Lançamento | Trabalho e mudança social, de José Ricardo Ramalho e Rodrigo Salles Pereira dos Santos (orgs.)

O Blog da BVPS convida para o lançamento online da coletânea Trabalho e mudança social: Efeitos da Indústria Automotiva no Rio de Janeiro, organizada por José Ricardo Ramalho e Rodrigo Salles Pereira dos Santos.

O lançamento será transmitido ao vivo pelo YouTube no dia 29 de agosto de 2022, às 17h. Para acessar o canal e receber uma notificação no dia da transmissão, clique aqui.

Nesse dia, os organizadores receberão Leda Gitahy (UNICAMP), Adalberto Cardoso (UERJ), Iram Jácome Rodrigues (USP), e Roberto Véras de Oliveira (UFPB) para um debate aberto ao público.

A coletânea está disponível gratuitamente em formato PDF no site da editora. Para baixá-la, clique aqui. Abaixo, a arte do evento e um release enviado pelos organizadores.

A coletânea Trabalho e mudança social: efeitos da indústria automotiva no Rio de Janeiro foi organizada com o propósito de discutir sociologicamente um processo de mudança social na região sul do estado do Rio de Janeiro. Esse processo tem início com a implantação de uma unidade de fabricação de caminhões e ônibus do grupo Volkswagen no município de Resende em 1996. Vista como uma “expressão avançada” da implementação de novos modelos de produção no contexto da reestruturação produtiva que avançava no Brasil, como discutimos no capítulo que abre o livro, essa fábrica representou, em realidade, o epicentro de uma transformação das relações de trabalho e sociais mais amplas nesse território, assim como o impulso que daria origem a uma agenda de pesquisa ambiciosa que já atingiu 25 anos.

Ao longo desse período, investimentos econômicos realizados por empresas transnacionais do setor automotivo, entre montadoras e grandes fornecedoras, adensaram e complexificaram o parque industrial da região e suas relações com os habitantes. Entre os diversos efeitos desse polo automotivo que hoje é um dos mais importantes do Brasil, se destacam as alterações no perfil do trabalho e do trabalhador, nas formas de representação de classe, e também nas relações sociopolíticas constituídas em seu entorno, de modo que agentes e grupos de interesse diversificados buscaram ativamente ampliar e territorializar os eventuais e almejados benefícios socioeconômicos do novo cenário industrial.

Dessa forma, o conjunto de artigos que compõe a coletânea reflete um trabalho de pesquisa que se confunde com a própria existência do polo e suas transformações, o que permite ao leitor distinguir as diferentes ênfases teóricas, empíricas e metodológicas aplicadas em função do movimento e das estratégias das empresas automobilísticas, da atuação dos trabalhadores metalúrgicos e da dinâmica econômica, política e social regional. Acompanhamos, assim, um bem-sucedido esforço coletivo de pesquisadoras e pesquisadores, em sua maioria vinculados ao núcleo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de reajustar continuamente o foco de análise e atualizar o debate sobre temas e aspectos transformadores daquela realidade regional.

Buscando equilibrar a apreciação dessa longa trajetória e a apresentação dos resultados do mais recente survey sobre o perfil dos trabalhadores e suas condições e relações de trabalho nessa indústria, a coletânea é dividida em cinco partes que se relacionam a diferentes momentos e temas dessa investigação incessante, que atravessou várias conjunturas nacionais e internacionais, e que se movimentou no sentido de produzir um conhecimento estreitamente vinculado ao debate intelectual que se desenvolveu nas ciências sociais.

Assim, a parte 1, como já indicado, se dedica a apresentar alguns dos debates-chave que dão início à pesquisa sobre o trabalho e a indústria automotiva no Rio de Janeiro nos anos 1990 e 2000. É aberta com um texto inédito de balanço das transformações nessa agenda de pesquisa ao longo de quase três décadas, recuperando o movimento de mudança de escala analítica que se inicia na fábrica, passa pelo território e chega às redes de produção automotivas. Essa seção traz então dois textos que explicitam algumas preocupações originais da investigação, focalizando tanto a organização dos trabalhadores metalúrgicos nesse novo contexto fabril (cap. 2) como a atuação do sindicato regional frente às mudanças no perfil do operariado (cap. 3).

