como quem cumpre uma promessa.
Todos cumprem suas promessas de gozar.
Explodem roncos roucos trilos tchique-tchiques
E o falsete enguia esguia rebejando pelo aquário multicor
Cordões de machos mulherizados,
Ingleses evadidos de pruderie,
Argentinos mascarando a admiração com desdéns superiores

Desgringolando em lenga-lenga de milonga,
Polacas de indiscutível índole nagô,
Yankees fantasiados de norteamericanos…
Coiozada emproada se aturdindo turtuveando
Entre os carnavalescos de verdade
Que pererecam pararacas em derengues meneios cantigas,
[chinfrim de gozar!

Tem outra raça ainda.
O mocinho vai fuçando o manacá naturalizado espanhola.
Ela se deixa bolinar na multidão compacta.
Por engano.
Quando aproximam dos policiais
Como ela é pura conversando com as amigas!
Pobre do solitário com chapéu caicai nos olhos!
Naturalmente é um poeta…

Eu mesmo… Eu mesmo, Carnaval…
Eu te levava uns olhos novos
Para serem lapidados em mil sensações bonitas,
Meus lábios murmurejando de comoção assustada
Haviam de ter puríssimo destino…
É que sou poeta
E na banalidade larga dos meus cantos
Fundir-se-ão de mãos dadas alegrias e tristuras, bens e males,
Todas as coisas fnitas
Em rondas aladas sobrenaturais.

Ânsia heróica dos meus sentidos
Pra acordar o segredo de seres e coisas.
Eu colho nos dedos as rédeas que param o infrene das vidas,
Sou o compasso que une todos os compassos
E com a magia dos meus versos
Criando ambientes longínquos e piedosos
Transporto em realidades superiores
A mesquinhez da realidade.
Eu bailo em poemas, multicolorido!
Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha!
Sou dançarino brasileiro!
Sou dançarino e danço! E nos meus passos conscientes
Glorifico a verdade das coisas existentes
Fixando os ecos e as miragens.
Sou um tupi tangendo um alaúde
E a trágica mixórdia dos fenômenos terrestres
Eu celestizo em euritmias soberanas,
Ôh encantamento da Poesia imortal!…

Onde que andou minha missão de poeta, Carnaval?
Puxou-me a ventania,
Segundo círculo do Inferno,
Rajadas de confetes
Hálitos diabólicos perfumes
Fazendo relar pelo corpo da gente
Semíramis Marília Helena Cleópatra e Francesca.
Milhares de Julietas!
Domitilas fantasiadas de cow-girls,
Isoldas de pijamas bem franceses,
Alsacianas portuguesas holandesas…
Geografa!
Êh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar!
Levou a breca o destino do poeta,
Barreei meus lábios com o carmim doce dos dela…
Teu amor provinha de desejos irritados,
Irritados como os morros do nascente nas primeiras horas da manhã
Teu beijo era como o grito da araponga.
Me alumeava atordoava com o golpe estridente viril.
Teu abraço era como a noite dormida na rede
Que traz o dia de membros moles mornos de torpor.
Te possuindo, eu me alimentei com o mel dos guapurus,
Mel ácido, mel que não sacia,
Mel que dá sede quando as fontes estão muitas léguas além,
Quando a soalheira é mais desoladora
E o corpo mais exausto.

Carnaval…
Porém nunca tive intenção de escrever sobre ti…
Morreu o poeta e um gramofone escravo
Arranhou discos de sensações…

I
Em baixo do Hotel Avenida em 1923
Na mais pujante civilização do Brasil
Os negros sambando em cadência.
Tão sublime, tão áfrica!
A mais moça bulcão polido ondulações lentas lentamente
Com as arrecadas chispando raios glaucos ouro na luz peluda de pó.
Só as ancas ventre dissolvendo-se em vaivens de ondas em cio.
Termina se benzendo religiosa talqualmente num ritual.

E o bombo gargalhante de tostões.
Sincopa a graça da danada.

II

Na capota franjada com xale chinês
Amor curumim abre as asas de ruim papelão.
Amor abandonou as setas sem prestígio
E se agarra na cinta fecunda da mãe.
Vênus Vitoriosa emerge de ondas crespas serpentinas,
De ondas encapeladas por mexicanos e marqueses cavalgando auto perseguidores.
– Quero ir para casa, mamãe!

