A Sociologia Digital e suas interfaces | Influenciadores digitais e a produção de conteúdos: reforçando processos de individualização do trabalho por plataformas, por Daniela Oliveira

Dando continuidade à série A Sociologia Digital e suas Interfaces, publicamos hoje texto de Daniela Ribeiro de Oliveira (UFPA), onde analisa o trabalho de motoristas de aplicativos no Brasil a partir de um ângulo pouco explorado: o dos produtores de conteúdo e influenciadores que emergem nesse universo e ajudam a construir os sentidos sobre ele.

O texto mostra que esses criadores não se limitam a descrever o cotidiano, mas operam como mediadores simbólicos que reforçam valores de autorresponsabilização e individualização, traduzindo problemas estruturais em escolhas pessoais. Com isso, para a autora, as assimetrias entre capital e trabalho são ofuscadas e o conflito deslocado para disputas entre atores, enfraquecendo o papel do Estado e da representação coletiva nos interesses que organizam esse modelo de trabalho.

A Sociologia Digital e suas Interfaces é uma série da BVPS Edições, com curadoria de Richard Miskolci. A série vai ao ar semanalmente, sempre às quartas-feiras. Outros posts da série podem ser conferidos aqui.

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Influenciadores digitais e a produção de conteúdos: reforçando processos de individualização do trabalho por plataformas

Por Daniela Ribeiro de Oliveira (UFPA)

No Brasil, o processo de plataformização inicia-se a partir de 2011 (Cardoso & Pereira, 2023), com a disseminação de plataformas como a GetNinjas, que passou a oferecer serviços diversos, reunindo mais de 500 tipos de atividades, da faxina aos serviços de consultoria (Oliveira & Lopes & França, 2022). No entanto, é com a emergência da Uber que essa modalidade de organização do trabalho ganha maior visibilidade pública e densidade social, tornando-se um dos principais mecanismos de transformação das relações de trabalho. A consolidação desse modelo colocou, portanto, um problema analítico central: que trabalho é esse?

Abílio, Amorim e Grohmann (2021) chamaram atenção para as implicações analíticas e políticas das distintas nomenclaturas disseminadas entre os pesquisadores no estudo sobre plataformização: trabalho por plataforma, em plataforma, de plataforma ou mediado por plataforma. Cada uma dessas formas produzia apagamentos, seja em relação à exploração, seja em relação ao papel das plataformas no processo de trabalho. Como chave interpretativa, os autores propõem a definição de trabalho subordinado por meio de plataformas digitais. Tal formulação permite evidenciar o papel das plataformas na reorganização dos mecanismos de controle do trabalho, operados por dispositivos tecnológicos, ao mesmo tempo em que introduzem e legitimam formas de trabalho sob demanda, tornando visível a figura do trabalhador just-in-time (Abílio, 2019).

A partir da emergência e expansão das plataformas digitais como meios centrais de organização, controle e geração de renda, conforma-se, no Brasil, uma agenda de pesquisa voltada à análise das condições de trabalho em plataformas digitais, ainda que marcada por recortes analíticos relativamente delimitados (Amorim & Moda, 2020; Greggo et al., 2022; Festi & Lapa & Carvalho, 2023; IPEA, 2023). Essa produção, contudo, tem privilegiado determinadas dimensões do trabalho, permanecendo ainda incipientes as análises centradas em sujeitos que emergem no interior dessas dinâmicas de organização e experiência, como influenciadores e produtores de conteúdo vinculados ao cotidiano dos motoristas.

Nesse ponto, a tipologia proposta por Alex Vallas e Juliet Schor (2020) oferece uma chave interpretativa importante ao identificar cinco tipos de trabalho plataformizado, entre eles o dos criadores de conteúdo e influenciadores. Ainda que mencionados de forma mais genérica, esses atores, quando analisados em suas práticas, são caracterizados como centrais à lógica da economia da atenção, combinando valores do empreendedorismo, trabalho frequentemente não remunerado e expectativas de monetização futura. Trata-se, como sugerem os pesquisadores, de uma forma de “trabalho aspiracional”, marcada pela incerteza e pela dependência da capacidade de converter visibilidade em renda.

