
Trazemos hoje um comentário de Maria Laura Cavalcanti (UFRJ) sobre o livro Mário contra Macunaíma: Cultura e Política em Mário de Andrade, de Carlos Sandroni, que ganhou uma nova edição este ano. Mário de Andrade, descrito como um “escritor difícil” e enigmático, desafia seus leitores com a intensidade de um “decifra-me ou te devoro”. Contudo, segundo Maria Laura, o livro de Sandroni, com persistência, desbrava o “cipoal brabo” que é a obra de Mário, ressaltando sua contribuição para as políticas culturais. Publicado originalmente em 1988, Mário contra Macunaíma, agora revisado e atualizado, tornou-se uma referência para estudos e pesquisas sobre a atuação de Mário de Andrade à frente do Departamento de Cultura, bem como sobre os embates políticos que marcaram suas iniciativas de organização e gestão dos bens culturais na cidade de São Paulo.
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Notas sobre Mário contra Macunaíma [1]
Por Maria Laura Cavalcanti (UFRJ)
Quero saudar a reedição do livro Mário contra Macunaíma, que pude conhecer quando da primeira edição de 1988, já na “Nova República”, com seus tantos percalços no caminho da redemocratização do país.
É uma alegria estar com Carlos Sandroni e com Eduardo Jardim em meio a esses 36 anos de tantas conversas que começaram no Seminário de 1988 “Folclore e Cultura Popular: as várias faces de um debate”, no qual uma das mesas – “Os intelectuais e o nacionalismo” – era composta por Lúcia Lippi (Intelectuais, povo e nação nos anos 1920/30), Carlos Sandroni (Mário antropófago) e Eduardo Jardim, autor de livros fundamentais sobre Modernismo e folclore. O seminário resultava de pesquisa empenhada em situar os estudos de folclore como uma vertente importante das ciências sociais brasileiras, que eu coordenava junto a um grupo de colegas no antigo Instituto Nacional do Folclore (atual CNFCP). Lélia Coelho Frota havia sido recentemente diretora da instituição e havia chamado para si a reivindicação andradiana da necessidade de cientificidade na abordagem das tradições populares, como afirmou na bela introdução no precursor libreto Mário de Andrade e a Sociedade de Etnografia e Folclore (1983). Ontem, como hoje, o assunto “modernismos e Mário de Andrade” estava no ar.
O livro de Carlos Sandroni tem muitas dimensões: resulta de uma dissertação apresentada ao IUPERJ em 1987 e traz a marca dos interlocutores de então e da orientação acadêmica, com destaque teórico para Gramsci e Foucault. Mas vou me permitir focar nos aspectos que, tanto no ontem quanto no agora, me atraem:
O próprio título Mário contra Macunaíma assinala o que quero ressaltar, pois o livro vem matizar o entendimento dessa faceta por vezes meio desencaixada nesse quebra-cabeça que é Mário de Andrade: Mário, organizador da cultura.
Mário de Andrade é, afinal, aquele “escritor difícil”, autodescrito no poema-lundu, que vem concluir o percurso de Carlos Sandroni dentro do tal cipoal brabo que é sua obra, em que Mário parece dizer sempre “decifra-me ou te devoro”, como um sedutor encantador de serpentes. Mas Carlos tem a persistência dos tatus! E faz sempre tantos aspectos da obra de Mário de Andrade nos conduzirem ao entendimento de sua atuação no plano das políticas públicas de cultura, com o foco na dimensão paulistana e paulista dessa atuação – o Departamento Municipal de Cultura e Recreação de São Paulo. Está muito bem indicado, por sinal, o par que seu livro faz com o de Helena Bomeny, Um poeta na política (2012), que enfoca a dimensão federal dessa atuação com a relação de Mário de Andrade com Rodrigo Melo Franco de Andrade. E Mário X Macunaíma surgiu bem antes do valioso livro documental de Calil e Penteado sobre o Departamento Municipal, Eu sou um departamento de cultura (2015).
Sandroni demonstra como o Departamento Municipal de Cultura é todo um contexto no qual emerge a liderança carismática de Mário. Refiro-me, em especial, não apenas à sua própria atuação e envolvimento como, também, sua capacidade de engajar um grupo excepcional no projeto de políticas públicas de cultura ali experimentado. Como diz Lélia Coelho Frota na introdução de 1985 – republicada em Cartas de trabalho: correspondência entre Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade (2023) –, o Departamento Municipal de Cultura foi um Departamento que Mário de Andrade “dirigiu praticamente em sistema livre de colegiado com Paulo Duarte, Sergio Milliet e Rubens Borba de Moraes” (Frota, 2023: 43). E é ali que emerge, como que sintetizado por Sandroni, o ímpeto de Mário em prol da organização consciente dos processos essenciais de manifestação da cultura de uma nacionalidade.
Iluminar essa ideia de organização é uma contribuição valiosa do livro de Carlos Sandroni. Trata-se do esforço de Mário de Andrade de estruturar ações, de gestar uma nova mentalidade, de instituí-la na prática social como que em reação à invertebração do herói trágico Macunaíma que caracterizaria a “brasilidade” tal como diagnosticada pelo próprio Mário (seguindo a bela leitura de Gilda de Mello Souza do romance-rapsódia Macunaíma em O Tupi e o Alaúde, além de uma ótima resenha de Merquior).
Mário de Andrade se deseja um organizador da cultura – racional e “científico” (Sandroni acentua no vocabulário do autor “os alicerces”, “o analítico”). Cultura pensada como um plano de pensamento e ação cheio de conteúdos expressivos que abarcam todas as formas das artes, cujos caminhos de criação, produção e circulação precisam ser conhecidos para se tornarem decisivos e estimulantes na vida pública. É com esse ponto da “organização como um valor em si mesmo” para Mário de Andrade, no qual convergem os capítulos, que o livro se encerra.
Mas, para não dar por encerrada a conversa, fico com uma questão nova proposta por Sandroni na atualização do texto com relação à qual hesito: ao temperar o nacionalismo cultural de Mário de Andrade, não sei se o cosmopolitismo, mesmo situado de Mário como propõe Sandroni, corresponde a uma tradução contemporânea do universalismo de Mário de Andrade. Penso no universalismo na acepção de Jardim – ao menos como a apreendo – em que o país se movimenta em meio a um mundo feito de Estados-nações, em uma relação pensada como a de partes englobadas pelo todo. Partes que se interinfluenciam, partes singulares, mas que preservam dimensões universalizantes, como o folclore em si singular e universalizante. Mas isso bem pode ficar para futuras conversas.
Em Eu sou trezentos (2015), Eduardo Jardim desenhou de modo lúcido uma inteireza na obra de Mário de Andrade que não abole tensões e contradições. Acho que Mário contra Macunaíma indica também fios de Ariadne nessa direção no cipoal brabo do autor. Não é, como bem diz Sandroni, uma busca do “verdadeiro” e obviamente inacessível, posto que inexistente, Mário de Andrade, mas de lidar com conexões e articulações que permitem considerar aspectos muitas vezes contraditórios e ambivalentes com a largueza de uma inteireza que não almeja completude. Parabéns, Carlos, pelo belo livro e sua bem-vinda reedição!
Nota [N.E.]
[1] Comentário realizado no lançamento do livro, em novembro de 2024, na presença do autor e na companhia de Eduardo Jardim.
