
A BVPS publica o último conjunto de comentários sobre o livro Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro, de Nísia Trindade Lima, recém-publicado pela editora Civilização Brasileira. O livro, como ressaltamos no booktrailer que lançamos, é profundamente marcado pelas qualidades de escuta e diálogo, características bem conhecidas da autora. Ao se fazer narradora, Nísia Trindade conseguiu recuperar, analisar e narrar a experiência da pandemia de Covid-19, trazendo sua vivência ímpar, que fez toda a diferença para a sociedade brasileira, na presidência da Fiocruz e, posteriormente, na reconstrução do Ministério da Saúde. Porque fez e faz de sua voz muitas vozes, nosso propósito, nesta ação, foi reunir múltiplos diálogos em torno do seu importante livro.
Trazemos hoje comentários de Dominichi Miranda de Sá (Fiocruz), Fabrício Maciel (UFF), Isabel Lustosa e Ronaldo Oliveira (UERJ).
Agradecemos a todos os autores e autoras que contribuíram com esta iniciativa da BVPS que buscou ampliar e aprofundar as questões suscitadas por esta obra tão necessária ao nosso tempo. Para conferir os demais comentários feitos sobre o livro Ainda há tempo, clique aqui.
Boa leitura!
Imaginação de futuro e política do cuidado: o novo livro de Nísia Trindade Lima
Por Dominichi Miranda de Sá (Fiocruz)
Memes diversos nas redes sociais fazem troça da exaustão e do medo de vivermos, na contemporaneidade, sucessivas e simultâneas inflexões históricas radicais. Dentre elas, ganham destaque a pandemia de Covid-19 e o novo regime climático, a reorientar de maneira imprevisível os modos de vida de bilhões de pessoas planeta afora. Trata-se de buscar lidar, com algum humor, com o presente traumático, sim, mas é a incerteza sobre o futuro que tem constituído o topo fundamental da nossa experiência existencial na atualidade. São tantos os/as analistas a se dedicar a essa reflexão que seria impossível citá-los nominalmente numa breve resenha (Simon, 2019).
Na impossibilidade dos nomes, ensaio adjetivos e abordagens. Em linhas muito gerais, sobre a atitude em relação ao futuro, há os otimistas, os pessimistas, os catastrofistas, apocalípticos, colapsistas, niilistas, céticos, cautelosos e possibilistas. Quanto à relação com as possibilidades de mudança no futuro, temos os conservadores, restauracionistas, reformistas, transformacionistas, revolucionários, aceleracionistas, desaceleracionistas, resistentes e os adaptacionistas. Para os modos de produzir conhecimento sobre o futuro, podemos citar os prognosticadores, os prospectivistas, cenaristas, antecipacionistas, especulativos, normativos e os exploratórios. Quanto ao horizonte ético e de engajamento político no futuro, temos os programáticos, utópicos, distópicos, emancipatórios, tecnocráticos, ecomodernizadores, decoloniais e pós-humanistas.
Esta lista está longe de ser completa e é esquemática. Quero apenas reter que a disputa é imensa e o tema acachapante porque os fenômenos históricos radicais acima mencionados parecem ter estreitado as possibilidades de futuro. Os séculos 18, 19 e 20 experimentaram, como nos ensinou o historiador alemão Reinhart Koselleck (2006), a substituição dos futuros passados (ou dos repertórios circunscritos de possibilidades) pelas utopias – as possibilidades de vivenciar o futuro como totalidade aberta, as construções inventadas de temporalidades inéditas como orientadoras da ação política. E esta, importante frisar, independia da trajetória histórica; era confiante e livre. Bastava a vontade da instauração e o extermínio dos obstáculos e inimigos.
O século 21, por sua vez, tem sido anunciado como o da morte das utopias. Iniciou-se com futuros antes impensáveis, estreitou o número de futuros imagináveis, e reduziu completamente a credibilidade de certos futuros: aqueles das narrativas de progresso e da expansão contínua do domínio humano sobre a natureza. A consciência predominante é aquela dos limites, inclusive os biofísicos do planeta, e dos riscos, dentre os quais se destaca o pandêmico (Sá & Silvia, 2024).
