
Voltamos hoje com a publicação de um novo folhetim inédito de Silviano Santiago, que integrará o Caderno 2 de O grande relógio: a que hora o mundo recomeça, sua obra em andamento publicada pela Editora Nós.
Antes de retomar a resenha de Machado de Assis sobre a obra de Eça de Queirós, onde parou no quinto folhetim, Silviano recupera o folhetim jornalístico “O ideal do crítico”, publicado em 1865 por Machado, para argumentar que ali se inscreve um ponto de inflexão para a crítica e a ficção literária no Brasil. Ao propor uma crítica esclarecida e fecunda, o jovem Machado, segundo Silviano, começa a inaugurar um “desvio periférico” à tradição europeia dominante, recusando aclimatações acríticas, como a do naturalismo e da obra de Eça. Esse desvio, reflexivo e intempestivo, funda uma tradição própria e legitima a criação da moderna narrativa introspectiva, exemplificada em Memórias póstumas de Brás Cubas.
A “cronologia impertinente” proposta pelo crítico para ler Machado, como temos acompanhado nesses últimos folhetins, permite abrir novos caminhos de interpretação da produção do nosso maior romancista.
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Sexto Folhetim
Machado, autor de O primo Basílio, Intermezzo A
Por Silviano Santiago
[…] qualquer pode notar com que largos intervalos aparecem as boas obras [no Brasil], e como são raras as publicações seladas por um talento verdadeiro. Quereis mudar esta situação aflitiva? Estabelecei a crítica, mas a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata, que não reflete nem discute, que abate por capricho ou levanta por vaidade; estabelecei a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada, — será esse o meio de reerguer os ânimos, promover os estímulos, guiar os estreantes, corrigir os talentos feitos; condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença, — essas três chagas da crítica de hoje, — ponde em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a justiça, — é só assim que [nós, os brasileiros] teremos uma grande literatura.
Machado de Assis, “O ideal do crítico”, Diário do Rio de Janeiro, 8 de outubro de 1865.
1. O jovem Machado, ativista cultural
Antes de retomar a resenha por Machado de Assis, onde a deixei, constate-se que se é tardia a publicação do primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição, 1872, será intempestiva a sua proposta de uma moderna narrativa ficcional introspectiva, Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881.
Em 1865, aos 26 anos de idade, Machado de Assis assina pacto com o presente em folhetim jornalístico, publicado no Diário do Rio de Janeiro. A partir da avaliação bem fundamentada do quadro geral da produção literária brasileira, julga indispensável estabelecer entre nós uma crítica literária esclarecida e fecunda, atividade que requer a autorreflexão do escritor e a reflexão sobre a literatura, ambas ausentes nos folhetins culturais publicados em jornal da época. Eis o curto parágrafo que abre o folhetim:
Exercer a crítica, afigura-se a alguns que é uma fácil tarefa, como a outros parece igualmente fácil a tarefa do legislador; mas, para a representação literária, como para a representação política, é preciso ter alguma coisa mais que um simples desejo de falar à multidão. Infelizmente é a opinião contrária que domina, e a crítica, desamparada pelos esclarecidos, é exercida pelos incompetentes.
Machado decide intervir no debate literário e político nacional que se desenrola na corte de maneira a transformar a água desenxabida no estimulante vinho da criação. Não me equivoco se digo que se trata de intervenção definitiva e revolucionária.
Publicado em 1865, o folhetim “O ideal do crítico” contém, pois, uma bem-informada, diversificada e sólida reflexão – devidamente acompanhada de um delicioso perfil do crítico – sobre as razões que, até aquele momento, têm conformado a produção do escritor brasileiro à “pequena” literatura. Ou seja, as observações da crítica, exercida por incompetentes, não têm fortalecido o suficiente o escritor (e o homem político), despertando-lhe a ambição de atingir as exigências da “grande” literatura” (os adjetivos opostos, pequena e grande, estarão também na crítica universalizante da política nacional feita por Joaquim Nabuco em 1900, v. capítulo “A atração do mundo”, em Minha formação).
A intervenção de Machado acentua a necessidade de o jornalista ou o escritor se tornarem autorreflexivos, “conscienciosos” e “sinceros”, os competentes responsáveis por uma atividade que, se bem exercida, deve se apoiar em dois princípios que o folhetinista explica em seguida.