Os produtores de conteúdo e influenciadores integraram o escopo desta pesquisa sobre as condições de trabalho de motoristas de aplicativos no contexto do debate sobre a regulamentação da categoria, desencadeado em 2024 com a elaboração do Projeto de Lei Complementar 12/2024. Identificamos um conjunto de reels e cards circulando nas redes sociais e grupos de WhatsApp de motoristas, por meio dos quais rastreamos seus criadores, inicialmente dois influenciadores atuantes em São Paulo e Salvador. E construímos uma rede de 22 motoristas que articulam a atividade no transporte por aplicativo à produção de conteúdo digital, tomando o próprio cotidiano de trabalho como referência. Esses sujeitos atuam em múltiplas plataformas (Instagram, TikTok e YouTube), com conteúdos postados em diferentes canais e redes sociais.

Diante desse cenário, emergem algumas questões centrais: qual o sentido de suas publicações? Que tipo de retorno, material ou simbólico, eles obtêm com essa atividade? É possível, afinal, classificá-la como trabalho? Neste texto, analisamos a produção de conteúdo de dois influenciadores, Lucas Dias e Marlon Luz. Para isso, mobilizamos um conjunto de 200 postagens, monitoradas diariamente entre fevereiro de 2024 e abril de 2025 (Marlon Luz) e entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026 (Lucas Dias), com o objetivo de compreender os sentidos atribuídos às postagens no interior das plataformas, bem como as formas pelas quais esses conteúdos se articulam ao trabalho dos motoristas por aplicativo, reforçando formas de individualização e fragmentação das experiências e das respostas coletivas ao trabalho.

No caso de Lucas Dias, identificamos três temas recorrentes em suas publicações: condições de trabalho (rendimentos, preços das corridas, gestão algorítmica, riscos de roubo e acidente, preços do combustível e das manutenções); divulgação e propaganda; regulação do trabalho do motorista. Os vídeos com duração de até dois minutos variam entre relatos pessoais, entrevistas com outros motoristas e encenações de situações vividas no trabalho. As postagens focadas nas “relações com cliente” envolvem situações que criticam comportamentos dos clientes considerados inadequados (entrar no transporte com comida, bebida, reclamar do preço da corrida etc.). Em uma das postagens, ele aparece auxiliando, pacientemente, uma passageira idosa a entrar no automóvel. A chamada do post aciona a ideia: “um dia teremos essa idade”. Ainda sobre esta cena, a passageira identifica a exposição de mercadorias no interior do carro. No banco do passageiro foi instalado um suporte para mini perfumes, que são comercializados entre os clientes durante as viagens, demonstrando que o influenciador aproveita diferentes oportunidades para empreender. 

Seus conteúdos divulgam uma rede de pequenos, médios e grandes negócios de interesses dos motoristas, relacionados a serviços como oficinas automotivas, empresas para instalação de insulfilm, realização de seguros, locadoras de veículos, postos de gasolina e/ou estações de carregamento de baterias de carros elétricos, lava-jatos, lojas de acessórios, sites e aplicativos que auxiliam os motoristas no cálculo final das suas corridas ou como sistema de segurança, como os apps RebU e GigU, entre outros. O objeto mais estratégico, porém, predominante nas postagens foi a divulgação e propaganda de carros elétricos, em especial o BYD. 

Lucas Dias não é o único a usar suas redes para visibilizar carros, sobretudo os elétricos; outros influenciadores mobilizam suas redes para divulgar automóveis de interesses dos motoristas, sobretudo focados na relação custo-benefício do veículo. Entretanto, a divulgação de uma marca específica, como a BYD, conecta-se à sua estratégia de inserção no mercado brasileiro, baseada na incorporação desses veículos à frota de motoristas por aplicativo, com oferta de condições facilitadas de aquisição (Neder, 2024). 

Nesse contexto, mesmo quando as postagens de Dias abordam temas relacionados às condições de trabalho ou eventos como acidentes de trânsito, assumem formatos de divulgação do veículo, evidenciando a imbricação entre experiência laboral, produção de conteúdo e circulação de marcas. O Instagram não monetiza, mas é possível gerar recursos por meio do alcance, e o influenciador contava com 265 mil seguidores em setembro de 2025, número suficiente para posicioná-lo como referência, viabilizando um conjunto de atividades econômicas mediadas pela plataforma, semelhante ao que Jardim e Pires (2022) identificaram entre influenciadores fitness. 

Assim, alguns conteúdos, ainda que, aparentemente, desconectados do trabalho em si, são atravessados pela experiência do motorista no trânsito, enquanto outros oferecem dicas sobre como ampliar ganhos ou otimizar o tempo de trabalho, frequentemente mobilizando a ideia de “motorista de sucesso”. Esse conjunto de elementos permite compreender uma primeira forma de atuação desses influenciadores, centrada na circulação de elementos referentes ao desempenho individual e a valores empreendedores. 

