
Continunado os posts da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Andréa Borges Leão (UFC), que parte de uma questão orientadora: como pensar a cultura em um país da periferia do capitalismo?
Recuperando diferentes textos do sociólogo, a autora mostra como a cultura constitui um espaço privilegiado para compreender as formas assumidas pela dominação e pela dependência, mas também os processos históricos de criação e transformação social. O ensaio evidencia, assim, a originalidade da sociologia desenvolvida por Ianni.
Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.
Boa leitura!
As formas sociais da cultura em Octavio Ianni
Por Andréa Borges Leão (UFC)
A relação dos acontecimentos históricos não é a mesma para todos. As ideias de língua nacional, sociedade brasileira, nação, Estado nacional mudam conforme as condições de vivência e sofrença. – Octavio Ianni
1. Um estilo de pensamento político-acadêmico
A seus leitores e leitoras, Octavio Ianni é uma figura rara de sociólogo que se deixa desafiar pelo movimento, pela criação e pela originalidade na observação e na análise dos fenômenos das mudanças sociais. A mudança que mais ocupou a sua atenção foi a que reorientou a sociedade brasileira do passado colonial e oligárquico para a economia industrial, a urbanização e a modernização.
Há diferentes maneiras de abordar o conjunto da obra de Octavio Ianni. Nesse curto ensaio, gostaria de enfatizar, no seu pensamento, a construção crítica de objetos e problemáticas de investigação da cultura.
Para o sociólogo, o movimento da mudança social revela uma teia densamente entrelaçada entre a economia, a política e a cultura em escala regional, nacional e internacional. Esse é um importante caminho de reflexão sobre as formas de dominação e dependência entre as culturas dos países do Ocidente imperialista e as culturas dos espaços periféricos. No livro Imperialismo e cultura, publicado em 1976, a interdependência entre esses mundos prepara o grande debate que Ianni irá enfrentar, a partir dos anos 1990, sobre o capitalismo globalizado.
Na perspectiva marxista adotada, Ianni reconhece as peculiaridades nacionais na produção e na circulação da cultura. Seu pensamento autônomo apreende o mundo em sua totalidade, reconhecendo a importância do encadeamento e da reciprocidade entre os níveis material e simbólico. Segundo Renato Ortiz (2008), Ianni viu no marxismo o atributo da explicação totalizadora que lhe permitia conectar as dimensões da vida social, em aproximação aos “fenômenos sociais totais” de Marcel Mauss.
Relendo os ensaios de Octavio Ianni, no momento das comemorações de seu centenário, damo-nos conta de que são muitas as exigências de reprodução do capital. A cultura não se desligaria das práticas de poder, alienação e antagonismo imanentes ao modo de produção capitalista. Ao final da leitura do livro Imperialismo e cultura, fica a pergunta, atualíssima e nada elementar: de que modo a desigualdade social aparece no âmbito da cultura? A discussão sobre os efeitos do imperialismo nos países colonizados e sobre as expressões da dominação cultural nos meios de comunicação de massa e no sistema de ensino desdobra mais uma pergunta que segue ligando gerações: o que é fazer sociologia da cultura em um país da periferia do capitalismo?
Essas questões já haviam sido feitas por Florestan Fernandes, em artigo de 1956, com relação à sociologia brasileira, como lembra Elide Rugai Bastos em entrevista gravada na ocasião do centenário de nascimento do sociólogo (2020). Pode-se afirmar que o mestre e o discípulo guardam em comum um estilo de pensar o Brasil.
Octavio Ianni nos oferece a perspectiva de estudar criticamente a cultura e seus objetos nos processos de transição para a modernidade, tomando-a nas configurações que expressam as mudanças sociais nas relações de poder, nas formas da consciência, no pensamento e na imaginação. É o caso da representação da tirania na produção do romance latino-americano (Ianni, 1991), adiante comentada em detalhes.