Primeiro, é indispensável o “conhecimento da ciência literária”. Entende ele que o crítico deve “meditar” sobre a obra literária que lê, indo além da mera fruição do livro pela leitura apaixonada ou pelo entretenimento. Deve-se, portanto, estar munido ou se munir previamente das ferramentas retóricas que foram e continuará sendo desenvolvidas e postas à disposição de todos pelas artes poéticas, desde a Antiguidade. Também deve se informar junto aos manifestos literários da modernidade e os prefácios às obras publicadas. Ao meditar sobre a obra, o crítico esclarecido pode compreender o diálogo entre a imaginação e a verdade, os valores que conduzem à “grande literatura”, que desperta a curiosidade intelectual dos bons leitores e os enriquece.
Logo em seguida, o segundo princípio é enunciado: “Não compreendo crítico sem consciência”, e se explica fazendo distinção entre interesse pessoal e juízo da consciência:
A crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure produzir unicamente os juízos da sua consciência.
A esses dois princípios, o folhetinista associa seis qualidades (virtudes e deveres) a serem desenvolvidas em silêncio e autorreflexivamente como as ideais daquele que quer assumir a crítica em jornal. O conjunto, de leitura e reflexão obrigatória nos dias de hoje, quando a personalidade do crítico é escamoteada pelo método científico, desenha o perfil do profissional. Eis as várias facetas a serem desenvolvidas: “sinceridade”, “coerência”, “independência”, “tolerância”, “urbanidade” e “perseverança”.
Destaco, como exemplo, a urbanidade (que se confunde com “moderação” e “delicadeza”). Se cedo espaço a ela, é porque é também a que nos mais faz falta em época de atitudes públicas polarizadas e de manifestações escritas de ódio:
Uma crítica que, para a expressão das suas ideias, só encontra fórmulas ásperas, pode perder as esperanças de influir e dirigir. […] Moderação e urbanidade na expressão, eis o melhor meio de convencer; não há outro que seja tão eficaz. Se a delicadeza das maneiras é um dever de todo homem que vive entre homens, com mais razão é um dever do crítico, e o crítico deve ser delicado por excelência. Como a sua obrigação é dizer a verdade, e dizê-la ao que há de mais suscetível neste mundo, que é a vaidade dos poetas, cumpre-lhe, a ele sobretudo, não esquecer nunca esse dever. De outro modo, o crítico passará o limite da discussão literária, para cair no terreno das questões pessoais; mudará o campo das ideias, em campo de palavras, de doestos, de recriminações, — se acaso uma boa dose de sangue frio, da parte do adversário, não tornar impossível esse espetáculo indecente.
E Machado finaliza o folhetim, salientando o caráter esperançoso da sua proposta de transformação da água em vinho na literatura brasileira:
Se esta reforma, que eu sonho, sem esperanças de uma realização próxima, viesse mudar a situação atual das coisas, que talentos novos! que novos escritos! que estímulos! que ambições!
Em meados da década de 1860, a já bem assentada produção literária brasileira carece principalmente de crítica. E o seu estabelecimento nos jornais da época atiçará a responsabilidade do escritor no plano estético, social e político. Em suma, a crítica pode e deve incitar o criador a se arriscar em projetos autorreflexivos, mais audaciosos e conscienciosos. Necessários e indispensáveis investimentos do artista da palavra na construção da obra literária e do Estado nacional.
2. Ficção machadiana: em estado de laboratório
Pretendo amarrar o precoce folhetim sobre o ideal do crítico brasileiro, datado de 1865, ao primeiro romance publicado, Ressurreição, e também à série de romances que começam pela publicação da primeira narrativa introspectiva, Memórias póstumas de Brás Cubas.
Em 1881, crítico e escritor já convivem plenamente no autor Machado de Assis. Em 1878, o dois-em-um já tinha se recusado a hospedar no Brasil Imperial a escola literária em moda na Europa, o naturalismo, e o seu epígono português, Eça de Queirós.
Esse amarrado, performado por Machado de Assis, desobstrui, por um lado, a atitude de fechado-para-o-balanço que representou a má acolhida pela crítica do quarto romance, Iaiá Garcia, publicado em folhetim e logo em livro em 1878, e reabre, por outro lado, as portas da escrita literária machadiana para a invenção de uma forma romanesca no Brasil totalmente diferenciada das anteriores. A desobstrução crítica do caminho, se associada à liberação da imaginação conscienciosamente criativa e enlouquecida, redundam na publicação da primeira obra-prima da literatura brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas.
