
Dando continuidade à série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos esta semana dois textos que exploram a dimensão regional na obra do autor.
Marilene Corrêa da Silva Freitas (UFAM) mostra como a Amazônia ocupa lugar estratégico na sociologia de Ianni, tornando-se chave para reinterpretar a formação nacional a partir da expansão do capitalismo, da ação do Estado e dos conflitos pela terra. A autora discute ainda como Ianni inspirou agendas de pesquisa e formou gerações de cientistas sociais comprometidos com uma leitura crítica da região.
Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.
Boa leitura!
Octavio Ianni e o reencontro do Brasil na Amazônia
Por Marilene Corrêa da Silva Freitas (UFAM)
Escrever sobre Octavio Ianni é reconhecer a imensa dívida que tenho com ele, intelectual e emocional. Ele ensinou aos sociólogos brasileiros da minha geração como as estruturas e relações de opressão, em todos os níveis, não se reproduzem apenas em classes ou em desigualdades regionais, mas também no que hoje se apresenta, na aparência, como a interseccionalidade de raça, sexualidade e gênero, e as colonialidades que são reproduzidas em distintos momentos da subalternidade. Com ele aprendi que a invenção da Amazônia não escapa dos contextos históricos das relações mundiais capitalistas, desde sua expansão e articulações com a sociedade nacional brasileira, ontem e hoje. Essa dívida é interminável e intergeracional.
O centenário de Octavio Ianni abre inúmeras questões acerca de sua produção sociológica, posta hoje à reflexão de várias gerações de pesquisadores formados em relações de orientação acadêmica em que ele foi o supervisor e a figura intelectual central do campo de pesquisa sociológica.
Em primeiro lugar, essas reflexões podem indicar uma linha interpretativa na diversidade de textos de sua obra, como resultado de seu trabalho de pesquisa sociológica, e articular o conjunto escrito de seu trabalho, o material empírico e a interpretação sociológica, historicamente situados, como organizadores e categorizadores de traços significativos dos grupos humanos da sociedade brasileira e da estrutura dessa própria sociedade, com a imaginação sociológica indutora do campo de conhecimento no qual ele foi um dos construtores.
Em segundo lugar, o conjunto da obra de Octavio Ianni, nos comentários realizados por importantes intérpretes – como Renato Ortiz (2008), Elide Bastos (2004), André Botelho (2024), entre outros –, a partir do ponto de contato entre eles e Ianni, marca, nele próprio, um mergulho sobre a experiência humana de brasileiros em busca do processo de compreensão do campo científico da sociologia e dos processos de formação sociológica em diversos momentos do país. Inseri-los na atmosfera intelectual da vida universitária e no imaginário disciplinar da teoria sociológica, formulada na centralidade do pensamento sociológico brasileiro, já é provocação libertadora suficiente para colocar em causa determinantes étnicos, regionais, religiosos e de classe, o que não significa apagá-los, mas relacioná-los na complexidade da teoria social em processo.
Em terceiro lugar, a sociologia de Ianni compreendeu o Brasil profundo e as possibilidades de configuração do alcance das mudanças da sociedade global em diferentes momentos, nos territórios, culturas e populações brasileiras. Só a experiência de quem viveu e interveio no laboratório vivo do pensamento sociológico brasileiro, entre linhas de pesquisa, renovação de agendas institucionais da pós-graduação e refinada leitura das diferenças e desigualdades da sociedade nacional, poderia dar conta dos velhos e novos constrangimentos que desafiavam o pensamento sociológico no contexto citado.
O pesquisador, o intelectual, o escritor, o construtor do conhecimento sociológico: é amplíssimo o universo da criação de Octavio Ianni na sua condição de pesquisador e professor, e na transposição de suas obras para todas as disciplinas da grande área das humanidades. Ele foi o grande interlocutor entre a Escola Paulista de Sociologia e a institucionalidade das Ciências Sociais no Brasil; seu pensamento e sua intervenção acadêmica têm lugar especial no processo de formação docente e de pesquisadores brasileiros.
