Desassossegos | Coluna de Alcida Rita Ramos

Alcida Rita Ramos (UnB) recebe hoje em sua Coluna Desassossegos o professor e amigo Luis Cayón (UnB) para refletir sobre uma dimensão visceral da prática antropológica: a etnopatia. Por meio de um relato sobre encontros e reencontros com o povo Makuna, aprendemos que picadas de insetos, caminhadas extenuantes e refeições desconfortáveis são apenas o início de um processo transformador, e que as relações construídas em campo podem reverberar longamente na vida e no pensamento dos antropólogos. Com a sensibilidade de quem rememora, Cayón demonstra como a etnografia não apenas revela um novo mundo, mas também o inscreve no próprio ser.

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Etnopatia

Por Alcida Rita Ramos (UnB) &

Luis Cayón (UnB)

Se pensarmos em simpatia à moda grega (syn, “junto” + pathos, “sentimento”), podemos também pensar em etnopatia à nossa moda (ethnos, “raça, cultura, povo” + pathos, “sentimento”). Propõe a aproximação visceral que toma de assalto etnógrafos com experiência de pesquisas de campo de longa duração junto a um determinado povo, especialmente, indígena. As agruras físicas e psicológicas que nos atormentam são mais do que recompensadas pela transformação que trazem ao nosso ser. O mundo nunca mais será o mesmo. O novo mundo que esse rito de passagem profissional engendra faz-se com suor e lágrimas provocados por mil desconfortos: picadas de insetos; infecções na pele; desarranjos digestivos; horas a fio em posições desconfortáveis; cachoeiras perigosas; tempestades arrepiantes; extenuantes caminhadas e intermináveis viagens rio abaixo, rio acima; não raro uma fome desesperada ou o desafio de engolir a contragosto manjares estranhos que nos paralisam os sentidos; sanitários a céu aberto no mato nos expondo às intempéries ou a alguma peçonha rastejante; intempestivos medos atávicos; a inicial incompreensão quase absoluta de língua e contexto; dias inteiros em silêncio com o ruído ensurdecedor dos próprios pensamentos.

Assim nos conta um antropólogo sobre a sua fase de aprendiz de etnógrafo. É o colega, amigo e co-pensador de ideias nada fixas, Luis Cayón, de quem ouvi um dos relatos mais pungentes e que melhor explicam o que é etnopatia.

Com a palavra, Luis Cayón

Essa iniciação produz, como disse o poeta uruguaio Mario Benedetti, uma “soledad tan concurrida que puedo organizarla como una procesión: por colores, tamaños y promesas, por época, por tacto y por sabor” (em Rostro de vos, 1993). Paradoxalmente, todas essas dificuldades, e muitas outras, tornam-se o centro do que contamos em casa a quem nos pergunta sobre o trabalho de campo. Tornam-se uma espécie de vaidosas façanhas de aventureiro que usamos para fisgar uma plateia que, com certeza, nunca passou por algo semelhante, e quase nunca aparecem nos nossos textos acadêmicos.

Com o passar do tempo e novas idas a campo, tudo aquilo perde o estranhamento inicial e nos damos conta que, afinal, são apenas parte dos ossos do ofício. A essas alturas, já entendemos alguma coisa do mundo indígena e começamos a perceber como fomos transformados pela experiência do convívio e pelo que nos ensinaram nossos mestres da floresta.

Cheguei a primeira vez aos Makuna do rio Apaporis, na Amazônia colombiana, quando tinha 22 anos e, anos mais tarde, pesquisei o grupo do rio Pirá Paraná. Conheci boa parte de suas aldeias e malocas ao longo de várias outras viagens a campo e, até hoje, escrevo sobre diversos temas do seu mundo. Creio que consegui entender algumas coisas importantes do seu modo de pensar, embora me pareça cada vez mais incomensurável: ainda me sinto profundamente ignorante. Não há um dia em que não pense nos Makuna e posso dizer, sem sombra de dúvida, que me deram uma âncora na vida, pois a importância dessa conexão para mim é o que tem me mantido firme nas muitas crises que atravessei nos últimos 29 anos. Não é simplesmente pelas inquietações intelectuais que penso neles. É também por algumas coisas que deixaram tatuadas no meu ser. Sobre estas últimas também não escrevemos e é possível que sejam as mais importantes, aquelas que nos transformam. Haverá etnógrafos e etnógrafas que se perguntam sobre o que os indígenas plasmaram em nós?

