BVPS convida | Lançamento da coletânea “Cultura e sociedade na América Latina”

O Blog da BVPS convida para o lançamento da coletânea Cultura e sociedade na América Latina: ensaios de história intelectual, organizada por Alice Ewbank, Cairo Barbosa e Pedro Demenech. O lançamento ocorrerá nessa quarta-feira, 13/07, às 18h, no IFCS/UFRJ, e contará com a presença de Alice Ewbank (UFRJ), André Botelho (UFRJ) e Maria Elisa Noronha de Sá (PUC-Rio).

Abaixo, confira o prefácio do livro assinado por André Botelho.

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Boa leitura!


América Latina em movimento

André Pereira Botelho (PPGSA/UFRJ)

13 jovens pesquisadoras e pesquisadores dos mais talentosos de suas gerações nos convidam a conhecer e a rever autores, temas e problemas clássicos do pensamento social brasileiro, da história intelectual e da crítica cultural latino-americana no presente. O convite, em si mesmo, é extremamente atraente e relevante.

Em suas páginas somos levados a repensar questões sobre Richard Morse e seu clássico O espelho de Próspero; o intercâmbio epistolar de Gabriela Mistral e Victoria Ocampo; as relações entre cineastas e folcloristas na Argentina do fim dos anos 1960; o tema das utopias na obra do ensaísta porto-riquenho Arcadio Diaz-Quiñones; o motivo arielista na obra de Sergio Buarque de Holanda; temas da cultura feminina e da diferença na ensaística de Gilda de Mello e Souza; a reflexão de Antonio Candido sobre forma literária e cultura latino-americana; a revisão da emblemática trajetória intelectual do uruguaio Ángel Rama; a participação de Fernando Henrique Cardoso no debate sobre a dependência; a comparação entre o ensaísmo acadêmico de Roberto Schwarz e Beatriz Sarlo e suas formulações sobre a chamada “condição periférica”; tempo, identidade e história na obra do ensaísta mexicano Octavio Paz; o projeto editorial da Biblioteca Ayacucho que, sob a liderança de Rama, buscou construir uma espécie de arquivo não apenas do passado e do presente, mas também de futuro da América Latina; e, por fim, a cosmopolítica do entre-lugar latino-americano como crítica às ideias de origem e pureza no ensaísmo de Silviano Santiago.

A favor dos/das jovens autores e autoras e do projeto editorial a que deram vida é preciso pesar o melhor possível o verbo “repensar” sobre a provação que nos fazem. Por certo, o fato de serem jovens, quer dizer, de estarem terminando sua formação pós-graduada ou de a terem concluído mais recentemente desperta o interesse. O mesmo por tratar-se de uma rede mais ou menos informal, ainda que passe também por pertencimentos e relacionamentos institucionais. E como estão ligados, sobretudo, a instituições brasileiras, sugere que a América Latina está presente na curiosidade intelectual de uma nova geração entre nós – o que é muito importante. Isso se reforça no fato de alguns destes jovens terem experiências acadêmicas também em instituições de outros países latino-americanos, como a Argentina, mas também nos Estado Unidos, onde muito frequentemente brasileiros nos descobrimos latino-americanos. Chama a atenção ainda a abordagem interdisciplinar – inclusive considerando-se as áreas de formação das autoras e dos autores, história, ciências sociais, letras.

Sabemos, porém, que não basta ser jovem para ser inovador. Sabemos também que mesmo um tema pouco frequentado em si mesmo não é garantia de contribuição efetiva a uma área de estudos. Conversas entre especialistas e disciplinas distintas também podem ser meramente protocolares. O ativismo intelectual pode se contrapor, mas também reforçar os cânones hegemônicos. Por fim, mas não menos importante, voltar à América Latina como uma espécie de critério para enfeixar os diversos capítulos pode e certamente tem muitos e diferentes significados.

Estou ciente dessas e outras questões quando afirmo que o livro concebido e executado por jovens autoras e autores é uma provocação consistente e relevante sobre temas, autores e problemas clássicos do pensamento social brasileiro, da história intelectual e da crítica cultural latino-americana. Deixe-me trazer um ponto geral principal sobre uma espécie de transição que o livro me parece realizar. Uso a palavra transição menos para enfatizar a passagem de um lugar/estado a outro como um processo consumado, e mais para realçar diferentes trânsitos realizados no livro. Embora, claro, seus resultados estejam associados de diferentes formas a processos intelectuais mais amplos em curso nas últimas décadas, é fundamental acentuar o protagonismo de seus/suas jovens autores/as que, no presente, estão propondo uma visão de conjunto numa unidade nova que agora os diferentes capítulos reunidos no livro formam.