Isso inclui a tarefa de pensar a Amazônia na sociologia brasileira, com o olhar de dentro da região, a partir da cadeia de conhecimentos que a pesquisa pós-graduada produz e integra. É sobre esse ponto que me deterei aqui.
Reconfigurando o Brasil na Amazônia
A última passagem de Octavio Ianni pelo Amazonas, em 2001, foi noticiada com deferência e interesse. Foi apresentado ao leitor, fora do campo acadêmico, como um visitante ilustre, com sua envergadura teórica e acadêmica reconhecida e laços com a comunidade universitária local das Ciências Sociais. Interlocutores, pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais que testaram hipóteses de pesquisa sob a sua direção e analistas de sua obra, que apreendiam sua construção sociológica sobre a sociedade brasileira, ampla e complexa, suas partes e conexões com o mundo, são anunciados. Do mesmo modo, são anunciadas as relações de pesquisa de Octavio Ianni com a Amazônia:
Octavio Ianni é também, um profundo conhecedor da região amazônica, tendo dedicado a ela livros e ensaios entre os quais destacam-se: A Luta pela Terra, Colonização e Contra-Reforma Agrária na Amazônia, Ditadura e agricultura, e “A Amazônia e a questão nacional”. Temas e perspectivas da Amazônia sob uma abordagem crítica foram tratados por Octavio Ianni mediante análise do colonialismo na região, das tentativas de integração nacional, a questão agrária, a questão indígena, a Zona franca de Manaus, o caráter da estratégia do militarismo e do planejamento do Estado que estão entre os inúmeros enfoques dados por ele à realidade amazônica. Seu conhecimento sobre a região também é notório por meio de cursos e de orientações acadêmicas à vários professores e intelectuais do Amazonas e do Pará, de várias gerações de pesquisadores, entre os quais destacam-se Renan Freitas Pinto, Neide Gondim, Elenise Scherer, Marilene Corrêa, Ricardo Bessa, Alex Fiúza de Melo, Marcelo Seráfico. Toda a sociologia brasileira dos anos 70, 80 e 90 foi influenciada direta ou indiretamente pela produção intelectual de Octavio Ianni. (…) Há uma característica no trabalho intelectual de Octávio Ianni que é o pensamento articulado em várias dimensões da realidade local, regional, nacional e mundial; na atualização permanente e crítica das relações entre o pensamento clássico e contemporâneo, além de uma acuidade sempre presente nas temáticas emergentes. É neste quadro que a questão social brasileira é analisada; é neste contexto que os grupos sociais no Brasil são reconhecidos e compreendidos; é ainda neste foco que procede a crítica da sociologia pela sociologia tornando-o um pensador original e atuante (Material de divulgação, 2001).
Octavio Ianni reconfigurou seu olhar sobre o Brasil na Amazônia. Essa é uma suposição de validação heurística de sua interpretação sobre vários momentos da formação nacional brasileira, dos quais emergem conexões com os movimentos da economia política capitalista. Seu encontro com a Amazônia é refinado pelo olhar dialeticamente treinado, que articula fato e significação, ambos construídos na compreensão lógica e histórica da sociedade brasileira. Na apresentação do livro O Paiz do Amazonas, originalmente minha dissertação de mestrado, por ele orientada, expressa uma síntese exemplar de sua compreensão da região:
A Amazônia não nasce direta e limpidamente brasileira. Começa por ser principalmente indígena, nativa. Aos poucos revela-se portuguesa, colonial. Em seguida, afirma-se cabana, revolucionária. Depois é definida como brasileira, nacional. Situa-se no mapa do Brasil como imensa geografia e surpreendente história. Mas continuará sendo simultaneamente indígena, portuguesa, cabana e brasileira; assim como um momento da sociedade mundial.
É assim que a Amazônia passa a fazer parte do mapa do mundo: como realidade geográfica e histórica. Também se constitui como fabulação mítica. São muitos, no Brasil, na América Latina e no mundo, os que elegeram a Amazônia como um momento especial, estranho ou fascinante, da natureza. São muitos os que preferem o mito, a metáfora do paraíso.