E, assim, Ianni prepara, desde os anos 1970, uma compreensão sobre a circulação de modelos estéticos, cognitivos e comportamentais em permanente tensão entre o pensamento crítico e as forças conservadoras. Esse é um dos problemas colocados pela emergência das mobilidades nos espaços transnacionais da cultura-mundo. Suas análises vão além da constatação do surgimento de novidades ou da irrupção de eventos singulares. A mim, elas ensinam a ver a presença do passado no presente como dimensão crítica da reflexividade.
Não é exagero afirmar que, por meio do universo simbólico, Ianni constrói uma perspectiva de análise que evidencia a estrutura reflexiva de sua obra, o que a torna imprescindível no domínio da sociologia da cultura e, por que não, da sociologia da literatura e da arte.
A ideia de Brasil moderno, observa Maria Arminda do Nascimento Arruda (2004), marca a produção sociológica de Octavio Ianni. É no curso instável da modernização capitalista que a dinâmica da cultura vincula a recriação do real ao desvendamento do real. É no processo longo da história latino-americana que as formas culturais e artísticas são criadas e recriadas como sínteses da imaginação nacional, a exemplo dos relatos dos primeiros viajantes, do barroco colonial e do realismo mágico.
Do mesmo modo, no século XIX, novos horizontes culturais foram abertos pelas revoltas populares, pelas reformas e pelos movimentos de independência. As lutas de construção do Estado e da identidade nacional reuniram as condições de possibilidade para o advento, por exemplo, do romantismo. Cada espaço nacional vai encontrando sua forma própria de autorrepresentação. E não apenas por meio das produções culturais aristocráticas ou burguesas emergentes, mas “de quando em quando, o povo emerge no horizonte do escritor, poeta, pintor, músico, cineasta, dramaturgo e outros” (Ianni, 1991: 60).
Não lhe escapariam os efeitos comportamentais e culturais da ordem de mudanças que se convencionou chamar, a partir dos anos 1990, de pós-modernidade. Octavio Ianni foi um dos sociólogos brasileiros a observar que, no universo das experiências fragmentadas, o mundo se tornava um universo comum. As fronteiras nacionais iam perdendo os sentidos e as atribuições originais. O mercado de bens e ideias se deslocava velozmente, atravessando oceanos e montanhas, culturas e civilizações.
Octavio Ianni nos coloca diante das transformações no espaço da produção simbólica, com ênfase no modo relacional entre os princípios de dominação, dependência e resistência que estruturam esse espaço. A radicalidade com que assumiu a “sociologia como vocação” ilustra a sua atuação tanto na defesa da autonomia científica quanto no compromisso com a transformação social. Ou melhor, permite o convívio entre as tarefas do scholar e as do intelectual público (Botelho, 2004).
No livro Enigmas da modernidade-mundo, sua atenção se volta para os movimentos contínuos de desenraizamentos e enraizamentos, bem como para os desacordos e as dependências que marcam as formas de convívio entre o mundo real e o mundo virtual. Uma combinação de infinitas variáveis afeta, a um só tempo, o pensamento e a ação dos indivíduos. Os fios de conexão entre as experiências de mudança social acabam por nos levar ao acelerado processo de globalização, cujas modulações também contavam, na sociedade brasileira, com velhas formas em repouso (Ianni, 1992; 1996).