O presente exercício-de-leitura é pouco recomendado em história da crítica e do romance no Brasil. Visa, aqui, a estabelecer inicialmente uma cronologia impertinente, julgada indispensável para a avaliação da exemplar obra de ficção machadiana.
Em lugar de o crítico se deter apenas na análise do texto x ou y ou na explicação das duas fases da obra machadiana ou até na análise exclusiva de um só gênero, a ficção no século 19, por exemplo, deve levantar previamente – no interior da obra completa – uma cronologia impertinente que servirá para balizar pontos relevantes de um amarrado complexo que alimenta e faz crescer verdadeiros embolados semânticos. Intrincados e labirínticos, os embolados proporcionam, por sua vez, ao folhetinista atual uma paisagem crítica-criativa, multifacetada, que coloca em estado de laboratório e torna mais atraente e fecundo o objeto em análise.
Em modo paisagístico, evocativo e sugestivo, os sucessivos embolados semânticos machadianos, já devidamente levantados, amarram atitudes humanas consensuais e atrevidas, escritas ensaísticas e escritas ficcionais antigas e modernas, polêmicas sempre originais, às vezes só escandalosamente originais, correspondência etc., que delineiam e estabelecem no mapa da cultura universal (sem aspas) encruzilhadas fatais[1] na vida e na obra de Machado de Assis. Delas derivam possibilidades multidirecionais pouco processadas e estudadas no desenvolvimento interpretativo da literatura brasileira.
Ao amarrar elementos variados e díspares em embolado semântico, cada encruzilhada passa a representar, já em condição de laboratório, um terreno histórico e/ou intempestivo que, ao se somar a outras paisagens (sempre a reproduzir encruzilhada, repito), onde se erguem de maneira precária ou definitiva as atuais e intempestivas especulações folhetinescas, todas necessariamente desconstrutoras nas argumentações críticas.
Enfim, os embolados semânticos visam a estabelecer finalmente a responsabilidade ética e estética de cidadão (no caso em pauta, estamos em período de emancipação colonial e de constituição de um Estado nacional periférico, é bom não esquecer) como a judiciosa e confiável maestrina que rege uma vida humana cidadã e uma carreira profissional exemplar nas artes.
Também a responsabilidade ética e estética do escritor se movimenta analítica e hermeneuticamente de modo impertinente. Vale dizer: ela se encaminha por exercícios cronológicos de vai-e-vem – semelhantes ao da porta giratória de saloon de faroeste – que exigem a noção de tempo intempestivo (e o conceito de suplementariedade) para a sua compreensão pelo grande relógio que passa a contar as horas da história da humanidade. Em cada exercício-de-leitura de embolado semântico se salienta o recheio inspirador de probidade intelectual estética e ética, que estofa a personalidade rara do escritor Machado de Assis.
3. Desvio periférico: desconstrutor da obnubilação brasílica, razão para o Intermezzo
Em 1865, o ativista cultural Machado de Assis aponta corajosamente para um desvio (numa encruzilhada, esclareço), desvio a ser seguido, segundo ele, pelos escritores contemporâneos para se chegar à produção de obras literárias com certa regularidade e em que se detecta um talento verdadeiro. O já reconhecido e admirado crítico teatral tinha se dedicado então à leitura e à avaliação abalizadas, corajosas e firmes do conjunto das obras literárias brasileiras em circulação.
Constata que é preciso acender o sinal vermelho. Aproveita a parada para intervir. Reflete sobre o “caminho percorrido”, à semelhança do que Mário de Andrade fará em 1942 e Oswald de Andrade em 1944. Não há dúvida que, nas obras literárias até então escritas, o escritor brasileiro está garantindo a condição de cidadão e também a de construtor do Estado nacional brasileiro, ainda que a antiga colônia continue a ser administrada pelo regime monárquico-constitucionalista lusitano, que detém o sistema escravagista colonial e o retém.
O jovem crítico teatral certifica que o jovem Estado nacional já apresenta uma insipiente e já copiosa tradição literária e a deseja autenticar, fecundando-a pelo estabelecimento da crítica literária.
