Simpósio Internacional | Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer? (VII)

A BVPS encerra a série de posts do simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?, que convidou especialistas brasileiras/os e do exterior, a partir de três grandes áreas das ciências sociais – a teoria social, a sociologia do trabalho e o pensamento social e político brasileiro –, a responder quatro perguntas em torno das intrincadas relações entre autoritarismo e capitalismo no mundo contemporâneo. As respostas foram publicadas em blocos durante às quartas-feiras. Confira todas as publicações do simpósio clicando aqui.

Hoje teremos como convidadas/os:

Lilia Moritz Schwarcz é professora sênior do Departamento em Antropologia Social (USP), Global Scholar e professora visitante em Princeton desde 2009. Membra da Academia Brasileira de Letras, publicou, entre outros livros, Brasil: um biografia (2015), Lima Barreto: Triste visionário (2017) e Imagens da branquitude: a presença da ausência (2024).

Sérgio Costa é professor titular de sociologia da Freie Universität Berlin e diretor do Mecila (Maria Sybilla Merian Centre Conviviality-Inequality in Latin America). Entre seus livros mais recentes encontram-se Desiguais e Divididos (2025), Um Porto no Capitalismo Global (2020) e Entre el Atlántico y el Pacífico Negro (2019).

Kathya Araújo é socióloga e psicóloga, pesquisadora em Ciências Sociais especializada em assimetrias de poder e laço social. É professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IDEA) da Universidade de Santiago do Chile. Publicou, entre outros livros, Habitar lo social (2009), El miedo a los subordinados e, mais recentemente, El circuito del desapego (2025).

A BVPS convidou 25 autores e autoras vinculados a instituições de diferentes partes do mundo a se debruçarem sobre uma questão de inegável relevância na conjuntura atual. Registramos nossos sinceros agradecimentos a todos os que colaboraram generosamente com esta iniciativa, coordenada por Fabrício Maciel (UFF) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor responsável pelo blog da BVPS), contando com a assessoria editorial de Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ e BVPS).

Boa leitura!


Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?

1. Qual é o seu diagnóstico sobre a relação entre capitalismo e autoritarismo na atualidade?

Lilia Schwarcz: Historicamente o capitalismo conviveu com regimes democráticos e autoritários, o que faz com que não exista resposta fácil para essa pergunta.

Não por coincidência, durante décadas predominou a interpretação de que o crescimento econômico, a urbanização, a educação e a ampliação das classes médias criariam condições favoráveis à participação política.

Mas essa linha de análise acabou sendo relativizada a partir de uma série de exemplos históricos – com vários casos mostrando como o capitalismo pode conviver bem e se sair fortalecido em regimes autoritários.

Vale lembrar também do debate mais recente em torno da erosão democrática que vimos presenciando. Investigadores têm analisado como vários líderes, depois de eleitos, passaram a enfraquecer instituições democráticas, como a imprensa livre, o judiciário independente, o legislativo autônomo e órgãos de controle – mesmo sem abolir formalmente as eleições. 

Outra linha importante de pesquisa associa o crescimento de movimentos autoritários justamente às tensões que vem sendo produzidas pelo capitalismo globalizado. Nesse sentido, mercados desregulados podem gerar insegurança social e reações políticas autoritárias.

Essa segunda hipótese ajudaria a explicar o crescimento de nacionalismos de extrema direita e dos populismos.  O argumento não é que a desigualdade produz automaticamente o autoritarismo, mas que o aumento da insegurança econômica, ⁠a percepção de perda de status, o⁠ ⁠enfraquecimento de sindicatos e de organizações coletivas, ⁠a concentração de renda pode criar um terreno fértil para discursos que prometem ordem e investem na narrativa da segurança. Pode levar, ainda, à ascensão de líderes carismáticos sem compromisso com a democracia, mas apegados à lógica liberal capitalista. 

Por fim, gostaria de lembrar do fenômeno ainda mais recente do capitalismo digital e da concentração de poder envolvendo as grandes plataformas tecnológicas. Tecnologias digitais estariam ampliando a capacidade de monitoramento estatal e privado, fenômeno particularmente visível em experiências autoritárias contemporâneas.