Diante deste quadro, ainda faz sentido imaginar futuros? Limites e riscos tornaram a ação política inútil?
Três livros recentes de pensadoras/es brasileiras/os nos oferecem diagnósticos densos, abordagens heurísticas corajosas e, sobretudo, chamados à responsabilidade sobre o futuro. São definitivamente novos olhares sobre o tema.
Refiro-me a “Ideias para Adiar o Fim do mundo” (Krenak, 2019) do filósofo, ativista e liderança indígena Ailton Krenak, a “Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia Centro do Mundo” (Brum, 2021), da premiada jornalista e ativista climática Eliane Brum, e a “Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro” (Lima, 2026) da socióloga e sanitarista Nísia Trindade Lima, primeira mulher a presidir a centenária e respeitadíssima Fiocruz, uma das principais instituições de ciência biomédica e saúde pública da América Latina, e primeira mulher a assumir o ministério da saúde na história do Brasil.
Krenak critica o próprio modo moderno de imaginar o futuro. Sua proposta de “adiar o fim do mundo” implica transformar radicalmente nossa própria maneira de existir. Ou seja, ele não reivindica apenas transformações institucionais ou econômicas, mas uma verdadeira transformação cosmológica e cosmopolítica. Sua principal questão no livro não é sobre o futuro que teremos, mas sobre as formas de vida que queremos continuar tornando possíveis no futuro.
Brum, por sua vez, defende mudanças epistemológicas e na nossa própria subjetividade. Sua proposta de “amazonizar-se” parte de fortes críticas à separação entre natureza x cultura e humano x natureza para propor percepções relacionais e interespécies. Sua discussão principal é a demonstração das razões pelas quais deve-se ultrapassar o enquadramento geopolítico da Amazônia, como região a ser explorada como ativo bioeconômico, para torná-la o centro vital do mundo. É neste bioma que se decide, agora mesmo, o futuro planetário na violenta disputa entre clima, sociobiodiversidade, colonialismo e capitalismo.
Lima, com seu novo livro, soma-se, a meu ver, a essas análises fundamentais com seus impressionantes exames transescalares que posicionam o Brasil nas mais importantes encruzilhadas de futuro do planeta.
O livro de Lima também é transescalar porque é primorosa a sua capacidade de articulação entre as esferas locais, nacionais e globais, entre os micros e macros processos, entre as capacidades e limites das ações dos indivíduos na esfera internacional. Seu livro é muito mais que um registro crítico, como presidente da Fiocruz, das responsabilidades nos anos cruciais da pandemia de Covid-19 no Brasil. Seu pressuposto é sim o da memória como direito, justiça e reparação, mas é sobretudo uma análise interdisciplinar, tal como a própria autora reivindica, das políticas públicas de saúde, da governança global e da irrupção da pandemia no contexto multidimensional das desigualdades e da mudança climática.
Lima é cientista social com forte atuação na área de história da saúde, e é como expert na análise processual que enfrenta, com grandes originalidades, criatividade e rendimento, um grande interdito na historiografia mais canônica – o exame contrafactual.
Sua pergunta orientadora no livro (cuja resposta é sim, devo adiantar) foi: o enfrentamento à pandemia poderia ter sido diferente no Brasil? O contrafactual, no seu caso, se converte em experimento analítico disciplinado para distinguir entre processos realmente inevitáveis (a globalização da pandemia), processos altamente prováveis (o alto número de mortos), processos dependentes de decisões políticas específicas, com ênfase na atuação de cientistas, gestores de saúde no SUS e membros do executivo brasileiro. É neste panorama que narra a sua extraordinária atuação numa história entendida como um conjunto de escolhas e restrições, contingências e responsabilidades.
