Coluna MinasMundo | Máquina do MinasMundo, por Joana Lavôr, João Mello, Lucas van Hombeeck e Rennan Pimentel

Publicamos na coluna MinasMundo o verbete “Máquina do Minas Mundo”, escrito por Joana Lavôr, João Mello, Lucas van Hombeeck e Rennan Pimentel para o Glossário MinasMundo, organizado por André Botelho, Mariana Chaguri, Maurício Hoelz, Pedro Meira Monteiro e Wander Melo Miranda, e lançado este ano pela Relicário Edições. 

No verbete, os autores abordam os bastidores do trabalho de comunicaçãopública da ciência realizado no projeto MinasMundo: o cosmopolitismo na cultura brasileira, lançado em outubro de 2020, durante a pandemia de Covid-19. O texto discute as ações realizadas pelo projeto, apresentando possíveis aprendizados com os repertórios de comunicação mobilizados durante e pós-pandemia. A artista-residente do projeto, Joana Lavôr, também narra o processo criativo das cores e formas da identidade do MinasMundo.

Este post é um convite para nossos leitores e leitoras revisitarem o acervo on-line do MinasMundo, que inclui a coluna Minas Mundo aqui na BVPS.

Boa leitura!




Máquina do MinasMundo

Por Joana Lavôr, João Mello, Lucas van Hombeeck e Rennan Pimentel

Num ensaio de Silviano Santiago com o título parecido ao deste verbete, o autor mineiro faz uma leitura comparada da imagem da máquina do mundo em Luís de Camões e Carlos Drummond de Andrade. Essa máquina é um objeto físico que materializa uma soma de conhecimentos sobre o cosmos, e que é oferecida ao herói do poema épico e seu bando como recompensa pelos seus feitos. Os presenteados desconfiam, mas aceitam. Já no poema de Drummond, a máquina aparece no meio de uma caminhada numa estrada pedregosa de Minas, como se fosse uma história de disco voador. E o personagem olha a Coisa com as retinas fatigadas que a terra vai comer, mas ainda não; e no fim recusa a máquina e sua posse, essa Fama. Sai do poema como quem lava as mãos e segue caminho, homem humano. Travessia.

O projeto MinasMundo apareceu em público durante a pandemia da Covid-19. O dia D do seu lançamento foi 31 de outubro de 2020, aniversário de Carlos Drummond de Andrade. Naquele dia, as manchetes quantificavam o mundo, sabendo que o perdiam, e a inflação mais a falta de reajuste das bolsas de pós-graduação fariam com que elas chegassem ao seu menor valor real no Brasil desde 1995. Por esses e outros motivos, algumas peças da máquina lançada naquele dia D não são seminários e encontros presenciais, como normalmente acontecia na universidade até ali, mas sites, portais, páginas, perfis. Os autores deste verbete são as pessoas que criaram e operaram essas peças do projeto. E que, depois de conversar muito entre si em grupos de WhatsApp e outros aplicativos, decidiram estender essa conversa à sua leitura. 

Esta também é uma entrada de glossário sobre o trabalho acadêmico de bastidor, normalmente oculto, que foi um chão de fábrica da produção de conhecimento em tempos de crise. Escrevemos ela juntos para que o MinasMundo sirva “não de exemplo, mas de lição”, a outras iniciativas que tenham propósitos semelhantes de comunicação pública da ciência. Atravessamos, todas as pessoas que cooperaram, um período de retração da esfera pública usando plataformas públicas e privadas para tentar intervir em dinâmicas de acesso e engajamento de discursos críticos-universitários. Talvez os resultados tenham sido apenas modestos. Mas parece que aprendemos algumas coisas no caminho, e é sobre elas que gostaríamos de conversar.

Pensamos a composição do texto na primeira pessoa do plural, mas uma voz se destacou em sua singularidade. Foi a da artista-residente do projeto, Joana Lavôr, com uma recomposição do processo criativo das cores e formas da identidade do MinasMundo. Como a singularidade só pode existir na pluralidade, optamos por essa forma impura para a entrada, em que a primeira pessoa emerge. Demos a essa seção o nome “continuar a nascer”, verso de Ricardo Aleixo reescrito como título de um dos livros da poeta mineira Mônica de Aquino, por motivos que se deixam ler.