Sérgio Costa: O desafio de entender a relação entre capitalismo e autoritarismo no momento contemporâneo compreende necessariamente um esforço de evitar respostas deterministas, sejam elas subjetivistas ou economicistas. Isso implica reconhecer que o elo entre capitalismo e autoritarismo é contingente, o que obviamente não é o mesmo que dizer que esse elo é fortuito ou aleatório. Há processos concretos que explicam esse elo. Esses mesmos processos, contudo, poderiam levar a outros desfechos.

Resumindo de maneira muito rudimentar desenvolvimentos múltiplos e complexos, parece-me que o fim do socialismo real e o avanço da globalização capitalista produziu um contexto de explosão das expectativas individuais de ascensão social, sobretudo no Sul global, ao mesmo tempo em que o avanço da competitividade entre as diferentes economias nacionais reduzia a margem de manobra dos estados de bem-estar, principalmente no Norte global. Paralelemente, tanto no Sul quanto no Norte globais, observa-se uma concentração sem precedentes de renda e riqueza.

O resultado desses movimentos é que chegamos às primeiras décadas do presente século a uma situação, no Sul global, de declínio da pobreza (muito acentuado na Ásia, menos acentuado na África e heterogêneo na América Latina) mas com limitadas possibilidades de mobilidade social dos setores chamados emergentes e enormes dificuldades das classes médias estabelecidas de manterem seus níveis relativos de renda e riqueza. No Norte global, empregos, principalmente nos setores industriais mais consolidados, como a produção de bens duráveis, desaparecem diante da concorrência principalmente da indústria chinesa.

Ao lado de tais transformações econômicas, a ampliação de direitos de minorais e a redução, mesmo que muito limitada, das assimetrias de gênero, raça e etnicidade, tanto no Norte quanto no Sul globais, desestabilizam hierarquias estabelecidas, gerando frustrações e ansiedades para os que perdiam poder e influência.

Em linhas muito toscas, essa é a configuração, por assim dizer, objetiva, sobre a qual discursos autoritários que prometem restaurar a ordem nacionalista, machista e racista conquistam e emolduram a subjetividade dos que se sentiam e se sentem desorientados e desamparados num contexto em que antigas certezas e novas esperanças se desmancham no ar.

Kathya Araujo: O autoritarismo é uma palavra que remete a um conjunto de fenômenos. Por um lado, designa um tipo de regime político. Por outro, um modo específico de exercício das atribuições de poder das quais alguém foi investido para exercer autoridade, por exemplo, uma professora ou um pai de família, uma presidenta ou um médico. Em terceiro lugar, o autoritarismo é uma modalidade específica na qual se organizam as relações entre os indivíduos e entre estes e as instituições em uma sociedade. Responder a essa pergunta exige começar por fazer essa distinção.

No que diz respeito a regimes políticos específicos, como a história demonstrou, o autoritarismo não está necessariamente ligado ao capitalismo. Tivemos regimes autoritários para além do âmbito de influência do capitalismo. Por sua vez, o capitalismo funcionou com diferentes tipos de regimes políticos. O capitalismo, mais do que um touro, é uma ameba, tanto por sua capacidade infinita de mudar de forma quanto por sua fagocitose profissional. É capaz de infiltrar-se em qualquer fresta para manter sua sobrevivência, e os regimes autoritários ou os democráticos (e seus princípios) serão sempre instrumentos potenciais para esse fim. No entanto, os já clássicos trabalhos de Guillermo O’Donnell, a partir do caso da América do Sul, sugeriram a íntima vinculação entre capitalismo e autoritarismo enquanto regime. O que O’Donnell mostrou em seu clássico livro Análise do Autoritarismo Burocrático [em espanhol: El Estado Autoritário Burocratico] é que a emergência de regimes autoritários na segunda metade do século XX na América do Sul estava ligada a uma crise da capacidade de controle político e social das classes dominantes. Uma crise que se relaciona com o crescente questionamento, por amplos setores da população, das formas tradicionais de autoridade ligadas às modalidades de distribuição do poder social e à arquitetura econômica e social que a acompanhava. O autoritarismo caminha de mãos dadas com uma narrativa de restauração da ordem que se apresenta como uma restauração técnica, e não como uma decisão política. Como esse trabalho ensina, a narrativa da restauração da ordem por via do autoritarismo, hoje como então, ainda que por vias muito distintas, é uma forma de resolver a crise da dominação que é, ao mesmo tempo, uma via de proteção do modelo capitalista.

