
Na edição de hoje da série Mitomanias/Mitologias, abordamos os temas da Carioquice, da Música Sertaneja e da Depressão. Fernando Lopes evoca o polígrafo carioca Luiz Antonio Simas para discutir a “Ideologia da carioquice”, onde o precário se transforma em virtude e as contradições são recalcadas em nome de fantasias. Marcela Telles, por sua vez, escreve sobre a Música Sertaneja, ou melhor, sobre o Agronejo enquanto trilha sonora da indústria agropecuária nacional. Já Marcelo Ferretti questiona a visão organicista da depressão, apontando-a como um dos grandes mitos de nossos dias. Até que ponto essas mitologias estão moldando nossas práticas e percepções? Três textos que nos desafiam a repensar temas enraizados na cultura contemporânea. Não deixem de conferir.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
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Brasil agro
Por Marcela Telles
O Brasil rural já foi sertão; atualmente grande parte se declara agro. O cancioneiro sertanejo o acompanhou e, desde 2019, uma nova matriz no interior de sua tradição vem se firmando. O chamado agronejo é a trilha sonora da indústria agropecuária nacional e, no exercício dessa função, lhe atribui um significado. Em 2019, a dupla Leo e Raphael lançou “Agro é top”, composta por Henrique Tranqueiro, Léo Targino Moura e Tunico da Vila. A canção é uma das primeiras tentativas de conferir novo uso para o termo cujo sentido usual está ligado ao verbo “agrar”: tornar um terreno apto ao cultivo – daí sua associação ao exercício de tarefas consideradas árduas, difíceis.
O agro de Léo e Raphael, ao contrário, é um modo de vida definido pela fartura e autossuficiência, e o espaço da festa é ideal para exibição de tais características. Não são poucas as canções ligadas ao agronejo que utilizam esse artificio. A festa é o momento de suspensão do cotidiano de trabalho e os compositores se valem dela para exibir a força econômica da indústria agropecuária: “Nóis têm plantação de churrasco / Quer peixe? Nóis pesca no lago / Aqui nunca vai faltar nada / Nóis planta a cana e a cevada”. A dupla introduz um segundo engenho: recorre ao uso incorreto das palavras para afetar simplicidade enquanto a ostentação é exibida no conteúdo das letras, nos figurinos, na cenografia dos espetáculos e videoclipes.
Em 2021, a mesma dupla lançou Os menino da pecuária, título em que a ausência da concordância nominal é proposital. Procura aparentar espontaneidade e ausência de pompa de indivíduos ligados ao agronegócio, cuja dedicação ao trabalho teria se dado em prejuízo de uma educação formal. Não que isso seja considerado uma perda. A abertura do videoclipe exibido pelo YouTube desde junho de 2021, atualmente com cerca de 114 milhões de visualizações, sobrepõe o título da canção a imagens de uma boiada sendo tangida para o curral enquanto uma voz de criança declara: quando crescer quero ser “menino da pecuária”. O ouvinte acostumado ao repertório sertanejo facilmente evocará duas canções compostas por Teddy Vieira, na década de 1950, O menino da porteira, em parceria com Lusinho, e Rei do gado. Nenhuma construção de significado trabalha no vazio, mas se apropria de formas e conteúdos anteriores para adaptá-los a novos contextos históricos. Os menino da pecuária é um bom exemplo desse movimento.
A canção dos anos 1950 sobre a criança à espera da passagem de uma boiada para abrir a porteira, e com isso, ganhar uma moeda destacava a pobreza de uma infância vivida “num ranchinho à beira-chão”, à margem das atividades ligadas à criação de gado. A forma violenta como o menino morre – por um “boi sem coração” – comove o ouvinte ao escancarar o desamparo de famílias estruturadas no entorno dessa atividade – então em início de expansão para o oeste do Brasil. Na história de Teddy Vieira e Luisinho, dificilmente caberia a fala de uma criança afirmando o desejo de se tornar “menino da porteira”. Não seria verossímil.
O personagem de Rei do gado, por sua vez, ocupa o centro da economia pecuária. Gravada originalmente por Tião Carreiro e Carreirinho, em 1958, a canção foi inspirada na trajetória do paulista Antônio Joaquim de Moura Andrade. Entre 1930 e 1960, Moura Andrade foi um dos maiores criadores de gado do Brasil, que, ao expandir sua produção rumo ao Oeste, fundou as cidades de Andradina, em São Paulo, e Nova Andradina, no então estado do Mato Grosso.
