Simpósio BVPS | Essa tal classe média (VI)

No sexto post do simpósio sobre classes médias no Brasil temos como convidadas/os Elísio Estanque (UFBA), Enio Passiani (UFRGS), Leonardo Silveira (UERJ) e Lygia Hryniewich (Interagency Institute).

Organizado por Celi Scalon (UFRJ), André Botelho (UFRJ) e João Mello (PPGSA e NEPS/UFRJ), o simpósio ouviu especialistas de diferentes áreas das ciências sociais, humanas e literaturas, bem como de várias especialidades dessas áreas, sobre a relevância e a atualidade do tema. O diálogo multidisciplinar entre especialistas e não especialistas em classes médias tem o objetivo de promover trocas teóricas, históricas e empíricas e também investigar a possível multidimensionalidade e transversalidade do tema que discutimos.

Para ler a apresentação escrita pelos coordenadores do simpósio, basta clicar aqui. Veja os posts anteriores clicando em: I, II, III, IV e V. Continue acompanhando o simpósio nas próximas quartas-feiras!

Boa leitura!


Sobre as/os convidadas/os:

Elísio Estanque atualmente é professor visitante da Universidade Federal da Bahia. Autor, entre outros, Ressonâncias e Sociologia Pública – Ensaio sociológico sobre a sociedade portuguesa (2023) e Classe Média e Lutas Sociais: ensaio sobre sociedade e trabalho em Portugal e no Brasil (2015).

Enio Passiani é professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor, entre outros, de Violência e mundialização: políticas, polícias e penas (Org. 2016) e Na trilha do Jeca: Monteiro Lobato e a formação do campo literário no Brasil (2003).

Leonardo Silveira é professor de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Autor dos artigos “Funcionalismo público brasileiro no século XXI: transformações ocupacionais nos diferentes níveis do Poder Executivo entre 2003 e 2018(2021) e “Segregação ocupacional e diferenciais de renda por gênero e raça no Brasil: uma análise de grupos etários” (2021).

Lygia Hryniewicz é pesquisadora do Interagency Institute. Autora, entre outros, de O teletrabalho e as mulheres: percepções da conciliação da vida profissional e familiar (2022) e Youth in Brazil: Concepts, Issues and Socio-Demographic Characteristics (2018).

1. O que a seu ver identifica/define uma pessoa de classe média? Esses elementos mudaram ou se mantiveram ao longo das últimas décadas?

Elísio Estanque: Em primeiro lugar, importa lembrar que a “classe média” é uma categoria sociológica e não um grupo substantivo com identidade própria. Uma pessoa de classe média é alguém que possui um nível médio ou superior de educação e/ou qualificações técnicas; possui uma estabilidade em sua atividade profissional; tem projetos viáveis e investe na melhoria de sua condição e de seus filhos. Isto são consideradas condições objetivas da situação das camadas sociais intermédias, vulgo “classe média”. Do ponto de vista subjetivo ou identitário, em geral essas camadas (que são muito heterogêneas entre si) rejeitam se identificar, mas se demarcam dos segmentos mais pobres e excluídos da sociedade e sonham em subir na vida para se aproximarem das elites privilegiadas. Podemos até distinguir aqui dois campos diferentes dentro da classe média: o daqueles que valorizam sobretudo o conforto material e os sinais distintivos que os fazem acreditar que são diferentes dos “de baixo”; e aqueles que, possuindo igualmente poder econômico, são mais marcados pelo “capital cultural/educacional” (à la Bourdieu). É claro que a estabilidade da dita “classe média” tem vindo a ser fortemente abalada, inclusive onde ela chegou a ganhar mais consistência, como na Europa, devido a uma sucessão de crises e instabilidade social e laboral. Ao mesmo tempo, o papel no Estado Providência é determinante para fixar uma classe média ampla e estável. Quando ele entra em recuo, como aconteceu nas últimas quatro décadas, a classe média se ressente disso e pode entrar em declínio, com risco de proletarização em alguns dos seus segmentos. Não se pode esquecer também que o que no Brasil se chama de “classe média” tende a se confundir com setores elitizados da sociedade, onde grassa o preconceito contra os grupos subalternos, minorias étnicas e raciais, sendo essa uma visão estreita do conceito que se refere apenas aos setores privilegiados de uma “classe média-alta” ou “instalada” e acomodada a um status supostamente distintivo. Essa “classe média instalada” não deve ser confundida com os setores intermédios do funcionalismo público, técnicos subalternos qualificados, professores, educadores etc., que se inserem em uma “classe média subalterna”. Enquanto a primeira olha para a elite pretendendo lá chegar, a segunda olha para baixo e não quer ser confundida com as camadas populares.

