
Encerramos a Ocupação Mulheres de 2025 com um post muito especial, trazendo um pequeno dossiê sobre a cerimônia de entrega do título de Professora Emérita da Universidade Estadual de Campinas a Elide Rugai Bastos, realizada na última quarta-feira, 12 de março, no IFCH/Unicamp. A outorga desse título reconhece a trajetória acadêmica exemplar e as contribuições fundamentais de Elide Rugai Bastos para a sociologia no Brasil, com pesquisas incontornáveis sobre a questão agrária, o Nordeste e o pensamento social brasileiro. Com quase 40 anos dedicados à Unicamp, Elide foi peça-chave na consolidação do IFCH e na formação de gerações de sociólogos e sociólogas, entre os quais o grupo responsável pela BVPS.
Seu discurso potente, que temos a honra de publicar hoje, é um exemplo de seu compromisso incansável com a sociologia no Brasil, como, inclusive, reconheceu a Sociedade Brasileira de Sociologia que a saudou esta semana com uma nota especial, que também reproduzimos aqui. Publicamos ainda as falas proferidas durante a cerimônia de emerência por Mariana Chaguri, representando o Departamento de Sociologia da Unicamp, e Andréia Galvão, Diretora do IFCH/Unicamp. Reveja ainda textos de autoria da homenageada e sobre ela publicados na BVPS.
Com este post, a BVPS celebra o título de Elide, a inspiração de todos nós.
Cerimônia de emerência de Elide Rugai Bastos | 12 de março de 2025

A Sociologia no Brasil
Por Elide Rugai Bastos (Unicamp)
Agradeço à Reitoria, à Diretoria do IFCH e à Coordenação do Departamento de Sociologia pela atribuição do título de professora emérita, o qual muito me honra. Agradeço ao público formado por colegas, amigos, alunos e funcionários, tanto aos que estão aqui presentes quanto àqueles que acompanham a transmissão online desta sessão. Agradeço às palavras da professora Mariana Chaguri, que atribuo à sua generosidade e amizade. A partir de suas considerações, reforço a importância que a docência, as pesquisas e as orientações que pude realizar no Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp tiveram em minha vida intelectual e profissional.
A convivência com professores, funcionários e alunos, marcada pelo respeito, pela liberdade e pelo compromisso com o aprendizado, foi fundamental para o desenvolvimento dessas atividades. Ressalto o lugar especial dos colegas do Departamento de Sociologia, com os quais desenvolvi pesquisas, atuei em disciplinas nos cursos de graduação e pós-graduação, participei de convênios e escrevi textos. Além disso, eles me apoiaram em atividades que desenvolvi na CAPES, no CNPq, na ANPOCS e na FAPESP, assim como em universidades brasileiras e estrangeiras, onde ministrei cursos, participei de pesquisas e publiquei trabalhos. Creio que minha liberação de algumas tarefas internas muitas vezes representou uma sobrecarga para eles, e sou grata por sua solidariedade. Porém, mais do que isso, foi no diálogo com esses colegas, na troca de ideias – desenvolvidas a partir de diferentes linhas de investigação que compõem as bases de nosso Programa de Pós-Graduação – que pude continuamente testar meus temas de pesquisa, beneficiando-me das interseções entre essas diversas temáticas. Sem dúvida, essa oportunidade acrescentou novos ângulos aos meus estudos.
Esse diálogo foi extremamente importante, pois a área de Pensamento Social no Brasil, que centraliza minhas preocupações, parte de uma pergunta ampla: o que significa fazer sociologia no Brasil? Acentuo a expressão no Brasil, que não confundo com do Brasil, apoiando-me na tradição representada por Florestan Fernandes. Ele formulou as bases da reflexão sociológica no país, sem se limitar a realizar uma sociologia brasileira, mas inscrevendo sua análise no debate internacional da teoria social. A atualidade dessa posição reside na relevância das questões contemporâneas sobre a distribuição geopolítica desigual de poder no mundo, um problema constantemente presente nas relações entre Oriente e Ocidente, Norte e Sul da terra.