Amor com medo dos desejos…

III
O casal jovem rompendo a multidão.
O bando de mascarados de supetão em bofetadas de confetes na mulher.
– Olhe só a boquinha dela!
– Ria um pouco, beleza!
– Come do meu!
O marido esperou (com paciência) que a esposa se desvencilhasse do bando de máscaras
E lá foram rompendo a multidão.
Ela apertava femininamente contra o seio o braço protetor
do Esposo.
Do esposo recebido ante a imponência catedrática da Lei
E as bênçãos invisíveis – extraviadas? – do Senhor…

Meu Deus…
Onde que jazem suas atrações?
Pra que lados de fora da Terra
Fugiu a paz das naves religiosas
E a calma boa de rezar ao pé da cruz?
Reboa o batuque.
São priscos risadas
São almas farristas
Aos pinchos e guinchos
Cambateando na noite estival.
Pierrots-fêmeas em calções mais estreitos que as pernas,
Gambiarras iluminadas!
Oblatas de confetes no ar,
Incenso e mirra marca Rodo nacional
Açulam raivas de gozar.

O cabra enverga fraque de cetim verde no esqueleto.
Magro magro asceta de longos jejuns difcílimos.
Jantou gafanhotos.
E gesticula fala canta.
Prédicas de meu Senhor…
Será que vai enumerar teus pecados e anátemas justos?
A boca dele vai florir de bênçãos e perdões…
Porém de que lados de fora da Terra
Falam agora as tuas prédicas?
Quedê teus padres?
Quedê teus acerbispos purpurinos?
Quedele o tempo em que Felipe Neri
Sem fraque de cetim verde no esqueleto
Agarrava a contar as parábolas lindas
De que os padres não se lembram mais?
Por onde pregam os Sumés de meu Senhor?
Aqueles a quem deixaste a tua Escola
Fingem ignorar que gostamos de parábolas lindas,
E todos nos pusemos sapateando histórias de pecado
Porque não tinha mais histórias pra escutar…

Senhor! Deus bom, Deus grande sobre a terra e sobre o mar.
Grande sobre a alegria e o esquecimento humano.
Vem de novo em nosso rancho, Senhor!
Tu que inventaste as asas alvinhas dos anjos
E a fgura batuta de Satanás;
Tu, tão humilde e imaginoso
Que permitiste Isis guampuda nos templos do Nilo,
Que indicaste a bandeira triunfal de Dionísio pros gregos
E empinaste Tupã sobre os Andes da América…

Aleluia!
Louvemos o Criador com os sons dos saxofones arrastados,
Louvemo-Lo com os salpicos dos xilofones nítidos!
Louvemos o Senhor com os riscos dos recorrecos e os estouros
[do tantã,
Louvemo-Lo com a instrumentarada crespa do jazz-band!
Louvemo-Lo com os violões de cordas de tripa e as cordeonas
[imigrantes,
Louvemo-Lo com as flautas dos choros mulatos e os
[cavaquinhos de serestas ambulantes!
Louvemos O que permanece através das festanças virtuosas e dos gozos
ilegítimos!
Louvemo-Lo sempre e sobre tudo! Louvemo-Lo com todos os
[instrumentos e todos os ritmos!…

Vem de novo em nosso rancho, Senhor!
Descobrirei no colo dengoso da Serra do Mar
Um derrame no verde mais claro do vale,
Arrebanharei os cordões do carnaval
E pros carlitos marinheiros gigoletes e arlequins
Tu contarás de novo com tua voz que é ver o leite
Essas histórias passadas cheias de bons samaritanos,
Dessas histórias cotubas em que Madalena atapetava com os
[cabelos o teu chão…

…pacapacapacapão!… pacapão! pão! pão!…

Pão e circo!
Roma imperial se escarrapacha no anfteatro da Avenida.
Os bandos passam coloridos,
Gesticulam virgens,
Semivirgens,
Virgens em todas as frações
Num desespero de gozar.

Homens soltos
Mulheres soltas
Mais duas virgens fuxicando o almofadinha
Maridos camaradas
Mães urbanas
Meninos
Meninas
Meninos
O de dois anos dormindo no colo da mãe…
– Não me aperte!
– Desculpe, madama!
Falsetes em desarmonia
Coros luzes serpentinas serpentinas
Matusalém cirandas Breughel
– Diacho!
Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas…
E a multidão compacta se aglomera aglutina mastiga em
[aproveitamento brincadeiras asfxias desejadas delírios
[sardinhas desmaios
Serpentias serpentinas coros luzes sons
E sons!