Suponho que sim. Nesse caso, a resposta mais imediata pode ser o carinho que temos pelos amigos que fizemos, pelas pessoas e pelo território que nos acolheram naquele contexto de vulnerabilidade, que é o trabalho de campo. Sofremos quando perdemos amigos e amigas, nos preocupamos com crises de autoridade, se há caos provocado por feitiçaria ou epidemias, ou se um dos nossos desafetos (porque, sim, eles também existem) tem algum problema sério; nem se fala então quando há agressões de forasteiros. Tudo isso nos envolve em engajamentos e compromissos durante toda a nossa carreira.

Mas há outras dimensões sensíveis. Tenho total clareza que com os Makuna aprendi a prestar atenção aos sonhos, aos sons e outros sinais à minha volta. Se sonho com alguma coisa, fico apreensivo, porque posso ficar gripado; se um pássaro grasna de maneira estranha ou se os ipês não florescem na sequência normal, podem ser sinais de mau agouro. Sei disso, mas, o que ainda me escapa?

Pictogramas de Cerro Azul, Serranía de La Lindosa (Guaviare, Colômbia). Foto de Luis Cayón, 2024

Há uns três anos, participei da banca de defesa de doutorado de Justino Sarmento Rezende, antropólogo tuyuka, formado na Universidade Federal do Amazonas. A tese, agora livro, se intitula: A Festa das Frutas: Uma abordagem antropológica das cerimônias rituais entre os Ʉtãpinopona (Tuyuka) do Alto Rio Negro. Os Tuyuka são muito próximos dos Makuna e, por terem uma história em comum e relações de longa data, são muito semelhantes, mas com pequenas diferenças. A leitura do trabalho me impactou profundamente. Ao arguir, agradeci o convite e então, inexplicavelmente, travei! Passei meia hora à beira do pranto, com a voz embargada, buscando palavras que não vinham, tentando conter o descontrole emocional. Por sorte, a defesa era virtual. Se fosse presencial, certamente, eu teria desmoronado. Um comentário no YouTube dizia algo como “realmente, o professor está muito emocionado”. Tive um pouco de vergonha e passei os dias seguintes tentando entender o que me acontecera. Se eu não compreendia bem os motivos, a plateia muito menos. Talvez imaginassem que eu estava emocionado ao ver se formar mais um doutor indígena, o que, claro, é verdade, mas não é tudo.

Na verdade, eu tentava exprimir o inefável. Mais tarde, Justino e seu orientador Gilton Mendes me convidaram para escrever a apresentação do livro, o que muito me honrou, mas também me ajudou a entender meus sentimentos um pouco melhor, embora não totalmente. Assim, tratei de transmitir algumas das minhas sensações ao ler o texto:

Estou de volta nas malocas dos Makuna, no rio Pirá Paraná. Ouço as melodias dos carriços (flautas de pan) e os cantos dos homens deitados nas redes ninando seus filhos ao pôr do sol. Vejo as mulheres preparando beiju e oferecendo bebida fermentada enquanto os dançarinos enfileirados, com suas acompanhantes, cantam e dançam ao redor dos esteios centrais da casa. Nós, espectadores, vertemos lágrimas involuntárias depois de inalar rapé e amenizarmos seus efeitos com umas colheres de ipadú na boca e fumando cigarros. Meus interlocutores contam histórias, trechos de benzimentos, explicam o ritual enquanto bebemos, uma atrás da outra, cuias de caxiri. A alegria da festa é transbordante. Junto-me aos dançarinos e tento fazer o melhor que posso, mas a plateia explode em gargalhadas com minha imperícia. Não me importo, só paro pelo cansaço acumulado dos dias e noites sem dormir. Ainda assim, estou muito contente e animado. De repente, a saudade. Percebo que não estou lá e sim na minha casa [em Brasília] lendo A Festa das Frutas.

