Folhetim I | Silviano Santiago

Temos a alegria de iniciar hoje a publicação de folhetins que vão compor o Caderno 2 de O grande relógio: a que hora o mundo recomeça, obra em andamento de Silviano Santiago publicada pela Editora Nós.

Um dos críticos mais afiados do nosso tempo, Silviano vem promovendo um experimento de leitura que compara Machado de Assis e Marcel Proust, desafiando os fundamentos da literatura comparada eurocêntrica. Como o público leitor já pôde conferir no Caderno 1, O grande relógio se hospeda (para usar um termo caro ao próprio Silviano) na forma “folhetim”, subvertendo a noção de que a obra crítica possa, ela também, ser algo “acabado”.

Neste primeiro folhetim do Caderno 2, Silviano se concentra em um dos romances mais emblemáticos de Machado, Memórias póstumas de Brás Cubas, ou melhor, em certos detalhes da narrativa machadiana, sugerindo que nós, leitores do romancista e do ensaísta, também prestemos atenção a detalhes que nos guiem na percepção das diversas e complexas figuras dramáticas da escrita de si em Machado.

Não perca, na próxima sexta-feira, um novo folhetim!

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Sexo libertário: Felicidade e Protagonismo masculino e feminino

(Um escritor no Brasil monárquico-constitucional e escravocrata)[1]

Por Silviano Santiago

Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, — eu, que valia mais, muito mais do que ele, — e dizia isto a olhar para a ponta do nariz…

Memórias póstumas de Brás Cubas, capítulo 47, “O intruso”, detalhe.

Também tenho consciência de uma segunda objeção: a de que o comportamento sexual é submetido, mais que todos os outros [refere-se aos comportamentos penal e religioso], às regras muito estritas do segredo, da decência e da modéstia, de forma que a sexualidade está ligada, de maneira singular e complexa, por sua vez, à proibição verbal e à obrigação de dizer a verdade, de esconder aquilo que se faz e de decifrar quem se é.

Técnicas de si, Michel Foucault.

Primeiro folhetim

Por que o narrador das memórias póstumas, ao se conscientizar da injustiça que o inferioriza social, política e fidalgamente, tira os olhos do manuscrito e libera o protagonista? De fora da narrativa, por que o protagonista se silencia e dirige o olhar para a ponta do nariz de quem escreve?

O leitor dos romances de Machado de Assis sempre se encanta ao descobrir − em frase ou parágrafo, em página ou em curto capítulo − algum detalhe que, ao fasciná-lo, o instrui. Em movimento de apreensão e compreensão da trama do romance, o leitor para, levanta os olhos da página do livro, reflete um segundo, volta à página, linhas atrás, e picota, com a lâmina afiada dos olhos críticos, o detalhe que o fascina e certamente o instruirá.

O narrador das Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) oferece uma proposta semelhante a todo leitor do romance. Caro leitor, deixe-se instruir por um desses detalhes da narrativa que, por percepção intuitiva sua, o fascinou e, por isso, requisitou algum distanciamento seu e reflexão pessoal. Esse narrador, ao apresentar a si na condição de leitor, se distancia da página que escreve para ler Shakespeare.

Nas memórias póstumas, a cena de leitura se desenrola no capítulo 12, intitulado “Na Tijuca”. De braços dados com Shakespeare, o narrador Brás Cubas se surpreende no momento em que apreende nas palavras do dramaturgo britânico um significado arredondado em frase que julga explicar a “dor taciturna” que sentiu e que lhe tinha despertado a sensação de “volúpia do aborrecimento”. Ele retira a frase alheia do contexto original, a traduz ao português e a insere no seu manuscrito, oferecendo-lhe outro contexto. Vale-se dela para figurar a sensação singular que sentiu e permanece na memória. Apropria-se do alheio para significar o efeito da “volúpia do aborrecimento”: “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!” (Shakespeare).

Se o narrador retirou as palavras de Shakespeare do contexto e as recontextualizou no capítulo 12 do romance que escreve é porque deseja que emprestem mais peso e sentido, mais valor agregado (para roubar a expressão dos economistas) à sensação particular. Não é o único a expressar com palavras próprias e felizes a “volúpia do aborrecimento”. Shakespeare foi outro e virão muitos outros.

O narrador das memórias póstumas entra em jogo de perde-e-ganha. A sensação íntima ganha fôlego (ânimo ou coragem?) para atingir profundidades pouco imaginadas. No entanto, deixa o leitor do romance a ver navios no horizonte da mais justa compreensão da sensação singular. Ofereceu a ele um equivalente alheio da sensação singular. O motivo ou a causa para dor tão intensa e definitiva, talvez com equivalente em poemas sobre o “ennui” em Charles Baudelaire, não recebe esclarecimento maior da narrativa.

