Acervo Florestan Fernandes | Manuscrito “Folclore e Literatura”, com comentários de Diogo Valença de Azevedo Costa e Wilson Rogério Penteado Jr.

Na segunda publicação da série sobre o arquivo Florestan Fernandes, trazemos o manuscrito “Folclore e Literatura” com uma apresentação de Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB), curador da série, e Wilson Rogério Penteado Jr. (UFRB). 

Este é mais um dos manuscritos encontrados no Fundo Florestan Fernandes da Coordenadoria de Obras Raras e Coleções Especiais da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos.

Nele, nos deparamos com uma concepção de folclore que destaca seu caráter mutável e criativo, em contraste com abordagens que o pressupõem como uma manifestação essencializada do povo e/ou uma sobrevivência arcaica de determinados setores da sociedade. Para Florestan, o folclore, assim como a literatura, provém da capacidade humana de criação em seus aspectos estéticos e poéticos. No entanto, embora afins, as relações entre literatura e folclore são cambiantes e articulam-se a dinâmicas geopolíticas e a processos de diferenciação interna da sociedade brasileira.

Ao longo do ano, publicaremos outros manuscritos de Florestan na série, sempre acompanhados de comentários do curador.

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O folclore na sociologia de Florestan Fernandes

Por Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB)

Wilson Rogério Penteado Jr. (UFRB)

 O objetivo da presente coluna na BVPS é oferecer ao público – principalmente às pesquisadoras e aos pesquisadores do pensamento social brasileiro – manuscritos inéditos (ou, ao menos, quase inéditos) de Florestan Fernandes, descobertos em seu arquivo pessoal na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Evito, com isso, alongar demais a minha interpretação pessoal ou cansar as leitoras e os leitores com muitas explicações. Procuro apenas situar os textos no itinerário intelectual do autor, deixando aqui ou ali, quando possível, breves indicações de problemas de pesquisa futuros, especialmente para as novas gerações. Prefiro, nesse espaço, que o público possa tirar suas próprias conclusões e, assim, se estimule a realizar novas pesquisas no Fundo Florestan Fernandes. Para tratar dos estudos folclóricos de Florestan Fernandes, convidei o professor Wilson Penteado, meu colega na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e especialista no tema, para elaborarmos a apresentação do manuscrito “Folclore e Literatura”.

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Os estudos folclóricos não representam algo marginal na trajetória de Florestan Fernandes, constituindo uma área de interesse que ele iria cultivar, embora não com a mesma intensidade, até meados da década de 1960. Foi por meio da pesquisa folclórica que o autor se exercitou pela primeira vez na combinação sociológica das categorias de sentido e função, a partir de um olhar atento às microinterações de indivíduos e grupos em convivência face a face, procurando situá-los nos quadros mais gerais da sociedade e da história em processo. Seus estudos folclóricos não se limitam a uma caracterização estreita dos antigos estudos de comunidade como recortes exclusivos da realidade: o folclore é sempre situado como uma dimensão dinâmica dos processos sociais.

Nesse manuscrito, na verdade o roteiro de uma palestra proferida para estudantes do Colégio Dante Alighieri em 24 de maio de 1966, o mesmo colégio em que estudaram as filhas de Florestan Fernandes1, as relações entre literatura e folclore, que podemos traduzir em termos da relação entre cultura erudita e cultura popular, são focalizadas nos horizontes historicamente mais abrangentes (e, também, críticos quanto à cultura ilustrada das elites) de sua interpretação sociológica da sociedade brasileira e de seus dilemas políticos, que no fundo são dilemas culturais. A cultura folk foi a sua primeira camada de socialização literária e, nesse texto, encontramos alguns tensionamentos com a visão de mundo aristocrática do antigo regime brasileiro. Seria o caso de perguntar se certas críticas à sua forma de escrita acadêmica – não literariamente agradável como a de Gilberto Freyre – não teriam fundamento naquela visão de mundo aristocrática, conservadora e elitista? O gosto literário de Florestan Fernandes foi nutrido pelo folclore, e esse foi uma de suas fontes de identificação com o povo brasileiro.