Além de me transportar a muitas memórias especiais dos meus trabalhos de campo, avanço a leitura enquanto a pluma de Justino Sarmento Rezende consegue fazer reverberar na minha mente cantos em tuyuka e tukano que nunca ouvira antes. Continuam explicações muito detalhadas e profundas sobre xamanismo, ritual, vida social e transformações atuais que nunca antes vislumbrara: são verdadeiras revelações! Sinto que estou entendendo algo a mais, mas não é apenas com o intelecto. Estou comovido com os sentimentos à flor da pele. Atordoado, me pergunto: Que poder é esse!?

É verdade que uma das maiores qualidades da literatura é estimular a imaginação e os sentimentos por meio das palavras, mas nunca antes uma leitura tinha me deslocado daquela maneira no tempo e no espaço. As descrições do Justino, realmente, me transportaram para além das memórias e me fizeram reviver e sintetizar numa experiência única muitos dos momentos em que senti felicidade plena no meu trabalho de campo. Embora diferente, me lembrou de uma outra experiência que vivi uma década antes, quando voltei a visitar a casa da minha bisavó, numa pequena vila das verdes terras dos Andes colombianos, onde passava a maior parte das minhas férias, da infância à juventude. Ali, olhando para o céu e os contornos do telhado colonial da casa, compreendi o significado profundo da saudade, palavra inexistente na minha língua materna. De repente, comecei a chorar descontroladamente de alegria misturada com gotinhas de tristeza, rememorando todo o amor e cuidados da Mamá Rosita, os momentos tão felizes que lá passei e a certeza absoluta de que, pelo resto da vida, jamais teria isso de volta. Talvez eu nunca mais viva com os Makuna momentos semelhantes aos que evoquei na leitura e, se sim, quiçá sejam diferentes. Dá, de modo antecipado, saudade!

Pela contemplação estética, o trabalho de Justino me trouxe à consciência quão belo me é o mundo Makuna! Mostrou-me dimensões que eu não conhecia e expandiu meus conhecimentos a coisas que nunca imaginara. Eu já sentia essa beleza há muito tempo no meu interior, mas aflorou com a leitura e ao tentar arguir e elogiar o trabalho no dia da defesa. Na apresentação, escrevi:

A dimensão estética que emerge por meio da linguagem poética usada por Justino Rezende para descrever, explicar e analisar diversos elementos das relações sociais, da vida ritual e das práticas xamânicas é, a meu ver, onde repousa o impactante poder d’A Festa das Frutas. Que antropólogo não indígena poderia imaginar que os cheiros das frutas movem sentimentos [de saudade] dos irmãos pelas irmãs que vivem com seus maridos em outras localidades, e os levam a organizar uma festa? Que o leve toque do vento nas folhas das árvores, os reflexos coloridos e o brilho das delicadas bolhas da fermentação do caxiri são usados nos benzimentos dos kumua (xamãs) para tornar benéfica a bebida consumida pelos participantes dessas festas? Ou, que os rituais de intercâmbio (dabucuris), cujo protótipo é uma festa de oferta de frutas aos cunhados são o modelo ideal da vida social entre os tukano orientais? Ou ainda que a celebração modificada deste tipo de festas em datas do calendário comercial do mundo branco e as mudanças na tecnologia musical introduzidas pelo contato não são uma perda e, sim, uma ampliação dos conhecimentos? Justino nos convida a mergulhar em sutis detalhes da lógica do sensível para nos mostrar com total clareza, por exemplo, que as sensações e os sentidos do gosto e do olfato são fundamentais para a vida social, o ritual e o xamanismo no Alto Rio Negro.

Obviamente, nem todo leitor terá essas sensações com o livro. Mas, para mim, faz muito sentido, porque estou intimamente envolvido e passei mais da metade da minha vida tentando compreender as muitas dimensões daquele mundo. Essa beleza ‒ descobri ‒ é o modo mais visceral de como a alteridade makuna veio a me constituir e é frustrante não poder transmitir isso plenamente numa exposição oral ou num texto escrito. Me encantaria conseguir alcançar esse efeito, mas me faltam as necessárias habilidades literárias e, em especial, poéticas. Acredito não ser o único etnógrafo com essas deficiências. O objetivo da etnografia não é, como afirmou Malinowski, alcançar completamente a mente dos nativos, mas transformar o ser de quem a pratica. Que mais podemos pedir dos indígenas?

Pictogramas de Cerro Azul, Serranía de La Lindosa (Guaviare, Colômbia). Foto de Luis Cayón, 2024

A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere

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