No momento em que terminamos esse verbete, a ofensiva militar e as violações israelenses ao direito internacional na Faixa de Gaza têm como um de seus efeitos o fortalecimento do apoio à ação terrorista do Hamas pela juventude da Cisjordânia. Crianças e adolescentes com fuzis de brinquedo, as vezes decorados com as fotografias dos amigos mortos, declaram a correspondentes internacionais o sonho de se tornarem combatentes. A qualificação da situação dessa juventude como trágica tem efeitos muito diferentes dependendo do que se entende por essa palavra: num sentido mais corrente, ela pode significar a submissão a um destino predeterminado contra o qual não é possível se insurgir. Uma qualificação, nesse caso, incorreta. Não só porque a política é a tarefa do (que parece) impossível, mas porque a história demonstra que nem sempre foi assim, não é necessário que seja assim. 

Essa palavra, no entanto, também tem outro significado. Um que não se funda numa relação entre o negativo e a vida; mas entre o positivo e o múltiplo, a afirmação e o múltiplo, a alegria e o múltiplo. A diferença é possível, a experiência indestrutível. Diante da injustiça, a organização do pessimismo: ao longo dos últimos anos, no Brasil como em outras partes do mundo, foi difícil ser jovem e não experimentar algo de trágico. Mas, como no poema drummondiano, caminhamos pelo solo pedregoso, e não queríamos viver sem lutar. Esta foi uma pequena parte da nossa luta.

Chamamos as atividades públicas do projeto de [maquin]ação. A primeira delas foi a conversa musical transmitida pelo YouTube com José Miguel Wisnik, mediada por Pedro Meira Monteiro e com participação de Marina Wisnik. Pedro estava em Princeton, os Wisniks em São Paulo, e nós estávamos conectados e atentos de diferentes partes do Brasil e do mundo. Desde esse lançamento até o final de 2023 produzimos mais de cinquenta vídeos, a maioria transmissões ao vivo, com interação do público em tempo real. Se você quiser assistir, eles estão disponíveis em youtube.com/minasmundo.

Nesse percurso, talvez não seja exagero dizer que nos tornamos craques das lives, coisa de camisa dez. Mas o ambiente virtual obrigou a repensar completamente a estrutura e organização dos eventos: nos primeiros dois anos, as reuniões aconteceram apenas em salas e plataformas digitais. Enviávamos os links para os convidados se conectarem aos estúdios do StreamYard; nos bastidores, ajeitávamos o som, a imagem, testávamos vídeos e apresentações de PowerPoint, e combinávamos as dinâmicas e o tempo de cada pessoa. Tudo a apenas vinte minutos do início da transmissão ao vivo. As lives já começavam antes do play; às vezes, tínhamos que lidar com desafios inesperados, como problemas de som e imagem ou algum arquivo que não conseguíamos apresentar na tela. Se vira nos trinta.

No universo das redes sociais, nosso perfil no Instagram (@minas.mundo) divulgou eventos, publicações, seminários, congressos, atividades e apresentou os pesquisadores do projeto. Nesse ambiente, construímos um público de cerca de 1.240 seguidores, realizamos mais de quatrocentas postagens e alcançamos mais de vinte e cinco mil contas, envolvendo públicos do Brasil, Estados Unidos, Itália e Portugal. No YouTube, além dos mais de cinquenta vídeos, alcançamos 760 inscritos[1], acumulamos 13,5 mil visualizações, 42,1 mil impressões e somamos 159,2 horas de vídeo assistidas. Nessa plataforma, nossa audiência é diversa em termos etários, com 56,7% do público entre 18 e 34 anos e 43,3% entre 35 e 60 anos.

Entre lives, posts, manifestos e tantas outras [maquin]ações no mundo virtual, vimos o projeto lançar alguns curtas-metragens. O primeiro deles, Vídeo-manifesto Minas Mundo, apresentava as múltiplas Minas Gerais sobre as quais nossos pesquisadores se debruçaram ao longo desses anos. Pelas imagens sobrepostas evocava-se as diferenças locais nessa convivência Minas-Mundo. Diferenças e desigualdades, como no caso do extrativismo de commodities que levou ao desastre de Brumadinho, tragédia que escancara os riscos ambientais do capitalismo global encenado no Sul Global. Essa e outras imagens apresentavam os descentramentos que nossa rede procurava explorar ao falar nas, a partir das, com e até mesmo contra as Minas Gerais.

