Ocupação Mulheres 2025 | Mulheres, diplomacias, ciências: algumas reflexões a partir de Branca de Almeida Fialho e Maria José de Castro Rebello Mendes, por Luciana Vieira

A nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres traz texto de Luciana Vieira (Unicamp) sobre a trajetória de duas mulheres que desafiaram as barreiras de gênero em seus respectivos campos: Branca de Almeida Fialho, fisiologista, educadora e figura central na colaboração científica franco-brasileira do século XX, e Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira brasileira a ingressar na carreira diplomática, em 1918. A reflexão sugere um olhar ampliado sobre a diplomacia científica, destacando o papel dessas mulheres nas redes de saber e nas relações internacionais.

Para saber mais sobre a terceira edição da Ocupação Mulheres BVPS, que este ano teve curadoria de Caroline Tresoldi, Eurídice Figueiredo e Lia Zanotta Machado, clique aqui. Boa leitura!


Mulheres, diplomacias, ciências: algumas reflexões a partir de Branca de Almeida Fialho e Maria José de Castro Rebello Mendes

Por Luciana Vieira (Unicamp)

Diplomacia e ciência são campos sociais historicamente ocupados por homens – em sua maioria brancos, cisgênero, heterossexuais. No Brasil, ambas as áreas passaram por transformações significativas nas últimas décadas, embora nossa sociedade ainda esteja longe de uma efetiva equidade de gênero. Neste texto, proponho uma reflexão sobre a história da diplomacia científica – área do conhecimento que visa compreender as relações entre o universo científico e as relações internacionais – pela perspectiva da participação das mulheres. A reflexão terá como fio condutor a história de duas figuras importantes: Branca de Almeida Fialho (1896-1965), fisiologista, educadora e feminista, protagonista da colaboração científica franco-brasileira da primeira metade do século XX, e Maria José de Castro Rebello Mendes (1891-1936), primeira brasileira a ingressar na carreira diplomática, em 1918.

Nascida a 10 de março de 1896 na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, Branca Ozório de Almeida – seu nome antes do casamento com Henrique Fialho – teve quatro irmãos, Álvaro, Gabriel, Miguel e Nuno. Gabriel se tornou advogado e Nuno, engenheiro. Álvaro e Miguel se tornaram reconhecidos fisiologistas, professores da Faculdade Nacional de Medicina e da Faculdade Nacional de Agricultura e Veterinária, respectivamente. Miguel também atuou na Seção de Fisiologia do Instituto Oswaldo Cruz. Branca estudou no Colégio Jacobina e também se tornou fisiologista. Quando a família Ozório de Almeida morava em uma casa no bairro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, Álvaro e Miguel construíram um laboratório no porão. Em 1915, com a mudança da família para uma casa na região do Largo do Machado, os irmãos organizaram um laboratório ainda melhor, considerado “o primeiro Centro de Fisiologia do Brasil” (Lobo, 2002: 201). Foi neste local que Branca recebeu sua iniciação no universo das ciências (Pumar, 2018).

Branca Fialho chegou a realizar e publicar trabalhos na área de fisiologia. Em 1928, durante uma longa viagem a Paris, frequentou os cursos de fisiologia de Eugène Gley e Henri Piéron no Collège de France. No entanto, diferentemente de seus irmãos, não seguiu na carreira científica, passando a atuar na educação (Souza, 2015). Ao lado de Bertha Lutz, Armanda Álvaro Alberto e outras quatro pessoas, participou da fundação da Associação Brasileira de Educação (ABE), em 1924, alcançando a presidência nos períodos de 1934 a 1935 e 1942 a 1944. Branca Fialho foi protagonista de importantes momentos da educação brasileira. Em 1927, na primeira Conferência Nacional de Educação, organizada pela ABE, a Seção de Ensino Secundário do Departamento do Rio de Janeiro, do qual Fialho era membro, apresentou um projeto de reforma para o ensino secundário nacional. Outro momento importante de sua atuação foi a organização de um Inquérito Pedagógico, ao lado do professor Barbosa de Oliveira, a fim de levantar os problemas do ensino, cujos resultados pudessem embasar futuras reformas. Na década de 1930, Branca Fialho ingressou o movimento em defesa do voto feminino e, em 1952, tornou-se presidente da Federação de Mulheres no Brasil (Lôbo, 2002; Pumar, 2018; Schumaher; Brazil, 2000).