Sem demora, o narrador e leitor de Shakespeare se dá conta de que não é bom deixar o seu próprio leitor sem o significado quase hermético da singularidade da sua intimidade carreada pela expressão volúpia do aborrecimento. E puxa conversa com ele – ou seja, comigo, ou seja, com qualquer um que demonstre curiosidade sentimental ou intelectual ao ler as memórias póstumas.

Ele se dirige ao leitor: Se você não apreendeu bem o significado da expressão pessoal de que me vali inicialmente, conclua que “ignora uma das sensações mais sutis desse mundo e desses tempos”. A volúpia do aborrecimento é uma sensação íntima que, ao ser criada na escrita de si do Brás Cubas, transborda o registro civil, a biblioteca, o mapa e até o século.

Se bem entendo a ignorância expressa por Brás Cubas, ela é parte orgânica e imprescindível da personalidade e da sensibilidade de quem se propõe a ler a ficção em escrita de si, as memórias póstumas, por exemplo. O narrador trata a ignorância diretamente com o seu leitor, a fim de que a Vida a desenrolar na escrita de si seja frutífera e proveitosa a todo e qualquer que tenha o romance nas mãos. E no conselho (ou puxão de orelha?) que dá ao leitor, o Brás Cubas não dispensa os verbos no modo imperativo:

[…] decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a.

Em reforço ao alerta do Brás Cubas, este leitor lembra um poeta contemporâneo seu e amigo que, no poema “Guardar”, toma atitude semelhante à do Brás Cubas. Sugiro, portanto, a quem me acompanha na leitura que levante os olhos desta página e recontextualize o já lido com o poema. Não se arrependerá. Logo descobrirá que o Cicero, bom poeta e filósofo de formação, abandona o modo imperativo machadiano e se exprime pelo infinitivo a caminho de virar substantivo. Poupo o leitor do trabalho extra, oferecendo-lhe estes versos do poema:

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Caso o leitor guarde não em cofre, mas no coração a intimidade sutil de outro, será na intimidade singular do guardado que o leitor deve examinar o sentido de uma expressão alheia, a volúpia do aborrecimento. Por estar ausente do seu já rico e complexo repertório de experiências e de saber, ela o tornará menos ignorante. A experiência maior, a da leitura de obra literária de porte, deve ser sistematizada em diferença, ou seja, por repetição do original e por sucessivos e infinitos deslocamentos de contexto original, explícito ou implícito, por palavras iguais ou semelhantes. Os deslocamentos movem contextualizações originais a se descontextualizarem para se recontextualizarem em outro lugar.

Em processo de aprendizado, de apreensão e compreensão de texto alheio, o leitor suplementará a própria experiência de Vida e o próprio Saber acumulado. No caso, a suplemento se faz pela escrita de si de um romance machadiano. Esse processo de conhecimento é semelhante ao que o narrador das Memórias Póstumas de Brás Cubas vivencia e dramatiza ao se distanciar da página de manuscrito, que escreve, para consultar, se entreter ou simplesmente ler o britânico William Shakespeare. O leitor mal sabe – ou já sabe, astuto que é – que sairá da atividade com o rabo preso pelo Acaso. Toda boa literatura é uma ratoeira. Não é por descuido ou gentileza que se oferece um pedaço de queijo ao rato.

Leitor de escrita de si, eu suplemento a minha própria experiência de vida e de saber com a experiência de leitura que vem dramatizada em outra escrita de si, a de memórias póstumas. Por sucessivos deslocamentos, o movimento no infinitivo do conhecimento se complica (torna-se complexo por dobras, etimologicamente), pois é reflexivo e autorreflexivo. Na verdade, é por um sujeito a se envolver em complicação e por ela se deslocar constantemente do próprio lugar que ele se motiva, se interroga, se fascina e se instrui.

Ao leitor que tropeça de repente na leitura das memórias póstumas, Brás Cubas ofereceu uma lição que não é diferente da que o filósofo René Descartes recomenda ao sujeito moderno, neste caso, um pensador, que queira adquirir condições de participar de processos de entendimento em contexto dado, neste caso, a leitura de um romance, a fim de autoafirmar a própria identidade através de um saber em processo de aquisição por deslocamentos e por dobras de “parcelas”.