Desprotegida e vulnerável, melhor que essa tradição seja orgânica, e o é, pois se enriquece com os próprios produtos que ela entusiasticamente (e não conscienciosamente) oferece no mercado interno. Caso se fique com esse primeiro movimento do folhetim, temos a primeira lição que fundamenta o crítico ideal. Primeira lição – a de uma tradição precária mas orgânica – que será a responsável para a abertura em 1878 da aplicação de uma segunda lição que apenas se esboça em 1865.
Explicito a segunda lição: a desprotegida e vulnerável tradição literária nacional, orgânica, poderá via a ter o direito de se opor a toda e qualquer nova escola literária europeia e a toda e qual obra artística estrangeira que apenas sirvam para desnortear o “caminho percorrido”.
Escrever romances e poemas, publicá-los sob a forma de livro e tê-los resenhados em folhetins jornalísticos não é mais o bastante.
Tampouco é o bastante hospedar generosa e acriticamente as novidades literárias que nos chegam.
A crítica foi estabelecida e já está aplicada em 1878.
Ressurreição e Memórias póstumas de Brás Cubas não são, respectiva e gratuitamente, tardio e intempestivo, já que ambos são igualmente antecedidos por uma precoce e notável ruminação sobre o desvio (em encruzilhada) por escritor brasileiro que detém leitura criteriosa das obras literárias nacionais – e o consequente julgamento sobre a boa ou a alta qualidade dos trabalhos criativos, constitutivos de uma tradição precária.
No terceiro milênio, o ensaio “O ideal do crítico” se assegura como sendo um dos dois pilares que sustentam as histórias da nossa produção literária. A vertente machadiana é a que questiona radicalmente a naturalidade (ou o entusiasmo) da “obnubilação brasílica”,[2] conceito instituído por Araripe Júnior ainda no século 19, como o pilar vitorioso e solitário da identidade brasileira.
Está escrito que, ao comentar o tratamento dado por Machado à aclimatação no Brasil Imperial de uma nova escola literária europeia e dos dois primeiros romances do epígono lusitano, o leitor atual da resenha de 1878 teria de se reportar ao folheto publicado em 1865. O presente Intermezzo enuncia, pois, a sua razão de ser no retorno fatal ao ano em que Machado publica o folhetim que se expandiria intempestivamente até o terceiro milênio.
Levo, portanto, o folhetim de 1865 e o folhetim anterior a este, o nosso quinto, a se confluírem num entreato intempestivo. Escapam da lógica cronológica para levar o escritor já reconhecido na corte a reencontrar a si, jovem e ainda inseguro do próprio valor, em pleno encanto com a necessidade do ativismo cultural. Só no terceiro milênio é que, sem artificialismos, se consegue assentar o lugar apropriado para o ensaio de 1865 e determinar o valor real das suas propostas, então chocantes, na produção crítica e ficcional machadiana que passou a ter o direito de incorporar em si um dos dois pilares vitoriosos – o principal, da nossa perspectiva – de história da literatura nacional.
O assentamento histórico-literário dos variados elementos que prescrevem a primeira encruzilhada se transforma em exercício intelectual fascinante em virtude de a demonstração do jovem Machado de Assis ter-se transformado em decisiva ao combinar três fatores contraditórios entre eles. Estamos em 1865. Por um lado, o jovem Machado só tem uma curta e, sem dúvida, profícua experiência em crítica teatral, e dela quer distanciar-se. Por outro lado, o precoce crítico teatral, evidentemente, autodidata, já se enveredou pela dramaturgia e pela poesia (tem um livro de poemas na praça, Crisálidas, 1864) e tudo indica que o gênero eleito em literatura será outro, a prosa de ficção. Por um terceiro e quase inverossímil fator, o entusiasmado rapazinho nascido no morro do Livramento, depois do enorme esforço social e intelectual para se tornar figura de proa na crítica teatral, encontra-se desiludido com a produção teatral que comenta nos jornais cariocas.
Na desilusão com o teatro nasce a certeza absoluta que leva Machado a assumir e a recomendar a crítica literária.[3]
Não há que se desiludir uma segunda vez na vida. Machado de Assis recomeça por onde deveria ter continuado, se nos lembramos das primeiras crônicas ficcionais, datadas de 1859, que hoje estão reunidas em Aquarelas, a serem retomadas logo adiante.
A cronologia impertinente se tornará um pouco mais ampla, pois terá de passar por cima de 1865 e voltar a 1859.
