
Além da Formação: teoria e crítica literárias no Brasil em chave comparativa (anos 1960-1980), livro de Ana Karla Canarinos publicado pela editora da Uerj em 2024, é resenhado hoje por Carolina Correia dos Santos (UERJ).
O livro apresenta um balanço da crítica literária brasileira entre as décadas de 1960 e 1980, tendo como foco a “geração pós-Antonio Candido”, composta por Luiz Costa Lima, José Guilherme Merquior, Roberto Schwarz e Silviano Santiago. Quatro nomes que, cada qual a seu modo, encarnam tanto a herança quanto as fissuras abertas por Formação da literatura brasileira (1959). Na leitura de Carolina Correia dos Santos, mais do que narrar duas décadas de história da crítica acadêmica no país – atravessando debates sobre estruturalismo, regionalismo e modernismo – Além da Formação é um convite a imaginar uma tradição crítica menos defensiva e mais disposta ao enfrentamento intelectual.
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Além da Formação e a construção de um debate crítico
Por Carolina Correia dos Santos (UERJ)
O livro de Ana Karla Canarinos, Além da Formação: teoria e crítica literárias no Brasil em chave comparativa (anos 1960-1980) (EdUERJ, 2024), apresenta-se como um balanço da crítica literária brasileira nas duas décadas posteriores à publicação de Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido. A escolha desse marco não é arbitrária: Candido não apenas organiza o campo, mas projeta critérios de inteligibilidade que, por décadas, tornaram-se inevitáveis como referência ou contraponto. É a partir dessa fundação que Canarinos articula a análise de Luiz Costa Lima, José Guilherme Merquior, Roberto Schwarz e Silviano Santiago, quatro nomes que, a seu modo, encarnam tanto a herança quanto as fissuras abertas pela obra candidiana.
O projeto do livro não se limita, entretanto, a recuperar um passado intelectual. Mais do que rememorar uma discussão que teria ocorrido, Canarinos a constrói narrativamente, reinscrevendo os críticos em uma trama de embates de ideias. Esse gesto é metodologicamente potente, pois nos remete a um cenário mais aberto e dialógico do que, possivelmente, ele foi. Nesse sentido, parece possível afirmar que muitas das instâncias, ao longo da história da crítica e da teoria literárias brasileiras da segunda metade do século XX, que poderiam ter gerado debates manifestos e enriquecedores se resumiram à apresentação de um ponto de vista que expressamente menosprezava o outro. Penso em um dos primeiros exemplos mencionados por Canarinos, o famoso trecho retirado de “Nacional por subtração” de Roberto Schwarz, no qual algumas linhas depreciativas e mal colocadas bastam para descartar a filosofia de Jacques Derrida, em uma resposta tardia e apenas parcialmente dirigida a “O entre-lugar do discurso latino-americano”, de Silviano Santiago, publicado cerca de dez anos antes.
Esse contraste entre a reconstrução dialogal da autora e os silenciamentos ou desqualificações que marcaram o período é uma das tensões mais produtivas do livro. Pois se há, em Canarinos, a aposta em contar a história da crítica como história de embates, também se pode entrever o vazio dos debates que não se realizaram. A imagem que resulta é a de um campo crítico em permanente latência, em que a possibilidade de interlocução foi, não raro, substituída pelo gesto de exclusão.
Deve-se notar o impressionante volume de textos mobilizados por Canarinos sobre os críticos e sobre o recorte temporal do seu livro. Para citar somente alguns: Flora Süssekind, Fabio Andrade, Paulo Arantes, Willi Bolle, Pedro Ramos Dolabela Chagas, Luís Augusto Fischer, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Sérgio Miceli, Leandro Pasini, Bernardo Ricupero, Carlos Berries, Eneida Leal Cunha e João Cezar de Castro Rocha. Ou seja, além de se debruçar sobre os principais textos dos autores a que se dedica e se embrenhar na interpretação de textos de Lévi-Strauss e Antonio Candido, Canarinos costura todo um debate sobre as ideias suscitadas pelas palavras dos quatro autores, conjugando seus leitores críticos e suas fontes e/ou antecessores.