A noção de povo é central na obra de Florestan Fernandes e, em especial, nos seus estudos sobre o folclore. O autor criticava certa concepção de povo que condenava setores da sociedade à inércia cultural e histórica, supostamente marcados por “sobrevivências culturais” e arcaísmos. Em contraposição, povo assume para ele um sentido abrangente, não restrito a um único estrato social, mas equivalente à sociedade em sua totalidade, na qual os elementos tidos como folclóricos circulam pelas camadas sociais de modo dinâmico e inventivo. Nesse sentido, o folclore não poderia ser, em absoluto, entendido como exclusivo de determinadas camadas da população, classificadas como “grupos atrasados”, nem tampouco como um conjunto de produtos culturais definitivos, tendo em vista que quem o produz – isto é, a sociedade em sua totalidade – se constitui de modo dinâmico e ao sabor da história. O folclore, portanto, é assumido pelo autor como e enquanto criação intelectual do espírito humano, proveniente da capacidade humana de criação, em seus aspectos estéticos e poéticos.

Partindo dessa concepção, ao refletir sobre a relação entre o gênero literário – especialmente o romance – e o folclore, Florestan Fernandes buscou endossar a conveniência de se trabalhar o folclore como expressão das condições da vida em sociedade, incluindo-se os diversos grupos que a constituem e as contradições de classe. Tal perspectiva se mostrava importante na visão do autor por permitir desfazer o equívoco de uma imagem do homem do povo como alguém imobilizado pela tradição e incapaz de progresso. Em seu lugar, emergiria o ser humano em atuação dinâmica, de modo que a centralidade se desloca dos fatos folclóricos propriamente ditos para as pessoas que eles caracterizam. Isso porque, na visão de Fernandes, os elementos folclóricos não existem em si e para si, mas como formas de atuação e como ideais coletivos integrados a um contexto sociocultural que lhes confere forma, significado e função. É nesse sentido que surge, segundo o autor, o sujeito que interessa à literatura, definido por aquilo que pensa, crê, deseja e se revolta. Com isso, o autor buscava demarcar a relevância da literatura para o folclore e vice-versa.

Podemos observar no manuscrito uma temática importante para Florestan Fernandes: o aproveitamento estético do folclórico nas manifestações de cunho literário ou de outros gêneros artísticos. Um exemplo decisivo é aquele estabelecido com Mário de Andrade. Florestan Fernandes simpatizava com as ideias desse romancista marcado pelo folclore, exatamente porque, em sua obra, a distância entre a arte popular e a arte erudita diminui consideravelmente. Em particular, foi a noção de caráter nacional – equivalente à cultura de um povo – que despertou positivamente a atenção de Fernandes. Mário de Andrade, ao colocar em relação de movimento as concepções de erudito e popular – defrontando a arte erudita e a arte popular “numa relação dialética” –, buscava no folclore os sentidos que constituem a vida coletiva.

Em sua obra, a arte popular e os aspectos folclóricos perdem o caráter de um compromisso limitado com a “tradição”, propiciando uma análise mais fecunda sobre folclore e sociedade. Um exemplo expressivo é Macunaíma, entendido por Florestan Fernandes como um “romance folclórico”, no qual o romancista compôs, com êxito, o herói de seu romance e, ao mesmo tempo, um compêndio de folclore, a partir do qual se pode estudar tanto a contribuição folclórica quanto a função modificadora e criadora dos segmentos étnicos componentes do país.