Ao longo da primeira metade do século XX, Branca Fialho também fortaleceu seus contatos com a França, iniciados ainda na infância. Um local importante para seu ingresso nesta rede de colaboração foi o próprio laboratório domiciliar que, além de reconhecido centro de produção de conhecimentos, era ponto de encontro de elites, científicas e econômicas, brasileiras e estrangeiras. Carlos Chagas, Santos Dumont, Marie Curie e, inclusive, Albert Einstein foram algumas das personalidades que visitaram o laboratório (Lôbo, 2002; Pumar, 2018).

Tanto na esfera doméstica quanto na pública, Branca Fialho estabeleceu contato com cientistas interessados na colaboração com a ciência brasileira. Ao lado do irmão Miguel, ela passou a figurar como importante ponto de uma rede de colaboração franco-brasileira constituída em torno do Groupement des Universités et Grandes Écoles de France pour les rélations avec l’Amérique latine (Petitjean, 2001). Fundado em 1907 e encerrado após a Segunda Guerra Mundial, o Groupement tinha o objetivo de trabalhar pelas relações diplomáticas com os países latino-americanos, a partir de atividades científicas e universitárias. O grupo também realizava propaganda cultural da França, a partir da atração de jovens universitários para instituições francesas e do acolhimento a estudantes estrangeiros, além de promover estudos latino-americanos em instituições francesas (Petitjean, 1996). O protagonismo de Branca Fialho nesta rede de cooperação científica, universitária e intelectual fez parte do que compreendemos, hoje, como diplomacia científica. Mesmo sem ter se tornado uma diplomata de carreira, ela e outros agentes contribuíram com a diplomacia de Estado a partir de suas ações.

O ano de 1945 marcou uma nova era de colaboração científica entre o Brasil e a França. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e, principalmente, a desocupação do território francês pelas tropas da Alemanha Nazista (1940-1944), a diplomacia francesa passou a traçar novas estratégias para retomar o prestígio entre os países latino-americanos. Em linhas gerais, a cultura francesa havia perdido espaço entre as elites locais durante a guerra, devido aos esforços da diplomacia cultural estadunidense em tempos de Política de Boa Vizinhança. Uma das ações da França foi a organização, em 1945, de uma missão chefiada pelo médico Joseph Louis Pasteur Vallery-Radot, neto de Louis Pasteur, enviada a diferentes países da América do Sul com o objetivo de realizar um diagnóstico da presença cultural francesa. No Brasil, a comitiva se encontrou com diversos intelectuais, dentre os quais, Branca de Almeida Fialho (Suppo, 1999).

Observando o histórico de colaboração de Fialho com a França, não é de se estranhar que ela tenha sido uma das intelectuais consultadas pela missão Pasteur Vallery-Radot. Em uma pesquisa em curso, chamou minha atenção que uma das propostas feitas por ela ao grupo francês foi a criação de um foyer d’accueil para estudantes e bolsistas brasileiros em Paris[1]. De fato, desde o início do século XX, o Brasil acompanhou de perto a criação da Cidade Internacional Universitária de Paris (CIUP) e o incentivo da França para que nações aliadas construíssem residências para seus pesquisadores, estudantes e artistas. O primeiro projeto de lei para a construção da Casa do Estudante Brasileiro em Paris data de 1926, de autoria do deputado federal por Pernambuco, médico, pesquisador e professor, Antônio Austregésilo Rodrigues de Lima (1876-1960) (Pereira, 2014; Müller, 2023). Austregésilo era entusiasta da diplomacia científica franco-brasileira, muito próximo ao Groupement (Vieira; Figueirôa, 2025). Após a passagem da missão Pasteur Vallery-Radot pelo Brasil, dentre outras ações, foram retomadas as negociações para construção da residência brasileira na CIUP. Finalmente, em 1959, a Maison du Brésil foi inaugurada no campus parisiense, instituição que continua em funcionamento (Pereira, 2014). Em reconhecimento aos seus esforços pela difusão da cultura francesa no Brasil, Branca Fialho foi agraciada pelo governo francês com o título de Chevalier de la Legion d’Honneur e a medalha Au Service de la Pensée Française (Schumaher & Brazil, 2000).