Enio Passiani: É difícil definir o que é “a” classe média em função da sua extrema heterogeneidade. Daí o conceito se tornar, frequentemente, vago. Mesmo que consigamos observar e identificar a divisão dessa camada social em “classe média alta”, “classe média média” e “classe média baixa”, ainda seria possível reconhecer, no interior de cada grupo, estratos superiores, médios e inferiores, e assim sucessivamente. Nesse sentido, talvez seja melhor empregarmos a categoria de “estratos médios”, no plural.

A meu ver, um esforço intelectual interessante para entendermos tais estratos médios se encontra em Pierre Bourdieu, que, ao articular Marx e Weber, logra demonstrar que há na estrutura relacional das classes sociais um esforço brutal dos agentes pela distinção, principalmente, mas não exclusivamente, a partir do consumo de bens culturais, tomado num sentido mais amplo, abrangendo, portanto, desde a frequentação aos museus até a moda, gosto arquitetônico, gastronomia, turismo e ao que Edison Bertoncelo chama de “deslocamentos territoriais”. As práticas de consumo, por sua vez, são importantes na constituição de uma espécie de autopercepção de si, uma maneira de identificar-se em relação a outros grupos sociais e deles se distinguir.

Carlos Antônio Costa Ribeiro demonstrou, em vários estudos, que mesmo em períodos econômicos mais promissores, como aconteceu durante uma faixa dos governos lulo-petistas, a ascensão social foi, segundo sua própria expressão, de curta distância. Mas, mesmo quando a ascensão se deu de maneira suave, o consumo cultural como forma de distinção se transformou consideravelmente, mesmo nos estratos médios mais baixos, ensejando mudanças nos estilos de vida e certo esforço para sua manutenção.

Leonardo Silveira: Por critérios objetivos e analíticos, a renda e os estratos ocupacionais são bons preditores de pertencimento às frações da classe média. Rendimentos intermediários permitem que esse grupo tenha acesso a melhores serviços de saúde, educação e lazer, e aproximam as medidas sociológicas de classe média ao entendimento rotineiro do termo. Em termos ocupacionais, há uma compreensão mais clássica do que seriam as profissões de classe média, que demandam ensino superior e garantem a possibilidade de salários consideravelmente superior à média, além de um reconhecimento social (prestígio) correspondente.

Especialmente no Brasil, porém, é muito difícil atribuir uma homogeneidade a essa classe. Dentro dela, temos divisões em termos do que seria uma classe média baixa – que se trataria de uma classe trabalhadora que consegue fornecer possibilidades de ascensão para os filhos; bem como uma classe média alta, em que aquela posição foi mais facilmente transmitida da geração anterior.

Esses elementos, no entanto, certamente variam ao longo do tempo. É possível manter uma rigidez em torno dos critérios objetivos, mas ele não é desvinculado de elementos mais fluidos – como o estilo de vida, que (também) se transforma – e dos sentidos de se pertencer àquele grupo em diferentes períodos e ciclos econômicos e políticos. Além disso, outra possibilidade a ser testada são as variações contextuais (metrópoles, cidades médias e campo) e regionais na compreensão do que seja esse grupo.

Lygia Hryniewicz: Classe média é um termo muito complexo, sempre que me pergunto sobre classe média identifico pelo menos mais duas, a classe média baixa e a classe média alta. Eu adicionaria o salário, mas no Brasil isso é muito relativo, depende da cidade, região que a pessoa está. Quando eu morava em Teresina, se a família acumulasse pelo menos 3 salários já estava muito bem incluída como classe média, mas não alta classe média. Para a alta classe média eu adicionaria a cultura, oportunidades, redes de relações – o que exime mais renda e bens. Nos últimos 20 anos percebi que o custo de vida em uma cidade como Teresina, que fica no Nordeste, mudou. Há um custo de vida mais alto e uma segregação maior entre a antiga classe média e baixa que eu frequentava. A classe média até consegue comprar a casa própria, seu carro, mas tem que comprar nos subúrbios mais distantes. Lá ela pode se fixar como classe média, mas quando se aproxima das áreas centrais vai percebendo que sua classe está longe de ser privilegiada.