Formula cenários historicamente informados com grande rigor empírico. Sua narrativa tem protagonistas em rede – o vírus, a pandemia, sua gestão na Fiocruz, seu coletivo de cientistas, o SUS, as agências multilaterais, as assimetrias globais no capitalismo, a ascensão planetária da extrema direita e dos negacionismos, os determinantes socioambientais da saúde, as políticas públicas, a pesquisa biomédica, a epidemiologia, as ciências sociais, a autogestão nas periferias locais e globais, a participação social, as tecnologias, conflitos econômicos e políticos profundos, processos sociais, ecológicos e evolutivos.
Não narra apenas “o que aconteceu”; pergunta-se também: quais futuros estavam abertos e eram mesmo possíveis naquele momento histórico? O que esta situação histórica nos obrigou a aprender? A resposta analítica chave, elemento ético que inclusive a orientou em sua atuação como titular da pasta federal da saúde ao reconstruir o próprio ministério, é a sua imaginação de futuro e na qual a vejo tão irmanada com Krenak e Brum: a política do cuidado.
O cuidado está no centro da imaginação epistemológica e ação política desses autores, mas não como virtude sentimental ou sinônimo de gentileza. É o trabalho de sustentar relações, prestar atenção às dependências, reconhecer vulnerabilidades e assumir responsabilidades em relações concretas de manutenção.
O livro de Lima é também fortíssimo não porque nos entregue uma moral. É porque nos obriga a pensar sobre como e quem cuidar. É ético-político vital, se implicar com, “tarefa de ampliar a consideração das vidas envolvidas nas agências do cuidado” (Bellacasa, 2023). Urge, pois, inserir a política do cuidado na lista do início deste texto no item relativo ao horizonte ético e de engajamento no futuro. Ainda há esta alternativa.
Referências
BELLACASA, Maria Puig de la. (2023). O pensamento disruptivo do cuidado. Anuário Antropológico [Online], v.48 n.1 | p. 109. URL: http://journals.openedition.org/aa/10539; DOI: https://doi.org/10.4000/aa.10539.
BRUM, Eliane. (2021). Banzeiro òkótó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras.
KOSELLECK, R. (2006). Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999; Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio.
KRENAK, Ailton. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras.
LIMA, Nísia Trindade. (2026). Ainda há tempo: a pandemia de covid-19 e a transformação do futuro. Rio de Janeiro: Record.
SILVA, André Felipe Cândido & SÁ, Dominichi Miranda de. (2024) História das ciências: conhecimento simbiótico para o Antropoceno. In: TURIN, Rodrigo; LOWANDE, Walter Francisco Figueiredo (org.). Antropoceno: perspectivas
SIMON, Zoltán Boldizsár. (2019). History in Times of Unprecedented Change: A Theory for the 21st Century. London: Bloomsbury Academic.
Sobre a autora
Dominichi Miranda de Sá é pesquisadora titular da Fiocruz e Vice-diretora de Pesquisa e Educação da Casa de Oswaldo CruzFiocruz.
O Tempo de Nísia Trindade Lima
Por Fabrício Maciel (UFF)
Escrever sobre um livro de Nísia Trindade não é tarefa fácil. Especialmente quando se trata de um livro que narra uma trajetória ímpar, a qual nos coloca diante, a um só tempo, de uma biografia intelectual, política, institucional e, o mais importante, pessoal. Como nos lembra o grande Wright Mills (1975), nossa biografia profissional nunca se separa de nossa trajetória pessoal. A qualidade da primeira refletirá necessariamente o caráter e a entrega da segunda. Não é outra coisa que encontramos quando lemos o belíssimo “Ainda há tempo: a pandemia de covid-19 e a transformação do futuro” (Lima, 2026).
Meu primeiro contato com a obra de Nísia foi ainda na graduação. Naquele momento, ela já era uma das grandes mulheres do pensamento social brasileiro. Posteriormente, sua trajetória nos leva além. Por ser figura pública de grande calibre, dispensa maiores apresentações. Como liderança à frente da Fiocruz (2017-2022), se deparou com um grande desafio e um grande inimigo: a pandemia de covid-19 e o desgoverno de Jair Bolsonaro (2019-2023). Enquanto a gestora se deparou com os desafios institucionais na luta cotidiana pelo implemento de medidas práticas em defesa da vida de milhões de pessoas, a intelectual foi confrontada por um desafio ainda maior: o negacionismo cognitivo, político e afetivo de nosso tempo, e do tempo de Nísia, narrado decantadamente no livro.