Mas há a outra dimensão do autoritarismo, que é a social. É desta que mais se aproxima meu campo de investigação sobre as transformações estruturais e seus impactos sobre os indivíduos e o laço social. Desde essa perspectiva, os trabalhos mostram como o capitalismo, em sua modalidade neoliberal, participa por vias não evidentes no estabelecimento dos destinos da autoridade nas sociedades atuais. Em sociedades profundamente influenciadas pelos princípios neoliberais, os indivíduos enfrentam uma necessidade crescente de contrabalançar os altos níveis de complexidade do mundo, juntamente com níveis muito elevados de insegurança existencial e de instabilidade posicional social. Essa necessidade encontra, como uma de suas manifestações, a busca de garantias que se pode observar na dependência em relação à superioridade percebida (em habilidades, visão ou força) de certos atores. Isso se agudiza na medida em que hoje se verifica a existência paradoxal de um questionamento generalizado das hierarquias e da autoridade (por exemplo, a da ciência ou a dos professores), ao mesmo tempo que uma disposição a considerar que apenas posições de autoridade que exercem seu poder com força e mão de ferro são capazes de ser eficazes. Dessa maneira, as experiências sob o capitalismo neoliberal têm, como uma de suas vias de expressão, um fortalecimento do apoio ao autoritarismo: promovem uma sensibilidade receptiva a figuras de autoridade políticas que enfatizam sua força, seu poder e sua capacidade de dominação, e que são capazes de convencer acerca de sua eficácia para garantir a proteção frente às ameaças percebidas, as quais são ampliadas pela incerteza existencial de base. O capitalismo dá sustentação ao autoritarismo como modalidade política na medida em que enfraquece os suportes morais e socioculturais da democracia.

2. Como você considera que a sua área de conhecimento poderia interagir com outras áreas na construção deste diagnóstico?

Lilia Schwarcz: Parto de uma metodologia da etnohistória que ajuda a pensar o passado a partir das mudanças, mas também das reiterações e permanências no tempo. Uma perspectiva que, sem ser determinista, insiste que “nosso presente está cheio de passado” e que, pensados nesses termos, os brasileiros sempre foram autoritários.

Também acredito que, em tempos de Guerra Cultural, empreendida com bastante sucesso pela extrema direita populista, a história tem assumido um papel central no sentido de evitar narrativas de passados edulcorados, marcados por discursos saudosistas e regressistas de verve autoritária.

Essas disputas têm girado em torno de valores, identidades, costumes, religião, gênero, memória histórica, raça, educação e símbolos nacionais. Elas não configuram necessariamente um problema em si, pois democracias vivem de conflito e dissenso. O perigo surge quando essas divergências deixam de ser vistas como legítimas e passam a ser tratadas como batalhas morais.

A democracia depende da existência de adversários legítimos. Já o autoritarismo começa a ganhar terreno quando o “outro” deixa de ser alguém de quem se discorda e passa a ser o inimigo cuja existência política precisa ser eliminada.

Nessas circunstâncias, o debate público se transforma numa lógica de eliminação simbólica. E é nesse cenário que a promessa de restaurar uma ordem histórica, supostamente perdida, pode abrir espaços para projetos autoritários que se apresentam como soluções simples para problemas complexos e usam do ressentimento como forma de engajamento social.

É justamente nesse ponto que penso que minha área pode colaborar com outras. Iluminando a eficácia simbólica do poder político: como ele se serve de rituais, narrativas acerca do passado, telas, monumentos para sua própria elevação e para a construção de imaginários coletivos.

Por essa razão, muitos historiadores da cultura observam que ataques à educação e às artes costumam funcionar como indicadores precoces de processos de deterioração democrática. E, nesse sentido, a produção artística e visual cumpre papel muito relevante no sentido de desnaturalizar a desigualdade e desnudar formas de discursos e de história únicas.