O estudo da atuação de mulheres na diplomacia, conforme observamos na trajetória de Branca Fialho, demanda certo afrouxamento dos limites que separam a atuação oficial de práticas diplomáticas não-oficiais. As mulheres sempre participaram das relações internacionais, sobretudo mulheres de elite, atuando junto a negociações diplomáticas em seus círculos sociais (Aggestam & Towns, 2018). É interessante observar, no entanto, que o Brasil foi a primeira nação a permitir a entrada de mulheres na carreira diplomática (Aggestam & Towns, 2018). Em 1918, foi aberto um concurso para terceiros oficiais da Secretaria de Estado, que se ocupariam do trabalho de gestão no interior do Ministério das Relações Exteriores. Entre os nove inscritos, estava Maria José de Castro Rebello Mendes.

Nascida em Salvador, Bahia, ela era filha da professora Josephina de Castro Rebello Mendes e do advogado Raymundo Mendes Martins (Friaça, 2018). Maria José Mendes recebeu a educação elementar em casa, com a preceptora alemã Mathilde Elisabeth Schroeder, e continuou os estudos no Colégio Alemão, ainda em Salvador. Ao se formar, era fluente em alemão, inglês, francês e italiano. Com o falecimento do pai, em 1910, sua mãe inaugurou uma pequena escola na própria residência, em sociedade com Mathilde Schroeder. Maria José Mendes, por sua vez, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde residiu com familiares (Schumaher & Brazil, 2000).

Na capital, a jovem soube do concurso para terceiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério das Relações Exteriores e decidiu se inscrever. Contou com o apoio de Ruy Barbosa, antigo conhecido de seu pai, que intercedeu junto ao ministro Nilo Peçanha para que sua inscrição fosse aceita. Superado o primeiro obstáculo, a inscrição de Maria José Mendes ao concurso do Itamaraty despertou curiosidade – e diversas matérias de cunho sexista – da imprensa. Dentre as preocupações noticiadas, figurava a ideia de que essa ascensão profissional poderia provocar uma espécie de “inversão de papéis” entre homens e mulheres. Iniciado o concurso, Maria José Mendes obteve as melhores notas em quase todas as etapas, o que lhe permitiu alcançar a primeira colocação. A nova diplomata iniciou o trabalho em outubro de 1918 e, das 235 pessoas que ocupavam as diferentes posições na carreira diplomática brasileira naquele momento, ela era a única mulher. Ao longo de sua carreira, enfrentou diferentes desafios e, por vezes, teve de reivindicar seus direitos, como quando requereu a licença-maternidade remunerada, em 1924 (Friaça, 2018).

As trajetórias de Branca de Almeida Fialho e Maria José Mendes se diferem em diversos aspectos. Membro de uma família de elite, francófila, cuja residência era ponto de encontro de membros de elites científicas e econômicas do Brasil e do exterior, Branca Fialho se tornou personalidade reconhecida pelo governo francês. Seu contato com membros do Groupement, bem como a atuação na fisiologia e na educação, foram fundamentais para a manutenção de sua rede de cooperação internacional (Lôbo, 2002; Pumar, 2018; Petitjean, 2001). Maria José Mendes, por sua vez, acessou a diplomacia por vias oficiais, ao decidir ingressar no funcionalismo público junto ao Itamaraty. Seu pioneirismo, no entanto, lhe custou inúmeros ataques sexistas e desafios diversos, incluindo a necessidade de criação de um banheiro exclusivo para mulheres no Itamaraty (Friaça, 2018).