Descartes configura o primeiro passo do leitor idealizado por Machado de Assis. Lembro um dos preceitos apresentados no Discurso sobre o método, o segundo deles. O filósofo recomenda a si e ao outro “dividir cada uma das dificuldades que [ele] examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las”. E, em capítulo posterior, esclarece a que resultado ele chega e, se receptivo ao preceito, pode chegar o outro: “se para isso contribuí com algo em meus discursos [sobre o método], deve ter sido por confessar neles mais ingenuamente o que eu ignorava [grifos meus] do que costumam fazer aqueles que estudaram um pouco, e talvez também por mostrar as razões que tinha de duvidar de muitas coisas que os outros consideram certas, do que por me jactar de qualquer doutrina” (tradução de Jacó Ginzburg e Bento Prado Jr.).

Para constituir-me como leitor das Memórias póstumas de Brás Cubas e me autoafirmar como sujeito, tento, em processo de sucessivos deslocamentos, energizar a interpretação da narrativa machadiana a partir de detalhe do capítulo 47, intitulado “O recluso”. Ao ser lido, o escrito me fascinou e me encantou. O detalhe me intrigou a tal ponto que, ao relê-lo, fui-me instruindo o suficiente para apreender e compreender melhor o romance. Foi ao meio do aprendizado que sussurrei ao ouvido: vale a pena sublinhar com lápis ou caneta Bic essa curta passagem do capítulo que lê. Guarde-a no coração e não a perca de vista. Para iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Retirei os olhos da página do romance e, me distanciando passageiramente dela, enxerguei paradoxalmente o todo do romance num detalhe.

Ainda não me dava conta de que, pela força do ímã sentimental, a leitura a ser feita da singularidade da intimidade do Brás Cubas me chegava iluminada e ainda requeria iluminação para ganhar sentido mais profundo e, por isso, me preparei para customizar a minha subjetividade de ensaísta “ignorante” e “ingênuo”, como me recomenda o próprio narrador da escrita de si machadiana ao se apoiar ele, por sua vez, em metodologia clássica da filosofia moderna, para adequá-la à sensibilidade complexa do triângulo amoroso que é figurado no romance.

No texto literário, o triângulo amoroso se abriga debaixo do guarda-chuva do narrador/protagonista, o Brás Cubas, associado ao romancista, Machado de Assis. No detalhe que sublinho do capítulo “O recluso” não estão evidentes o motivo ou a causa que levam o Brás Cubas a desviar – depois de se interrogar a si sobre o papel que ocupa num triângulo amoroso – o olhar da folha de papel com a intenção de focar no rosto de quem escreve o apêndice nasal. O leitor a se customizar dá o primeiro passo dentro da trama, de posse de novos e intrincados guardados.

Assinado por mim, este folhetim tem a intenção de constituir um espécimen de Leitor (que poderá, ou não, se reproduzir em multidão) que adequa a sua múltipla e complexa personalidade e sensibilidade ao gosto – ou ao conselho – das não menos múltiplas e complexas figuras dramáticas da escrita de si assinada por Machado de Assis.

Se o ensaio for convincente o bastante, a partir de agora as duas fortes subjetividades e sensibilidades em transformismo – quem escreve-e-lê, o romancista, e quem lê-e-escreve, o ensaísta – se tornam inseparáveis companheiros em longa (e para alguns, delirante) viagem de núpcias. No altar da palavra artística, a escrita de si de um romancista do Brasil Imperial oferece ao cidadão letrado do novo milênio a possibilidade de um fascinante acasalamento hermenêutico que visa, em última instância, a contrastar em ousada proposta de análise em desconstrução da literatura comparada os cinco últimos romances de Machado de Assis com o clássico de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido.

A escritura e leitura de obras de ficção como forma desconstrutora de formação sentimental de um cidadão se concretiza através do diálogo entre pares que, na maioria das vezes, não são conterrâneos nem contemporâneos. O grande relógio nietzschiano é convocado para forçar o tempo cronológico e evolutivo a entrar em movimento de subtração. Mas antes é preciso colocar o texto de Machado de Assis, em particular o dos últimos cinco romances, em estado de laboratório, é o que faço.

Para não se deixar embalar pelo ritmo da leitura de Machado que repisa a canônica, o leitor customizado das memórias póstumas se acopla a um instigante detalhe lido, sublinhando-o. Ainda por simples empatia, associa-se às três figuras dramáticas autorais que se significam pelos nomes de Machado de Assis (autor) e de Brás Cubas (narrador e protagonista). Os três, mais o leitor-a-se-customizar, adivinham acertadamente (apud Descartes) que é a leitura de detalhe que fará o romance sair robustecido das núpcias inusitadas, recomendada pelo escritor que para de redigir as memórias para ler Shakespeare e para, logo depois, voltar a dar seguimento à escrita de si.