Sérgio Costa: Gostaria de enfatizar que a sociologia como ciência especializada em pesquisar as conexões entre estrutura e ação, isto é, processos materiais e construções subjetivas, encontra-se numa posição privilegiada para entender o nexo entre capitalismo e autoritarismo. Essa atenção dupla e simultânea às estruturas e à significação dos processos sociais permite à sociologia, ao menos potencialmente, evitar a falsa disputa, muito presente nas pesquisas sobre o avanço da extrema direita, em torno da primazia ou da economia ou da cultura e ideologia para o apoio à esquerda radical. Obviamente, não há como reduzir as escolhas políticas a uma dessas esferas, a ação social é consequência da interpretação das estruturas, como sabemos ao menos desde Max Weber. 

A compreensão da conexão entre capitalismo e autoritarismo implica, primeiro, a cooperação entre diversos campos da sociologia que até agora pouco dialogaram. Refiro-me à necessidade de colaboração da sociologia das desigualdades sociais e da sociologia política – que são os campos onde circulo com mais familiaridade – com a sociologia das emoções, a sociologia das religiões, a sociologia da cultura e a sociologia do mundo digital, para mencionar apenas alguns dos campos mais óbvios envolvidos neste diálogo.

Além disso, a cooperação com outras disciplinas é igualmente fundamental. Para entender, por exemplo, as ciladas do capitalismo financeiro e de plataforma, o diálogo com a economia política é fundamental. Por sua vez, para entender o papel da comunicação digital para alimentar a adesão ao autoritarismo, não basta estudar os conteúdos divulgados. Importa estudar, ao menos minimamente, a infraestrutura material e a lógica algorítmica para o que a colaboração com as ciências da informação é fundamental. Igualmente relevante é entender as limitações do sistema político e da política de maneira geral para responder e processar as ansiedades e expectativas num mundo de poucas certezas. Para isso, o diálogo com a ciência política, sobretudo as correntes mais críticas, menos positivistas, é indispensável. Finalmente, mas não menos importante, são a antropologia para nos ajudar a entender como os repertórios políticos são negociados e modificados no cotidiano, bem como a psicologia social e a psicanálise, indispensáveis para desvendar os impulsos individuais e coletivos mobilizados pelo autoritarismo.

Kathya Araujo: A reflexão sobre as transformações estruturais, os processos sociais e seus impactos sobre os laços sociais e os indivíduos é uma contribuição indispensável para pensar os fenômenos políticos. Como tentei mostrar ao longo do meu trabalho, a chave política é hoje muito menos potente para explicar a vida social do que era há cinquenta ou sessenta anos. Os esforços da esfera do político institucional para dar forma aos discursos, orientações ou narrativas sociais competem hoje com o peso das experiências ordinárias das pessoas. É a partir destas últimas que elas extraem seu saber sobre o social e constroem seus posicionamentos sobre o que é admissível e o que é inadmissível; sobre o que se requer e o que não; sobre o que está certo e o que está errado; sobre o que é digno de proteção; e, claro, seus medos. Por isso, hoje a sociedade não se deixa explicar por essas chaves políticas, assim como não é com essas chaves que podemos explicar as relações que as pessoas estabelecem com a política. A política pode intervir para fazer uso do que emerge dessas experiências ordinárias, mas não pode substituí-lo por suas próprias produções.

Ao contrário, as modalidades que assumem o laço social e os indivíduos são uma chave principal para entender, na atualidade, o laço político. É indispensável entender os mecanismos e os processos sociais pelos quais o autoritarismo se torna admissível e desejável em nossas sociedades, e as maneiras pelas quais suas experiências em sociedades capitalistas neoliberais impulsionam esse fenômeno.

3. Em sua opinião, quais possibilidades de ação efetiva poderiam ser orientadas por esta discussão, no sentido de enfrentar os efeitos sociais negativos produzidos pelo aprofundamento do autoritarismo na atualidade?

Lilia Schwarcz: O autoritarismo não avança apenas pela força do Estado, mas também pela erosão lenta dos vínculos sociais, da confiança pública e das instituições.