2. Como o tema aparece no seu campo de pesquisa e qual a relevância dele para os fenômenos que estuda?

Elísio Estanque: Tanto as temáticas do mercado de emprego/relações de trabalho quanto os fenômenos das desigualdades ou dos movimentos sociais que tenho estudado se ligam diretamente com a questão das classes médias. Por um lado, as temáticas laborais e o modelo europeu de diálogo social se oferecem como dimensões estruturantes das classes médias do velho continente, visto que o chamado “modelo social europeu” se desenvolveu, desde os tempos de Bismarck, sob a égide da doutrina social-democrata e reformista, que abriu caminho ao crescimento das classes médias (assalariadas) como campo decisivo de desenvolvimento de um sistema de “equilíbrio dinâmico” fundado na ideia de progresso e de bem-estar para todos. Sabemos hoje que essa promessa (também alicerçada na filosofia das Luzes), muito embora tenha promovido políticas públicas importantes (educação, saúde, previdência, direitos laborais etc.) e estimulado a mobilidade social ascendente, tem vindo a ser “sucateada” e entrou em recuo desde a entrada na era da globalização neoliberal. Justamente porque nas últimas décadas essa tendência de implosão das classes médias está sendo acentuada em todo o mundo, os novos (contra)movimentos sociais (de tipo Thompsoniano e Polanyiano, diria que estão reagindo aos excessos do mercantilismo e do monetarismo no Ocidente), são amplamente alimentados por setores das classes médias descontentes e ressentidos com os rumos do capitalismo. Como mostrei no meu livro Classe Média e Lutas Sociais (2015), os movimentos de protesto e rebeliões sociais revelam sinais e subjetividades enraizadas na classe média, nos quais as experiências coletivas de mobilização evidenciam traços de individualismo, narcisismo e sentido estético próximos dessas categorias.

Enio Passiani: Como um dos campos de minha atuação acadêmica é o Pensamento Social no Brasil, de um modo ou de outro o tema sempre esteve presente em minha agenda de pesquisa, ora de maneira mais explícita, ora de forma não tão escancarada. Ultimamente, o tema acabou adquirindo centralidade em duas pesquisas que, a princípio, não se relacionam: uma delas é dedicada à análise sociológica da literatura do escritor mineiro Luiz Ruffato, que tematiza, em sua obra, principalmente os estratos “médios médios” e “médios inferiores” da estrutura de classes da sociedade brasileira, preenchendo um vazio temático em nossa história literária já diagnosticado por Silviano Santiago. A sensibilidade estético-sociológica de Ruffato nos apresenta personagens espremidas entre as condições materiais de vida quase sempre precárias, exploradas por relações de trabalho profundamente desiguais, fantasias e ambições destruídos e relações familiares catastróficas; personagens que frequentemente rememoram o passado, conversam consigo mesmas na esperança de tentar encontrar e compreender o momento em que tudo começou a desandar. O passado irrompe no presente a todo momento, ora como tentativa de reviver o momento em que as esperanças em relação ao futuro ainda eram vivas e vibrantes, ora como âncora que arrasta e paralisa o presente no pretérito, ou impedindo-o de avançar ou desacelerando-o cruelmente, a ponto de instalar uma lentidão que imuniza as estruturas sociais brasileiras contra mudanças profundas, radicais.

A segunda pesquisa trata dos sonhos pandêmicos dos estratos médios, principalmente do Brasil meridional: os primeiros resultados demonstram como os pertencimentos de classe, com todas as suas dificuldades ou oportunidades materiais, afetam a subjetividade dos agentes, atingindo, assim, sua imaginação onírica. Os sonhos figuram experiências sociais que dependem e variam conforme as condições materiais dos(as) sonhantes, dando forma e sentido aos pequenos e grandes traumas vividos cotidianamente.