Construindo um espaço de discussão acerca do cosmopolitismo da cultura brasileira, o diálogo com outro tempo aparece num segundo vídeo, MMM – Modernismo por Minas Mundo. Ao longo do curta, somos convidados a pensar, junto à matéria audiovisual, as novas e antigas mediações entre local e universal na cultura brasileira: a arte colonial, a cantiga popular, a bossa nova, a tropicália, o rap e o funk e tantos outros temas que atravessam nossos debates. Em meio a estes cortes, conversas on-line de nossos pesquisadores discutem o fracasso de um projeto de democratização da cultura no modernismo frente a uma sociedade conservadora que enfrentou, e que ainda enfrentamos. Atando passado e presente, um retorno ao movimento modernista desrecalca seu legado cosmopolita com seu leque de problemas que ainda não se esgotou. Como trazer reconhecimento a uma multiplicidade de culturas que reivindicam suas diferenças nesse Mundo, sem deixar de lado as relações desiguais de que são feitas? Se no meio do caminho ditaduras e autoritarismos bloquearam um aprendizado pelo modernismo, como reconstruir uma nova máquina pelo legado que se oferece a nós?

Brumadinho e o Modernismo são imagens em nossos curtas. Mas são também experiências coletivas que recuperamos não só pelo que foi deixado para trás, como pelo que se afirma em desigualdade e diferença, numa rebeldia contra o encerramento da história. Insubmissas aos seus destinos, imagens como essas são daquelas com que aprendemos para nossas lutas. Sobrevivências improváveis, do tipo que gestam outros nascimentos. Com a palavra, a artista-residente do projeto, Joana Lavôr.

Continuar a nascer

Quando desenho, preciso de uma figura-mancha na cabeça antes de colocar o lápis no papel, ou seja, uma ideia sobre a presença do desenho. Talvez essa seja uma mania de míope. Quando gosto muito de uma cena, tiro os óculos e cerro os olhos para ficar com as manchas de cor.

Em 2020, fui convidada a pintar imagens para o MinasMundo. Quando comecei a fazer a identidade visual do projeto, eu estava grávida e confinada, mas apesar de estarmos todos angustiados com a pandemia, inventamos uma convivência bonita via Zoom indo e vindo às muitas Minas Gerais. Comecei a pensar nas cores da identidade visual do projeto e chegaram muitos ocres, marrons, amarelos e azuis. O primeiro marrom que pensei foi certamente o das estradas de terra. Como meu avô Sebastião nasceu em Ubá e tinha sete irmãos, tenho uma penca de primos em algumas cidades e passei muitas temporadas em Minas nos quintais das tias avós. Para desenhar, lembrei imediatamente do chão vermelho de quando andava descalça com meus primos na beira da estrada em Matipó e ficávamos vendo os desenhos riscados pela terra craquelada no chão. O marrom do filtro de barro das minhas (e de tantas) tias avós, “de onde sai a água mais saborosa”. Os pratinhos de vidro marrom que recebem compotas pastosas.

Mas, em 2020, ao pensar em MG, vinha à memória o marrom do lamaçal que cobriu a cidade de Mariana em 2015 com o rompimento de uma barragem da mineradora Samarco. Havia muito pouco tempo, em 2018, que eu tinha escrito um poema sobre essa cor, esse lodo. Essa tinha que entrar.

Para chegar aos azuis, novamente: muitos convites. As ideias passearam imediatamente pelos azuis de Portinari na Igreja de São Francisco de Assis na Pampulha, e pelas travessas, moringas e xícaras azuis e brancas da porcelana de Monte Sião, sempre presentes nas mesas postas de famílias mineiras 24/7. Nas longas conversas sobre azuis com um dos coordenadores do projeto, André Botelho, falamos algumas vezes sobre as porcelanas cantonesas que também são azuis e brancas – e que, aliás, encontramos no Museu do Ouro em Sabará depois do seminário “MinasMundos: cosmopolíticas” em Belo Horizonte, em dezembro de 2022.

Mas o azul mais forte que chegou para o projeto foi o mar e sua imensidão e multiplicidade, o azul marítimo para figurar o cosmopolitismo e os diversos caminhos que cruzam nossas ideias de brasilidade. Simplificando: o ocre como localismo e o azul como cosmopolitismo.