2. Uma sociologia crítica da cultura
Nos escritos de Ianni sobre a cultura, que define enquanto forma de conhecimento e expressão de “ideias, imagens, símbolos, signos, representações, sublimações, exorcismos, fantasias” (Ianni 1991: 11), ele não descuidou das formas próximas ou remotas de produção da história e, com isso, dos movimentos de reprodução e de transformação social. Ou melhor, “todas as expressões culturais criam-se e recriam-se no jogo das relações sociais” (Ianni, 2004: 167). Para Ianni, não existe uma cultura brasileira organizada, transparente e integrada a todos, mas múltiplas formas de vida e trabalho que colocam questões tanto para a desigualdade como para a mudança social. Ao enfrentá-las, nos dá uma pista metodológica. Inspirado no diretor de cinema Orson Welles, o criador do herói sem saída e isolado no mundo capitalista que se fragmenta e se desfaz após a crise de 1929, o sociólogo apanha a realidade em movimento. “A solidão do cidadão Kane”, publicado originalmente em 1966, na Revista Civilização Brasileira, é um dos mais belos textos de Octavio Ianni sobre a recriação da cultura no processo de mudança social, observada a partir da trajetória de um personagem.[1]
Vejamos, a esse respeito, dois capítulos do livro Ensaios de sociologia da cultura. No primeiro, a tirania é personificada em galerias de ditadores na cultura literária latino-americana e, no segundo, aparece a irreverência crítica do realismo mágico como intercâmbio entre a linguagem e as relações sociais (Ianni, 1991: 29). Em ambos, Ianni nos oferece uma interpretação que tensiona os pares de oposição entre as representações das figuras sociais da dominação e as dos grupos subalternizados, uma vez que ditadores, colaboradores nacionais e estrangeiros e súditos são estreitamente relacionados em situações de mútua dependência. A um só tempo esclarecidos e brutais, não há uma interpretação moral dessas figuras. O mesmo tratamento é dado aos romances O recurso do método (1974), de Alejo Carpentier, e O outono do patriarca (1975), de Gabriel García Márquez, assim como à peça Papa Highirte (1968), de Oduvaldo Vianna Filho. As ambiguidades dos personagens na esfera pública são igualmente levadas a sério.
As tiranias latino-americanas só podem ser trabalhadas no tempo longo da história. Como uma cultura literária do realismo grotesco, combinação de história com a fantasia do artista, a tirania produz efeitos de carnavalização, do riso devastador, entrando na categoria do mágico maravilhoso, como pensa Mikhail Bakhtin.
Octavio Ianni nos convence de que a literatura latino-americana produz uma força de representação que, por dentro da sátira desmesurada, constrói um estilo cultural. O realismo mágico leva o poder do ditador ao exagero e ao absurdo, fascina os leitores pelo recurso do humor, mas acaba por romper a dependência e o pacto colonial, vinculando-se ao popular. Lutas de resistência, mitos e ritos tradicionais emergem simultaneamente como dimensões recônditas do mundo social e instrumentos de apreensão do real. O realismo mágico se torna um estilo de pensamento que opera a crítica do social.
Na leitura de Octavio Ianni, aprendemos que cada dinâmica de mudança cobra seu preço. Na história cultural dos países latino-americanos, quais foram os problemas colocados pelos processos de mudança? Vastos e desafiadores, a depender das experiências nacionais, a exemplo das relações entre as criações culturais e os movimentos sociais, da dependência e da dominação, da hierarquia entre os artistas, os objetos e a recepção, das posições intelectuais de compromisso e distanciamento, da vocação acadêmica e do engajamento político.
Afastando-se do falso problema da antecedência ou da consequência do social sobre o individual e vice-versa, Ianni concebe o estilo como um modo de ser do artista e da realidade que o produz e na qual produz. O conjunto de condições econômicas, sociais e políticas ressoa na arte por meio da mediação da cultura.
No contexto dos anos 1970, a indústria cultural que se instalava no Brasil abrangia todas as etapas da produção de modo interdependente, incluindo a circulação e o consumo, como pensavam Theodor Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin, mas relacionava-se sobretudo aos modos de produção da ciência e da tecnologia. Ao enfatizar as relações internacionais imperialistas do Ocidente ao lado das questões nacionais, o sociólogo acrescenta uma questão diferenciada em relação às referências teóricas do período. Para Ianni, a indústria cultural “compreende tanto as ideias do Pato Donald quanto as doutrinas da contra-insurreição e da ação cívica das forças armadas e policiais” (Ianni, 1976: 59).