Mas a Amazônia é principalmente história. História no sentido de atividades sociais, econômicas, políticas e culturais. História no sentido de controvérsias, lutas e realizações. A própria geografia pode ser vista como uma sucessão de desenhos, demarcando os movimentos da história. O que parece natureza é a figuração dos indivíduos e coletividades apropriando-se da terra, como objeto e meio de produção. A rigor, são as formas de organização da vida e do trabalho que criam e recriam a natureza, seja quando ela é embelezada, seja quando mutilada. Em todos os casos, está sendo humanizada, isto é, historicizada.
Esta é uma história fundamental. Nela, revelam-se tanto o colonialismo e o imperialismo quanto o nativismo e o nacionalismo. Aqui, revelem-se os ciclos, as lutas, as realizações e as perspectivas que constituem a Amazônia. Assim, se podem visualizar as configurações e os movimentos que a inserem no mapa do Brasil e no mapa do mundo (Ianni, 1989; Silva, 2024: 7-8).
Quando Octavio Ianni expressou esse comentário sobre O Paiz do Amazonas, ele referia-se à construção da Amazônia Lusitana, da Amazônia Indígena, da Amazônia Portuguesa e da Amazônia Brasileira, distintas entre si, mas em consonância com os fundamentos dos projetos coloniais e nacionais. Deste bloco interpretativo, excetua-se a Amazônia Indígena. Essas Amazônias, produzidas pela colonização ibérica e pelas colonialidades contemporâneas, são assemelhadas às configurações históricas de forças sociais que impediram a Amazônia Revolucionária de manter uma nação cabana como força política independente, governando o território por mais tempo. A configuração final das tipologias contidas no livro citado, apresentada por Ianni e que ele já conhecia por dentro da pesquisa que orientara, é a Amazônia que prevaleceu, subordinada, oprimida pelo projeto conservador da unidade nacional do Brasil.
A Amazônia brasileira foi submetida ao projeto nacional de desenvolvê-la e civilizá-la segundo os moldes conhecidos dos processos de industrialização, urbanização e agricultura predatórios. Desde sua imposição na história, a formação da sociedade regional da Amazônia brasileira já nasce comprometida com sua versão portuguesa, reacionária e anti-indígena; ela “representa uma concepção de poder imperial com o objetivo de interiorizar o estado-nação na região Norte” (Silva, 2024). Esta é a Amazônia que se prolonga nas várias experiências da República do Brasil, sempre apresentada pelo poder nacional, em situações de crise, como lugar de resoluções imediatas de conflitos, ou como “moeda de troca”, ou ainda em processos de desenvolvimento induzidos pelo Estado, sem a concordância das populações regionais. Foi assim na economia da borracha, quando o Estado agenciou o deslocamento de milhares de trabalhadores do Nordeste para o Norte; foi assim, também, na Segunda Guerra Mundial, para a exploração da borracha em demanda dos Estados Unidos; e continua sendo assim na apropriação dos territórios, culturas e povos, na produção dos espaços da floresta para os arranjos das forças produtivas do capitalismo mundial na região, em configuração contemporânea.
A Amazônia dos anos 1960, 1970 e 1980 está presente na agenda de pesquisa de Octavio Ianni, seja por meio da inteligibilidade do Brasil profundo que a Escola Paulista de Sociologia produzia, seja pelas incursões de pesquisa de campo na região Norte, quando sua carreira de sociólogo já estava consolidada. Ianni busca apreender como a apropriação capitalista do Brasil se realiza em territórios brasileiros fora da centralidade conhecida da transição do Brasil agrário para a industrialização; busca compreender e explicar os desafios que a relação Estado-sociedade apresenta durante a ditadura militar no Brasil profundo; busca compreender as mudanças induzidas pelo Estado autoritário em consórcio com o capital internacional, nas terras do “sem fim”. Três livros ilustram bem seu foco na pesquisa de campo na Amazônia, articulando suas reflexões com o desenvolvimento do capitalismo no Brasil e no mundo: A luta pela terra (1978), Os posseiros estão chegando (1979) e Ditadura e agricultura (1979).