Por isso, o fortalecimento das instituições políticas, da cultura cívica, dos movimentos sociais e mecanismos de redistribuição continuam sendo uma espécie de cartilha para determinar se sociedades capitalistas permanecem democráticas ou se caminham para formas de autoritarismo. 

Dessa maneira, em minha opinião, as ações em prol da democracia não devem se voltar exclusivamente para o fortalecimento das instituições. Elas precisam também incluir as esferas culturais e educacionais. Vale a pena apostar na esfera pública pois a democracia depende da construção de espaços nos quais as pessoas possam debater, discordar e construir consensos mínimos.

Daí a importância de se fortalecer a educação pública de uma maneira geral e em particular as universidades; ⁠preservar a autonomia da imprensa, ⁠proteger instituições culturais; ⁠estimular formas plurais de debate público.

Não se trata, assim, de eliminar conflitos, mas de impedir que, nesse processo democrático, eles se transformem em guerras permanentes; nem de fazer dos adversários, inimigos figadais.

Em segundo lugar, em meu entender, é preciso concentrar ações acerca da desigualdade existente no nosso país – e que se expressa em termos sociais, de raça e gênero. Em uma nação como a nossa, marcada pelo passado colonial, o escravismo e a grande propriedade monocultora, o fortalecimento da democracia também passa pelo combate severo à desigualdade, no sentido de melhor qualificar nossa democracia.

Em terceiro lugar, entendo que em tempos de Guerra Cultural, defender a memória histórica é também uma medida democrática. Sociedades que perdem a memória de suas experiências autoritárias tornam-se mais vulneráveis à sua repetição. Por isso, ⁠arquivos, ⁠museus, ⁠monumentos,⁠ ⁠produção artística, ⁠ensino de história não são elementos periféricos da democracia. Eu diria que fazem parte de uma infraestrutura simbólica e regulatória.

Em quarto lugar, destaco ainda como é necessário regular, urgentemente, o poder das plataformas digitais e sua concentração em poucas empresas privadas. Para isso será preciso reivindicar uma ⁠maior transparência algorítmica; a ⁠proteção de dados; a   ⁠responsabilização de plataformas; a criação de manuais de utilização; o ⁠combate a campanhas coordenadas de desinformação.

Por fim, sem querer ser utópica, julgo que será preciso recuperar a ideia de bem comum. O avanço do autoritarismo está associado ao enfraquecimento da própria ideia de coletividade e de solidariedade. Pois, como explica a literatura, a democracia exige mais do que eleições; exige práticas de solidariedade e de pertencimento, e de projetos de aprendizagem da igualdade.

Assim, o combate ao autoritarismo não se resume a derrotar líderes autoritários. Regimes autoritários prosperam quando as pessoas se tornam isoladas, desmobilizadas e incapazes de agir coletivamente.

Sérgio Costa: Meu diagnóstico, ou se preferem, minha aposta é que o êxito da extrema direita em mobilizar ansiedades e expectativas frustradas que emergem nesse momento específico da globalização capitalista é contingente, isto é, não constitui um imperativo, uma necessidade histórica. Decorre disso que outros repertórios de significação, democráticos, solidários, podem ser (e de fato recorrentemente o são) igualmente bem-sucedidos na tarefa de articular e responder a essas mesmas ansiedades e expectativas. Isso implica para a política emancipatória e progressista uma tarefa dupla e simultânea: transformar as condições estruturais que geram ansiedades e expectativas frustradas e construir repertórios de significação para as insatisfações presentes fundamentados na solidariedade e na democracia.

As forças democráticas (políticos, partidos, governantes, intelectuais) vêm encontrando enormes dificuldades para encarar essa tarefa dupla. No plano estrutural, governos e políticos progressistas do Norte global, nos últimos anos, literalmente rifaram as instituições do estado de bem-estar como se isso garantisse mais competitividade na economia global. No Sul global, governos apostaram nas políticas de transferência de renda desvinculadas de políticas de emprego ou de uma política industrial capaz de fazer avançar a produtividade das indústrias nacionais. O resultado disso é a primarização e desindustrialização das economias nacionais bem como o endividamento das famílias, agravando ansiedades e incertezas.