Com um sensível prefácio de André Botelho, o livro é dividido didaticamente em duas partes: “A resposta à covid-19 no Brasil: testemunho para uma história em construção” e “É possível transformar o futuro?” A primeira consiste em uma potente autonarrativa e ao mesmo tempo um diagnóstico de época, onde trajetórias pessoais, institucionais e políticas se entrecruzam. Sem se reduzir a puro narcisismo, risco este sempre presente em narrativas pessoais, a autora reconstrói nesta parte uma trajetória coletiva, política, institucional e pessoal, considerando o papel decisivo da interação entre a Fiocruz, universidades e atores da sociedade civil no entendimento e enfrentamento da pandemia. Com isso, sua bela narrativa nos lembra que, em vários momentos da modernidade capitalista, quando o Estado falha, a própria sociedade age em defesa própria, e isso especialmente quando representada por atores bem informados e motivados.
No capítulo 1, intitulado “Reviravolta política: a presidência da Fiocruz e a afirmação de um projeto”, adentramos neste conturbado período da autora, diante de um governante de extrema-direita que via a Fiocruz, instituição de legitimidade inquestionável, como um antro da esquerda. Ali já podemos ver a habilidade e sensibilidade de Nísia, que precisou em muitos momentos improvisar diante do tempo da vida, das instituições e, naturalmente, da política. Tempo não oportuno, considerando que Michel Temer havia assumido a presidência após um processo de forte ataque à Dilma Rousseff, em meio a uma crise econômica aguda e com apoio de setores que desejavam promover reformas neoliberais (Lima, 2026, p. 46).
Um destaque deste período é a atuação de Nísia em favor da construção do Complexo de Biotecnologia e Saúde, na área industrial de Santa Cruz, no Rio, planejada e iniciada ainda durante a gestão de Paulo Gadelha, de modo a quintuplicar a produção nacional de vacinas. A pandemia deixou muito claro o acerto da estratégia, sendo atualmente o projeto integrado ao Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal (Lima, 2026, p. 48).
No capítulo 2, intitulado “O início da crise global: um chamado à ação coletiva”, encontramos uma descrição analítica densa acerca do início e dos desdobramentos da pandemia no Brasil, bem como da tentativa de seu enfrentamento e, naturalmente, de suas dificuldades. A análise se desdobra desde o início da pandemia, passando por um “chamado à ação”, envolvendo instituições e sociedade, a trajetória do Centro hospitalar Covid-19 na Fiocruz, bem como do Biobanco da Biodiversidade e Saúde e o Centro de Pesquisa, Inovação e Vigilância em Covid-19 e Emergências Sanitárias, o que mostra a necessidade e o empenho no fortalecimento institucional e científico em favor da vida e contra os impedimentos práticos gerados pelo negacionismo estatal.
No capítulo 3, “A luta pela vacina contra a covid-19 e os desafios da vacinação”, encontramos um ponto alto da trajetória coletiva narrada, na qual a ciência, a política e a determinação precisaram andar de mãos dadas para defender a vacina de Bio-Manguinhos. Ali, a autora nos mostra como a vacinação mudou incisivamente o cenário da pandemia, na luta contra o mito da cloroquina e a irresponsabilidade consciente e planejada do governo, além de nos convidar a uma reflexão acerca do aprendizado coletivo daquela experiência. Uma breve e bela nota afetiva da autora fecha o capítulo.
No quarto e último capítulo desta parte, intitulado “Do segundo mandato na Fiocruz ao convite para integrar o governo Lula”, entendemos melhor o processo de transição da cientista, intelectual e gestora para uma condição de maior responsabilidade como ministra. Aqui, Nísia ressalta a importância da defesa da ciência e da saúde como política, traz uma reflexão de como poderia ter sido tudo bem diferente em relação à escalada de mortes no Brasil, além de tematizar o negacionismo como política, a conturbada CPI da pandemia e, um ponto alto, os efeitos desiguais de todo o processo em um país desigual como o Brasil.