A partir da década de 1970, sua história ficou pequena para a canção que passou a representar um seguimento em ascensão no cenário econômico nacional com o desenvolvimento da agroindústria durante os governos militares dos generais Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. O plano de ocupação das regiões Oeste e Norte do Brasil através do desenvolvimento da “agroindústria” – por meio de subsídios, concessão de terras (a terra sem homens) e mão-de-obra barata (os homens sem terra) – favoreceu particularmente a pecuária: de 4,2 milhões de hectares, em 1972, a faixa de terras ocupadas por empresas estrangeiras passou para 6,4 milhões, em 1976. Um aumento de 53,4% em apenas quatro anos. Para a criação de bois das raças Gir e Nelore, privilegiadas por sua maior produtividade, a floresta amazônica foi, aos poucos, transformada em pastagens artificiais. Entre 1972 e 1975, os empresários rurais desenvolveram como bem-quiseram a criação de gado bovino.
Os menino da pecuária de Leo e Raphael é o ponto de interseção entre esses personagens. Do Rei do gado, recuperam o gosto por bebidas alcóolicas consideradas populares e o “pó da viagem”, que o boideirotrazia na testa, é recolocado na caminhonete 4 X 4 “toda suja de barro.” Ambos compartilham a despretensão ao lidar com dinheiro. Assim como seu antepassado, os personagens de Leo e Raphael são ciosos da posição financeira que ocupam, mas procuram não ostentar com carros ou modos refinados: “Nóis tem dinheiro / Mas usa chapéu de palha”, afirmam no refrão.
Além de ser diretamente estabelecida no título, a evocação ao Menino da porteira é retomada várias vezes, entre uma estrofe e outra, quando utilizada como refrão – cuja recorrência acaba por convertê-la em um bordão acompanhado por movimentos coreográficos. A força do eco da história da criança de Ouro Fino vem da troca do termo “porteira” por “pecuária”. Com esse movimento, o menino passa a ser do gado e mescla-se ao outro personagem de Teddy Vieira para compor um terceiro: Os menino da pecuária.
A mudança do pronome pessoal do singular para plural amplia a narrativa antes centrada em torno de trajetórias individuais para incorporar toda uma nova geração enriquecida. O avanço da pecuária industrial sobre as regiões Oeste e Norte teria possibilitado a cada Menino da porteira vir a se tornar um Rei do gado. Em 2021, com Pecuária 2.0 – composta por Gabriel Vittor, Jota Lennon, Léo, Raphael Soares e Rodolfo Alessi – a dupla Léo e Raphael retomam o mote do sucesso lançado em 2019:
Não é minha caminhonete cara
E nem meu chapéu de palha
O nome disso é
Pecuária!
Nóis bebe memo
Festa memo
E foda-se se a conta é cara
O descaso proposital com uso da norma culta de linguagem permanece indicando o sucesso da fórmula junto ao público ouvinte. Não é o tema do agronegócio que diferencia o agronejo de outras matrizes da canção sertaneja. Desde 1929, quando os ritmos rurais caipiras foram adaptados ao formato fonográfico por Cornélio Pires, o tema do trabalho é abordado nas composições dessa tradição. O cultivo do café, dos canaviais, a abertura de pastos, a rotina dos boias-frias, das comitivas entre muitos outros temas foram apropriados e ressignificados por compositores, intérpretes e ouvintes na mesma medida em que o desenrolar dos eventos históricos alteravam a forma e o feitio do Brasil rural.
O mesmo pode ser afirmado sobre a apropriação de temas como festas, danças, romances bem e mal-acabados, tipos de comportamento etc. Quando uma nova geração de artistas elege o agronegócio e a cultura material do seu entorno como tema principal de suas canções, dão continuidade a um movimento presente na própria origem do cancioneiro sertanejo. Quando alteram os ritmos e melodias de suas composições por remixes ou pela combinação de ritmos urbanos alheios à cultura caipira tradicional, como, por exemplo, o funk, seguem movimento similar ao executado por nomes como Capitão Furtado, responsável pelo registro do primeiro corrido mexicano, no Brasil e Raul Torres, que introduziu os rasqueados paraguaios com Chinita mia e Beicinho vermelho, gravadas no início da década de 1940. Não foram poucos os artistas ligados ao cancioneiro sertanejo que conjugaram viola, violão à guarânias, mariachis, harpas, guitarras elétricas e baterias.
Tampouco a estratégia de firmar dicotomias para estabelecer uma identidade por oposição é singular ao agronejo. A própria construção da figura do Rei do gado ocorre em contraposição a um outro personagem também do meio rural, o Rei do café. O perfil aristocrata do cafeicultor, reforçado por adjetivos como “almofadinha”, é sugerido por sua predileção pelo champanhe que fazia correr “a rodo / No alto meio da grã-finagem”, enquanto dividia o balcão de um bar em Ribeirão Preto com o recém-chegado boiadeiro, cujo pedido ao garçom limitou-se a “uma pinga pra rebater a friagem”.