No plano do desenvolvimento repertórios de significação das experiências coletivas, isto é, no âmbito da disputa de hegemonia, as forças progressistas têm também mostrado pouco dinamismo, recorrendo, como se vê no caso brasileiro, a velhos modelos de interpretação para responder a novas aspirações. Na Europa, o que tenho visto é que partidos e políticos democráticos, mesmo partidos com longa tradição socio-democrática, quando acossados pela extrema direita, integram, em seus discursos, os repertórios dos radicais de direita. Denunciam os supostos privilégios concedidos a imigrantes ou os igualmente supostos excessos das “políticas identitárias”. Aceitam, por assim dizer, jogar no campo (discursivo) do adversário, agravando sua própria crise existencial.

Kathya Araujo: São muitas, mas, por razões de espaço, gostaria de me concentrar em uma, que talvez seja a que mais me concerne como cientista social. É preciso produzir bons diagnósticos. Isso implica partir do princípio de que nem todos os regimes autoritários ou estilos autoritários do presente são iguais; alguns se encontram a considerável distância de outros. Não o são porque, para começar, o significado varia em cada caso. Mas também porque eles se assentam sobre histórias e processos econômicos, sociais e políticos muito diferentes. Com efeito, são muito diferentes entre si porque, em cada caso, diferem os traços específicos do capitalismo; a estrutura e a coesão dos grupos dominantes, assim como os graus de estabilidade ou desestabilização desses grupos; os fatores que definem a condição histórica atual das sociedades em que operam; os traços do laço social e dos indivíduos; a história política recente; o conjunto de suportes morais e socioculturais em que a vida política se apoia, entre outros.

Assim, é recomendável, nesse contexto, delimitar de maneira clara qual é o fenômeno que enfrentamos de modo transversal, mas ressaltando as especificidades dos casos nacionais. Ao mesmo tempo, é importante construir marcos analíticos mais complexos, nos quais se leve em conta, de maneira orgânica, o fato de que é impossível entender o autoritarismo político sem entender o autoritarismo social.

4. Quais autores e/ou obras em sua área de conhecimento seriam relevantes para este debate? Mencione três ou quatro.

Lilia Schwarcz: ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ARENDT, Hannah. ⁠As origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

⁠LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: poder e a produção da história. Tradução de Sebastião Nascimento. Curitiba: Huya, 2016.

Sérgio Costa: A bibliografia brasileira e internacional sobre o tema é riquíssima e qualquer seleção é necessariamente incompleta e arbitrária. Restrinjo-me aqui a três títulos brasileiros:

Limites da democracia (Companhia das Letras, 2022), de Marcos Nobre, mostra de forma aguda como o sistema político no Brasil mostra-se incapaz de processar as insatisfações ecoadas nas ruas reais e virtuais, criando assim o ambiente favorável para os discursos autoritários antissistema.

Do transe à vertigem (Ubu, 2022), de Rodrigo Nunes, reconstrói para desconstruir as bases do discurso autoritário, realçando como angústias e medos são instrumentalizados pela gramática regressiva.

Amanhã vai ser maior: O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual (Planeta, 2019), de Rosana Pinheiro-Machado, documenta o pioneirismo da autora em detectar como a crise do macho e, de forma mais geral, conflitos interseccionais alimentam as tendências autoritárias.

Kathya Araujo: Análise do autoritarismo burocrático (Paz e Terra, 1990) [em espanhol: El Estado Autoritario Burocratico], de Guillermo O’Donnell: é um livro que devemos revisitar. Apesar de toda a distância entre hoje e a época que o autor estuda, muitas das teses de fundo se mantêm e ganham em atualidade. Não é para retomá-las, é para pensá-las ao calor de nossos tempos.

Les institutions invisibles (Seuil, 2024), de Pierre Rosanvallon: parece-me inestimável ao mostrar como hoje nosso esforço deve ser o de entender aquela dimensão do invisível que sustenta e move as sociedades (o autor as chama de instituições invisíveis) para poder abordar o visível.

A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder (Intrínseca, 2021), de Shoshana Zuboff: uma referência indispensável para pensar as novas estratégias do poder e do controle em sua articulação com o capitalismo.