Centenário de Octavio Ianni | Decifrando a globalização: metamorfoses e contradições do capitalismo mundial em Octavio Ianni, por André da Rocha Santos

Dando continuidade à série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos esta semana texto de André da Rocha Santos (IFSP) sobre a chamada “trilogia da globalização” de Octavio Ianni.

Quando a globalização passa a ocupar o centro da reflexão de Ianni, estamos diante de uma nova etapa de sua trajetória intelectual ou de um desenvolvimento de questões que já o acompanhavam há décadas? É essa questão que orienta o ensaio de André da Rocha Santos. Ao revisitar a “trilogia da globalização”, o autor mostra como a sociedade global, para Ianni, não significava o abandono de suas preocupações anteriores, mas a ampliação de seu horizonte de análise: o capitalismo, suas metamorfoses e as desigualdades que atravessam um mundo cada vez mais interdependente. O texto também nos convida a pensar sobre um desafio que permanece atual: como renovar as categorias das ciências sociais para compreender as transformações do mundo contemporâneo?

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.

Boa leitura!


Decifrando a globalização: metamorfoses e contradições do capitalismo mundial em Octavio Ianni

Por André da Rocha Santos (IFSP)

A trajetória intelectual de Octavio Ianni consolidou-se, ao longo da segunda metade do século XX, como uma das mais expressivas no campo das ciências sociais brasileiras e latino-americanas. Desde suas primeiras pesquisas, nas décadas de 1950 e 1960 – período em que atuou como professor da Universidade de São Paulo (USP), entre 1956 e 1969 –, dedicadas à questão racial, à formação de classes e aos dilemas do desenvolvimento, Ianni manteve-se comprometido com a análise crítica das determinações históricas e estruturais que configuraram a sociedade brasileira. Seus estudos dos anos 1970 e 1980, voltados à constituição do Estado, à expansão do capitalismo dependente e às transformações da vida social na América Latina, projetaram-no como referência na tradição crítica desenvolvida entre a universidade e os centros de interpretação do continente.

No plano profissional, a segunda metade da década de 1980 marca a transição de Octavio Ianni da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde lecionava desde 1977, para o Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1986. Essa mudança, contudo, não se restringe ao plano institucional: na passagem dos anos 1980 para os 1990, observa-se também uma inflexão intelectual, caracterizada pela acentuação progressiva de uma escrita ensaística – mais aberta, reflexiva e interpretativa – que passa a ganhar centralidade em relação ao estilo mais sistemático de sua produção anterior. Nesse período, atento à crise do bloco soviético, às reacomodações geopolíticas no interior da Guerra Fria e à difusão das políticas neoliberais em escala internacional, o sociólogo começa a amadurecer uma nova agenda de pesquisa centrada na temática da globalização.

A partir dessa conjuntura, e sem abandonar sua atenção aos problemas nacionais e latino-americanos, Ianni desloca progressivamente seu foco para as transformações globais do capitalismo. Esse deslocamento não deve ser entendido como ruptura, mas como reformulação de uma problemática que, desde seus escritos anteriores, já articulava dependência, Estado e sistema mundial. Assim, em vez de analisar o Brasil e a América Latina como totalidades relativamente autocentradas, Ianni passa a interrogar suas dinâmicas internas a partir de sua inserção em um mundo em reconfiguração, marcado pela intensificação das interdependências econômicas, políticas e culturais.

Essa nova orientação de pesquisa encontra expressão decisiva em uma série de intervenções que inauguram um novo ciclo de reflexão, sendo a primeira delas o livro A sociedade global (1992). Esse movimento ganha visibilidade ainda maior quando, no mesmo ano, Ianni foi o autor homenageado na IV Jornada de Ciências Sociais promovida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília. Em 1992, ele se torna o quarto intelectual examinado nesse evento bianual, que havia homenageado, em edições anteriores, Florestan Fernandes (1986), Caio Prado Júnior (1988) e Antonio Candido (1990). Curiosamente, no momento em que começava a receber manifestações públicas de reconhecimento pelo conjunto de sua obra – algo que poderia sugerir um ciclo já consolidado –, o autor se lançava em uma nova e desafiadora empreitada teórica.