A luta pela terra não é apenas um inventário, no plano local, dos clássicos processos de produção do espaço para o desenvolvimento das forças produtivas do capital; e só isso já seria muito importante. Este livro é um registro antecipado de outras pesquisas sobre a violenta expansão capitalista na Amazônia e de como “as razões do Estado e das Forças Armadas, lideradas pelo Exército, confundem-se em uma vigorosa economia política” (Ianni, 1989: 253). A obra demonstra os movimentos dos governos militares na edificação da infraestrutura física, normativa, fiscal e dos investimentos de atração de empresas para a Amazônia. Registra as operações de expulsão e expropriação das populações camponesas, originárias e tradicionais, com longa adaptabilidade ecológica e cultural na floresta, e a indução de disputas e conflitos pela terra. Inaugura-se o tempo de revoltas, repressão, conflitos armados e guerrilhas. A obra focaliza Conceição do Araguaia e as frentes de conflito entre posseiros; representa, heuristicamente, a violência invisível da luta social da Amazônia em sua parte mais radical, o confronto entre grileiros, posseiros, indígenas e populações tradicionais, em luta que envolve protagonismos e alianças locais entre camponeses e a igreja, contra especuladores, latifundiários e Forças Armadas, que se perfilam em torno do capital. A luta é pelo território de uso, liderada por protagonistas do campo, os expropriados da terra coletiva. A análise sociológica de Ianni expõe as lutas emergentes e sua significação política nos movimentos sociais no Brasil. Retira da invisibilidade as populações brasileiras de localidades remotas do campo, do cerrado, da floresta e das aldeias; descreve os processos de apropriação e expropriação capitalistas das terras ancestrais da agricultura indígena e comunitária; caracteriza o conflito e a contradição do regime de propriedade privada que se instaura, em confronto com as formas tradicionais de ocupação humana da região. A obra é um épico da resistência coletiva em seus primórdios e, até hoje, é um marco explicativo que expõe as contradições das novas incursões desenvolvimentistas na Amazônia.
Os posseiros estão chegando (1979) é ilustrativo da situação e das condições objetivas dos processos de transformação dos posseiros, dos trabalhadores do campo e das novas feições que a questão agrária anuncia e modifica nas dinâmicas populacionais da Amazônia. Nele, põe-se em destaque a organização política que orienta o confronto entre proprietários, grileiros e trabalhadores da terra, a emergência das lutas de classe no campo, o confronto entre formas tradicionais de usufruto da terra e a terra como unidade de valor capitalista, da propriedade privada e da expansão do agronegócio. Tornam-se evidentes as frentes que movimentam a expansão da fronteira agrícola e os deslocamentos populacionais espontâneos, os processos de formação da mão de obra, ou aqueles estimulados por mecanismos governamentais e privados. O impacto demográfico e populacional na Amazônia é forte.
José de Souza Martins, contemporâneo de Ianni, que segue os passos do campo que ele antecipou, faz uma síntese convergente que se integra ao movimento dos posseiros na Amazônia.
Na América Latina, a última grande fronteira é a Amazônia, em particular a Amazônia brasileira, como assinalou Foweraker (1982), ou “última fronteira terrestre que desafia a tecnologia moderna”, como observou Posey (1982). Desde o início da Conquista foi ela objeto de diferentes movimentos de penetração: na caça e escravização do índio, na busca e coleta das plantas conhecidas como “drogas do sertão”, na coleta do látex e da castanha. A partir do golpe de Estado de 1964 e do estabelecimento da ditadura militar, a Amazônia transformou-se num imenso cenário de ocupação territorial massiva, violenta e rápida, processo que continuou, ainda que atenuado, com a restauração do regime político civil e democrático em 1985. A história do recente deslocamento da fronteira é uma história de destruição (Martins, 1996: 25-26).