YAYÁ, FRUTA-DO-CONDE
CASTANHA-DO-PARÁ!…

Yayá, fruta-do-conde,
Castanha-do-Pará!…

O préstito passando.

Bandos de clarins em cavalos fogosos.
Utiaritis aritis assoprando cornetas sagradas.
Fanfarras fanfarrans
fenrerrens
fnfrrins…
Forrobodó de cuia!
Vitória sobre a civilização! Que civilização?… É Baco

É Baco num carro feito de ouro e de mulheres
E dez perelhas de bestas imorais,
Tudo aplaude guinchos berros,
E sobre o Etna de loucuras e pólvoras
Os Tenentes do Diabo.
Alegorias, críticas, paródias
Palácios bestas do fundo do mar
Os aluguéis se elevam…
Os senhorios exigentes…
Cães infames! malditos!…

… Eu enxerguei com estes meus olhos que inda a Terra
há de comer
Anteontem as duas mulheres se fantasiando de lágrimas
A mais nova amamentava o esqueletinho.
Quatro barrigudinhos sem infância,
Os trastes sem aconchego
No lar-de-todos da rua…
O Solzão ajudava a apoteose
Com o despejo das cores e calores…
Segue o préstimo numa via-láctea de esplendores.
Presa num palanquim de ônix e pórfro…
Ôta, morena boa!
Os olhos dela têm o verde das florestas,
Todo um Brasil de escravos banzo sensualismos,
Índios nus balanceando na terra das tabas,
Cauim curare cachiri
Cajás… Ariticuns… Pele de Sol!
Minha vontade por você serpentinando…

O préstito se vai.

Os blocos se amontoam me afastando de você…
Passa a Flor do Abacate,
Passa o Miséria e Fome, o Ameno Rosedá…
O préstito se vai…
Você também se foi rindo pros outros,
Senhora dona ingrata
Coberta de ouro e prata…

Esfuzios de risos…
Arrancos de metais…
O schlschlsch monótono das serpentinas…

Monótono das serpentinas…

E a surpresa do fim: Fadiga de gozar.

Claros em torno da gente.
Bolas de fitas de papel rolando pelo chão.
Manchas de asfalto.
Os corpos adquirem de novo as sombras deles.
Tem lugares no bar.
As árvores pousam de novo no chão graciosas ordenadas,
Os palácios começam de novo subindo no céu…

Quatro horas da manhã.
Nos clubes nas cavernas
Inda se ondula vagamente no maxixe.
Os corpos se unem mais.
Tem cinzas na escureza indecisa da arraiada.
Já é quarta-feira no Passeio Público.
Numa sanha final
Os varredores carnavalizam as brisas da manhã
Com poeiras perfumadas e cromáticas.
Peri triste sentou na beira da calçada.
O carro-chefe dos Democráticos
Sem a falação do estandarte
Sem vida, sem mulheres
Senil buscando o barracão.
Democraticamente…
Aurora… Tchim! Um farfalhar de plumas áureas no ar.
E as montanhas que nem tribos de guaianás em rapinas
[de luz.

Com seus cocares de penas de tucano.

O poeta se debruça no parapeito de granito.
A rodelinha de confeti cai do chapéu dele,
Vai saracotear ainda no samba mole das ondas.

Então o poeta vai deitar.

Lentamente se acalma no país das lembranças
A invasão furiosa das sensações.
O poeta sente-se mais seu.
E puro pelo contato de si mesmo
Descansa o rosto sobre a mão que escreverá.

Lhe embala o sono
A barulhada matinal de Guanabara…
Sinos buzinas clácsons campainhas
Apitos de oficinas
Motores bondes pregões no ar,
Carroças da rua, transatlânticos no mar…
É a cantiga-de-berço.
E o poeta dorme.

O poeta dorme sem necessidade de sonhar.

2 comentários em ““Carnaval Carioca” de Mario de Andrade, por Maurício Hoelz (CAPES/PPGSA/UFRJ)

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  1. Excelente introdução ao poema, Maurício. A felicidade da publicação ficou maior ainda pela coincidência das datas. Obrigada.

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