4. Primeira reação ao eurocentrismo cultural: contra a hospedagem no Brasil Imperial do expansionismo naturalista
Em 1878, Machado já tem, portanto, o direito de portar a “toga pretexta” – para me valer da deliciosa metáfora para a maioridade sexual e intelectual de adolescente criada por Raymond Radiguet no romance Le diable au corps. Já está vestido com ela na cerimônia em que, ao beijar o ringue das boas intenções fracassadas do romance Iaiá Garcia, indaga se se deve ou não receber como hóspedes no Brasil Imperial a nova escola literária e o seu epígono lusitano.
Estabelecida em 1865, a encruzilhada inaugural se autoriza como responsável por um levantamento insipiente de obras literárias nacionais, não acidentalmente já copioso. Para direcionar o encaminhamento do conjunto que conforma uma “pequena literatura” a um movimento universalizante, que impulsionaria e garantiria a redação e publicação de obras que teriam direito ao assento entre as demais da “grande literatura”, é que Machado de Assis sugere e abre, pelo estabelecimento da crítica literária em jornal, o desvio periférico no caminho até então percorrido pelos escritores. Se observado da perspectiva de O grande relógio e no terceiro milênio, o desvio periférico se abre e se prolonga em movimento de vai-e-vém que questiona a obnubilação brasílica (relembro: fortalece a imaginação e enfraquece a razão).
O desvio periférico figura e figurará manifestações ainda precárias das questões que serão levantadas da perspectiva futura da teoria da desconstrução, elaborada pelo filósofo Jacques Derrida, como alicerce da crítica ao eurocentrismo colonial.
O desvio periférico na insipiente tradição colonial brasileira significa inicialmente (a) a busca de uma originalidade propriamente formal (estética) que desconstrói por deslocamento do efeito ser-apenas-cópia-europeia e (b) a fonte de onde jorra a invenção intempestiva de escrita por brasileiro no cronograma impertinente proposto em primeira instância por Machado de Assis. No interior da universalidade tal como problematizada pelo eurocentrismo (tempos coloniais e pós-coloniais), o escritor brasileiro institui, pela diferença operada por deslocamento radical (não meramente geográfico), um mesmo e outro espaço, um mesmo e outro tempo, e passará a argumentar a favor de uma mesma e outra tradição, precária sem dúvida, com narrativa ficcional em espaço e tempo intempestivos.
Tanto a nova escola literária europeia como os dois romances lusitanos por ela influenciados (aqui, o conceito faz todo o sentido) estão sendo divulgados em solo brasileiro e na língua portuguesa falada no Brasil e serão avaliados por Machado de Assis pelo seu valor expansionista (não exclusivamente pelo seu valor literário). Daí a condição de periférico atribuído à reação machadiana, ao desvio brasileiro. Será com conhecimento de causa, mordacidade e sapiência que escola e romances são avaliados em resenha.
5. Gênese do personagem ficcional: o tipo humano [“les caractères”]
Observe-se que o embolado semântico aqui iniciado em 1865 e terminado em 1878 (ou em 1881), voltará ainda ao passado e se ampliará até 1859, ano em que Machado escreve as suas primeiras crônicas propriamente ficcionais (reunidas em Aquarelas) e as publica em folhetim no jornal O espelho. A encruzilhada inaugural descarta a sua finalidade maior, a invenção da moderna narrativa introspecção em língua portuguesa, para sugerir que o estreante Machado ainda se debate com importante e algo mais específico, a caracterização de personagem ficcional. Machado tem de passar por essa iniciação e a transpor na prática. Opta por caracterizar o personagem preservando qualidades coletivas para nelas incluir a singularidade da criação.
No tempo recente da tradição europeia, sobressaem duas possibilidades de caracterização de personagem. Em literatura francesa, o século 17 trabalha a figura humana pelos valores universais, dedicando-se à criação de “les caracteres”, para usar o termo de que se vale La Bruyère (1645-1696) desde o título da sua principal obra. Em literatura inglesa, o século 18 escapa dos valores universais na caracterização de personagem. O novo modo vem junto com um novo gênero literário, o romance (the novel). Na nova ficção britânica trabalha-se a figura humana no seu individualismo, na sua singularidade, daí a presença no romance de “the character”, para me valer do termo que se tornou o fundamento da melhor interpretação sobre o novo gênero, The rise of the novel, de Ian Watt. O character é único e imitável, reconhecível pelo nome próprio. Entre o antigo e o recente, Machado opta pelo antigo, “les caractères”.