Outro intelectual que segue o itinerário empírico de Octavio Ianni, Ariovaldo Umbelino de Oliveira (2001), dá destaque à metamorfose que articula o capitalismo desigualmente desenvolvido na Amazônia e as mudanças imediatas das relações sociais e demográficas na região:
Assim, a chamada modernização da agricultura não vai atuar no sentido da transformação dos latifundiários em empresários capitalistas, mas, ao contrário, transformou os capitalistas industriais e urbanos – sobretudo do Centro-Sul do país – em proprietários de terra, em latifundiários [na Amazônia]. A política de incentivos fiscais da Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] e da Sudam [Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia] foi o instrumento de política econômica que viabilizou esta fusão. Dessa forma, os capitalistas urbanos tornaram-se os maiores proprietários de terra no Brasil, possuindo áreas com dimensões nunca registradas na história da humanidade. O exemplo mais clássico é o famoso Projeto Jari. Implantado pelo multimilionário Daniel K. Ludwig, foi “nacionalizado” no final do governo Figueiredo, quando passou para um grupo de cerca de 25 empresas, lideradas pelo grupo Azevedo Antunes. A área ocupada, depois da criação e atuação do Grupo Executivo do Baixo Amazonas (GEBAM), citada em estudos publicados, tinha superfície superior a quatro milhões de hectares. Em decorrência desse processo, tornou-se possível identificar dois aspectos contraditórios destes capitalistas modernos: a mesma indústria automobilística que pratica as mais avançadas relações de trabalho do capitalismo no Centro-Sul, na Amazônia, ao contrário, praticava em suas propriedades agropecuárias a “peonagem”, relação de trabalho também chamada de “escravidão branca”. Em outras palavras, a mesma empresa atuava de forma diferenciada em regiões distintas deste país (Oliveira, 2001: 186).
Octavio Ianni desvenda a questão agrária do Brasil em vários momentos do seu desenvolvimento, desde a escravidão, o colonato, a migração estrangeira, a monocultura cafeeira e a economia açucareira até os processos de formação do trabalhador assalariado no campo e na cidade, os fluxos, as interseções e as relações de institucionalidade entre as classes sociais e o Estado. A acentuação das classes agrárias, dos trabalhadores e das oligarquias recebe análise especial nesta obra, ao posicioná-los na conjuntura de 1930 e no predomínio do urbano sobre o rural. Os impactos sobre a mão de obra rural pela introdução de tecnologias no campo, pela formação da agroindústria, pelos processos de articulação e organização das classes trabalhadoras rurais e pelas lutas sociais no campo são exaustivamente descritos e documentados na explicação sociológica.
Em Ditadura e agricultura, Ianni produz um verdadeiro estado da arte no campo de pesquisa sobre as origens, o desenvolvimento e o caráter subalterno que a associação do Brasil ao capitalismo mundial produz no Estado brasileiro e nas formações sociais e históricas das regiões e das sociedades brasileiras. Na Amazônia, Ianni mostra processos em constituição já analisados em outros momentos, nos quais o capital transforma a problemática agrária brasileira em um momento da inteligibilidade do desenvolvimento capitalista. Ele o faz no quadro de explicação dos processos de expansão do capital e daqueles que deles decorrem: os fluxos migratórios, a emergência de conflitos de classe, os contatos e confrontos entre posseiros e camponeses, contra latifundiários e grileiros, a formação da massa de trabalhadores em busca da terra e a disputa por territórios e direitos de cidadania. Para além disso, a pesquisa da questão agrária brasileira realizada por Ianni inclui a formação da sociedade agrária em sua totalidade. Em síntese, na Amazônia, no quadro de expansão do capital, Ianni reexamina os impactos da expropriação de posseiros, indígenas e camponeses, bem como os mecanismos do Estado acionados pelo capital na configuração dos processos de formação de sociedades agrárias na floresta, o que inclui a luta pelas disputas territoriais acionadas pelas forças do capitalismo. Examina, sobretudo,
(…) as forças produtivas, o capital, a tecnologia, a força de trabalho, a divisão do trabalho, o planejamento governamental e a violência estatal. Esses fatores se combinaram na ocupação da Amazônia, que foi altamente financiada por incentivos governamentais e pelo capital estrangeiro. O objetivo desse empenho visava a implementação de uma cultura agrária, protagonizada principalmente por migrantes sulistas, que entraram em conflito com os moradores locais que tinham a floresta como a extensão dos seus quintais, uma vez que os amazônicos até então não tinham essa dimensão da propriedade privada da terra, utilizando-a em regime comunal. Toda essa financeirização da terra possibilitou o surgimento de empresas agropecuárias capitalistas geridas pelo grande empresário. Toda essa reconfiguração econômica no campo, em grande parte orquestrada pelo Estado, cria a necessidade de um controle estatal mais dirigido que é operacionalizado pelas agências de desenvolvimento regionais (Sudene, Sudam e Sudesul), que eram responsáveis por dinamizar as economias locais (Silva, 2018: 253).