No primeiro capítulo, dedicado ao estruturalismo, o quadro inicial aparece marcado por uma oposição binária: de um lado, a recusa de Schwarz, de outro, a recepção pós-estruturalista de Santiago. Merquior e Costa Lima escorregam entre posições: ambos rejeitam “estruturalismos”, com Barthes e Genette encarnando os desaprovados por Costa Lima, mas se deixam atravessar pela centralidade de Lévi-Strauss – a ponto de Costa Lima publicar a primeira obra brasileira dedicada ao antropólogo (O estruturalismo de Lévi-Strauss, 1968). Aqui, Canarinos mostra como mesmo a recusa não elimina a força estruturante de uma teoria. A relação entre “significante flutuante” e mimese, que aproxima Merquior e Costa Lima, indica o quanto a teoria francesa se inscreve no coração de uma metateoria literária nacional.
Esse capítulo nos convida a pensar, à maneira de Bourdieu, na lógica dos campos: o que se apresenta como oposição absoluta (recusar ou aceitar o estruturalismo) revela-se, na prática, como disputa por capital simbólico dentro do campo intelectual brasileiro. O gesto de exclusão – como no famoso trecho de Schwarz em “Nacional por subtração”, no qual poucas linhas bastam para rejeitar a desconstrução – não é apenas ou necessariamente teórico, mas performativo, delimitando fronteiras de legitimidade. Ao reconstituir esse gesto, Canarinos sugere que, sob a superfície dos embates conceituais, está em jogo a própria autoridade da crítica.
O segundo capítulo, dedicado ao regionalismo, desloca a atenção para o conceito de Bildung e para a disputa em torno da nação. Se o século XIX, como observa a autora, enfrentou a nação como “a grande questão” no Brasil, isso implicava um projeto de formação que se confundia com civilização e europeização. Desde Sílvio Romero e José Veríssimo, a crítica literária identificava uma má formação a ser superada, e o regionalismo aparece como ponto de condensação desse impasse, sobretudo na transição do Império à República. Nação e região surgem como polos opostos, mas constitutivos. O regionalismo se torna lugar de tensão entre a narrativa letrada da elite e a experiência do caipira iletrado. É nesse ponto que se abre uma questão provocativa que, parodiando a célebre formulação de Gayatri Spivak, nos lança em outra das grandes questões da cultura brasileira, a representação do “pobre” pelo intelectual: pode o caipira iletrado narrar? Canarinos sugere que esse impasse é constitutivo da própria ideia de nação, mas deixa uma investigação mais profunda do tema em aberto. Ainda.
As posições dos críticos se dividem: Schwarz e Costa Lima leem o regionalismo como sintoma do atraso; Santiago, ao contrário, vê nele um marco da diferença. Merquior, por sua vez, questiona até mesmo a existência de um regionalismo autônomo no romantismo, subordinado que estaria às idealizações da estética romântica. Essas divergências evidenciam que o regionalismo é menos um consenso que uma arena onde se cruzam debates sobre atraso, modernidade e identidade cultural – e onde o recorte espacial (sempre privilegiando o eixo Rio-São Paulo) denuncia limites ainda pouco enfrentados pela crítica.
O capítulo final se volta à discussão em torno do modernismo, especialmente a reavaliação de Oswald de Andrade nos anos 1960 e 1970. Canarinos observa que, ao mesmo tempo em que o modernismo retoma aspectos centrais do regionalismo oitocentista – nacionalismo, primitivismo, representação das especificidades do país –, ele o faz por outra chave. Nas palavras de Antonio Candido: “ele [o modernismo] inaugura um novo momento na dialética do universal e do particular, inscrevendo-se neste com força e até arrogância, por meio das armas tomadas a princípio ao arsenal daquele” (Candido apud Canarinos, 2024: 185). O diagnóstico da proximidade do movimento à modernização conservadora brasileira, que Canarinos ressalta a partir das observações dos críticos da ligação entre os intelectuais modernistas e a elite cafeeira de São Paulo, ilumina a ambiguidade do modernismo, mas também a narrativa hegemônica da modernização excludente do Brasil do século XX e sua adesão pelos críticos, notadamente Roberto Schwarz e, em menor grau, Silviano Santiago.
Ao fim, Além da Formação sugere mais do que uma história de cerca de duas décadas: o livro nos obriga a pensar sobre o estatuto da crítica literária no Brasil. A opção por narrar os embates como se fossem efetivamente travados funciona, paradoxalmente, como crítica a um campo que, tantas vezes, se furtou ao diálogo. Nesse gesto, Canarinos oferece não apenas um balanço, mas uma provocação – um convite a imaginar uma tradição crítica menos defensiva, mais permeável e, sobretudo, mais disposta ao enfrentamento intelectual.
