Série Mitomanias/Mitologias | Depressão, por Marcelo Ferretti

Na edição de hoje da série Mitomanias/Mitologias, abordamos os temas da Carioquice, da Música Sertaneja e da Depressão. Fernando Lopes evoca o polígrafo carioca Luiz Antonio Simas para discutir a “Ideologia da carioquice”, onde o precário se transforma em virtude e as contradições são recalcadas em nome de fantasias. Marcela Telles, por sua vez, escreve sobre a Música Sertaneja, ou melhor, sobre o Agronejo enquanto trilha sonora da indústria agropecuária nacional. Já Marcelo Ferretti questiona a visão organicista da depressão, apontando-a como um dos grandes mitos de nossos dias. Até que ponto essas mitologias estão moldando nossas práticas e percepções? Três textos que nos desafiam a repensar temas enraizados na cultura contemporânea. Não deixem de conferir.  

A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.

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O cérebro deprimido

Por Marcelo Ferretti (FGV)

A crença de que a depressão se deve inteiramente a um “desequilíbrio químico” no cérebro é mais que difundida – tanto entre especialistas quanto na “psicologia pop”. Circula bem até mesmo o nome do neurotransmissor que, suposta e invariavelmente, estaria em falta no cérebro deprimido: a serotonina. O mesmo se observa com sua panaceia, os antidepressivos. Dentre eles, o mais diluído na dita cultura de massa é o Prozac (cloridrato de fluoxetina), nome que figura estampado no título de variados best-sellers (Thompson, 2024).

O abalo mais recente dessa crença – cujo epicentro, desta vez, partiu da publicação de um artigo científico numa revista respeitada, produto de uma revisão sistemática (361 artigos de seis áreas distintas) a qual atestou a ausência de evidências robustas de uma correlação entre níveis baixos de serotonina e depressão (Moncrieff et al, 2024) – nos leva a ler Mitologias, de Roland Barthes, com um interesse renovado. Sobretudo o ensaio “O cérebro de Einstein”, que toma o órgão do cientista como um “objeto mítico” (Barthes, 1985: 60).

No ensaio em questão, chama a atenção de Barthes os paradoxos ali envolvidos: a suposição da inteligência mais elevada provinda da mais pura análise materialista do cérebro, de um poder reflexivo tão grande que se o atribui à potência de um autômato, de uma produção de pensamentos tão assombrosa que se a concebe análoga à da produção de salsichas, enfim, de uma concisão tão fantástica, sintetizada na fórmula E=MC², que parecemos retornar aos temas gnósticos da humanidade. São esses paradoxos, não percebidos como tais, que conferem o caráter mítico a Einstein e seu cérebro. Nas palavras do semiólogo, “Einstein satisfaz plenamente o mito que permanece indiferente às contradições […], Einstein realiza os sonhos mais contraditórios, reconcilia miticamente o poder infinito do homem sobre a natureza […]” (Barthes, 1985: 62).

Barthes percebeu, por meio da análise de casos como esse, o processo então em curso do que talvez pudéssemos chamar de objetificação mítica do ser humano – tematizada mais diretamente, vale dizer, no ensaio seguinte a “O cérebro de Einstein” (“O homem-jato [L’homme-jet]”). Esse processo se vincula ao funcionamento semiológico do mito, elucidado na parte teórica do livro. Nela, Barthes mostra como o mito aplaina a realidade, suprime contradições, apara toda e qualquer aresta, achata complexidades e, assim, despolitiza. Como sintetiza o autor: “A semiologia ensinou-nos que a função do mito é transformar uma intenção histórica em natureza, uma contingência em eternidade” (Barthes, 1985: 162-163). Daí a tarefa crítica e de “desmontagem semiológica” a que se propõe o livro (Barthes, 1985: 181).

Ora, é justamente essa objetificação mítica a responsável pela transformação da compreensão da depressão. Precisamente na década 1950, em que Barthes escreveu os ensaios que compõem o livro, ocorreram “os dez anos que mudaram” tudo (Thuillier, 2003). Em alguns países do Atlântico Norte, como França e EUA, conforme a década foi chegando ao fim, os tratamentos de choque, manicomiais e frequentemente bestiais, foram dando lugar à administração de psicofármacos. Até então encaradas apenas como sedativos, essas drogas passaram a ser tidas como capazes de agir sobre sintomas particulares e quadros psiquiátricos específicos. Foi nesse momento que surgiram os primeiros antidepressivos, chamados tricíclicos. Estava aberto o caminho para nossa autocompreensão enquanto máquinas neuroquímicas (Rose, 2003).

O processo, contudo, não se consolidou até que a hipótese serotoninérgica da depressão fosse formulada, derivada da descoberta dos inibidores de recaptação de serotonina (IRSS). Apesar de uma série de problemas e imprecisões ora detectadas envolvendo essa hipótese, o desenvolvimento de antidepressivos centrou-se sobre os IRSSs e o pressuposto de variações de humor intimamente correlacionadas à falta de neurotransmissores. De fato, tratava-se de um pressuposto tríplice: que drogas como essas eram capazes de atuar sobre um alvo específico, que os médicos podiam fazer diagnósticos precisos analisando estados de humor e que estes se vinculavam a neurotransmissores particulares. Tal pressuposto, publicizado pela indústria farmacêutica logo em seguida, marcou de forma indelével tanto o imaginário médico quanto a visão popular acerca da depressão. A explosão do emprego desses antidepressivos a partir dos anos 1990 foi o resultado final desse processo (Rose, 2003: 52).