Leonardo Silveira: Considerando meu campo de estudo as fronteiras raciais e as desigualdades socioeconômicas por grupos raciais, o tema da classe média tem interfaces que poderiam, inclusive, ser mais exploradas na sociologia brasileira. Pelo lado das fronteiras raciais, por muito tempo pairou as hipóteses de que o dinheiro embranquece, como se a categoria racial estivesse atrelada ao pertencimento de classe. Considerando que as mobilidades no Brasil são principalmente de curta distância, seria nesses curtos movimentos que as pessoas se “embranqueceriam” ou seriam “embranquecidas” pelo olhar externo – juntamente com outras dinâmicas, como casamentos interraciais, contextos regionais e intra-metropolitanos, entre outras possibilidades. No entanto, em períodos mais recentes essa hipótese tem sido revisitada, de maneira que é justamente nas classes mais intelectualizadas (em grande medida, em uma classe média) que as classificações tendem a se tornar mais polarizadas entre as categorias preta e branca, devido a um maior letramento racial.

No que se refere às desigualdades socioeconômicas, a sociologia norte-americana traz uma grande contribuição ao demonstrar o importante papel da classe média negra na vocalização das demandas políticas. No Brasil isso também ocorre e está bem documentado. Contudo, a meu ver, poderíamos ter mais estudos da área de estratificação que mapeassem o tamanho da classe média negra e como ela foi afetada pelas mudanças econômicas nas últimas décadas. Por fim, destaco os excelentes trabalhos de Danilo França, em especial sua tese Segregação Racial em São Paulo, que circula entre a sociologia das relações raciais e suas interfaces com a sociologia urbana e a estratificação social.

Lygia Hryniewicz: A classe média no meu campo de pesquisa é muito flexível, por vezes, teoricamente confusa e pouco aprofundada. Para os fenômenos que estudo ela é importante como eixo de transformação política e econômica. É a partir da classe média que posso observar as mudanças do trabalho e das escolhas profissionais. Por exemplo, em relação a escolhas profissionais, observamos uma classe média que busca se estabilizar incentivando e patrocinando seus filhos a concluírem um curso superior. Esse processo acaba pesando sobre a renda da família e sobre a logística dos filhos. Na maioria das vezes, precisam investir em instituições privadas de ensino superior para que os filhos realmente tenham oportunidade de se formar. Mas depois pode vir a decepção quando se percebe que a formação em um curso superior não é tudo e é necessário investir em mais formação. O salário oferecido aos jovens recém-formados da classe média também é um problema a lidar, afinal, aquela famosa independência vai sendo adiada para mais tarde que a geração dos pais.

3. Como você vê o protagonismo político desses grupos, especialmente, nas últimas duas décadas?

Elísio Estanque: O protagonismo dos setores ressentidos da sociedade tende a aderir mais facilmente as propostas ou “narrativas” diabolizadoras da esquerda, apontada como culpada de todos os males. Ao mesmo tempo, essa retórica primária, simplista, dogmática e muitas vezes falseadora da verdade promove e estimula o ressentimento contra “os políticos”, instigando o ódio e, com isso, levando muitas das camadas subalternas – e que se sentem em declínio – a ver nos governos de esquerda, e cada vez mais na própria democracia, a razão da sua estagnação ou perda de status e bem-estar econômico. Tal como há cem anos a Europa assistiu um radicalismo “pequeno-burguês” que arrastou consigo amplos setores da classe trabalhadora em prol de um nacionalismo salvífico, hoje o populismo de extrema direita espreita a sua oportunidade arrastando os descontentes – em geral mal-informados, despolitizados e com pouca cultura – para aderirem a um discurso que oferece o paraíso sem necessidade de pensamento crítico, que agora é facilmente catalogado de “ideologia” (logo, de esquerda, logo socialista ou comunista) com toda a conotação negativa que essas noções encerram atualmente. Além disso, o aumento dos movimentos migratórios – com maior impacto na Europa – e a presença de comunidades com identidades, religiões e hábitos de vida diferentes levam os grupos radicais a apontar para as minorias (ciganos, imigrantes, islâmicos, homossexuais etc.) como a fonte de ameaça aos locais, mas que as instituições protegem, levando muitos segmentos de classe média a ver aí um sorvedouro de “impostos” e virando-se contra o Estado democrático.

