
Amanhã, 20 de setembro, às 18h, acontece o lançamento de dois livros: daltontrevisan.com: ensainhos a partir da vida-obra de Dalton Trevisan, de Jorge “Joca” Wolff, e Diário da Hepatite, de Cesar Aira, em tradução de Wolff, ambos publicados pela Editora Papéis Selvagens. O evento será realizado na Galeria Lama (Rua João Pinto, 198, Centro – Florianópolis, SC).
Nos cinco ensaios reunidos em daltontrevisan.com, Jorge Wolff traz suas perspectivas da obra de Dalton com a de Paulo Leminski e com a de Manuel Bandeira, este último por meio do cinema de Joaquim Pedro de Andrade, diretor de “O poeta do Castelo” (1959) e de “Guerra conjugal” (1975). Já no Diário da Hepatite o tema da hepatite está oculto, mas pode-se intuir que é um diário que Aira está escrevendo enquanto sofre a doença e tem uma crise de escrita: a crise do romancista que não quer mais escrever ou que diz que não quer mais escrever.
Confira abaixo mais informações sobre as obras.
Dalton com Aira
No verbete dedicado a Dalton Trevisan (Curitiba, 1925-1999) de seu Diccionario de autores latinoamericanos, escreveu César Aira nos anos 80: – É um dos autores mais estranhos e fascinantes da literatura atual, exclusivamente contista e sempre no mesmo formato breve, artista da obsessão e da violência doméstica, sempre igual a si mesmo e, ao mesmo tempo, sempre surpreendente, simultaneamente minimalista e mileumanoitesco.
Tais cinco linhas bastam para apontar à obsessão do próprio César Aira por esse tipo de literatura, quer dizer, a literatura “clássica moderna”, mas também “demasiado rara” (…) “para que o autor receba a estima que merece”.
Tampouco é este – estimar ou valorar sua obra – o objetivo de daltontrevisan.com, que reúne cinco ensaios escritos por Jorge “Joca” Wolff entre 2011 e 2021, já que se propõe nele outro tipo de abordagem crítica e que, entre os anos 80 e o século XXI, o autor curitibano seria amplamente reconhecido como um dos principais escritores de língua portuguesa, tendo sido contemplado em 2012 com o Prêmio Camões.
Ao contrário, a ideia que norteia o livrinho é ler e percorrer a vida-obra de Dalton em seu aspecto “comunitário”, ou seja, em suas relações com outros artistas, neste caso com os poetas Manuel Bandeira e Paulo Leminski, e com o cineasta Joaquim Pedro de Andrade.
Com Leminski, a obsessão pelo haicai os aproximou (hipótese testada no primeiro ensainho), assim como a experiência vital curitiboca que compartilharam e as leituras da divina comédia humana que propuseram. Da mesma maneira, são comuns a ambos os posicionamentos poético-políticos que, querendo ou não, ensaiaram tanto em suas formas de lidar com o tropicalismo (no caso de Dalton enquanto autor dos contos e dos diálogos do filme Guerra conjugal de Joaquim Pedro, entre o kitsch e o grotesco; no caso de Leminski em seu caso de amor-e-ódio entre concretistas e novos baianos), quanto de lidar com o chamado ano que não terminou, 1968, nas daltonianas “Lamentações [da República] de Curitiba” – definida premonitoriamente como “laranja azeda, sabugo estéril, vergonha eterna” – ou nos caprichos & relaxos desatados a partir do Catatau, iniciado pelo Polaco em Meia-Oito.
Com Bandeira, a conexão se dá pela revista do jovem Dalton, a Joaquim (manufaturada em texto-e-imagem por ele e Poty Lazarotto de 1946 a 48), a qual em seus 21 números publica um único poema do autor de Libertinagem, o “Rondó do atribulado do Tribobó”. Nele, poema clássico-moderno-de-circunstância então inédito, logo incluído no Máfua do Malungo tipografado por João Cabral em Barcelona, descobre-se uma certa família de origem mineira em que figura um menino chamado Joaquim Pedro. Daí para o “falar cafajeste” e os “jogos onomásticos”, que os três artistas praticarão em letra e imagem, é só um passo.
Outra questão que os cinco ensainhos não exatamente propõem, mas precisam encarar de frente, é como lidar no século XXI com essa literatura brasileira do século XX, ou seja, como contextualizar sua leitura entre as novas gerações de leitoras e leitores, altamente tecnologizadas e com dificuldade (altamente compreensível) de olhar para trás com os mesmos olhos que as pessoas nascidas até os anos 1960 ou 70. Como ensaístas-professores-pesquisadores, taí uma questão que não quer e não pode calar.
Quanto ao Diário da hepatite, de César Aira, publicado originalmente em 1993, não se trata nem de um diário, nem de uma de suas novelitas, ao mesmo tempo em que divide com o “Vampiro de Curitiba” o seu estilo minimalista e miliumanoitesco de fábulas de nunca acabar e sempre recomeçar.
Ainda que fragmentário e marcado pelo mandato do seu prólogo, o de nunca jamais escrever, “porque não vejo para que poderia servir”, é justo a partir deste mandato que se desenrola uma prosa ao mesmo tempo delirante e vigorosa que, no entanto – como diz Juan Pablo Villalobos na entrevista-posfácio a esta edição do Diário da hepatite – “é um texto completo e é tão bom como se fosse um de seus romances”.
Finalmente, a publicação em 2025 do Diário da hepatite festeja os vinte e cinco anos dos trabalhos de tradução da obra de César Aira por Jorge “Joca” Wolff, cuja estreia se deu justamente na revista Medusa, de Curitiba, com a amostra de alguns fragmentos do fragmentário Diário da hepatite, fechando, portanto, agora um ciclo e reabrindo nova espiral com este anti-diário insano e solar: – Canta um pássaro. É um momento. Se abre uma flor. Outro momento: o mesmo. Um momento no ciclo. É hora de acontecer isto ou aquilo. Por exemplo, o alarido mecânico de um passarinho que conheço bem. Se abriu o canto. Soou a flor. Os sentidos florescem em círculos ocos por onde passa a luz fantasma. Chegou o dia do pássaro e cantou. Passou a Idade Média do pássaro, o canto ondulou no ar, deu um salto, se tornou céu. O instante do pássaro não está no tempo mas nesta tarde, nestas lentidões estranhas do meu coração, e também no tempo. Do pássaro à flor tem uma curva, que se enrosca como um arame de ouro na minha língua de cão…
Editora Papéis Selvagens, Rio de Janeiro: https://papeisselvagens.com.br/