No jornal O espelho, Machado cria o personagem segundo o modelo proposto pelos moralistas franceses do século 17. E isso se evidencia em todos os títulos dos folhetins ficcionais publicados em 1850. Ei-los na ordem de publicação: “O Fanqueiro literário”, “O parasita” (I e II),[4]“O empregado público aposentado” e “O folhetinista”.
O jovem folhetinista favorece o personagem situando-o no coletivo de que faz parte. Associa-o aos semelhantes para compreender a singularidade do grupo numa ampla comunidade. De maneira simplificada, o personagem não tem identidade ou personalidade própria; a dele é a de um coletivo (pense-se na guilda medieval, com ênfase no perfil propriamente psicológico). Machado não encara o indivíduo, assim como a própria condição colonial e pós-colonial não encara a condição de cidadão. Na época colonial é súdido do Monarca e na pós-colonial a Constituição de 1924 mal reconhece como cidadãos os seres humanos livres. Importa notar que a ausência de uma configuração clara (até no texto da Constituição) de cidadania brasileira não facilita a vida do escritor que deseja caracterizar um personagem na população originais, dizimada, na de imigrantes os mais variados (com privilégio apenas para o português), população que comporta ainda os africanos ex-escravizados e os ainda escravizados.
A habilidade do jovem folhetinista é surpreendente até os dias hoje. Não há melhor maneira de compreender o morador da colônia recém-emancipada que por coletivo que se autoidentifica por se dedicar a tarefa semelhante. Se somados os minicoletivos, eles perfazem comunidades urbanas restritas dentro da urbe. Não faria sentido tentar retratar “the character” sendo a retórica do romance (the novel). Segundo ela, o indivíduo descobre a realidade através dos sentidos num espaço dito civilizado, onde ele existe. Ou num espaço não-civilizado, como é o caso paradigmático de Robinson Crusoé, a metáfora sublime para o empreendedor liberal.
O personagem criado inicialmente por Machado de Assis é, pois – para atualizar a análise pela teoria desenvolvida sobre o romance por E. M. Forster, em Aspects of the novel – um “flat character”, e não um “round character”. Em suma, Machado começa por criar tipos humanos: o fanqueiro literário, o parasita, o empregado público aposentado e, last but not the least, o folhetinista.
6. Transformação do personagem ficcional: a “pessoa moral” [“round character”]
Na encruzilhada inaugural, já ampliada para trás até 1859, é que começa a caminhar o personagem da ficção folhetinesca machadiana e é por isso que se torna indispensável acrescentar outra abertura no entroncamento inicial.
A nova abertura na encruzilhada data de 1858 (três depois de “O ideal do crítico”, lembro). Não será, pois, por casualidade que o primeiro personagem que é constituído como “pessoa moral”, para retomar o conceito que está na resenha de Eça de Queirós e principal motivo para este Intermezzo,[5] será, para Machado de Assis, um escravizado livre, de nome próprio Luiz. Creio que há pouco dúvida que na caracterização de Luiz não haja sinais evidentes da lógica do Não, que se encontra na caracterização de Brás Cubas.
Na primeira cena de Gonzaga, ou a Revolução de Minas, estão Gonzaga, o inconfidente, e Luiz, o seu confidente, um preto livre por vontade do pai de Gonzaga, mas que perdeu contato com a filha ainda escravizada. O confidente Luiz será a principal pessoa moral, na peça de Castro Alves, já que os inconfidentes, se tivessem tido a vitória desejada, teriam sido (e não são, claro) Washingtons (para retomar observação contrastiva de responsabilidade do próprio Machado). É mais intenso o desejo de liberdade da filha ainda escravizada pelo escravizado livre que a vontade de liberdade para a pátria pelo inconfidente Gonzaga.
Machado de Assis percebe a precedência histórica de uma forma de liberdade no interior da outra forma, que não leva em conta a anterior.
Com satisfação, incorporo ao embolado semântico inaugural a passagem do bastão simbólico da literatura brasileira de José de Alencar para Machado de Assis. Bastão simbólico que figura o adolescente Castro Alves em viagem ao Rio de Janeiro. Temos como documentos a carta de Alencar que apresenta o adolescente Castro Alves a Machado de Assis e a carta em resposta deste, escrita após o encontro em sua casa com o jovem poeta. Alencar julga que Machado seria o guia ideal dele, valendo-se da comparação clássica com Virgílio, que se encontra na Divina Comédia.