O crescente protagonismo de partidos e grupos neofascistas não se deve apenas a ressentimentos de classe média. Mas os setores mais pobres e as classes populares facilmente se deixam manobrar e aderem a uma promessa salvífica que faz recair a “culpa” sobre alguém que é diferente, pela etnia, pela cor da pele, pela religião etc., sobretudo quando percebem os grupos intermédios empobrecerem. Se a classe média foi (ou é) o principal parâmetro da vitalidade de uma democracia, quando ela se sente sitiada e ameaçada pela pobreza tende a reagir através de protestos inorgânicos ou (como já ocorreu no Brasil) a cavalgar e instrumentalizar protestos legítimos para deles retirar proveito político.

Enio Passiani: No início dos anos 2000, o sociólogo alemão Klaus Eder argumentava que, no âmbito europeu, as classes médias, compostas tanto por frações das classes dominantes quanto das dominadas, eram dotadas de certo “radicalismo pequeno burguês” e formavam a base dos chamados novos movimentos sociais. Segundo ele, o que permitia a mobilização coletiva e a ação das novas forças sociais, a despeito de sua heterogeneidade interna, era o fato de partilharem interesses, normas, objetivos e valores comuns, ou seja, uma “cultura do movimento” elaborada no seio da própria mobilização.

Destarte, a cultura de protesto se transformava em uma cultura de grupo mais abrangente e conferia identidade – logo, certa unidade – aos movimentos sociais. Não haveria, portanto, aponta Eder, “classes em si”, mas atores coletivos que se constituem como classe por meio de sua ação coletiva.

O cenário brasileiro me parece ainda mais complexo em virtude de nossa própria formação social, dando vazão a movimentos muito contraditórios e diferentes entre si. Como não se trata de um bloco homogêneo, como mencionei anteriormente, a atuação política dos estratos médios é igualmente diversificada, dependendo muitas vezes dos vínculos sociais estabelecidos hodiernamente. É por isso que agentes que ocupam posições sociais semelhantes na estrutura de classes podem agir em termos políticos de maneira completamente distinta. Do âmago dos estratos médios podem brotar, portanto, as mais sortidas posições, manifestações, adesões e agendas públicas: progressistas, neoliberais, as moralmente mais conservadoras e até aquelas com perfil mais fascista mesmo, o que torna os estratos médios decisivos do ponto de vista político-eleitoral.

Leonardo Silveira: Como tenho pouco material para isso, vou deixar apenas algumas sensações sobre o tema do protagonismo político da classe média.

Considerando o acirramento dos ânimos criado pela adesão de muitos ao discurso da extrema direita, parece-me que uma há dois elementos muito presentes dentro da classe média: uma certa frustração causada pela crise econômica desde 2015 e um ressentimento pelo fato de determinadas “minorias” terem maior espaço na política nacional – embora esse “espaço” seja ainda bem exíguo e contestável.

Em relação ao primeiro ponto, o período de estabilização seguido de crescimento econômico entre, aproximadamente, 2000 e 2014, gerou expectativas, mas também avanços reais. Nesse período, vimos um salto de matrículas no ensino superior que sai de aproximadamente 1,5 milhão (em 1995) para 6,5 milhões em 2015. Embora não deva ser o único objetivo de uma expansão do ensino superior, ela carrega consigo uma expectativa entre aqueles que o acessam. Após esse período, a “promessa” não é integralmente cumprida, tornando-se um campo fértil para explicações simples sobre os motivos da crise brasileira.

Mas, como disse, tenho pouco material para sustentar esse ponto. Obviamente, é um fenômeno com várias camadas em que, aparentemente, encontramos divergências até mesmo entre os especialistas. De qualquer modo, destaco estes pontos, uma vez que eles certamente atingem a classe média.

Lygia Hryniewicz: Observo que há um protagonismo político ainda em formação da nossa classe média baixa, ainda há pouco envolvimento comunitário e político ativo desses grupos. O voto tem demonstrado os altos e baixos das escolhas dessa classe.