A curadoria dos elementos foi diferente. Enquanto na escolha das cores eu fiquei às voltas com memórias e representações muito afetivas e físicas, o caminho para escolher as imagens que desenharia foi bem mais exógeno, e desorganizado também. Desde o momento do convite, comecei uma prática de visitar e estudar alguns mapas de coleções que faço há anos, algumas físicas, outras em pastas on-line. Vi mapas e montanhas mineiros e de lugares por toda a América Latina… e logo estava em mapas bem mais distantes, como relevos e bacias hidrográficas na Índia ou em Myanmar. Fui guardando esboços de mapa feitos a lápis, cruzando grafias e vendo quais movimentos apareciam.

André e eu também conversamos um pouco sobre as volutas barrocas, e comentamos que seria interessante que elas entrassem, embora nenhum dos dois quisesse uma representação “fotográfica” para o projeto sobre Minas. Queríamos que o logotipo levasse uma voluta, mas não sabíamos muito bem como. 

Para além das tradicionais volutas esculpidas, fiquei buscando um símbolo de fluxo aquático e encontrei uma imagem indiana do século XVIII em que Vishnu respirava dentro de um ninho de serpente, e sua respiração era uma malha de pequenas serpentes: uma enorme onda. Pronto, comecei a rascunhar diversas citações àquela imagem, e desenhei algumas volutas de entalhes de madeira que encontrei em livros de arte sacra do meu outro avô, João Conrado, que era pintor e viajava muito a MG. E cheguei ao nosso logotipo. Uma voluta talhada em madeira: um enorme sopro de peixes: uma malha de pequenas serpentes: uma onda.

***

O fim da pandemia nos permitiu uma retomada das atividades presenciais e com isso realizamos encontros em diferentes lugares. Residentes no Rio de Janeiro, estes autores rumaram para Belo Horizonte para o primeiro seminário presencial do projeto, “MinasMundo: Cosmopolíticas” com apresentação de trabalhos, palestras com artistas e oficinas de poesia. Tomando a UFMG como lugar de reencontro e troca, o que antes eram bits de nossas telas se materializava graças ao esforço de uma improvável comunicação acadêmica realizada naquele período de distanciamento social.

Após os anos gestando o projeto na pandemia, nos espraiávamos em outras frentes de ação. Dali em diante, os encontros presenciais somaram-se ao nosso repertório de [maquin]ações. Entre duas séries de lives que realizamos em 2023 no Youtube, “Qual Minas colonial?” e “Acervo de escritores mineiros no Minas Mundo: Arquivos e Cosmopolitismo”, o projeto MinasMundo deslocou-se para beira-mar, comemorando os 120 anos de Pedro Nava presencialmente na UFRJ. Mais um evento se aproxima enquanto escrevemos este texto, alternando entre a revisão textual e a arrumação das malas para subir o Atlântico em direção a Princeton, nos Estados Unidos

Traçando novos caminhos do MinasMundo, ainda organizamos em nossa rotina os preparativos para o evento-chave do projeto em Ouro Preto no ano de 2024. Voltando às terras mineiras em uma de suas cidades históricas, este será o ponto de chegada para nossa discussão sobre o cosmopolitismo da cultura brasileira, tendo como marco as viagens que os modernistas fizeram em 1924. O glossário na qual este verbete se insere pretende ser peça-chave para todo nosso projeto de desrecalque cosmopolita da cultura brasileira, apresentando diferentes trabalhos em uma linguagem aberta para um público mais amplo de modo a divulgar aos leitores os resultados dessa nossa trajetória. 

Sabendo que, em breve, chegaremos em Ouro Preto, deixamos aqui algumas pegadas de nosso percurso. Olhando em retrospectiva nossas [maquin]ações, vasculhando anotações, esboços, lives, curtas, posts e blogs, pudemos perceber a memória coletiva de todo o movimento que fizemos. Esse glossário é apenas um produto final do projeto. Uma parte do legado do MinasMundo, que também pode ser acessado pelas redes digitais e que esperamos que possa servir não só para pensar o cosmopolitismo na cultura brasileira, como também os modos de ação coletiva possíveis para uma comunicação acadêmica. Deixamos assim o futuro em aberto para falar no, a partir do, com o e até mesmo contra o MinasMundo.

Sugestão de leitura:

SANTIAGO, Silviano. “Camões e Drummond: a Máquina do mundo”. In: Uma literatura nos trópicos. Recife: Cepe, 2019.

 

 

Nota do editor:

[1] No momento em que publicamos este texto na BVPS, o Instagram se encontra com cerca de 1.510 seguidores, enquanto que o Youtube se encontra com 810 inscritos.

As ilustrações do post são de Joana Lavôr.