No Cosme Velho, o jovem poeta baiano recita o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas. Nele, Machado vai destacar o personagem escravizado livre Luiz a fim de o comparar ao Rei Lear na cena final da peça de Shakespeare. Ao final da peça da Castro Alves, o Luiz com a filha escravizada morta nos braços lhe lembra a cena final da peça shakespeariana onde o rei Lear reaparece com o cadáver da filha Cordélia nos braços.
A tarefa que nos leva dos universais à singularização do personagem pelo recurso à caracterização como “pessoa moral” é longa e, por isso, desdobraremos o Intermezzo em A e B. Vamos para o final do Intermezzo A.
Para que se avance a discussão sobre a gênese do personagem na narrativa ficcional machadiana, a noção já apresentada de tradição precária merece alguns acertos e reparos a fim de que seja melhor configurada se qualificada por periférica.
A tradição brasileira se torna produto da razão do artista quando Machado de Assis se dá conta que o superego cordial da história da literatura brasileira é efeito da naturalização que se encontra ao se acatar e endossar a obnubilação brasílica como fundamento da aclimação do estrangeiro aos trópicos. Na recusa em naturalizar em moradia a hospedagem no Brasil Imperial do naturalismo e dos romances de Eça, Machado de Assis reitera o indispensável Sim que visa a fortalecer a razão individual do artista (o estabelecimento da crítica literária em 1865), sem detrimento das faculdades imaginativas. O ato em si não é xenófobo, embora tenha evidente a deliberada intenção.
O ato de não acatar a aclimatação do naturalismo e da prosa eciana é certamente a primeira das manifestações conscientes em literatura de desautorização do expansionismo eurocêntrico arbitrário, que redefine a colonização do Novo Mundo por uma tradição nacional que, sem abdicar dos valores universais, justifica-se ainda que de aneira insipiente e precária. Retomando a dicotomia estabelecida por T. S. Eliot em 1922, julgo que no Brasil Imperial é o talento individual que sustenta precariamente a tradição precária.
7. O talento individual como força instauradora da tradição periférica
O que Machado de Assis – e a literatura brasileira no terceiro milênio – questionam é o adjetivo simultâneo que T. S. Eliot por duas vezes emprega na sua definição de “sentido histórico”. O questionamento põe o dedo na ferida do centramento europeu, objeto da desconstrução derridiana e de O grande relógio. Cito o trecho específico de Eliot (grifo meu):
[…] o sentido histórico implica a percepção, não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença; o sentido histórico leva um homem a escrever não somente com a própria geração a que pertence em seus ossos, mas com um sentimento de que toda a literatura europeia desde Homero e, nela incluída, toda a literatura de seu próprio país têm uma existência simultânea e constituem uma ordem simultânea.
A cronologia impertinente tem lá as suas razões para existir. Ela desautoriza a entrada em existência e ordem simultâneas da escola e do epígono no circuito criativo-e- autorreflexivo da expressiva e ainda insipiente tradição literária nacional. O responsável pelo ato de recusa é um escritor e também um ativista em favor de causas precisas, pois já se veste com a toga pretexta, para retomar a metáfora de Le diable au corps. Em igualdade de condições é que se apresenta para uma conversa teórica[6]com a nova escola e seu epígono. Ele não está entre os escritores brasileiros que julgam normal a incorporação ou a aclimatação à cultura do Brasil Imperial de toda e qualquer novidade em tradição literária europeia.
O talento individual, como o sujeito precário que constitui a tradição precária nacional e que questiona a simultaneidade na ordenação dos eventos artísticos, não pode se expressar pela criação de um narrador objetivo, com ambições científicas e universais, que escreve na terceira pessoa do singular. Mais uma vez faz sentido que a narrativa a ser inventada no Brasil Imperial por Machado de Assis seja a da moderna narrativa introspectiva que magnifica a intervenção da subjetividade a fim de tornar público o que ainda não é público. Tornar público o que vem sendo escamoteado pela cordialidade prevalente, ou seja, o preconceito racial só reconhecível na intimidade do escravizado já homem livre (já anunciei a leitura do personagem Luiz, na peça de Castro Alves, associando-a à leitura que apresento das Memórias póstumas de Brás Cubas).