Consideramos que esse manuscrito poderia muito bem figurar num livro como O folclore em questão (Fernandes, 1978), no qual Florestan Fernandes reflete de maneira bastante aprofundada sobre os sentidos do Folclore – com F maiúsculo, para diferenciar essa especialidade de investigação do fenômeno folclórico propriamente dito – como método ou disciplina humanística. Na transcrição do texto “Literatura e Folclore”, que pode ser consultado no Fundo Florestan Fernandes sob o número 02.12.8399, procuramos intervir o mínimo possível e evitar notas de rodapé desnecessárias. Adaptamos a grafia às regras ortográficas vigentes. As raízes lumpen e a origem social humilde de Florestan Fernandes o tornaram sensível à distinção entre o aproveitamento folclorizado de elementos folclóricos na arte – o que levaria à reprodução de preconceitos de classe contra o Povo, grafado com maiúscula no manuscrito – e uma verdadeira reapropriação estética de elementos do folclore na arte literária, que emerge, nesse caso, como expressão autêntica da vida cultural de um povo. Assim, esperamos que a leitura desse documento histórico possa alimentar novas hipóteses de trabalho, capazes de sugerir como o gosto literário de Florestan Fernandes está presente em sua escrita sociológica.


Folclore e Literatura

Florestan Fernandes (24/5/66)

– Para o Colegial = Dante Alighieri =

Transcrição

  1. Contraste conceitual – como ambos se configuram e se opõem. Onde existe literatura; e onde começa o folclore. A interpenetração de ambos na história moderna (como expressão de fato e em termos ideais).
  2. A dinâmica da formação do folclore no Brasil. A teoria das três correntes básicas (formativas) e do elemento caldeador. O que se evidencia pelas investigações realizadas – transplantação do folclore português + persistência no Brasil; as zonas de imigração e o folclore brasileiro. Como regra: o folclore português como base + tendências de reintegração em escala regional.
  3. Fenômeno análogo ocorreu com a literatura. Apenas, a predominância de padrões estéticos1 (estilísticos e formais) portugueses sofre um impacto com a Independência. Maior plasticidade no influxo exterior, inicialmente no contexto da influência [página 1 do manuscrito] francesa. Daí, “correntes literárias” como absorção de tendências europeias de produção literária (reguladas social e culturalmente = desenvolvimento sociocultural x manifestação interna das várias escolas literárias).
  4. Sob esse aspecto, vem a ser um falso dilema o propalado distanciamento entre o folclore e a literatura. De um lado, porque o nosso folclore foi importado e nem sempre exprimi-lo significa traduzir o povo2; os interesses deste lançam raízes em situações de existência que raramente se objetivam em termos folclóricos. De outro, porque a nossa literatura – principalmente o romance e o ensaio, mas também a poesia e o teatro – a partir do momento em que absorve os padrões estéticos da civilização ocidental moderna nunca foi avessa ao folclore. Duas razões explicam esse fato. Primeiro, o tipo de intelectual que está por trás do nosso “homem de letras” e de sua concepção do mundo (como participante da revolu-[página 2]-ção urbana, no período nacional se opõe à sociedade escravista e ao estilo aristocrático de vida, revelando grande sensibilidade tanto aos elementos folclóricos quanto aos interesses propriamente morais do Povo). Segundo, porque às correntes da literatura moderna são inerentes formas peculiares de elaboração do folclórico (romantismo; naturalismo e realismo; neorealismo). Por aí se explica porque o folclórico reponta já em Macedo, Alencar, Manuel Antonio de Almeida (“Memórias de um sargento de milícias”), Franklin Távora (toda obra, não só “O Cabeleira”) e os posteriores; e até a importância do folclore como tema de explicação da unidade nacional para um Silvio Romero.
  5. Não obstante, uma utilização elaborativa3 mais profunda dos elementos folclóricos exige uma literatura consolidada. Em particular, a superação do provincianismo, o que permite a-[página3]proveitar o particular e o típico segundo esquemas e modelos universalistas. [Tomem-se Tolstoi ou Dostoiewski – nada mais russo nem mais puro fenômeno literário → ou, em outro plano, Thomas Mann]4. No Brasil, essa transição é recente – aparece como um rebento do florescimento do realismo e se afirma com a arte moderna e o neo-realismo. Machado de Assis, Aluísio de Azevedo e principalmente Lima Barreto [desenvolver]. Contudo, uma exploração mais ampla e criadora do folclore surge ainda mais recentemente, com o romance nordestino (especialmente, c/ Jorge Amado) e os desdobramentos da literatura moderna na atualidade.
  6. A esse respeito, seria conveniente separar a literatura de temática folclorística (como os contistas de São Paulo que aproveitaram o caipira e suas inspirações – Lobato, José Piza, “Contos da Roça”, Leôncio Oliveira, “Vida Roceira”, Valdomiro Silveira, “Os Caboclos” e tb. Cornélio Pires c/ sua produção – ver F.F.) da literatura que pres-[página 4]supõe a absorção propriamente literária dos elementos e itens do folclore. Neste nível, temos: Mário de Andrade, com “Macunaíma”; José Vieira x Malasartes; Jorge Amado (de “Jubiabá” aos romances mais modernos, como “Gabriela, Cravo e Canela”); uma parte do romance histórico5 de Érico Veríssimo (O Continente e parte de O Sobrado); e, em particular, Guimarães Rosa (salientar – O Grande Sertão: Veredas). Aqui = real experiência literária, no plano linguístico6, formal e temático [desenvolver]. A literatura com temática folclorística, parcial ou total, vem de longe; a que envolve a segunda dimensão, não tem meio século. A resposta parece simples: uma literatura só alcança essa dimensão quando possui, como literatura propriamente autônoma, identidade nacional +/- [[mais ou menos]]7 perfeita. Então, atinge suficiente maturidade, complexidade e versatilidade para ser veículo e expressão estética das correntes subterrâneas da vida social e cultural do Povo que a produz e a consome. [página 5]