A parte 2 dá  ênfase na diversificação dos interesses e temas de investigação, entre os anos 2000 e 2010, que passariam a incluir a questão do desenvolvimento regional e o papel das redes sociopolíticas na mudança social (capítulos 4, 5 e 6), assim como a discutir as iniciativas regionais de construção de um novo arranjo produtivo em função da presença das grandes empresas automotivas (cap. 7).

A parte 3, dedicada às montadoras, reproduz textos voltados para compreender as estratégias de algumas das principais corporações do setor automotivo, instaladas em diferentes períodos, demarcando fases distintas de investimento. Às primeiras empresas, Volkswagen (cap. 8) e Stellantis (cap. 9), se somam montadoras mais recentes, Nissan (cap. 10) e Jaguar Land Rover (cap. 11), cujas atividades são discutidas a partir da opção locacional pelo sul do estado do Rio de Janeiro, por seus formatos organizacionais e consequências, assim como pelas estratégias corporativas mais amplas, em grande medida, afetadas pela financeirização. Nesses trabalhos, o foco na firma revela aspectos comuns, mas explicita também suas formas de integração e impactos diferenciados para os trabalhadores e a organização sindical, bem como para a região como um todo.

A parte 4 introduz um amplo conjunto de textos inéditos, baseados na análise dos dados de um survey metodologicamente inovador realizado com 408 trabalhadores durante a pandemia de Covid-19. Essa seção tematiza assim o novo perfil do metalúrgico da indústria automotiva do Rio de Janeiro, começando pela apresentação e discussão geral dos resultados desse levantamento, que apontam importantes distinções quanto ao tipo de empregado recrutado em comparação com o quadro observado em surveys anteriores, de 2001 e 2009 (cap. 12). Aparecem nos textos diferenças no que diz respeito à qualificação do trabalho e aos novos padrões de formação profissional (cap.13); às suas condições de moradia e aos impactos do setor na transformação urbana regional (cap. 14); assim como às desigualdades de gênero e raça que caracterizam esse contingente operário (cap. 15). Essas diferenças permitem aprofundar a compreensão das ligações entre trabalho, escolaridade, habitação e desigualdade.

Por fim, a parte 5 se dedica a discutir as relações de trabalho, também a partir de textos inéditos que desdobram a interpretação dos dados do survey de 2020-2021. Nessa seção, as condições de trabalho no polo automotivo são tratadas a partir da percepção dos próprios trabalhadores e de dados secundários sobre negociação coletiva (cap. 16), as relações de trabalho são compreendidas a partir do enfoque da teoria do processo de trabalho (cap. 17), enquanto a dinâmica ocupacional do setor é discutida de maneira inovadora (cap. 18). A seção traz ainda um balanço da ação sindical na indústria automotiva sul fluminense (cap. 19), e se encerra com uma apreciação da transformação das condições e relações de trabalho nas firmas no contexto da Covid-19 (cap. 20).

Os textos das seções 4 e 5, portanto, atualizam, de maneira combinada, algumas das questões centrais dessa agenda de pesquisa, isto é, as transformações trazidas pela indústria automotiva para as relações de trabalho, para o emprego e para a ação sindical no sul do estado do Rio de Janeiro, refletindo ainda as dinâmicas coletiva e dialógica que vêm caracterizando a investigação desde o seu início.

Estamos seguros de que a leitura desse livro traz uma contribuição relevante para as ciências sociais brasileiras, ao socializar a trajetória, os avanços e as dificuldades de um improvável processo de pesquisa que permaneceu ativo por muitos anos e que continua a viabilizar uma sólida formação acadêmica, assim como a influenciar o debate sobre a mudança social, em especial com relação ao trabalho, destacando os efeitos políticos e sociais das transformações econômicas concentradas territorialmente.

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