A justificativa da construção do modelo da cultura como forma social do conhecimento coloca questões decisivas aos objetos da sociologia da cultura. A primeira delas é como construí-los em suas singularidades sem perder de vista os condicionantes estruturais que os tornam possíveis. Vejamos a interpretação de Octavio Ianni (2004) das relações entre cultura e sociedade na obra de Antonio Candido sobre a formação da literatura brasileira.[2]
No ensaio “Nação e narração”, do livro Pensamento Social no Brasil, o sociólogo chama a atenção para os momentos decisivos da produção das obras de ficção no curso da formação da literatura brasileira como simultâneos ao percurso de desenvolvimento da cultura, de suas formas de sociabilidade e das tramas das forças sociais que a constituem. Esse percurso de formação da literatura e da cultura não descreve a linearidade de uma evolução, ao mesmo tempo em que guarda, cada qual, a sua peculiaridade. Textos distanciados no tempo e no espaço podem ou não coincidir na interpretação da nação. A partir da sistematização de Antonio Candido, Ianni pensa a literatura como um sistema aberto e em movimento, onde a dialética entre localismo e cosmopolitismo, entre símbolos nacionais e estrangeiros, encontra expressão nas mais diversas formas e modos de realização da cultura. Não por acaso, a temática “cultura e sociedade” acompanha os momentos decisivos da institucionalização da sociologia no Brasil.
Gostaria de finalizar com uma nota pessoal. No início dos anos 2000, o debate crítico ainda importava na vida acadêmica brasileira e as obras clássicas eram referências incontornáveis para os estudantes de sociologia. Os encontros da Anpocs, realizados nos hotéis de Caxambu, tornavam-se espaços de circulação e troca entre pessoas, livros e ideias. Uma jovem leitora podia ser introduzida na complexidade do mundo do livro ouvindo uma conferência, assistindo a um Grupo de Trabalho ou simplesmente conversando com suas autoras e autores preferidos. Foi assim que conheci Octavio Ianni.
Após um debate, coloquei a ele a questão da lógica de modernização da cultura na minha pesquisa de tese sobre as coleções de livros infantis do primeiro período republicano. Eu sabia que estava interagindo com o autor de O colapso do populismo, com o sociólogo que havia participado do seminário de leitura de O Capital, aluno de Florestan Fernandes. Mas a conversa rumou para os romances de aprendizagem e o semanário ilustrado infantil O Tico-Tico. Perguntei a ele se uma pesquisa sobre a imaginação nacional nos livros infantis poderia oferecer alguma contribuição à sociologia da cultura, ainda mais sendo um objeto construído nos domínios do popular, do ilegítimo. A resposta veio em forma de uma doce memória de leitura, de narrativas e heróis que deixam marcas na vida adulta. Firmado um pacto com a palavra autorizada do autor, segui em frente.
Notas
[1] O filme Cidadão Kane é uma das produções culturais analisadas no livro Ensaios de sociologia da cultura, de 1991.
[2] A esse respeito, consultar “Cultura e Sociedade”, capítulo do livro Octavio Ianni e o pensamento social no Brasil (2004).
Referências
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. (2004). Apresentação: Octavio Ianni, um mestre. In: IANNI, Octavio. Pensamento social no Brasil. Bauru: EDUSC.
BASTOS, Elide Rugai. Entrevista Elide Rugai Bastos. In: Revista Pesquisa FAPESP. Um intelectual na periferia. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/um-intelectual-na-periferia/.
BOTELHO, André. (2004). Octavio Ianni: a sociologia como vocação. Revista de Ciência Política. n. 17, maio/jun.
IANNI, Octavio. (1976). Imperialismo e cultura. Petrópolis: Vozes.
IANNI, Octavio. (1983). Revolução e cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (1991). Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (2001). Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (2004). Pensamento social no Brasil. Bauru: EDUSC.
ORTIZ, Renato. (2008). Octavio Ianni: a ironia apaixonada. Sociologias, ano 10, n. 20, p. 319-328.
Sobre a autora
Andréa Borges Leão é professora titular do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Lidera o Grupo de Estudos em Cultura, Comunicação e Arte (GECCA/NE) e coordena, ao lado de Edson Farias, o Comitê de Pesquisa Sociologia da Cultura da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).