Suas trajetórias, embora diferentes, suscitam algumas reflexões comuns a respeito da atuação das mulheres na diplomacia de carreira e na diplomacia científica não-oficial. Quando pensamos na materialidade dos processos de circulação transnacional – de conhecimentos, objetos e pessoas – é relevante problematizar os contextos sociais, culturais e históricos a que pertencem os agentes em circulação. Afinal, os processos de mundialização afetam homens e mulheres de formas diferentes (Hirata, 2005). No caso da diplomacia, corpos são colocados em movimento, tanto para o atravessamento de fronteiras quanto para a representação de uma nação perante as outras. Neste sentido, é importante questionarmos quais os corpos ideais e o sujeito universal imaginado para estar em movimento: homens brancos, heterossexuais e cisgênero (Shepherd, 2010). Aos corpos não universais, sejam eles de mulheres brancas, cisgênero, de elite ou, mais ainda, de identidades de gênero ou orientações sexuais dissidentes, ainda sobram obstáculos a serem superados. O estudo histórico das trajetórias de mulheres na diplomacia e na cooperação científica internacional, no entanto, nos ajuda a conhecer formas de subversão aos obstáculos impostos e estratégias para que diferentes corpos sejam colocados em movimento. Atuar pela representação de países, atravessar fronteiras, trabalhar pela cooperação científica internacional: é preciso pensar a diversidade em todos os espaços – e no trânsito entre os diferentes espaços.


Nota

[1] A informação pode ser localizada junto aos documentos da Missão Pasteur Vallery-Radot, no Centre des Archives Diplomatiques de La Courneuve, em Paris (238QO/147). Estou analisando o papel de Branca Fialho na idealização da Maison du Brésil de Paris em um artigo ainda em desenvolvimento, em coautoria com Silvia Figueirôa. O trabalho faz parte de meu pós-doutorado, desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo FAPESP 2022/03004-6 e 2020/09986-0). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

Referências

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HIRATA, Helena (2005). Femmes et mondialisation. In: MARUANI, Margaret (org.). Femmes, genre et sociétés: l’état des savoirs. Paris: La Découverte.

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MÜLLER, Angélica (2023). The Maison du Brésil at the Cité Internationale Universitaire de Paris: a Project Towards National Development and Internationalism. Espacio, Tiempo y Educación, v. 10, n. 1, p. 95-114.

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PETITJEAN, Patrick (2001). Miguel, Paul, Henri et les autres. In: VIDEIRA, Antônio Augusto Passos & SALINAS, Silvio Roberto de Azevedo (orgs.). A cultura da física: contribuições em homenagem a Amelia Imperio Hamburger. São Paulo: Livraria da Física, p. 59-94.

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SCHUMAHER, Schuma & BRAZIL, Érico Vital (org.). Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

SHEPHERD, Laura J. (2010). Sex or Gender? Bodies in World Politics and Why Gender Matters. In: SHEPHERD, Laura J. (org.). Gender Matters in Global Politics: a feminist introduction to international relations. London; New York: Routledge, p. 3-16.

SOUZA, Letícia Pumar Alves de Souza (2015). A ciência e seus fins: internacionalismo, universalismo e autonomia na trajetória do fisiologista Miguel Ozório de Almeida (1890-1953). Tese de doutorado. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde. Casa de Oswaldo Cruz – FIOCRUZ.

SUPPO, Hugo (1999). La Politique Culturelle Française au Brésil Entre les Années 1920-1950. Tese de doutorado. Paris: Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine, Université Paris III – Sorbonne Nouvelle, 1999.

VIEIRA, Luciana & FIGUEIRÔA, Silvia Fernanda de Mendonça (2025). A “highly patriotic” project or a scientific-diplomatic object: Antônio Austregésilo Rodrigues de Lima and the idea of a Brazilian Student House in Paris in the interwar period. Revue d’Histoire des Sciences, no prelo.

Sobre a autora

Luciana Vieira é pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Estadual de Campinas e bolsista da FAPESP. Ao lado de Silvia Figueirôa, está publicando o artigo “A ‘highly patriotic’ project or a scientific-diplomatic object: Antônio Austregésilo Rodrigues de Lima and the idea of a Brazilian Student House in Paris in the interwar period” na Revue d’Histoire des Sciences, previsto para o segundo semestre de 2025.