Sobre A sociedade global e esse deslocamento teórico, escreve Renato Ortiz: 

(…) esse texto representa uma inflexão no percurso do autor, o que nos ajuda a entender a natureza do ofício do sociólogo. Isso porque Ianni é obrigado a fazer uma reorientação do seu caminho, uma retomada das categorias já consagradas pela Sociologia. Na verdade, são poucos os estudos mais sérios sobre a temática da globalização (Ortiz, 1996: 120).

Publicado no imediato pós-Guerra Fria, momento em que o capitalismo dava um salto de integração planetária, a obra formula a hipótese de que o sistema capitalista alcança um patamar de mundialização capaz de redefinir a própria experiência histórica. Trata-se de um dos primeiros estudos no Brasil a tematizar a globalização não como simples fenômeno econômico ou cultural, mas como processo histórico estruturante, que reorganiza o tempo, o espaço e a vida social em escala mundial.

A globalização não é um fato acabado, mas um processo em marcha. Enfrenta obstáculos, sofre interrupções, mas generaliza-se e aprofunda-se como tendência. Por isso, há nações e continentes nos quais a globalização pode desenvolver-se ainda mais, tem ainda espaços a conquistar. Este é o caso da África e da América Latina (Ianni, 1992: 23).

Para o autor, a globalização não se restringe à mera expansão geográfica do capitalismo, mas expressa sua nova fase histórica, na qual o sistema se torna intrinsecamente global. Forma-se uma economia mundial integrada, na qual as relações sociais passam a ser estruturadas em escala planetária, articulando mercados, culturas, instituições e tecnologias. Nesse contexto, emerge o capitalismo global: a forma contemporânea do capitalismo que opera por meio de redes transnacionais comandadas por corporações, fluxos financeiros e sistemas de informação altamente interconectados (Ianni, 1992).

Segundo o sociólogo, a mundialização do capitalismo não apenas amplia o escopo das relações sociais, mas transforma qualitativamente o próprio objeto das ciências sociais. Categorias forjadas sob a hipótese da sociedade-nação – como soberania, projeto nacional, fronteiras rígidas entre micro e macro ou mesmo determinadas concepções de classe e identidade – revelam-se insuficientes diante de uma realidade estruturada por interdependências múltiplas e escalas sobrepostas. O Estado-nação não desaparece, mas entra em declínio relativo enquanto instância exclusiva de hegemonia, sendo tensionado por forças econômicas, políticas, culturais e geopolíticas que operam em escala mundial. Nesse quadro, as ciências sociais são convocadas a revisar criticamente seu patrimônio conceitual e a elaborar novos instrumentos teóricos capazes de apreender a complexidade, a heterogeneidade e as contradições da sociedade global.

O livro teve um papel significativo naquela década. Além de receber o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, na categoria “Ensaios”, A sociedade global constituiu um dos trabalhos inaugurais de uma linha de reflexão que, nos anos seguintes, mobilizaria outros importantes intérpretes do pensamento social brasileiro, como Mundialização e cultura (1994), de Renato Ortiz; O capitalismo global (1998), de Celso Furtado; Por uma outra globalização (1998), de Milton Santos; e O Brasil e o dilema da globalização (2001), de Rubens Ricupero, entre outros. Cada qual a seu modo, esses autores aprofundaram o debate sobre as transformações do capitalismo contemporâneo e sobre os significados históricos e políticos da globalização.

