
Mário de Andrade retoma a viagem de automóvel após a tempestade da noite anterior. O trajeto é acompanhado de sede e de pequenas cruzes fincadas na beira da estrada. Está rumo à capital do cangaço paraibano. Ao chegar em Catolé do Rocha, o escritor registra em caderneta um “bendito” cantado por uma pedinte. A perfeição daquela melodia popular denota a riqueza cultural do sertão, mesmo em meio às piores agruras.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Automovel (20 de janeiro)
É uma felicidade acordar são e salvo. Estamos bem dispostos como nunca. O… “o que sucedeu” ontem de noite acabou duma vez o sequestro de civilização. Bateu uma vontade fantastica de falar bobagem em nós, cada palavrão!
Partimos ás 5 e 40 em busca de Martins, nosso destino de ontem. A manhã está sublime, vistas estupendas como o Sol paulista ciceroneando as rebarbas da serra. A estrada continua cheia de cruzes com pedrinhas nos pés e nos braços. Cada um que reza pelo assassinado bota uma pedra na cruz. Lagoas. Jaçanãs quasi mansas entre verdes faceis. Sertão de nome e de lonjura apenas. A todo momento atravancam a rodovia milhorada os galhos derrubados pela tempestade de ontem.
Ás 7 e 15 chegamos a Martins, lugar pra heticos, a igreja azul e branca, largos com árvores, feira dominical no mercado, uma gostosura. Caimos nas mangas. A minha sêde é que tem sido um caso serio. Ontem em Boa Esperança, bebi chegando garrafa e meia de cerveja. Aqui, não fazem duas horas que parei e já estou na segunda garrafa de Paulotaris. A agua que bebem por quasi todo o sertão é repugnante de suja, feia, gôsto de rúim, só mesmo em último caso é que a bebo. E por toda a parte, depois de Macau, a mesma ausencia de guaraná e aguas minerais. Quando muito uma Salutaris artificial, da Paraiba, e o detestavel Guaraná Champanha. Guaraná Simões, do Pará, muito gostoso, é uma raridade. Aqui em Martins tenho que aguentar Paulotaris, não ha outra coisa.
Ás 12 e 20 partimos pra vencer a penultima etapa da viagem: Caicó. Nem bem uma hora de descida e primeira errada. Ninguem ensina direito e como o caminho só com muita condescendencia serve pra automovel, vamos errando por quanto trilho de cargueiro e de carro-de-boi se encontra. O calor é inenarravel e a sêde aumenta.
Só pelas 16 horas topamos com o caminho certo e entramos na Paraiba. A estrada milhora bem, chega a ser bôa e se póde contemplar a paisagem. Tudo sêco não tem dúvida, esturricado, a mesma monotonia dolorosa perto mas a vista das serras de lado a lado é lindissima. Morraria de pedra lisa riscada pela vegetação queimada. Quando o vale se alarga são guanabaras que a gente corta; si aperta a gente entre em Vitoria: vale a pena ver.
Mas a viagem segue sempre mia apreensiva. Estamos em plena regiao de cangaço, as casas nos vêem com receio, fazem perguntas esquisitas pra nós, pretendendo nos pegar numa resposta falsa e descobrir em nós cangaceiros montados na “oakland”. A dona com o menino ficaram apalermados, nem puderam responder.
Afinal ás 17 entramos em Catolé do Rocha, com procissão de orago, rojões, gente bebeda e mendigos. Mas a cidade está desfalcada. Cerca de 1100 familias da zona foram pra S. Paulo. “Vam’bora pro sul!…” Este refrão vai me perseguindo com amargura. “E só se fala agora em ir pra S. Paulo” acrescentou o informante…
Toda a gente se move, cordial, pra descobrir alguma garrafa de guaraná pra nós. Não há. Acabou no leilão. Caimos na cerveja.
Catolé do Rocha, capital do cangaço paraibano, é meia espandongada no geito, com duas praças grandes, contiguas e em plano diferente. Um conventinho muito bonito em barroco simples. Lá num morro a capelinha é uma gostosura de estrêla que o Sol faz.
Na sombra das casas um carrinho de mão tem uma aleijada dentro. É moça ainda, feição de boba. Traços até bonitos, dentadura linda sempre á mostra brilhando na baba escorrendo. As moscas escolheram a boca da moça pra pousar. Quando atormentam por demais, a boba limpa a boca no ombro e recomeça babando e rindo. Não sabe falar, só sabe rir. As pernas são cordas vermelhas atiradas por aí, dentro do carrinho. Junto deste está uma velha sentada no chão, coberta quasi a cara toda com o chale. Chale de lã! Quando a esmola cái na cúia, a boba pega o dinheiro depressa e dá prá velha. Então esta canta um “bendito” de gratidão. Tem a voz nitida e o bendito musicalmente é maravilhoso. Alimentamos a continuação dele com esmolas enquanto pego meu caderno pautado, e anoto a cantiga. O povo me cerca sarapantado, bebados, meninos, mulheres, tudo espiando o caderno esquisito. Só mesmo a boniteza do canto me sustenta no escandalo.
“Deus li pague a santa esmola
Deus li levi no andô
Acumpanhado di anjo
Acirculado di flô,
Assentado á mão direita,
Aos péis di Nosso Sinhô!”
Termino de anotar a melodia e fico maravilhado contemplando a simplicidade genial dela. Que perfeição de linha, que equilíbrio de composição! E que desmentido pra certas teorias. Canto em maior e rápido e apesar disso duma dor magnifica, pobre, mesquinha, triste mesmo.
Fugimos pra Brejo do Cruz. A estrada milhora cada vez mais porem a garrafa de cerveja não bastou. Estralo de sede e vou absecado pelo bendito da pobre, cantando por dentro com uma malinconia enorme.
18 e 30. Brejo da Cruz. — O sr. tem alguma coisa pra beber? — Tenho cerveja. — Venha cerveja. Bebo duas garrafas, ali no sufragante, quasi sem respirar. Levo outra pro automovel. Os amigos fazem o mesmo. Estralo de sêde. Todos principiamos achando uma graça enorme na sêde minha. Nem bem damos as costas prá cidade, fome nem me amolo com ela! é sêde. Bebo rindo a terceira garrafa. Esta vida é uma gostosura gente! Quá, quáquá!… Venha Lampeão! Canto:
“É Lamp, é Lamp, é Lamp…
É Virgolino Lampeão!…”
Acho uma graça exagerada em Lempeão, em Catolé do Rocha, na pobre, em Jesuino Brilhante. A escureza não me deixa ver mais nada. As miragens do automovel a 180 quilometros, me atiram contra o chofêr. O automovel está voando pros campos de aterrisagem existentes por todo o Estado, me arrebento contra o vento, durmo, acho uma graça derradeira e durmo no ombro do chofêr.
MÁRIO DE ANDRADE