No momento que uma pergunta de caráter introspectivo cala fundo na mente do protagonista Brás Cubas e do seu leitor, os dois olhos de Machado de Assis se somam aos dois do seu leitor a se customizar e os quatro olhos se minimizam, exigindo maior esclarecimento da narrativa, e se agigantam, ousando ir além dos limites da hermenêutica canônica.

A pergunta feita pelo protagonista é introspectiva e é enunciada só por ele, o narrador.

Ela leva os quatro olhos a levantarem em uníssono e a focarem a ponta do nariz. Singular e fascinante, a mímica em cena requer algum esclarecimento sobre a motivação ou sobre a causa. Será a expressão de mero tique? Seu sentido se esgota no tique-taque do relógio de pulso? Simultânea e momentaneamente, o romancista e o ensaísta buscam se instruírem na experiência de Vida humana que se reinventa no branco-e-preto da escrita de si do Brás Cubas, a desenrolar atrevidamente o Brasil Imperial no terceiro milênio.

A epígrafe deste ensaio comporta o detalhe sublinhado e se faz acompanhar de sugestão metodológica pós-moderna de leitura, tal como proposta por Michel Foucault em “técnica de si”. A proposta de Foucault aguarda o seu momento, e agora recito apenas o detalhe guardado:

Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, — eu, que valia mais, muito mais do que ele, — e dizia isto a olhar para a ponta do nariz…

O picote eclipsa – “in nuce” (dentro duma noz, como diz Benedetto Croce num curto tratado de filosofia) – o todo das Memórias póstumas de Brás Cubas. O Brasil Imperial poderia se representar confuncianamente na cabeça de um alfinete? Retomo a pergunta de Roland Barthes quando sai, à semelhança de Vladimir Propp, à procura de modelo analítico passível de recobrir a composição de toda e qualquer narrativa (“Introdução à análise estrutural do récit”). O transformismo por que passam os quatro olhos (relembro: os dois do romancista que escreve-e-lê e os dois do ensaísta que lê-e-escreve) se soma ao objeto em pauta, o detalhe, que oscila entre opostos. Ele é modesto em si e exorbitante no objetivo, e aqui se figura como garantia da produção de leitura original, complexa e ao pé da letra, do grande romance machadiano.

Se aberta com faca só lâmina pelo leitor, a noz da escrita de si oferece uma pergunta autorreflexiva do protagonista que, ao querer ver a si, se fragmenta pela intimidade que se guarda e/ou se resguarda e pela ousadia da imagem pública que anuncia. Fragmenta-se e ativa uma série de questões e de dúvidas já embutidas na narrativa e passíveis de uma primeira revisão da experiência de vida pelo desdobramento introspectivo do sujeito. Na intimidade e na ousadia guardadas, que iluminam e devem ser iluminadas, encerra-se uma ampla e multifacetada avaliação do protagonismo de dois cidadãos, de dois pares, no Brasil, então recentemente emancipado da condição colonial. As questões e as dúvidas (geradas em detalhe que salienta a reserva e a audácia do romancista e mais a ignorância do leitor, dispostos todos a se instruírem, é bom não esquecer) servirão como guia de leitura.

Estão em cena nas memórias póstumas: (1) o Brás Cubas, narrador/protagonista do romance, amante da esposa do Lobo Neves; e (2 e 3) o Lobo Neves e a Virgília, marido e esposa. O casal tem sido bem aquinhoado pelo bom casamento e pela política imperial.

Futuramente, será favorecido por título brasileiro de nobreza. Aparentemente, os futuros marqueses não mantêm às abertas a vida privada de casal bem-sucedido, cuja esposa pula a cerca. O amante se julga “recluso” em casa alheia, talvez seja a boa amizade, ou a cordialidade no trato social, que salvaguarde a aparência escandalosa de triângulo amoroso na sociedade de corte brasileira.

No detalhe, o amante Brás Cubas pergunta a si por que é que, quando em companhia dos Lobo Neves, passa a ter o próprio valor, que é superior ao do marido, subestimado ou inferiorizado. Não seria insuficiente justificar a desclassificação do amante por repisar que ele fora o preterido no casamento? Ao casamento, sabe-se, seguem-se dados sobre a superioridade do marido na vida política e na virtude e no mérito cívicos, qualidades que o inscreveriam como merecedor de título brasileiro de nobreza.

