
Chegando ao quinto episódio de sua participação na série Sociológicas, Maria Moraes (UFSCar) discute as consequências da agricultura 4.0 nas plantações de cana-de-açúcar. Não é novidade que o uso de Tecnologias de Informação (TIs) vem transformando a agropecuária brasileira. O notável aumento de produtividade está em curso, motivado sobretudo por um neoliberalismo crescente. Com os incrementos tecnológicos na produção, entretanto, Moraes argumenta que surgem ou se intensificam também outras formas de controle e violência sobre os trabalhadores, especialmente as mulheres. Como ela diz, estamos diante de um deslizamento do conceito de gênero, produzido por esse modelo de produção, que pode servir como importante chave interpretativa das nova dinâmicas de relações no trabalho rural.
Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica.
Boa leitura!
Operando o trator rosa: “é muito perigoso, mas adoro o que faço, é uma conquista”i
Por Maria Moraes (UFSCar)
(…) mas quando ele montava num dos tratores e saía pelas veredas de terra da fazenda e passeava pra cá e pra lá, em frente as casas da colônia, o pessoal olhava com inveja e ele se derramava de importância diante das moças, diante dos velhos (…). E ele empinava mais ainda o bigodinho e parecia o dono do mundo, o rei da terra no seu acento de aço. (…) Os rapazes mais moços acrescentaram um sonho novo em seus desejos de ser alguma coisa na vida: tratorista. A cara engraçada do medo. Murilo de Carvalho
De acordo com a reportagem publicada na revista Pesquisa Fapesp (Janeiro de 2020, Ano 21, N.287, p. 12-29), o uso de Tecnologias de Informação (TIs) está transformando a agropecuária brasileira, proporcionando aumento da produtividade e melhorias na sustentabilidade ambiental. Tal uso é cada vez mais frequente entre as grandes empresas produtoras de commodities, como soja, milho, cana-de-açúcar, frutas cítricas, café e carnes. Segundo a reportagem, a implantação da chamada Agricultura 4.0 consiste em informações precisas e em tempo real por meio de sensores terrestres, drones e sistemas de rastreamento via satélite, capazes de coletar dados referentes à produtividade, características do solo, variação climática e incidência de pragas. Tratores e máquinas agrícolas são equipados com sistemas que permitem o monitoramento e operação remotos. A produção desse conhecimento é resultado de pesquisas da Embrapa, de várias Universidades, centros de pesquisa e também startups, além do apoio da Fapesp desde 1996ii.
Ainda segundo a reportagem, no que tange à produção canavieira, a usina São Martinho, localizada em Pradópolis (SP), monitora, por meio da implantação de uma rede 4G, os dados gerados por mais de 700 veículos agrícolas utilizados em seus 135 mil hectares. O trabalho digital é controlado por 50 funcionários. Na agricultura 4.0, o tempo de trabalho é contínuo, sem intervalos; é o moto-contínuo.

Seguindo os números da Figura 1, observa-se a seguinte ordem: 1: a cana é cortada e depositada no transbordo; 2: em seguida, é transportada à área do descarregamento e depositada no caminhão (rodo-trem); 3: por fim, é levada à moagem na usina.
As principais alterações produzidas pela Agricultura 4.0 foram:
- Mudanças no tempo de trabalho: 24 horas (o moto-contínuo). Mudanças nos turnos de trabalho. São três turnos (A: 07hs-15hs; B: 15hs-23hs: C: 23hs-07hs).
- Mudanças quanto ao nível de escolaridade. A agricultura 4.0 exige pessoas com nível de ensino compatível com as exigências das tecnologias avançadas e das TIs. A maioria, segundo dados da RAIS, possui ensino médio, ao contrário do número expressivo de analfabetos e ensino fundamental incompleto do período anterior.
- Mudanças nas formas de remuneração. Antes, o modelo predominante era baseado no trabalho por produção, segundo a produtividade de cada trabalhador individualizado e segundo a média mínima estipulada em 10 toneladas/dia. Com a agricultura 4.0, há uma meta de produção imposta, baseada no conjunto dos colaboradores de cada frente. Cada colhedeira corta em torno de 160 toneladas de cana/hora. No total de 8 horas, segundo o turno de cada frente, a média seria em torno de 1280 toneladas. O cumprimento desta meta corresponde ao total da premiação, destinada ao conjunto da frente.