Na segunda parte do livro, “É possível transformar o futuro?”, narrativa, analítica e especialmente projetiva, a autora parte do presente ao futuro, o que justifica e fortalece o título do livro. No capítulo 5, “O acordo sobre Pandemias”, disserta sobre a compreensão das pandemias, da desigualdade e da saúde global, ressaltando como ponto alto o caminho de uma saúde global e um acordo alcançado, o que envolve o difícil compromisso com a equidade social. No sexto, “Pandemias e os desafios socioambientais de nosso tempo”, ressalta a necessidade de se compreender a crise sanitária e social global provocada pela pandemia, além de apresentar um interessante tópico sobre a história da biologia, destacando suas dimensões ambientais, ecológicas, humanas e de todas as espécies. No sétimo e último capítulo, a autora nos conduz levemente no tempo, com a provocação de seu título “Saudades do futuro: pela construção coletiva de um novo tempo”, com destaque para sua análise sobre saúde coletiva, solidariedade, esperança, desconfiança, ciência e democracia, o que nos induz à busca de uma agenda para o futuro.
Do passado de um país com profunda desigualdade estrutural, a qual depende incisivamente de ações efetivas, bem motivadas e orientadas para seu enfrentamento, passando pelo presente conturbado de conjunturas distópicas responsáveis pela perda de milhões de vidas, encontramos no tempo presente de Nísia Trindade uma fagulha de esperança. Que a chama acesa por ela e por inúmeras pessoas que, junto com ela, acreditaram e ainda acreditam na ciência e na luta pela vida, nos conduza a projetar um futuro melhor, se antecipando a seus possíveis desafios. Ainda há tempo de acreditar e ainda há tempo para ler o livro de Nísia.
Referências
LIMA, Nísia Trindade. (2026). Ainda há tempo. A pandemia de covid-19 e a transformação do futuro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
MILLS, Wright. (1975). A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar editores.
Sobre o autor
Fabrício Maciel é professor adjunto de teoria sociológica do Departamento de Ciências Sociais, Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A luta pela saúde em um tempo infeliz da nossa História
Por Isabel Lustosa
O livro de Nísia Trindade Lima é um livro que reúne um conteúdo que poderia dar origem a vários livros. Escrito na primeira pessoa do singular, ele é o depoimento de uma intelectual da área de saúde que ocupou cargos de liderança em situações bem adversas. Pode-se ler um dos livros como um relato detalhado das transformações pelas quais passou a Fundação Oswaldo Cruz desde a presidência de Sérgio Arouca (1985-1988). A obra também conta o drama que se desenrolou no Brasil durante a pandemia de Covid-19. E finalmente, o livro é um relato da atuação de uma socióloga de perfil combativo que juntou o elevado conhecimento que tem da sociedade brasileira a uma permanente atuação em defesa da saúde do país e de seus habitantes.
Os três livros são na verdade um mesmo livro em que essas histórias se entrelaçam para produzir um profundo e consistente painel sobre as instituições de saúde pública brasileiras desde o começo do século XX aos nossos dias. O fio condutor que amarra todas as partes é a trajetória profissional da autora e o pensamento que motivou suas atitudes diante das situações em que foi colocada, proporcionando um conhecimento maior da personalidade e do caráter de Nísia Trindade Lima.
É impressionante a narrativa do processo de construção da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, a forma como foram criados os seus programas, a formação de laboratórios especializados; da difusão do programa por outros estados da Federação. Trata-se de uma história subterrânea e silenciosa para os que a acompanharam de fora e que agora está organizada nesse depoimento de quem a viveu por dentro e que mostra a força dessa instituição e as razões por que, em um momento dramático da nossa história recente, pode sustentar um trabalho que, se não evitou a tragédia das 700 mil mortes, impediu que outra ainda maior acontecesse. A atuação da instituição dirigida por Nísia durante a longa e sofrida batalha contra Covid foi elogiada em carta pelo Papa Francisco e reconhecida pela França que concedeu à presidente da Fiocruz a Legião de Honra, maior condecoração daquele país.