As postagens de Marlon Luz, por outro lado, apontam para outra dimensão da atuação desses atores, diretamente vinculada à disputa em torno da regulação do trabalho por plataformas. Marlon Luz foi eleito vereador pela cidade de São Paulo na legislatura 2020-2024, trajetória construída em articulação à visibilidade prévia construída em suas redes sociais desde 2016. Sua atuação política é reforçada no contexto da repercussão do projeto, quando suas redes são mobilizadas em campanhas contrárias à proposta de regulação, desdobrando-se na organização de manifestações de rua, como no caso do ato realizado em São Paulo. Esse conjunto de ações indica que sua presença não se restringe ao ambiente digital, mas articula redes e ruas. 

As publicações analisadas não se limitaram à circulação de conteúdos sobre o cotidiano do trabalho ou à crítica às plataformas, sobretudo à Uber. Em diferentes formatos (vídeos, lives, convocações e comentários sobre o andamento do projeto), o influenciador-parlamentar interveio diretamente no debate público sobre o PLC 12/2024. Seus conteúdos apresentavam o projeto como resultado de uma aliança entre governo, empresas e sindicatos, frequentemente sintetizada na ideia de que esses atores estariam “de mãos dadas” em desacordo com os interesses dos motoristas. Esse tipo de formulação, reiterado nas postagens, contribui para estruturar uma interpretação do projeto e de seus efeitos. As publicações em vídeo direcionavam para o YouTube, onde o conteúdo era disponibilizado de forma mais extensa. 

Suas postagens contra o PLC enfatizaram três aspectos da proposta que colaborariam para possíveis perdas econômicas para os motoristas, resultantes de três elementos: a) a obrigatoriedade da contribuição previdenciária; b) a obrigatoriedade de as empresas pagarem um valor mínimo por hora aos motoristas; c) a exigência de que as negociações entre capital e trabalho fossem mediadas por sindicatos. Em vídeos analisados, o influenciador apresenta cálculos detalhados sobre descontos e ganhos, questiona o valor de R$32 por hora e sugere que a medida poderia reduzir a remuneração dos trabalhadores. Suas falas, frequentemente, colocam em dúvida a legitimidade dos sindicatos como representantes da categoria, associando-os a interesses externos aos dos motoristas, assim como colocam em xeque a necessidade de recolhimento do INSS, já que os trabalhadores contribuem por meio do cadastro de Microempreendedor Individual. 

Esse conjunto de elementos aparece combinado às convocações à ação contra o projeto, com chamadas para manifestações e alertas sobre a tramitação do projeto, muitas vezes acompanhados de um tom de urgência: “você vai ficar aí parado?”. Nesse sentido, suas postagens, diferentemente das de Lucas Dias, não apenas expressam posicionamentos relacionados ao projeto de regulamentação do “governo”, mas operam como instrumento de mobilização, conectando interpretações sobre o projeto à convocação para a ação coletiva. Marlon Luz, assim como outros influenciadores desse segmento com mais de 100 mil seguidores, ao longo do período de maior repercussão contra o PLC, encabeçou campanhas em suas redes sociais pela rejeição do projeto, o que se expressou, inicialmente, na retirada de sua tramitação em regime de urgência.

As postagens de Lucas Dias operam predominantemente a partir de uma chave individualizante, na qual o conforto e a melhoria das condições de trabalho, especialmente associados ao uso de veículos elétricos, aparecem como resultados de estratégias e escolhas do próprio motorista. Ainda que haja críticas às empresas-plataformas, estas não são formuladas a partir das assimetrias estruturais que organizam a relação entre capital e trabalho, tampouco evidenciam as formas de exploração implicadas nesse modelo. Ao contrário, tais conteúdos deslocam o foco para soluções práticas e individualizadas, centradas na gestão dos custos, na otimização do tempo e na ampliação dos ganhos, reforçando uma racionalidade alinhada ao empreendedorismo de si.