- Mudanças nas relações de sociabilidade. Embora a jornada 5×1 já fosse praticada anteriormente, com a agricultura 4.0 as relações sociais entre os trabalhadores são mediadas pelas TIs e pelo rádio em posse do líder. Na verdade, a divisão do trabalho controlada pelos computadores da usina determina o lugar de cada um com sua máquina, representada por número, colocado na parte superior das cabines para facilitar a identificação pelos drones. Portanto, no decorrer da jornada, a comunicação é por meio dos computadores. Tal controle abrange todos os espaços, inclusive a área da Vivência, na qual os trabalhadores registram o momento do início e do fim da jornada e, onde, teoricamente, seria o espaço das refeições e pausas. Pelas entrevistas, observou-se que as refeições são feitas no interior das máquinas e o tempo das refeições (1h) é convertido em hora-extra, algo preferido, pois há aumento dos salários. Todos/as trabalhadores/as residem nas cidades. Portanto, há o tempo de deslocamento até os canaviais, em torno de 2h diárias ou até mais. Há casos em que este tempo chega até quatro horas diárias. É o tempo in itinere, não pago pelas empresas em razão das mudanças da Reforma Trabalhista de 2017. A imposição da jornada 5×1 é uma maneira de evitar os contatos dos/as trabalhadores/as nos mesmos dias de descanso, isto é, uma forma de controle além do espaço produtivo.
- Mudanças comportamentais. Estratégias de moralização. Uma das exigências da NR31 se reporta à existência de banheiros sanitários no espaço de trabalho. Com a agricultura 4.0, a área da Vivência corresponde a tais exigências legais. Além do controle do trabalho, há o controle do tempo das necessidades fisiológicas e, no caso específico das mulheres, segundo os relatos, do tempo para a higienização durante o período menstrual.
- Mudanças ocorridas nas representações sindicais. Com a Reforma Trabalhista de 2017, houve um processo de desmonte dos sindicatos, em razão da não obrigatoriedade da contribuição sindical. Outro fator se reporta à natureza da representação, dado que outras agremiações, como os sindicatos dos transportes rodoviários, reivindicaram à representação dos operadores e motoristas, colidindo com os sindicatos de empregados rurais.
As tarefas manuais são executadas pelos/as trabalhadores/as rurais, em geral, negros e negras Silva, 2020). As demais tarefas, elencadas acima, são executadas pelos/as operadores/as e motoristas. Há, portanto, uma mudança na nomeação, que implica na diferença dos salários.
Consegui, após muitas tentativas, entrevistar uma operadora do trator rosa, símbolo da energia feminina no agro. As mulheres operam tratores, colheitadeiras e dirigem os rodo-trens (transportam 120 toneladas de cana). A propaganda das marcas nos sites chama a atenção para o slogan, a energia feminina no agro.



Ao ser inquirida sobre o significado de operar o trator rosa, a tratorista manifestou contentamento e realização de um sonho, de conquista pessoal, de ascensão social.
Seguindo os propósitos de uma sociologia provocadora de respostas, de uma sociologia crítica em diálogo constante com as teorias e métodos, não se trata de analisar as falas, sobretudo das mulheres operadoras, como relações de precarização do trabalho, tampouco considerá-las como sujeitas ao processo de alienação.
No que tange ao trabalho, afirmou que era uma atividade perigosa, com muitos riscos, que exigia muita responsabilidade, caso contrário, havia risco de morte, mas ela gostava muito do trabalho. É muito perigoso, um minutinho de bobeira, você pode perder a vida. É preciso trabalhar com responsabilidade e saber o que está fazendo. É muito perigoso, mas adoro o que faço.
Afirmou que era preciso muita atenção, sendo necessário se comunicar com muita frequência com o operador da colhedora por meio do rádio e de sinais, pois, entre as máquinas (colhedora e transbordo), a distância é de apenas 1,5 m (Figura 4). Ademais, o computador de bordo controla tudo o que se faz. Se há necessidade de ir ao banheiro, é necessário digitar a tecla fatores fisiológicos. Os banheiros se localizam na Vivência, onde está o Mallador — onde há cadeiras, mesas, água gelada e os computadores para o registro da jornada de cada pessoa. O malhador é o espaço que recebe os transbordos com a cana colhida e que será depositada nos rodo-trens para serem transportadas às moendas da usina. Assim, o tempo para ir ao banheiro é regulado pelo tempo de descarga da cana nos caminhões. O tempo para comer é de apenas uma hora, mas, em geral, a refeição ocorre no interior do trator, para não parar o funcionamento da colhedora e de outras máquinas. A pessoa que limpa a área da Vivência, recolhendo os pedaços de cana caídos no momento da descarga é a mesma que controla a chegada dos transbordos e caminhões. É uma atividade que exige muita atenção, sobretudo no período noturno.