A expressão no Brasil implica considerar o fato de que nos constituímos como uma formação econômico-social localizada na periferia do capitalismo, o que nos conduz a necessidade de explicações diferenciadas daquelas aplicadas às formações capitalistas originárias. Ou seja, como nossa construção não se dá estritamente conforme os modelos clássicos apresentados pela história, confere ao processo uma certa ambiguidade, exigindo do analista um tratamento especial das categorias analíticas. Além disso, essa posição evita a mera transferência mecânica de explicações válidas para as formações metropolitanas, exigindo que sejam repensadas a partir da história brasileira. Sob esse ângulo, evidencia-se a importância de fazer sociologia no Brasil. Em outros termos, podemos alcançar, em nossos estudos, posições originais, sem perder de vista nem a conjuntura mundial nem as inovações teóricas.
Esse método não nega os principais aspectos do capitalismo constitutivo da sociedade brasileira, pois opera com a mesma relação entre totalidade e história que serve de fundamento às formações originárias. E permite demonstrar que sociedades que se afastam do modelo hegemônico tornam-se, elas próprias, um problema teórico para as ciências sociais. Assim, as explicações válidas para as formações sociais metropolitanas nem sempre se aplicam de maneira automática às condições específicas das formações situadas na periferia do capitalismo. Por essa razão, é necessária uma investigação intensiva e cuidadosa para possibilitar a ampliação da aplicação da teoria às formações econômico-sociais periféricas. Essa posição pode abrir um novo espaço de diálogo com as reflexões das ciências sociais.
Lembrando as apresentações feitas pelos professores Marcelo Ridenti, Michel Nicolau e Fábio Mascaro Querido na mesa de ontem, que discutiu o Programa de Pós-Graduação em Sociologia, esse método pressupõe a abordagem conjunta de teoria e empiria, ao mesmo tempo em que reconhece fronteiras compartilhadas com outras áreas das humanidades. Esse é também o caso da colaboração entre as quatro linhas de pesquisa do Programa.
Voltando à abordagem do Pensamento Social, as pesquisas, a docência e a orientação sempre estiveram marcadas pela preocupação fundamental com a análise das desigualdades sociais no Brasil, decorrentes da já mencionada situação periférica do país. Esse foco inclui a investigação das causas e consequências da pobreza, da discriminação, da marginalização e da exclusão social.
Usando a excelente expressão da socióloga Nísia Trindade Lima, que participou ativamente das atividades de nosso programa e linha de pesquisa, trata-se de pensar no Brasil que falta, no Brasil que falta a grande parte da população brasileira.
Além de serem evidentes a olho nu, as disparidades de renda, educação, saúde e oportunidades de trabalho têm sido amplamente demonstradas por estudos sociológicos, proporcionando uma base sólida para a elaboração de políticas públicas voltadas à redução dessas desigualdades.
A análise dessa realidade e a questão da não igualdade, que mais do que em outros momentos tem se colocado no debate internacional das ciências humanas, podem, no Brasil, abrir espaço para uma nova perspectiva sociológica, além daquela, sem dúvida muito importante, do estudo das situações concretas e específicas de cada questão: trabalho, cultura, ambiente, gênero, raça, para citar algumas.
Um outro ângulo analítico se abre à sociologia ao encarar a dinâmica histórica desse processo, isto é, ao investigar os mecanismos que perpetuam a reprodução da desigualdade. Os sociólogos, em geral, privilegiam a análise dos processos em vez de se deterem na institucionalização, mas procuramos trabalhar com a combinação desses dois elementos, uma vez que a institucionalização é, em última instância, efeito da dinâmica da sociedade. Costumamos recorrer à categoria processo justamente para recusar a ideia de linearidade na análise das transformações da sociedade — passadas, presentes ou futuras.
Dessa perspectiva, ou seja, ao retomar os processos que repõem a desigualdade, e referindo-me especialmente aos objetivos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, que completa cinquenta anos de existência, busca-se retomar a história da formação da sociedade brasileira. De um lado, procura-se compreender sua estrutura social; de outro, examinam-se as possibilidades de agência dos diferentes atores, em especial daqueles excluídos da definição, atuação e participação nos rumos das mudanças. Essa dificuldade de ação está condicionada pela preservação política, social, econômica e cultural da estrutura vigente, além do interesse de determinados setores na manutenção do status quo.