Notas

1 A socióloga Heloísa Fernandes, primogênita de Florestan Fernandes, informa que ela e suas irmãs estudaram no Colégio Dante Alighieri e seu irmão, no Liceu Eduardo Prado. Heloísa Fernandes também informa que o convite a seu pai para proferir a palestra “Literatura e folclore” pode ter partido do professor de português, de sobrenome Sodero. No discurso de posse de Ada Pellegrini Grinover (1933-3017) na Academia Paulista de Letras, em 29 de agosto de 2002, menciona-se o professor de português Francisco Sodero, do Colégio Dante Alighieri. Disponível em: https://www.academiapaulistadeletras.org.br/discursos.asp?materia=994.

1 A palavra “estéticos” foi adicionada na parte superior da linha, com indicação do seu lugar exato de inserção no texto, por meio de uma espécie de chave horizontal direcionada para baixo.

2 A palavra “povo” está grafada com um sublinhado duplo.

3 A palavra “elaborativa” se encontra escrita na parte superior da linha com indicação do seu lugar exato de inserção no texto, por meio de uma espécie de chave horizontal, orientada para baixo.

4 Respeitamos as grafias dos nomes Tolstói e Dostoievski como se encontram no manuscrito. O trecho “ou, em outro plano, Thomas Mann” foi escrito na lateral esquerda da ficha indicada por uma seta.

5 A passagem “do romance histórico” encontra-se acima da linha, sendo indicado o local exato de sua inserção no texto por meio de uma chave horizontal apontada para baixo. Na parte lateral esquerda, Florestan Fernandes acrescenta na lista o livro “Clarão na serra”, de Francisco Marins, porém com um pequeno lapso na lembrança do título: “Marins = O clarão e a serra”.

6 Tivemos dúvidas na leitura da caligrafia de Florestan Fernandes; porém, após algumas comparações com outras palavras, resolvemos transcrever como “linguístico”. 

7 No manuscrito o sinal de soma (+) se encontra em cima do sinal de subtração (-). Os colchetes duplos correspondem, no texto, a acréscimos dos apresentadores.