Esse trabalho imenso e secular de estudo, prevenção e combate às doenças infectocontagiosas, a integração internacional através dos órgãos da Organização Mundial de Saúde e o trabalho desenvolvido na África demonstram o papel central da Fiocruz não só na luta contra Covid-19, mas também contra a zika, doença que atinge as gestantes e que causa deformações físicas nos bebês, à qual Nísia deu especial atenção.
As coisas não foram fáceis e o livro começa com a forma como Nísia, com apoio de organizações e personalidades da sociedade civil reverteu a tentativa de nomeação de pessoa que ficou em terceiro lugar. Se sua trajetória até aquele momento fora feita das realizações acadêmicas e institucionais que geraram interlocuções nacionais e internacionais, aquela situação exigia habilidades além das que sempre revelara. Aquela prova de fogo colocou a socióloga que vinha em uma carreira ascendente diante de um obstáculo quase intransponível. A vontade do presidente Michel Temer que chegara à presidência graças ao golpe parlamentar de 2016, era nomear outra pessoa, até porque as posições políticas de Nísia não a recomendavam ao governo de direita que estava sendo implantando.
Foi preciso entrar em campo, mobilizar as conexões que suas atividades propiciaram e adotar uma estratégia política de negociação com quem estava no poder. Sua reconhecida importância tanto nacional quanto internacional fez com que ela fosse nomeada, mas também sua habilidade que faria com que a Fiocruz mantivesse sua autonomia e integridade durante o período mais tenebroso de nossa história neste século. A atuação de Nísia Trindade Lima durante o governo Bolsonaro, o fato de ter se mantido racional e ativa diante de um governante que era o avesso de tudo o que acreditava são a prova de força, lucidez e determinação. Só alguém assim para recusar-se a tirar a máscara em uma reunião em que todos, por temor a Bolsonaro, estavam sem máscara.
A parte em que trata da cloroquina é talvez a mais dramática desse livro. E o drama se prende ao conhecimento que a comunidade científica tinha, desde os primeiros meses da pandemia, da inocuidade do tratamento com cloroquina e hidroxicloroquina. Aquilo que o governo Bolsonaro chamou de “tratamento precoce” e impôs ao Brasil ao lado de seu combate intensivo contra as políticas de isolamento que poderiam ter salvado muito mais vidas durante aqueles anos, são crimes contra a humanidade que ainda precisam ser punidos. Impor como política de saúde do governo aqueles medicamentos, com ameaças aos profissionais de saúde que não se submeterem, foi uma das ações mais criminosas. Ao lado de outras como o desleixo com a compra de equipamentos necessários como máscaras e respiradores, são relatados aqui de forma minuciosa.
A Fiocruz, com Nísia à frente, enfrentou esses desafios, conseguindo recursos para a criação de um hospital especializado no tratamento da Covid-19 em seu campus, atuando junto ao governo para obter a vacina e, dentro de casa para achar meios de produzi-la. Foi uma frente de combate que envolveu todo o corpo funcional e institucional espalhado pelo Brasil, unidade propiciada por anos de uma política interna que, através de seminários, encontros, reuniões nacionais e internacionais fez com que a Fiocruz chegasse àquele momento como uma força.
Todo esse trabalho conduzido por Nísia foi reconhecido pelo governo do presidente Lula que a convidou para integrar a equipe de transição. O conhecimento adquirido em mais de trinta anos de atuação na área fez com que ela desse uma contribuição importante para a elaboração do programa de governo e fosse convidada a ser ministra da saúde. A primeira mulher a ocupar esse cargo na história do Brasil.
Sobre a autora
Isabel Lustosa é pesquisadora Integrada ao Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa (CHAM/NOVA FCSH).