Mas, ao mesmo tempo em que o recurso à história se impõe nos estudos sociológicos, o aqui e agora nos motiva, nos estimula, nos mobiliza e, muitas vezes, nos assombra. Essa é a razão pela qual as linhas de pesquisa de nossa Pós-Graduação, estendendo-se às disciplinas da graduação, remetem ao grande tema sociológico: a mudança social – tanto em seu sentido geral quanto em suas manifestações específicas –, considerando as transformações que ocorrem no mundo e, em particular, no Brasil. Chamo a atenção para o fato de que a mudança social se configura como um processo no qual se contrapõem diversas forças sociais, tendo como elemento importante a distribuição desigual de poder na sociedade brasileira, embora essa questão seja ainda mais ampla. Por isso, no Brasil, vivenciamos períodos de autoritarismo explícito ou implícito, nos quais se observa a monopolização dos efeitos construtivos da mudança social pelas elites no poder, resultando em uma cidadania restrita para grande parte da população. Desse modo, perguntamos sempre: quem se beneficia dos efeitos positivos da mudança? Quem está excluído desses benefícios?
Sabemos que, em uma sociedade dependente, localizada na periferia do capitalismo, existem fortes obstáculos que limitam o processo de mudança social. Isso ocorre porque a dinâmica necessária para que as transformações ocorram de forma democrática exige igualdade de condições de competição para toda a base da sociedade. Por isso, dedicamos nossos esforços à análise das formas de ação que buscam superar esses entraves, com especial atenção às mobilizações sociais e às reivindicações voltadas para a redução das desigualdades. Esse é um tema central em nossas pesquisas, pois é a partir dessas formas de agência que emergem novos atores sociais.
Trata-se de um aspecto essencial para o debate sobre modernização, um tema recorrente nas reflexões sobre a sociedade brasileira, mas que, no Brasil, assume características particulares, uma vez que o Estado, em diversos momentos, se coloca como o principal agente desse processo. Podemos citar como exemplo o final dos anos 1950 e o início dos anos 1960, bem como o período compreendido entre 1964 e 1985, em que o Estado desempenhou esse papel sob o argumento da prevalência dos interesses gerais da sociedade – desconsiderando, no entanto, a existência de interesses conflitantes. Esse tipo de postura busca desqualificar novos atores sociais que reivindicam participação na definição das mudanças. No limite, a monopolização das mudanças sociais torna-se uma forma de legitimação da censura, retirando dos grupos subalternos seu lugar de fala.
Mais do que esse aspecto, vemos uma clara intenção de ocultação dos conflitos, ou mesmo a denúncia da desordem social quando se aponta a existência de interesses divergentes. A sociologia enfrenta esse desafio ao demonstrar a legitimidade do conflito como um dos passos essenciais para a construção de uma sociedade democrática. No entanto, essa não é uma tarefa fácil, mesmo porque a sociologia se apresenta, ainda que não intencionalmente, como forma de consciência da sociedade – sendo, por vezes, vista como incômoda, arrogante ou até mesmo promotora da desorganização e da desordem. Conhecemos bem a repressão que essa visão já provocou. Não quero me alongar e estou concluindo.
São esses dilemas e desafios que temos enfrentado ao longo do meio século de existência do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, em suas diversas linhas de pesquisa. Sinto-me honrada em participar, agora como convidada, da continuidade desse percurso. Os alunos titulados pelo Programa estão espalhados por inúmeras instituições, no Brasil e no exterior. Orgulhamo-nos ao ler seus trabalhos, acompanhar sua atuação na produção de artigos, livros e relatórios de pesquisa, bem como na formação de novos pesquisadores e na assessoria a entidades voltadas para políticas sociais, entre tantas outras atividades. Junto aos novos alunos, eles são parte fundamental de nossa trajetória profissional e intelectual.
Obrigada.

Fala de Mariana Chaguri (Departamento de Sociologia/ Unicamp)
Boa tarde! Gostaria de começar saudando nosso reitor, professor Tom Zé. Também gostaria de saudar a professora Andréia Galvão, diretora do IFCH, em nome de quem também saúdo os servidores técnicos administrativos e os estudantes de nosso Instituto que tão prontamente se engajaram na preparação desta cerimônia. Também cumprimento todas as pessoas que estão conosco aqui, presencial ou virtualmente.
Coube a mim a honra de ser a madrinha de Elide nesta cerimônia. Estou muito feliz, mas também muito nervosa.
Este é um momento muito bonito e importante para o Departamento de Sociologia e para o Programa de Pós-Graduação Sociologia da Unicamp – que celebrou seus 50 anos nesta semana e que tem em Elide uma figura fundamental para a consolidação de sua excelência.
Elide foi minha orientadora – ou melhor é minha orientadora, pois como ela me disse desde o nosso primeiro dia de trabalho “orientadora é para sempre, não existe ex-orientadora”. Elide é minha orientadora há mais de 20 anos, desde minha Iniciação Científica.