Na virada do século, pudemos testemunhar uma compreensão da depressão – e do sofrimento psíquico em geral – completamente transformada. O ser humano desejante havia dado lugar à máquina neuronal, o conflito, à evitação, a fala indignada, ao silêncio envergonhado. Desde então, não se luta mais contra o mundo, foge-se do litígio almejando-se a normalidade (Roudinesco, 2000). A moral neoliberal triunfou, para o deleite dos donos dos meios de produção. O sofrimento não é mais um obstáculo ao avanço da produtividade: esta é atingida produzindo sob medida e o gerindo (Dunker, 2020).

Assim, podemos tomar a tese organicista da depressão como um dos grandes mitos de nossos dias, vinculados à racionalidade neoliberal. Que fique bem claro: mito no sentido tal qual o toma Barthes, ou próximo ao menos, mas nunca no sentido vulgar, que nos levaria a concluir que a depressão não existe, que é uma invenção da psiquiatria organicista, um artifício da indústria farmacêutica. O sofrimento depressivo é real, sem dúvida, e atroz. Foi seu sequestro pelo discurso organicista que o transformou em mito. Afinal, este, como denunciou Barthes, sempre procede a um “roubo por colonização”, “arranca aos sentidos, de que se alimenta, uma sobrevivência insidiosa, degradada, provoca neles o adiamento da morte […]”(Barthes, 1985: 153).

Desse modo, é preciso difundir, isto, sim, a necessidade de desmontagem desse mito, da ideia de que a depressão é uma doença inteiramente orgânica, cuja evolução independe de nós, sobre qual é impossível agir, exceto farmacologicamente, que não tem qualquer relação com nossas formas de vida, diante da qual só nos resta o silêncio. No fundo, “depressão” é um nome pequeno demais para tantas formas e cores, para coisas que não andam juntas (Dunker, 2021). Não se pode reduzir tudo isso ao produto de um cérebro mudo. Porque, mais que cérebros, somos corpos falantes. Tudo o que afeta os órgãos vira palavra.

Barthes, ainda por cima, ao que tudo indica, sabia disso. E não apenas num plano abstrato e teórico, mas concreto e encarnado. O artista e dândi argentino Raúl Escari, amigo do semiólogo francês, teria presenciado o seguinte relato deste sobre os efeitos de uma sessão com Jacques Lacan:

Barthes falou e falou. Lacan escutava em silêncio. Subitamente, disse: “Largue esse rapaz”. Barthes contou a nosso grupo de amigos depois: “Foi estranho que palavras tão triviais, tão simplórias [chatas], tenham podido exercer sobre mim um efeito tão imediato, radical”. Terminou com o rapaz e se pôs a escrever Fragmentos de um discurso amoroso. (Escari apud Moreno, 2006: s.p.)

Recupero essa passagem com o intuito não de exaltar o sucesso dessas (na verdade, três, apenas) consultas com Lacan – sucesso do qual devemos duvidar bastante, aliás, como indica o biógrafo de Barthes (Samoyault, 2015) –, e sim de ressaltar o poder das palavras – sabido por Barthes – sobre nossos corpos. São elas que nos movem e devem nos mover. Sem elas, nosso cérebro é mero objeto mítico.


Referências

BARTHES, Roland. (1985). Mitologias. São Paulo: Difel.

DUNKER, Christian. (2020). A hipótese depressiva. In: SAFATLE, Vladimir & SILVA JR., Nelson da & DUNKER, Christian. (Orgs). Neoliberalismo como gestão do sofrimento. Belo Horizonte: Autêntica.

DUNKER, Christian. (2021). Uma biografia da depressão. São Paulo: Planeta.

MORENO, María. (2006). La internacional argentina. Radar, Buenos Aires, 5 nov. Recuperado em: https://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-3366-2006-11-05.html. Acesso em: 10 jul. 2024.

MONCRIEFF, Joanna & COOPER, Ruth & STOCKMANN, Tom & AMENDOLA, Simone & HENGARTNER, Michael & HOROWITZ, Mark. (2023). The serotonin theory of depression: a systematic umbrella review of the evidence. Molecular Psychiatry, Londres, v. 28, p. 3243–3256. Recuperado em: https://www.nature.com/articles/s41380-022-01661-0. Acesso em: 10 jul. 2024. 

ROSE, Nikolas. (2003) Neurochemical Selves. Society, v. 41, n. 1, p. 46-59.

ROUDINESCO, Élisabeth. (2000). Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

SAMOYAULT, Tiphaine. (2015). Roland Barthes. Biographie. Paris: Seuil.

THOMPSON, Joanna. (2023). A causa da depressão provavelmente não é o que você está pensando. O Estado de São Paulo, São Paulo, 2 jul. Disponível em: https://www.estadao.com.br/saude/a-causa-da-depressao-provavelmente-nao-e-o-que-voce-esta-pensando/. Acesso em: 10 jul. 2024.

THUILLIER, Jean. (2003). Les dix ans qui ont changé la folie, la dépression et l’angoisse. Paris: Ères.


Sobre o autor

Marcelo Ferretti é psicanalista e professor de Psicologia e Ética da FGV.

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