Em Teorias da globalização (1995), Ianni explicita esse desafio epistemológico, argumentando que a transformação do mundo social impõe às ciências sociais a necessidade de recriar seus próprios horizontes interpretativos. A realidade global apresenta-se como uma totalidade multifacetada, marcada pela simultaneidade de integração e fragmentação, universalização e desigualdade. A interdependência planetária avança de modo paradoxal, intensificando-se ao mesmo tempo em que aprofunda assimetrias estruturais. Cultura, identidade e poder deixam de ser referidos exclusivamente ao espaço nacional e passam a articular-se em circuitos transnacionais que reconfiguram continuamente as formas de dominação e resistência.

Dessa forma, a sociedade global interpela o pensamento social a ir além das visões que circunscrevem a vida social ao âmbito da nação. O que antes parecia uma imagem coesa – a sociedade-nação – revela-se agora como um mosaico em constante transformação, um verdadeiro caleidoscópio intelectual no qual grupos, classes e identidades não mantêm sua autonomia apenas no interior da peça nacional, mas se articulam em circuitos globais que reconfiguram continuamente o quadro completo da vida social (Ianni, 1995).

Nesse mesmo contexto, Teorias da globalização recebeu novamente o Prêmio Jabuti, desta vez na categoria “Ciências Humanas”, o que consolidou Ianni como uma das vozes centrais no debate sobre a globalização no Brasil. A recepção à obra confirmou a relevância dessa inflexão teórica em sua trajetória e nas discussões intelectuais do período. Esse reconhecimento público não apenas evidenciou a pertinência e a atualidade de suas análises, como também abriu caminho para o terceiro e último momento desse ciclo de reflexão, desenvolvido em A era do globalismo (1996), livro que, no entanto, não alcançou a mesma repercussão dos anteriores e suscitou determinadas ressalvas, especialmente pelo modo de exposição de algumas ideias já apresentadas anteriormente.

Como asseverou Gabriel Cohn (2004), “encontram-se nele características de estilo que, à primeira vista, espantam e podem mesmo ter afugentado um ou outro leitor apressado, mas que, melhor examinadas, revelam-se inteiramente afins à figura do autor”. De forma similar, José Paulo Netto (2009) observa que, a partir da crescente preocupação do autor com a temática da globalização – isto é, em sua última década de vida –, “os textos de Ianni perdem em densidade teórica; seu claro empenho em renovar o arsenal heurístico acaba por torná-lo menos rigoroso e, até mesmo, sua forma expositiva (ou, se se quiser, seu ‘estilo’) perde força” (Paulo Netto, 2009: 95).

Esse estranhamento parece refletir um duplo deslocamento operado pelo autor: temático, com a centralidade assumida pela globalização, e formal, expresso na composição cada vez mais ensaística de seus textos, na qual “a linguagem é alusiva, metafórica, contundente, como se quisesse romper com os limites dos conceitos disponíveis, no momento em que os novos ainda não foram forjados”, como apontou Ortiz (1996: 120). Consideradas em conjunto, A sociedade global (1992), Teorias da globalização (1995) e A era do globalismo (1996) configuram uma espécie de “trilogia” dedicada à análise da ordem global emergente, ao longo da qual o autor passa da (1) formulação do problema para a (2) crítica das interpretações disponíveis, chegando à (3) análise das transformações civilizatórias em curso.

Destaca-se, nesse sentido, que a questão da globalização retoma o mesmo esforço do autor em expressar aquilo que Gabriel Cohn (1996; 2004) identificou como um dos eixos estruturantes de sua obra: a metamorfose como princípio interpretativo. Desde o exame das relações raciais no clássico As metamorfoses do escravo (1962), passando por Raças e classes sociais no Brasil (1966) e Escravidão e racismo (1978), até suas análises do Estado brasileiro sob a ótica do capitalismo – como em Estado e capitalismo (1965) e Estado e planejamento econômico no Brasil (1971) –, bem como suas reflexões sobre a América Latina, em obras como A formação do Estado populista na América Latina (1975), Imperialismo na América Latina (1975) e O labirinto latino-americano (1993), Octavio Ianni buscou evidenciar os processos de transformação histórica, isto é, a metamorfose entendida como um processo histórico de reconfiguração estrutural, no qual formas sociais se transformam, se combinam e se rearticulam de maneira desigual e contraditória. Conforme Gabriel Cohn:

Metamorfose é o modo como, para ele, o processo histórico aparece em sua dimensão social: na diversidade e na sucessão das formas assumidas pelas relações entre os homens e mulheres e por eles próprios nessas suas relações. É o signo da história se fazendo. Sua ausência indica um desvio ou uma paralisação forçada do andamento histórico. Por isso mesmo o tema é sempre forte nele, mas só se aplica a grandes processos quando neles se encontra a história em pleno curso (Cohn, 2004).

À luz dessa formulação, a globalização aparece, em Ianni, menos como ruptura temática do que como desdobramento ampliado de uma preocupação constante: apreender a história em suas transformações estruturais. Se, em fases anteriores, essa dinâmica se manifestava na reconfiguração da sociedade escravista, do Estado brasileiro ou das formações latino-americanas, nos anos 1990 ela se projeta em escala planetária, como metamorfose do próprio mundo social sob a mundialização do capital. A chamada “trilogia da globalização” pode, assim, ser compreendida como expressão dessa mesma matriz interpretativa.

Não por acaso, no plano institucional, esse novo ciclo de reflexão foi acompanhado pelo devido reconhecimento intelectual. Se o início da década havia reservado a Octavio Ianni a distinção de ter sua obra debatida em uma das Jornadas de Ciências Sociais da Unesp, o final do período foi marcado por homenagens de natureza acadêmica e simbólica. Em 1997, por proposta do professor Sedi Hirano, Ianni foi nomeado Professor Emérito da USP, quase trinta anos após ter sido aposentado compulsoriamente da universidade pela ditadura militar. Esse reconhecimento seria reiterado em 2000, quando, por iniciativa de Renato Ortiz, recebeu o título de Professor Emérito da Unicamp. Tais manifestações indicam não apenas o reconhecimento de sua trajetória, mas, sobretudo, reafirmavam a posição singular que o sociólogo ocupava havia décadas no campo das ciências sociais brasileiras, justamente no momento em que sua nova agenda interpretativa sobre a globalização ganhava centralidade nos debates intelectuais do período.


Referências

COHN, Gabriel. (1996). Crise e metamorfoses: aspectos metodológicos da obra de Octavio Ianni. In: FALEIROS, Maria Izabel Leme & CRESPO, Regina Aída (Orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni. São Paulo: Ed. UNESP, p. 145-157.

COHN, Gabriel. (2004). A longa viagem de Octavio Ianni. Teoria e Debate. n. 58.

FURTADO, Celso. (1998). O capitalismo global. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

IANNI, Octavio. (1992). A sociedade global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1995). Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1997). A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

ORTIZ, Renato. (1994). Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense.

ORTIZ, Renato. (1996). Octavio Ianni: a dialética do trabalho intelectual. In: FALEIROS, Maria Izabel Leme & CRESPO, Regina Aída (Orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni. São Paulo: Ed. UNESP, p. 119-124.

PAULO NETTO, José. (2009). Ianni: um pensador completo. In: IAMAMOTO, Marilda Villela & BEHRING, Elaine Rossetti (Orgs.). Pensamento de Octavio Ianni: um balanço de sua contribuição à interpretação do Brasil. Rio de Janeiro: 7Letras, p. 89-99.

RICUPERO, Rubens. (2001). O Brasil e o dilema da globalização. São Paulo: SENAC.

SANTOS, Milton. (2000). Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record.

Sobre o autor

André da Rocha Santos é Professor de Sociologia do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Registro. Doutor em Sociologia pela Unesp, realizou estágios de pós-doutorado na Unicamp e na UFSCar. Sua trajetória de pesquisa concentra-se nos campos do pensamento social e político brasileiro, da sociologia política e do ensino de Ciências Sociais.