Justamente por isso gostaria de iniciar esta fala expandindo o léxico do parentesco que a posição de madrinha me permite neste momento.
Na preparação desta cerimônia, descobrimos nos dados da plataforma acácia que Elide formou 6 gerações de pesquisadores, que somam mais de 1.100 estudantes de graduação e de pós-graduação. Alguns deles estão aqui neste auditório e tantos outros nos acompanham no YouTube.
Ao longo de seis décadas de atuação profissional, Elide nos tornou – seus orientandandos e orientandadas – parte de uma mesma comunidade ou de uma mesma parentela. Creio que posso pedir licença para falar também por meus colegas neste momento, e dizer que Elide nos ensinou que a Sociologia é uma prática cotidiana e exigente – exigente porque nos demanda o melhor de nossas capacidades de observação e de escuta. Exigente, ainda, porque nos demanda horas e horas de leitura – e releitura – e de escrita – e reescrita. Elide também foi generosa ao nos ensinar que a vida acadêmica tem uma temporalidade lenta, que ela é feita a partir de espaços muito diferentes entre si, na interação com pessoas as mais diversas e que são inúmeros os desafios que a vida acadêmica nos apresenta.
Sobretudo, Elide nos ensinou a ter coragem: coragem para experimentar no campo teórico e metodológico; coragem para explorar as mais diversas empirias do mundo social; e coragem para inventar os mais diversos espaços intelectuais e institucionais. Ao nos ensinar a sermos corajosos, Elide também nos ensinou que gentileza, generosidade e ética são imperativos da vida acadêmica.
Também foi com Elide que não apenas nós – seus orientandos e orientandas –, mas a Sociologia brasileira pode apreender mais sobre sua história, seus dilemas e seus desafios. Sempre convidando seus alunos, seus colegas, seus leitores a questionar mais, a pensar melhor e, sobretudo, a ter coragem diante dos limites – mas também das possibilidades – de fazer Sociologia na periferia do capitalismo.
Volto ao tema da coragem, que Elide abordou numa fala de 2022 sugestivamente intitulada “A Sociologia como coragem” [publicada no Blog da BVPS]. Coragem foi a tônica de sua trajetória, desde o início de sua atuação como docente na PUC-SP, ainda na década de 1960, um período marcado pelos arbítrios da ditadura civil-militar e, também, pela luta pela redemocratização do país – horizonte político e cultural que atravessa sua trajetória intelectual.
Coragem é também o que está na base da contribuição teórica e metodológica original que Elide legou para a Sociologia brasileira, justamente ao demonstrar – em diferentes trabalhos – que as ideias são forças sociais e estão enraizadas nos conflitos políticos, sociais e culturais.
Para demonstrar a reflexividade das ideias, Elide fez também mais uma escolha corajosa: selecionou e dedicou-se a explorar os enraizamentos do pensamento conservador no Brasil, bem como a investigar sua permanente atualização. Neste movimento, Elide tornou-se uma das primeiras intelectuais brasileiras a oferecer uma visão sistemática sobre o autoritarismo como fenômeno social e sociológico no país.
A obra de Elide é exemplar na demonstração do importante acúmulo teórico feito a partir do pensamento social e que nos ajuda a avançar debates fundamentais para a sociedade brasileira, tais como como a problemática da emancipação, dos limites à liberdade, da definição da dignidade como projeto social, para citar alguns exemplos.
Ao longo de sua intensa atividade profissional, Elide tem nos ajudado a investigar quantos Brasil(s) já foram inventados e, obviamente, quantos ainda estão por serem imaginados.
Para encerrar minha fala, gostaria de destacar um último ponto. O talento inigualável de Elide para unir capacidade intelectual e capacidade didática, transformando sua sala de aula num espaço sempre vivo, criativo e rigoroso. Me permito contar uma história que, creio, ajuda a demonstrar a invencível aposta desta professora no potencial da universidade pública. Durante a pandemia da Covid-19, Elide sempre me ligava para perguntar sobre como eu estava me saindo com as aulas remotas, mas me perguntava especialmente sobre os estudantes e sobre como eles acompanham as aulas e se saiam nas atividades. Quando a retomada presencial das aulas na Unicamp foi anunciada para março de 2022, Elide novamente me telefonou e foi muito categórica: “vamos dar aula semestre que vem, Mariana”. Eu obedeci, claro.