Ainda há tempo de Nísia Trindade Lima
Por Ronaldo Oliveira (UERJ)
Em Ainda há tempo Nísia Trindade nos conta sua trajetória desde os bastidores de sua eleição e nomeação como presidente da Fiocruz durante o governo Bolsonaro até sua participação como Ministra da Saúde no governo Lula. Mas o livro trata principalmente dos anos terríveis em que enfrentamos a pandemia de Covid-19 sob um governo negacionista. Era paradoxal ter alguém como Nísia à frente da Fiocruz, lutando para que tivéssemos vacina, enquanto a figura máxima (e nefasta) do governo insistia em um tratamento ineficaz e colocava em dúvida a vacina. Esta contradição é apresentada no livro, o que o torna uma peça interessante para compreendermos como, num passado ainda muito recente, instituições como a Fiocruz e algumas outras conseguiram atuar e garantir a sobrevivência de políticas públicas de saúde e perspectivas científicas em meio a um executivo que optava por posições anticientíficas e temerárias.
No livro, acompanhamos como, em meio a estratégias negacionistas e discursos anticiência, muitas vezes chocantes, Nísia Trindade e a Fiocruz, sob sua presidência, defenderam medidas para conter a pandemia e, sobretudo, se envolveram na luta pela obtenção da vacina e pela vacinação. Foram vozes em defesa da ciência, vozes responsáveis e lúcidas em meio a discursos que muitas vezes poderiam ser definidos como insanos. Todos éramos bombardeados por fake news, pela insistente defesa da cloroquina e de outros tratamentos ineficazes, mas a Fiocruz estava lá, Nísia estava lá, o Butantan estava lá, a Abrasco, estava lá, e também estavam presentes outros atores e agentes que nos ajudaram a resistir não apenas porque lutaram pelas vacinas e pelas políticas de saúde que salvaram nossas vidas, mas também porque formaram a resistência a uma política que, num discurso que contrapunha irresponsavelmente economia e saúde, terminava propagando a morte. Essa resistência, relatada no livro a partir da perspectiva privilegiada de Nísia Trindade, ajudou a manter nossa esperança de que, após a pandemia, ainda poderíamos vencer aquele governo, a esperança de que ainda era possível enfrentar o negacionismo.
Em seu livro, Nísia diz que não se considera heroína, “apenas alguém com sentido de responsabilidade e compromisso político”. Além disso, dá destaque ao trabalho coletivo na Fiocruz, às parcerias, às lutas que foram conjuntas, inclusive com outras instituições. Uma perspectiva que atravessa o livro é institucional, na medida em que sublinha a importância das instituições públicas, do SUS, da Fiocruz no combate à pandemia. Estas instituições, a legitimidade que elas conferiam, o acúmulo de saberes e técnicas que elas proporcionavam foram essenciais. Assim, o destaque que o livro dá a elas é bastante justo. O livro nos deixa com a sensação de que um dos combates mais importantes legados pelo período de combate à Covid foi o reforço na confiança nas instituições públicas e na ciência, confiança seriamente abalada pelos discursos e posturas do então presidente e seus apoiadores.
A discussão de Nísia sobre o negacionismo durante a pandemia me fez pensar na conexão entre democracia e verdade, conexão que se torna mais complexa com cada avanço da ciência. Quanto mais a ciência se desenvolve, mais o conhecimento avançado se torna algo que pertence aos especialistas. A democracia não é incompatível com o conhecimento dos especialistas, podemos confiar nas instituições, podemos confiar na ciência, e saber que, em diversos campos, uma decisão sensata dependerá de ouvirmos o que os especialistas têm a dizer. A luta da Fiocruz e de Nísia pela vacina e pela vacinação foi uma luta para manter essa confiança, um esforço para que o público compreendesse que se estávamos diante de uma catástrofe, nossas melhores chances de enfrentá-la estavam na pesquisa científica e nas instituições públicas, especialmente no SUS.