Na “sinopse” que recebi junto ao “copião” do livro (classificações nativas, por assim dizer) lê-se:

O projeto Cultura e sociedade na América Latina: ensaios de história intelectual surgiu do objetivo de reunir trabalhos de jovens pesquisadoras e pesquisadores que mais recentemente têm analisado os produtos intelectuais não como simples “engenhos mentais” ou como reflexos da realidade material circundante, mas como um entrelaçamento entre diversas instâncias sociais, políticas, culturais e econômicas no espaço e no tempo da América Latina.

Na esteira das novas dimensões da história intelectual, propõe-se explorar análises e articulações possíveis entre as múltiplas temporalidades e espacialidades que formam a historicidade dos diversos contextos que inspiram e envolvem os intelectuais e suas ideias. (BARBOSA ; DEMENECH; EWBANK, 2020, s/p).

De fato, percebem-se, no plano teórico-metodológico, uma diversidade de abordagens e, o que me parece mais interessante, a combinação de diferentes estratégias analíticas para compor essas abordagens nos diferentes capítulos. Problemas levantados desde a chamada “estética da recepção” de H. R. Jauss às chamadas “práticas de leitura” de Roger Chartier, passando ainda pela chamada história do livro de Robert Darnton, por exemplo, inspiram as abordagens em combinações, recriações e suplementações variadas. Em conjunto, por mais diferentes que sejam, mostram que a polarização entre texto e contexto que até décadas recentes organizava quase inteiramente o campo de estudos está mais do que problematizada.

No lugar do “ou” texto “ou” contexto, o “e” conforma as estratégias explicativas combinatórias entre a análise interna de textos e outros produtos culturais e a reconstrução de contextos. A própria relação de externalidade entre texto e contexto é problematizada. Nesse sentido, o livro leva a frente os esforços de uma geração anterior em “superar” aqueles marcos, então dominantes, do debate sobre ideias e intelectuais. Verdade que novas tendências se percebem em meio a esse movimento contra a disjuntiva texto ou contexto – movimento que os jovens autores e autoras já não precisam mais refazer, porém. Entre elas, notadamente, parecem maiores os interesses pela vida intelectual cotidiana e pelas variáveis de “gênero” e “geografia” nas análises, embora persistam interesses por instituições e pelo conhecimento acadêmico institucional.

Igualmente, o interesse pela política se faz presente, mas de modo, digamos, diversificado. Verdade que num livro dedicado à América Latina o problema da geopolítica internacional mostra-se incontornável. Mas também acompanhando movimentos mais amplos, percebem-se descolamentos nas conexões entre ideias, intelectuais e o Estado-nação, e aquilo que, em seu âmbito, não era percebido ou problematizado como “político” se torna cada vez mais “político” – as relações de gênero, por exemplo.

Também se percebe um interesse renovado pela ideia de trajetória intelectual, em que o microcosmo da conduta da vida pessoal parece cada vez mais estreitamente inter-relacionado com o macrocosmo dos problemas políticos. Talvez, por isso, contrariando o assentado em décadas recentes, o papel da sociologia do conhecimento de Pierre Bourdieu não seja nada proeminente nos capítulos e no livro que formam. De fato, se a noção de “campo” permite caracterizar a dinâmica de relações internas ao campo e entre os diferentes grupos de agentes que detêm posições e objetivos próprios nele, ela não parece favorecer a compreensão da difusão e rotinização na sociedade dos valores produzidos para além das fronteiras do campo especializado considerado. E talvez também das possibilidades oferecidas para interação social e a multiplicação das interdependências dos diferentes “campos” na sociedade como um todo.

O livro realiza, a seu modo, um movimento de pluralização de perspectivas e métodos que têm tornado a compreensão dos textos e de outros produtos culturais cada vez mais matizadas e mesmo sofisticadas. E também do próprio contexto, que deixa de ser visto como uma instância de homogeneização. Lembra-nos, assim, que se as ideias são um campo de forças complexo, também existem várias maneiras de se participar de um mesmo “contexto” histórico, social, político e mesmo cultural. Assim, a própria ideia de América Latina ressurge, nessa nova geração, revigorada. Não é um dado da realidade, geográfico ou mesmo geopolítico. É um problema. Na verdade, um campo problemático, vasto, complexo, labiríntico. Ela aparece prismática nos e a partir dos diferentes capítulos. Uma jovem geração reabre o código simbólico América Latina, e sela num belíssimo projeto editorial o seu compromisso com a reflexão crítica sobre as culturas latino-americanas. E é fascinante, especialmente para o leitor/a brasileiro/a, o convite que jovens cientistas sociais, críticos e historiadores nos fazem: pensar com coragem e criatividade, em seus afastamentos e em suas proximidades, as múltiplas presenças na e da América Latina. América Latina em movimento.

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