Encerro aqui, com essa pequena história que, creio, é exemplar de uma das mais preciosas lições de Elide: a Universidade é uma construção e um compromisso permanente e sempre há muito a ser feito. Mas, o segredo, ela também nos ensinou, é que o muito que fazemos só tem sentido quando corajosamente fazemos na companhia um dos outros.
Fala de Andréia Galvão (Diretora do IFCH/Unicamp)
Boa tarde a todas e todos,
Inicio minha fala cumprimentando os integrantes desta mesa, a começar por nossa querida homenageada, professora Elide Rugai Bastos, nosso reitor, professor Tom Zé, a coordenadora geral da universidade, professora Maria Luiza Moretti, e a professora Mariana Chaguri, pelas belas e sensíveis palavras que acaba de proferir. Estendo os cumprimentos aos colegas que integram o Conselho Universitário, bem como ao público que nos acompanha, presencialmente e à distância. É uma honra e uma alegria participar dessa cerimônia e receber todos vocês aqui no IFCH, que tem sido a casa da professora Elide desde 1989, portanto, uma casa que ela vem ajudando a construir e a cuidar de forma incansável há quase 40 anos.
Gostaria de registrar meus agradecimentos ao Departamento de Sociologia, que tomou a iniciativa para esta merecida homenagem, e aos professores Mariana Chaguri, Mário Medeiros e Marcelo Ridenti, bem como à comissão de especialistas composta pelos professores Renato Ortiz, Josefa Cavalcanti e Lilia Schwarcz, pelos pareceres que possibilitaram à congregação do IFCH e ao Conselho Universitário conhecer um pouco mais da brilhante trajetória de nossa Elide, que hoje recebe o título de professora emérita da Unicamp.
Elide é uma grande referência para todos nós, não só para o departamento de Sociologia ou para o IFCH, mas para as Ciências Sociais, no Brasil e na América Latina. Foi uma das principais responsáveis pela construção e consolidação pensamento social brasileiro como campo de estudos, tendo sido pioneira em diversas frentes e agendas de pesquisa, trazendo também uma imensa contribuição ao campo dos estudos rurais.
Infelizmente não tive a oportunidade de ser sua aluna, mas pude ler e aprender com seus textos, que muito impressionam por serem marcados, a um só tempo, pelo engajamento, pela erudição, pelo rigor teórico-metodológico e pela recusa de dicotomias simplificadoras como aquelas que, por muito tempo, opuseram o arcaico ao moderno, o rural ao urbano. Essas qualidades estão presentes desde sua dissertação de mestrado sobre as Ligas Camponesas, um dos mais importantes movimentos sociais do Brasil pré-1964, que deu origem a um livro primoroso e de uma atualidade impressionante, uma vez que a questão fundiária jamais foi enfrentada em nosso país. Muitos anos depois, “a atualidade do rural como chave interpretativa do Brasil” seria ressaltada em artigo co-escrito justamente com Mariana Chaguri, artigo ao qual eu me refiro para também registrar esse duplo movimento de transmissão de legado e partilha intelectual que a caracterizam tão bem. Aliás, é muito simbólico e especial que Elide tenha escolhido sua ex-orientanda como madrinha!
Como já mencionado, sua obra é atravessada pela preocupação com as desigualdades sociais que marcam nossa sociedade, bem como pela importância da luta por direitos e por justiça social, o que a levou a pesquisar temas tão variados como a questão racial, a mulher na agricultura, os conflitos no campo, o desenvolvimento e a questão nacional. Se esses textos dão lugar de destaque aos movimentos sociais que buscam, não sem contradições, formas de alargar a democracia e conceber estratégias de emancipação, eles também desvendam os mecanismos que limitam essas possibilidades e perpetuam a exploração, a violência, a opressão, o não reconhecimento de direitos, a ausência de cidadania.
A preocupação com as raízes que frutificaram e dominaram o pensamento social e político brasileiro se combinam, ao longo de sua obra, à análise dos atores que os difundem e os mobilizam, e que inspiram novas e velhas formas de ação coletiva, que coexistem no tempo e no espaço. Ao invés de dualismos e linearidades, seus textos insistem na dinâmica entre as permanências e mudanças, os avanços e retrocessos que permeiam os processos sociais, pois, como ela lembra, retomando Florestan Fernandes, e aqui remeto a outro título de artigo, “A história nunca se fecha”. Talvez esse olhar abrangente, atento à heterogeneidade dos atores e às disputas políticas promovidas em diferentes contextos históricos, tenha feito com que Elide seja também (e aqui remeto ao parecer do DS) “uma das primeiras pesquisadoras brasileiras a oferecer uma visão sistemática sobre o conservadorismo brasileiro como fenômeno social e sociológico”, um fenômeno, como sabemos, bastante atual. Elide é intérprete do pensamento social brasileiro e intérprete do Brasil!