Não seria exagero afirmar que Octavio Ianni revisou séculos de dinâmicas agrárias do capitalismo, do desenvolvimento dos poderes do Estado e dos processos de formação de sociedades regionais no mosaico da sociedade brasileira, em sua imersão na Amazônia. Sua sociologia erigiu um quadro teórico de envergadura e consistência sem igual, sobre o qual linhas de pesquisa se organizaram em diversos campos disciplinares das ciências humanas. Esse quadro está sintetizado no livro Ditadura e agricultura, que demonstra os movimentos realizados pelo Estado autoritário em sua aliança com o capital e com as forças conservadoras da sociedade civil, para a modelagem da modernização igualmente conservadora no Brasil profundo; demonstra também que os mecanismos de atração para a região amazônica foram tão eficientes quanto perversos. Acionado pelas agências governamentais e pelos projetos de desenvolvimento regional, o Estado militar movimentou grandes estoques de terras públicas que foram doadas ou “vendidas” para concretizar a expropriação das populações locais pelos novos donos do território e pelas empresas multinacionais. Finalmente, a Amazônia se integra ao Brasil pelas transformações estruturais e históricas viabilizadas pela associação do Estado brasileiro ao capitalismo mundial.
Nessas três obras – A luta pela terra, Os posseiros estão chegando e Ditadura e agricultura –, Octavio Ianni inscreve a sociologia brasileira na disciplina orientadora de todas as incursões teóricas e de campo nas quais a Amazônia se tornou foco de pesquisa nos anos posteriores a essa contribuição clássica. Seu extraordinário legado para as ciências sociais não o impediu de continuar refinando sua leitura acerca das transformações estruturais pelas quais a Amazônia passou, e que sustentaram hipóteses que ele formulou, assim como impulsionaram os avanços da pesquisa na região. Dessa imaginação sociológica, expandida pelo trabalho de campo de Ianni na Amazônia e por seus posteriores trabalhos de orientação de pesquisadores da região, emerge uma clara ruptura com o padrão explicativo predominante, cuja abordagem dualista do atraso e do progresso elide as relações entre o centro e a periferia que sustentam os processos históricos da sociedade brasileira. As assimetrias socioeconômicas e políticas das sociedades regionais ilustram o ordenamento territorial desigualmente produzido no país e a cartografia das forças sociais que o mantêm.
A Amazônia contemporânea e o pensamento sociológico de Octavio Ianni
Na comemoração do centenário de Octavio Ianni, o inventário de novos estudos sobre a sua obra constitui um bom motivo para aprofundar sua contribuição à pesquisa social no Brasil, sobretudo ao pensamento sociológico. No que concerne à Amazônia, Santos (2018) desenvolve uma análise instigante acerca dessa contribuição. “A realidade amazônica é o espelho da sociedade nacional” (Santos, 2018: 18), afirma o autor, da qual extraio pontos de interesse para um trabalho futuro:
a) Os fatos e as fases da Escola Sociológica Paulista e os sujeitos epistêmicos que pesquisaram a Amazônia no quadro do pensamento sociológico brasileiro;
b) Os fundamentos teóricos e metodológicos do materialismo histórico e dialético que constituíram o encontro do pensamento sociológico brasileiro com o “marxismo que vem de dentro da Amazônia”; o marxismo e a Amazônia categorizados como um “múltiplo de diversas fontes”;
c) As implicações teóricas e metodológicas da inserção da Amazônia como unidade empírica de pesquisa, a qual produz ruptura com as interpretações do Brasil profundo, dual, e impõe nova imaginação sociológica da região; tal imaginação tem como base uma “sociologia chegante” que dialoga com o “marxismo que vem de dentro”;
d) As consequências e o legado dos vínculos intelectuais que ilustram, na presença da Escola Sociológica Paulista, a figura de Octavio Ianni e de pesquisadores por ele orientados.