Em Os menino da pecuária, o contraponto não é explicitamente nomeado, mas compartilha com seu antecessor o gosto por importados – neste caso, carros. Outras canções de artistas vinculados ao agronejo são mais diretas. Como, por exemplo, a intérprete e compositora Ana Castela, cuja canção Boiadeira, de Diego Barão, Gabriel Vittor, Jota Lennon e Rodolfo Alessi, gravada em 2021, retoma a dicotomia ao narrar a passagem de uma “patricinha” à “boiadeira.”
O cabelo cortado no estilo Chanel cede lugar para o chapéu; o perfume Dolce & Gabanna é substituído pelo cheiro de mato e o vinho trocado pela cerveja. Os itens indicativos de um modo de vida alheio ao mundo rural são trocados pelos associados a uma cultura material que procura se firmar como representativa desse agro, cuja proximidade com a terra o capacitaria a expressar todo um país. Some de vista um tempo no qual nada pareceria mais estrangeiro para um ouvinte do cancioneiro sertanejo do que itens como chapéu, fivela, camisa xadrez de flanela e botas com cano alto e bico fino no estilo Cowboy.
Cada uma dessas construções diz muito sobre as relações políticas, econômicas e sociais próprias do seu tempo. Mas alterar os elementos não é a principal inovação produzida pelo agronejo. O descaso com a norma culta da língua. A utilização de uma pronúncia e grafia nos títulos e letras mais próximas da linguagem coloquial e falada do que às regras gramaticais e ortográficas foram – e ainda são – utilizadas por diferentes intérpretes e compositores como meio para destacar e valorizar o sotaque característico do interior paulista e áreas próximas. Marvada pinga, canção de 1940, imortalizada pela interpretação de Inezita Barroso; Rapaz caipira do compositor e intérprete Renato Teixeira são exemplos do uso dessa estratégia. Em outras canções, esse recurso foi mobilizado para expor, por meio da linguagem, a vida de uma população rural cercada pela falta de quase tudo: saúde, terra, moradia, saneamento básico, trabalho remunerado digno, aposentadoria, direito à educação. Para quem falta tudo, faltam palavras. Que dirá normas para melhor utilizá-las.
Quando o sertão foi substituído pelo agro, a carência deu lugar à ostentação da riqueza de um Brasil rural que deu certo. Um êxito mensurado pelo poder de compra e acúmulo de bens dos envolvidos. A aplicação incorreta de regras ortográficas e gramaticais permanece como escolha deliberada, não mais resultado de uma determinada situação de carência. Indica como uma formação é desnecessária, pois desvinculada de valor econômico. Esta é a afirmação da criança, cuja fala abre a canção Os menino da pecuária:
Meus amigos me perguntam lá na escola
Quando eu crescer, o que eu vou ser
Eu falei que eu já sou formado na pecuária
Não há uma maneira simples de decidir quando as regras de linguagem são importantes e quando podem ser ignoradas. Mas é importante perceber quando somos bombardeados com mensagens que nos fazem esquecer da capacidade de indivíduos se unirem por aspirações humanas comuns, como a preservação do meio ambiente, e não apenas em torno do desejo pela Hilux do ano.
Referências
ALONSO, Gustavo. (2015). Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
BARTHES, Roland. (2009). Mitologias. Rio de Janeiro: Difel.
CALDAS, Waldenyr. (1979). Acorde na aurora: música sertaneja e indústria cultural. São Paulo: Editora Nacional.
FERRAZ, Paulo Procópio. (2019). As metalinguagens de Barthes. Remate de Males, Campinas-SP, v.39, n.2, pp. 849-866, jul./dez.
LIMA, Marcela T. E. (2024). Canção sertaneja e política agrária durante a Ditadura Militar (1964-1985). Belo Horizonte: Ed. UFMG.
NAPOLITANO, Marcos. (2007). A síncope das idéias: a questão da tradição na música popular brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.
NEPOMUCENO, Rosa. (1999). Música caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Ed. 34.
OLIVEIRA, Alan de Paula. (2009). Miguilim foi pra cidade ser cantor: uma antropologia da música sertaneja. Tese de Doutorado. Florianópolis: UFSC.
RAHAL, Hanna. Agronejo é o ritmo do ano: saiba o que é e quando o estilo estourou. Disponível em: https://www.band.uol.com.br/entretenimento/agronejo-e-o-ritmo-do-ano-saiba-o-que-e-e-quando-o-estilo-estourou-16656098
SOUSA, Walter de. (2005). Moda inviolada: uma história da música caipira. São Paulo: Quiron.
VILELA, Ivan. (2013). Cantando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: EdUSP.
Sobre o autora
Marcela Telles possui graduação (2002) mestrado (2006) e doutorado (2014) em Historia pela Universidade Federal de Minas Gerais. É pesquisadora do Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória/UFMG desde 2003. Atua principalmente nos seguintes temas: sertão, canção popular, República.