Mas também há um risco que envolve essa relação entre a democracia e a ciência, que se complexifica. Podemos sentir que esse mundo de especialistas se tornou opaco, incompreensível, e que essa incompreensibilidade é uma armadilha, uma forma de nos manter longe do poder. Mas isso não é uma exclusividade da ciência, mesmo os processos de tomada de decisão política podem ser complexos o suficiente para fazer com que muitos sujeitos não percebam sua contribuição. Assim, se todo o meu entorno, minha família e meus amigos, minhas redes sociais afirmam o voto no candidato X, como confiar nos institutos de pesquisa ou nos resultados das urnas que apontam a vitória do candidato Y? A discrepância entre as preferências do meu grupo e as preferências nacionais pode ser entendida por mim como sinal de manipulação, falsificação. Posso estar inserido em comunidades discursivas que refletem meu ponto de vista de forma tão perfeita que confundo minha opinião com a “verdade”, meu ponto de vista com o ponto de vista do (verdadeiro) “povo”.
Ou em outras palavras, meu ponto de vista, em minha crença, espelha o ponto de vista do povo, do povo autêntico. Assim, a complexidade do conhecimento e dos processos que constituem o mundo moderno pode dar lugar a reações negacionistas, reações que concebem a discrepância entre minha crença e o mundo, entre meus desejos e a realidade, como resultado de um engodo. O negacionismo, para suas vítimas, não necessariamente para seus produtores, pode ser tranquilizante, pois torna o mundo novamente compreensível, pois a distância entre a minha crença e a “realidade” é explicada como resultado de alguma conspiração ou manipulação. No caso da pandemia, as fake news e o negacionismo podiam ser tranquilizadores para suas vítimas, pois buscavam apresentar a Covid como algo que não era tão perigoso como se pretendia fazer crer. Assim, talvez tenha havido desejo em acreditar, principalmente nos primeiros dias, quando a perspectiva de termos vacinas ainda era incerta, e havia muito medo, muita angústia e incerteza.
Talvez a adesão a fake news e o investimento tão forte no ineficaz tratamento precoce tenham relação com o fato de estas se apresentarem como perspectivas tranquilizadoras. A fake news tranquilizava, as notícias que antecipavam a gravidade do vírus, as medidas de isolamento, e a ciência assustavam. Mas a ciência não agravava o problema, ela era a única solução. Há algo paradoxal aqui, se acreditamos em fake news porque elas nos tranquilizam, elas levam a comportamentos irresponsáveis, uma vez que o vírus, supostamente, não seria tão sério assim. Consequentemente, não seriam necessárias medidas de proteção tão severas, e ainda havia o tratamento milagroso com remédios para parasitas, piolhos, protozoários. O resultado disso é o que sabemos: sem medidas adequadas, a pandemia se agrava, a mortalidade aumenta. A avaliação adequada dos riscos levaria a medidas de proteção que poderiam ter salvado inúmeras vidas. Ter levado a ciência a sério, quando ela falava do potencial devastador do vírus, poderia ter feito com que a letalidade não fosse tão alta. Acreditar que se tratava de uma gripezinha ou em remédios sem eficácia, pode ter apaziguado alguns medos, mas tornou a pandemia catastrófica. Acreditar na seriedade das consequências teria salvado vidas.
Como podemos enfrentar esse paradoxo? Como podemos nos preparar para outras emergências similares a esta que vivemos? Nísia Trindade, em seu livro, nos indica um caminho, e este é um dos méritos do seu texto. Nísia, a Fiocruz, o Butantan, a ABRASCO e tantos outros agentes e instituições enfrentaram a pandemia com investimento na ciência, reforço da solidariedade, defesa das instituições públicas, defesa de políticas inclusivas, investimento na comunicação e na divulgação científica. O caminho passa pelo reforço da confiança na ciência e nas instituições públicas, e esse é um caminho indispensável para fortalecer a democracia nesse cenário de complexidade crescente do mundo e da ciência modernos. Nesse sentido, Ainda há tempo é fundamental nesta tarefa, pois nos indica como nos preparar para novas pandemias, nos incentiva a desenhar consensos em torno de políticas públicas de saúde, a defender a ciência como o mapa do caminho que teremos que percorrer no mundo moderno.
Sobre o autor
Ronaldo Oliveira é professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia da Cultura, atuando principalmente com o chamado pensamento social brasileiro, literatura e crítica literária.