No caso de Marlon Luz, embora o conteúdo assuma um caráter mais diretamente político-partidário, a interpretação do conflito também se afasta da clivagem entre capital e trabalho. O debate em torno da regulamentação é apresentado como resultado de uma articulação entre interesses governamentais, empresariais e sindicais, reconfigurando o conflito em termos de alianças e disputas entre atores institucionais. Nesse enquadramento, a noção de “direitos” aparece de forma restrita, referindo-se, sobretudo, à ausência de benefícios fiscais específicos aos motoristas, como descontos tributários, e não à ampliação de garantias trabalhistas. Assim, a crítica ao projeto não se orienta pela reivindicação de proteção social, mas pela defesa de condições mais favoráveis à permanência individual no mercado. A chave aqui é a capacidade de consumo, não a reivindicação, preservação ou acesso a direitos. Aliás, a gramática dos direitos está ausente em todos os conteúdos analisados até o momento.

Consideradas em conjunto, as postagens analisadas indicam que os criadores de conteúdos e influenciadores de motoristas não apenas descrevem o cotidiano do trabalho por aplicativos em termos de críticas às empresas, aos sistemas de remuneração considerados insuficientes e/ou injustos; eles operam, outrossim, como mediadores na produção de sentidos sobre tal cotidiano, reforçando valores como os expressos na autorresponsabilização e na individualização, nas quais problemas estruturais são sistematicamente traduzidos em termos de escolhas, estratégias e capacidades individuais. Nesse processo, as assimetrias que organizam a relação entre capital e trabalho tendem a ser obscurecidas, enquanto o conflito é reconfigurado sob uma perspectiva relacional, deslocando-se para disputas entre atores, interesses e percepções, e deslegitimando o papel de instituições chave, como o Estado e a representação dos trabalhadores.

Outro aspecto relevante é a validação de conteúdos de ambos os influenciadores cuja estrutura argumentativa simplificada reduz contextos, atores e situações complexas a soluções simplistas. Tais dinâmicas dialogam com as análises de Miskolci (2021) sobre a esfera pública técnico-midiatizada, na qual as plataformas digitais favorecem formas individualizadas de interpretação da realidade e enfraquecem mediações coletivas, contribuindo para a fragmentação das experiências e para a limitação das possibilidades de organização do trabalho em bases coletivas.


Referências

AMORIM, Henrique & MODA, Felipe Bruner. (2020). Trabalho por aplicativo: gerenciamento algorítmico e condições de trabalho dos motoristas da Uber. Fronteiras – Estudos Midiáticos, São Leopoldo, v. 22, n. 1, p. 59–71, jan./abr.

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ABÍLIO, Ludmila Costhek & AMORIM, Henrique & GROHMANN, Rafael. (2021). Uberização e plataformização do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas. Sociologias, Porto Alegre, ano 23, n. 57, p. 26–56, mai./ago.

CHIARINI, Tulio & SILVA NETO, Victor José da & PEREIRA, Larissa de Souza & SZIGETHY, Leonardo. (2023). Plataformas digitais: mapeamento semissistemático e interdisciplinar do conhecimento produzido nas universidades brasileiras. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). (Texto para Discussão, n. 2829).

CNN BRASIL. (2023). Chinesa BYD e 99 fecham acordo para mais 300 carros elétricos em São Paulo.

FESTI, Ricardo Colturato & LAPA, Raphael Santos & CARVALHO, Bruna Vasconcelos de. (2023). Condições de trabalho e saúde de entregadores por aplicativos no Distrito Federal. Política & Trabalho, n. 58.

GREGGO, João Pedro et al. (2022). Percepção de motoristas de Uber sobre condições de trabalho e saúde no contexto da Covid-19. Saúde em Debate, v. 46, n. 132, p. 93–106.

MISKOLCI, Richard. (2021). Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada. Belo Horizonte: Autêntica.

OLIVEIRA, Murilo C. Sampaio & LOPES, Randerson Haine de Souza & FRANÇA, Tâmara Brito de. (2022). Uma breve análise do trabalho na GetNinjas. Revista Ciências do Trabalho, n. 21, abr.

JARDIM, Maria Chaves & PIRES, Luana Di. (2022). O Instagram como dispositivo de construção de mercado nas redes sociais: a intimidade distinta como variável central junto aos influenciadores de fitness. Revista Brasileira de Sociologia, v. 10, n. 24, p. 144–175, jan./abr.

NEDER, Vinicius. (2024). BYD repete parceria com 99 e oferece condições melhores para motorista do app comprar Dolphin Mini. O Globo, 28 fev.

VALLAS, Steven P. & SCHOR, Juliet B. (2020). What do platforms do? Understanding the gig economy. Annual Review of Sociology, v. 46, p. 273–294.

Sobre a autora

Daniela Ribeiro de Oliveira é Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (FACS/PPGSA/UFPA).