Em Estudos da Amazônia contemporânea: dimensões da globalização (2025), reafirmo meu pertencimento ao processo de reflexão sociológica crítica da Amazônia nessa matriz intelectual que Ianni desenvolveu. Destaco, nessa condição, que a Amazônia, vista sob a perspectiva da globalização, apresenta relações claras com alguns problemas e dimensões da economia global e das relações com o Estado brasileiro. Os exemplos da Zona Franca de Manaus, da problemática indígena contemporânea – hoje integrada ao movimento mundial pelas minorias étnicas –, da problemática ambiental e da importância dos biomas e ecossistemas amazônicos no âmbito das mudanças climáticas e das crises ambientais planetárias, bem como do abraço mortal do agronegócio à floresta, às relações de produção tradicionais e à adaptabilidade humana das populações amazônicas, revelam conexões que transformam as relações da região com o Brasil e o mundo.
O desafio teórico, portanto, impõe-se na justificação do empreendimento pretendido, que, neste caso, consiste em responder a como e em que medida a região amazônica foi envolvida nas relações globais, criar categorias e conceitos que expliquem esses fenômenos e compreender como essa dinâmica se expressa localmente. Dessas relações amplas e contraditórias, a particularidade da situação regional apresenta-se mais visível, mais compreensível aos brasileiros, mais exigente para aqueles que disputam os poderes locais e mais atrativa aos olhos externos. Pode-se resumir que, do nosso ponto de vista, a história das sociedades amazônicas é uma produção coletiva da diversidade da humanidade obliterada pelo capitalismo. Inclino-me a pensar que muitos dos problemas que a região apresenta estão relacionados à sua condição de moeda de troca em várias crises da sociedade nacional.
Referências
BASTOS, Elide Rugai. (2004). Octavio Ianni. Jornal da UNICAMP. 19-25 abr.
BOTELHO, André. (2024). Octavio Ianni: a sociologia como vocação. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS). Disponível em: https://blogbvps.com/2024/06/05/octavio-ianni-a-sociologia-como-vocacao-por-andre-botelho/. Acesso em 01 jul. 2026.
IANNI, Octavio. (1978). A luta pela terra: a história social da terra e da luta pela terra numa área da Amazônia. Petrópolis: Vozes.
IANNI, Octavio. (1979). Colonização e contrarreforma agrária na Amazônia. Petrópolis: Vozes.
IANNI, Octavio. (1979). Ditadura e agricultura: o desenvolvimento do capitalismo na Amazônia (1964-1978). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (1981). A ditadura do grande capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (1989). Sociologia da sociologia. São Paulo: Ática.
MARTINS, José de Souza. (1996). Fronteira: a degradação do outro nos confins do humano. São Paulo: Contexto.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. (2001). A longa marcha do campesinato brasileiro: movimentos sociais, conflitos e reforma agrária. Estudos Avançados. São Paulo, v. 15, n. 43.
ORTIZ, Renato. (2008). A ironia apaixonada. Sociologias, ano 10, n. 20, p. 319-328.
SANTOS, Luiz Fernando. (2018). Entre o mágico e o cruel: a Amazônia no pensamento marxista brasileiro. Tese de Doutorado (Sociologia). Campinas, Universidade Estadual de Campinas.
SILVA, Marilene Corrêa da. (2024). O Paiz do Amazonas. 4. ed. Manaus: Valer.
SILVA, Talita Ingrid da. (2018). Cadernos do NAEA. v. 21, n. 2, p. 257-265, maio/ago.
Sobre a autora
Marilene Corrêa da Silva Freitas é professora titular do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), membro da Academia Amazonense de Letras desde 2011 e recebeu o título de Pesquisadora Emérita do CNPq em 2026. É uma das mais importantes intérpretes da Amazônia nas ciências sociais brasileiras.