Ao entrevistar as mulheres, o que percebi foi uma manifestação de alegria, contentamento e realização, advinda do trabalho com a máquina. Ser operadora de trator rosa, por exemplo, é visto como conquista de um status social, reconhecimento social, também manifesto por outra operadora, sinto-me respeitada. Portanto, é errôneo desconsiderar as falas das mulheres e também dos homens sobre elas, que reiteraram várias vezes as qualidades femininas, dentre elas, o cuidado com as máquinas: elas são doces com as máquinas (palavras de um líder). É certo que esta “qualidade” feminina é importante para as empresas, na medida em que “as mulheres não quebram as máquinas”, portanto, causando-lhes menores custos, levando-se em conta os preços elevados das mesmas.
As entrevistas demonstram que o deslizamento do conceito de gênero, produzido pelo modelo de produção da agricultura 4.0, pode ser uma chave interpretativa importante para a análise da relação mulher x máquina. Relação permeada pelo cuidado. O cuidado é uma categoria analítica que se reporta, em geral, ao ser feminino, dado que as representações sociais de gênero definem as mulheres como aquelas que cuidam. Portanto, há aí uma fixidez do lugar/comportamento feminino. As mulheres são representadas como dóceis, pacientes, cuidadosas, cautelosas, enfim, um conjunto de estereótipos que naturalizam o ser feminino. A literatura nacional e internacional da sociologia do cuidado se reporta ao trabalho do cuidado como sendo baseado nas relações intersubjetivas (crianças, idosos, enfermos etc).
Fica evidente que, nos casos analisados, há a captura do cuidado no ato do trabalho. Porém, é necessário considerar as relações de dominação não só do ponto de vista econômico, como também simbólico. É importante analisar as formas invisíveis de exploração por meio da relação entre máquinas e pessoas, ou seja, aprofundar as reflexões sobre a objetivação das pessoas e a subjetivação das máquinas no processo de produção do self, o que é contrário ao self existente antes da máquina, uma vez que o poder das máquinas com os computadores é internalizado pelos/as operadores/as. É um verdadeiro processo de des (subjetivação do eu). O capital dominou a alma e o corpo dos/as trabalhadores/as. Não se pensa em outra coisa, senão no trabalho, cujas cargas emocional, física e intelectual dominam a todas e a todos, além do espaço laboral. O tempo de descanso é controlado pelos computadores. São pessoas isoladas, já que os momentos de sociabilidade com amigos e familiares é fraturado pela imposição da jornada 5X1. Sem embargo, é um trabalho valorizado mormente pelas mulheres. No comando de todos estes câmbios, o neoliberalismo é o maestro da orquestra. Nesse sentido, Foucault afirma que:
(…) le rapport entre la manipulation des objets et la domination apparaît clairement dans Le Capital de Karl Marx, où chaque technique de production exige une modification de la conduite individuelle, exige non seulement des aptitudes, mais aussi des attitudes (…). Je m´intéresse de plus en plus á l´interaction qui s´opère entre soi y les autres, et aux techniques de domination individuelle, au mode d´action qu´un individu exerce sur lui-même à travers les techniques de soi (Foucault, 1994: 785).
Notas
i Texto extraído de: SILVA, M. A. M. La agricultura 4.0 en los cañaverales de São Paulo. In: GRAMMONT, H. C.;MASCHERONI, P.; RIELLA, A; SANCHES, K. (ORGS.). Mercados de trabajo rurales, desigualdades y vulnerabilidad social en América Latina. Buenos Aires: ClACSO, p. 29-56, 2024.
ii A agricultura digital recebeu apoio da Fapesp no período de 1996 a 2019. Foram financiados 275 projetos entre bolsas e auxílios e 50 PIPEs.
Referências
SILVA, M. A. M. (2020). La cara invisible del trabajo en los campos de caña y naranja en Brasil IN: PALERMO, H.; CAPOGROSSI, M. L (directores). Tratado latinoamericano de antropología del trabajo. BUENOS AIRES: CLACSO, p. 511-552.