Argúcia e atrevimento não faltam a Machado de Assis, insisto. Aliás, quem mata a cobra logo entra com o pedido de habeas corpus. A petição de inocência em ato de transgressão vital guarda a forma criativa, o romance Memórias póstumas de Brás Cubas. No já canônico triângulo amoroso derivado do romance francês Madame Bovary, estará menos em causa a fatalidade de destino da esposa moderna e/ou do marido conservador e tolo, e estará mais em causa o caráter disruptivo do amante, personagem cercado de lugares-comuns (tipo humano, ou “flat character”) no romance burguês europeu. Tornar pessoa moral o que é tipo humano.
Invertem-se as tarefas da criação literária.
Na resenha que faz do romance de Eça, Machado desconstrói o personagem-título, o primo Basílio, e, na petição de inocência, inventa a moderna narrativa introspectiva em fala portuguesa, dotando-a de inesperada figura dramática que atende ao eu no desejo de se desdobrar em locutor do próprio protagonismo frente ao Bulldozer da colonização escravagista. A seu favor só tem o domínio da escrita literária ficcional. Uma narrativa introspectiva e a locução de protagonismo nada têm a ver com a terceira pessoa objetiva e científica do original (Flaubert) e das cópias que se sucedem na cronologia pertinente. Tendo como papel a desconstrução, a escrita introspectiva e a narrativa de protagonista são legítimas e autenticamente periféricas.
Como seria o “primo Basílio” no Brasil Imperial? A família patriarcal brasileira?
Notas
[1] Abandone-se, por favor, qualquer organização histórica por momento (privilegiado, especial, gritante, revelador etc.). O dito momento, se em exercício-de-leitura, é apenas um dos muitos direcionamentos em encruzilhada, à disposição do criador.
[2] Araripe Júnior assim define o conceito: “Consiste este fenômeno na transformação por que passavam os colonos atravessando o Oceano Atlântico, e na sua posterior adaptação ao meio físico e ao ambiente primitivo”. Machado se insurge contra uma das ideias-mestres de Araripe na gênese do conceito: “Têm, pois, toda a aplicação ao Brasil estas palavras [de Buckle], — que, “nas civilizações exteriores à Europa, a natureza conspira para aumentar a influência das faculdades imaginativas e enfraquecer a razão” (Obra crítica de Araripe Júnior, vol. 1, 1958). As duas qualidades humanas devem coexistir harmoniosamente para que se instituam na terra brasílica a cidadania, no plano individual, e a soberania, no plano nacional.
[3] Como não há espaço neste folhetim para a análise pormenorizada das relações entre Machado e o teatro, recomendo ao nosso leitor a consulta prévia de dois excelentes ensaios, hoje reproduzidos no Scielo. Para a questão pontual, a do desânimo de Machado com o teatro, leia o ensaio de Franceli Aparecida da Silva Mello, “Quando o crítico se retira da plateia: a desilusão de Machado de Assis com o teatro”, e, para a questão mais ampla, o de João Roberto Faria, “Machado de Assis, leitor e crítico de teatro”.
[4] Não me lembro de ter lido fanqueiro na dita obra ficcional completa de Machado, mas um resquício da caracterização do parasita, à La Bruyère, resvalou para Ressurreição. No primeiro capítulo, lá está Viana, que perde o nome próprio para ser “o parasita”: “Chamando-lhe parasita não aludo só à circunstância de exercer a vocação gastronômica nas casas alheias [tradução ao pé da letra da expressão francesa “pique-assiette”, observo]. Viana era também o parasita da consideração e da amizade, o intruso polido e alegre, que, à força de arte e obstinação, conseguia tornar-se aceitável e querido onde a princípio era recebido com tédio e frieza, um desses homens metediços e dobradiços que vão a toda parte e conhecem todas as pessoas, ‘boa cara, bom barrete, boas palavras’”.
[5] Relembro: “[…] a Luísa — força é dizê-lo — a Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral. Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência”.
[6] Cf. Richard Rorty: “A hermenêutica é o que nos sobra quando deixamos de ser epistemológicos. […] A hermenêutica vê as relações entre vários discursos como cabos dentro de uma possível conversa, conversa que não pressupõe matriz alguma disciplinar que una os falantes, mas em que nunca se perde a esperança de se chegar a um acordo enquanto a conversa dure. Não se trata da esperança em descobrir um terreno comum e anterior, mas simplesmente da esperança de se chegar a um acordo, ou, pelo menos, a um desacordo interessante e frutífero”.