4. Como você vê a relação das classes médias com as políticas públicas (educação, saúde, habitação, por exemplo)?

Elísio Estanque: Como já observei, a “classe média” (recordando uma conhecida formulação de Ralf Dahrendorf) “é uma classe que não é classe e um grupo que não é grupo”. Na verdade, a noção de “classe” sempre foi, do ponto de vista sociológico, mais uma categoria do que um grupo coeso, com identidade e consciência próprias. Weberianamente falando, as “classes econômicas” só em certos contextos muito específicos podem agir enquanto “comunidades”, devido a suas afinidades e identidades específicas, pelo que a “consciência de classe” teria sido, segundo Weber, mais uma ideia especulativa de um autor célebre seu contemporâneo. Assim, os diferentes segmentos de classe média poderão – de um modo simplista e “ideal-típico” – ser divididos em duas grandes categorias de pessoas, tomando como critério o modelo de Bourdieu em que diferentes tipos de “capital” e suas combinações dão lugar a uma dada subjetividade ou “estilo de vida”. De um lado, há um setor de classe média no qual o capital econômico tem a primazia sobre o capital educacional (por exemplo certas profissões liberais, pequenos comerciantes, pequenos empreendedores, negociantes etc.), que tende a ver nas políticas públicas um desperdício de recursos e a olhar para o Estado sobretudo como um sorvedor de impostos e uma máquina burocrática onde medra a corrupção. De outro lado, há um setor de classe média onde o capital cultural e educacional tem a primazia sobre o capital econômico (por exemplo pequenos funcionários, servidores públicos, professores, artistas de diversos tipos etc.), que tende a desenvolver um olhar mais engajado, mais sensível aos valores humanos, à solidariedade e à justiça social, ou seja, mais identificado com o campo da esquerda. Em suma, o papel das políticas públicas se revela fulcral na criação de condições para fazer crescer uma classe média forte e capaz de se assumir como a grande almofada do sistema democrático. Caso contrário, perante uma classe média fragilizada e ressentida, será engrossado cada vez mais as forças populistas que lutam diariamente para corroer a democracia e enfraquecer o Estado de direito, abrindo o caminho para uma nova ordem autoritária. Só com políticas públicas mais consistentes se pode combater o ciclo vicioso das desigualdades e criar mais justiça social.

Enio Passiani: Desculpem-me por ser repetitivo, mas não vejo como responder a tal questão sem retornar à tremenda heterogeneidade dos estratos médios, pois acredito que a relação que tais frações de classe estabelecem com as políticas públicas varia conforme os próprios pertencimentos de classe e os vínculos estabelecidos com outras instâncias da sociedade, como a religião, os partidos políticos, sindicatos etc. Trato de separar pertencimentos e vínculos apenas heuristicamente, para fins de exposição, uma vez que tais dimensões da vida se encontram frequentemente enlaçadas.

Podemos observar, então, posições antagônicas entre os estratos (médio alto, médio médio e médio baixo) e entre as frações que compõem um mesmo estrato. Elas podem oscilar entre a valorização das políticas e serviços públicos – ou porque dele dependem ou em função de uma posição política ideológica mais explícita que prestigia e incentiva o papel do Estado – e o seu desprezo – defendendo, inclusive, o fim de certos serviços públicos a partir de sua privatização, ou porque não necessitam deles ou em razão de posições e disposições político-ideológicas abertamente declaradas, que preconizam a diminuição do Estado a suas funções mínimas ou, ainda, porque o acesso a esses serviços seja tão precário que acabe por gerar uma espécie de desalento ou ressentimento em relação ao Estado, levando a rejeição das políticas públicas como um todo.

Leonardo Silveira: Essa relação é, no mínimo, ambivalente. Em uma perspectiva histórica, a classe média conseguiu se beneficiar de algumas políticas públicas mesmo em tempos de políticas nada universais. Como, por exemplo, nos tempos do Banco Nacional de Habitação, quando a classe média foi sensivelmente mais atendida do que a população pobre. Ou nos tempos do ensino superior público menor, cujas vagas eram ocupadas pelos setores da classe média – principalmente a mais abastada –, enquanto a classe média média disputava as vagas com outros setores menos abastados da população. Em termos de políticas de saúde, por sua vez, acredito que a ideia da “cidadania regulada” acaba por simbolizar esse período pré-1988, enquanto no período que se segue há uma demanda de fugir do Sistema Único de Saúde, em vez de um apoio ao seu fortalecimento – algo similar ao que ocorre no sistema de educação básica, deixado de lado por setores de classe média sempre que possível.

Lygia Hryniewicz: Morando na Alemanha, percebemos como os pais das classes médias participam ativamente das atividades nas escolas públicas, o que faz com eles discutam as melhoras futuras da escola para outras crianças. Nesse processo eles também falam de política e futuro das políticas educacionais no país. No Brasil, falta esse tipo de envolvimento com o espaço público; falta ser voluntário nas atividades, sejam elas escolares ou não.

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