Não posso deixar de destacar outra de suas características, a generosidade, ressaltada por todos os que trabalham e convivem de forma próxima com ela. Elide dedicou parte considerável de sua energia a tarefas institucionais, já mencionadas na apresentação de sua trajetória, não se furtando a representar o coletivo e a trabalhar em prol de projetos comuns em diferentes espaços. Sua generosidade se exprime também em sua dedicação à formação de pessoas e em sua disposição para dialogar, sempre de forma gentil e genuinamente interessada, com diferentes gerações de intelectuais. Nem todos os docentes têm a possibilidade de, entre tantos orientandos (no caso dela, foram 26 somente de doutorado), ter dois deles dando sequência a seu legado no mesmo departamento em que ela atuou. Nesse momento em que se comemoram os 50 anos do Programa de Pós-graduação em Sociologia, não me parece exagero dizer que Elide é uma das principais responsáveis não apenas pela criação de uma tradição como também pela abertura de novas perspectivas e possibilidades de inovação.
Por fim, destaco seu compromisso com a produção do conhecimento, com a universidade e, sobretudo, com os estudantes. Esse compromisso é visível nas fotos exibidas na homenagem preparada para esta cerimônia. Em todas elas, podemos ver o brilho em seus olhos e o sorriso em seu rosto, mesmo quando coberto por uma máscara para se proteger da Covid-19. Podemos sentir sua alegria, seu prazer de ensinar, testemunhar o cuidado com que você continuava a preparar suas aulas tantos anos depois de aposentada. Parabéns, professora Elide Rugai Bastos, você é um exemplo e uma inspiração. Ter seu nome como professora emérita é uma honra para o IFCH e para Unicamp!
Nota da Sociedade Brasileira de Sociologia (retirada daqui)
A Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) saúda com grande reconhecimento e admiração a outorga do título de Professora Emérita da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) à socióloga Elide Rugai Bastos. Trata-se de uma justa homenagem a uma intelectual cuja trajetória acadêmica e dedicação ao ensino e à pesquisa marcaram profundamente a sociologia brasileira.
Ao longo de sua carreira, Elide Rugai Bastos consolidou-se como uma das principais referências nos estudos sobre pensamento social no Brasil, oferecendo análises inovadoras sobre os caminhos da modernização e as transformações da sociedade brasileira. Sua obra é um marco para a compreensão das dinâmicas políticas e intelectuais do país, contribuindo para a formação de gerações de sociólogos e pesquisadores. Seu trabalho como docente, sua produção intelectual e sua atuação institucional são exemplos de dedicação à construção e ao aprimoramento da reflexão crítica no país. Sempre foi a colega generosa e de alta estima, distribuindo estímulos com carinho.
A SBS celebra essa merecida homenagem e reafirma seu reconhecimento à fundamental contribuição da professora Elide Rugai Bastos para a Sociologia brasileira.
Exposição Elide Rugai Bastos no IFCH/Unicamp[*]










Confira aqui alguns textos de Elide e sobre Elide na BVPS
A sociologia como coragem, por Elide Rugai Bastos
A questão racial e a sociologia de Florestan Fernandes, por Elide Rugai Bastos
Henriqueta Lisboa, artesã da palavra, por Elide Rugai Bastos
Questão agrária e o golpe de 1964, por Elide Rugai Bastos e Lucas Carvalho
Prêmio Antonio Flávio Pierucci de Excelência Acadêmica ANPOCS/2017, por Elide Rugai Bastos e Nísia Trindade Lima
Elide Rugai Bastos: a coragem da sociologia, por André Botelho
Aprender com a terra: conversa com Elide Rugai Bastos, por Rennan Pimentel, Karim Helayel e André Botelho
Conflito, ideologia e emancipação: a sociologia crítica em “As Ligas Camponesas”, por Lucas Carvalho
Capitalismo, terra e ação coletiva: a interpretação de Elide Rugai Bastos, por Karim Helayel e Rennan Pimentel
[*] Os banners publicados aqui foram cedidos pelo Departamento de Sociologia da Unicamp, por meio de Mariana Chaguri, a quem agradecemos.