Em romancista que se reserva, que o leitor volte páginas atrás e busque a cena narrada em capítulo anterior, o 43, intitulado “Marquesa, porque eu serei Marquês”. O título explicita a promessa feita e a ser cumprida pelo Lobo Neves: Querida Virgília, se um dia eu for Marquês, e o serei, tu serás Marquesa. Exposta como promessa de noivo em lógica cujo cumprimento é dado a priori (dúvida: quem ou o que garantem o marquesado ao Lobo Neves?), constata-se que o futuro decorre naturalmente de privilégio fidalgo, a ser indubitavelmente concedido ao Lobo Neves por virtudes e méritos, e talvez nunca ao Brás Cubas. Por quê? O privilégio fidalgo (privilégio legal, no futuro da narrativa das memórias, que estabelece a vassalagem entre o titular e o Monarca) alicerça (na possibilidade do presente da narrativa) uma vida cidadã plenamente realizada no Brasil Imperial.

O primeiro passo dos competidores será dado pelo Sim de Lobo Neves em cerimônia de casamento com a Virgília. Ao Brás Cubas coube o Não.

O amor do Brás Cubas por Virgília desaparecerá no cotidiano carioca de belle époque modernizadora?

Ou o amor, em virtude do Não que lhe interdita o pleno exercício dos sentimentos, canalizará transversalmente o amor para assumir o protagonismo ambicionado na intimidade, já sacramentada, da vida sexual e amorosa do casal de futuros marqueses?

No dar as costas ao futuro marquês para fazer sexo com a futura marquesa, nessa brecha atrevida, fidalga e prevista como crime pelas leis vigentes na sociedade de corte brasileira, estaria a semente da invenção pelo romancista do sistematicamente inferiorizado Brás Cubas como narrador/protagonista de romance a ser publicado em 1881, três anos depois de O primo Basílio, de Eça de Queirós, ter sido lançado em Lisboa?

Machado de Assis dá voz e protagonismo ao personagem que não foi “protagonista” e menos ainda “narrador” no romance a que empresta o nome próprio. É mero personagem secundário, como o foi no clássico de Gustave Flaubert. Voltaremos, aguardem.

Por ricochete de ousada transversalidade sexual, resulta ao leitor um futuro e não menos complexo objeto de análise, o protagonismo feminista assumido pela Virgília no Brasil Imperial. Ela recebe do Brás Cubas uma metáfora reveladora, a “moeda de Vespasiano” (capítulo 152). Os dois se tornam participantes no ato sexual e amoroso feito às costas do Lobo Neves, em casa de dona Plácida. A Virgília é ouro, se representa pelo padrão-ouro da moeda de Vespasiano e, na economia política atual, do Corpo e do Sexo, dos sentimentos íntimos femininos. Cito detalhe a ser sublinhado do capítulo 152 e adio para outra série de folhetins a leitura dele:

Virgília traíra o marido, com sinceridade, e agora [quando ele baixa à sepultura] chorava-o com sinceridade. Eis uma combinação difícil que não pude fazer em todo o trajeto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a combinação era possível, e até fácil. Meiga Natura! A taxa da [o tributo arrecadado pela] dor é como a moeda do bem.

Volto ao detalhe já sublinhado. Páginas antes do capítulo 47, que vimos lendo, lá estava, no capítulo 43, o Brás Cubas em competição virtual com o Lobo Neves na sociedade de corte brasileira. Disputam o troféu do marquesado (título superior ao de barão, visconde e conde). Se arrebatado pelo futuro marido da Virgília, e o será, o troféu chegará agregado às demais conquistas do Lobo Neves. O privilégio legal concedido pelo Monarca ratifica, pelo título da aristocracia brasileira concedido ao cidadão, o sucesso no casamento e na vida social, na carreira profissional e na política. Não será o futuro amante que prometerá à amada: Querida Virgília, se um dia eu for Marquês, tu serás Marquesa. O Lobo Neves alcança a vitória em jogo de dados armado em trapaça. Releia-se este trecho do capítulo 43:

[…] o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura [a deputado], dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano.


Nota

[1] Dedico esses folhetins ao João Cezar de Castro Rocha, que possibilitou a primeiríssima versão em público dos argumentos aqui desenvolvidos. Realizou-se na Casa de Leitura Dirce Cortês Riedel, aqui homenageada como leitora de Machado de Assis.