Centenário de Octavio Ianni | Entre raça e populismo: a luta de classes como eixo fundamental de análise em Octavio Ianni, por Rafael Tauil

Dando continuidade à sétima rodada de posts da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Rafael Tauil (USP), que examina dois momentos da trajetória e da obra do sociólogo.

O autor sugere que a passagem do funcionalismo ao marxismo redefiniu a interpretação de Ianni sobre a questão racial e o populismo. Seu argumento é o de que a luta de classes se tornou um dos eixos organizadores dessa sociologia, permitindo compreender tanto a escravidão e suas metamorfoses quanto o populismo como expressões históricas do desenvolvimento do capitalismo brasileiro e das contradições da formação social do país.

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.

Boa leitura!


Entre raça e populismo: a luta de classes como eixo fundamental de análise em Octavio Ianni

Por Rafael Tauil (USP)

As interpretações sociológicas de Octavio Ianni variaram em termos de objeto e metodologia. Se, em sua dissertação de mestrado, escrita em meados da década de 1950, iniciava seus primeiros trabalhos de interpretação a partir do funcionalismo inspirado por Florestan Fernandes, no final dessa década sua chave interpretativa se deslocava em direção ao marxismo e ao eixo das classes como unidade fundamental de análise.

Além dessa mudança metodológica, também se debruçou sobre objetos tão variados quanto raça, populismo e globalização, entre outros, ao longo de sua trajetória. Neste texto, dedicamos atenção a dois momentos específicos de sua trajetória: 1) sua pesquisa sobre a questão racial em Florianópolis, realizada ao lado de Fernando Henrique Cardoso a partir de uma chave funcionalista; e 2) suas interpretações sobre a questão racial e sobre o populismo a partir de uma chave marxista, que tinha como unidade fundamental de análise a luta de classes.

A obra Cor e Mobilidade Social em Florianópolis: Aspectos das Relações entre Negros e Brancos numa Comunidade do Brasil Meridional (1960) pode ser entendida como consequência direta de uma série de condicionantes, entre os quais se destacam o projeto Unesco sobre a questão racial e a influência funcionalista de Florestan Fernandes. Nesse primeiro trabalho, a pesquisa empírica e os modelos de survey utilizados deixam claras as influências de Florestan e dos modelos de investigação da Escola de Chicago, que havia chegado ao Brasil por meio da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. O método ecológico empregado nessa pesquisa é um bom exemplo da incorporação desses modelos.

O trabalho consistiu, basicamente, em reunir uma série de dados sobre a região, sobre suas populações, sobre a empregabilidade, a escolaridade, a moradia etc. Depois de recolhidos, os dados foram analisados e apresentados em forma de relatório de pesquisa, acompanhados de explicações por meio de tabelas e quadros de informações, a partir de uma perspectiva que procurava entender fenômenos sociológicos em função de suas funções sociais. Os principais pontos trabalhados nessa pesquisa são a relação entre a cor e a mobilidade social do homem negro e mulato[1] ex-escravizado, os estereótipos e as ideologias raciais, a transformação do “escravizado em indivíduo”, a mística da branquidade, o preconceito e as relações entre o preconceito de classe e o preconceito de cor. Além da temática, este trabalho foi importante do ponto de vista analítico e normativo por ajudar a combater a ideia de que as relações raciais eram harmoniosas no Brasil e a noção de que o racismo aqui era um sentimento lateral, sem representar importância nas relações sociais.

Após essa experiência inicial de investigação, em 1958 Ianni integrou o grupo de estudiosos que se dedicou à leitura sistemática de O Capital, de Marx. O Seminário d’ O Capital, como ficou conhecido, exerceu grande influência sobre sua produção intelectual. Reunindo professores e estudantes da Universidade de São Paulo, a iniciativa contribuiu para uma leitura mais rigorosa e sistemática da obra marxiana. Pode-se dizer que o seminário colaborou para a formulação de uma nova interpretação do Brasil. Essa perspectiva, que procurava extrapolar as compreensões mais gerais sobre o país – características do “ensaísmo” do início do século XX –, buscava superar os marcos teórico-metodológicos estabelecidos por Florestan Fernandes durante a década de 1950 e se distanciar das leituras formuladas pela esquerda brasileira tradicional.

O Seminário era composto por intelectuais como José Arthur Giannotti, Fernando Novais, Paul Singer, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Ruth Cardoso, Francisco Weffort, entre outros. A ideia inicial de formação do grupo coube a Giannotti, enquanto a sugestão de leitura de O Capital partiu de Fernando Novais. Giannotti havia chegado da França, onde participou do grupo Socialismo ou Barbárie, liderado por Lefort e Castoriadis. De orientação crítica ao leninismo, esse coletivo passou, ao longo do tempo, a divergir também do trotskismo, tendo como principal eixo a crítica ao marxismo ortodoxo da União Soviética (Tauil, 2013).

Até 1958, embora amplamente mobilizada pela esquerda política brasileira, a obra de Marx ainda não ocupava lugar central nas universidades. Figurava, naquele momento, ao lado de outras referências, como Durkheim, Weber e Mannheim, sem possuir o estatuto “diferenciado” que passaria a adquirir após a experiência do Seminário. O grupo tinha, inicialmente, como objetivo proceder a uma ressignificação da obra marxista e, paralelamente, mobilizá-la para a compreensão da realidade brasileira. Em outras palavras, buscava-se uma “leitura imanente” de O Capital, capaz de oferecer pistas para uma nova compreensão do processo de desenvolvimento brasileiro. Duas características essenciais possibilitaram o sucesso dessa nova interpretação: em primeiro lugar, a formação multidisciplinar do grupo, tendo entre seus integrantes historiadores, economistas, filósofos e sociólogos. Em segundo lugar, a busca pelo afastamento das leituras que a “esquerda oficial” fazia da obra marxista.

Essa esquerda era representada, à época – com suas várias especificidades –, pelas ideias que orientavam as ações políticas do Partido Comunista Brasileiro (PCB), pela formulação teórica de parte dos intelectuais do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e pelas diretrizes político-econômicas que orientavam as ações da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) junto à ONU no Brasil e na América do Sul.

A interpretação desenvolvida por Ianni em As Metamorfoses do Escravo[2] é fruto dessa experiência e é a partir dela que ele passa a compreender os demais temas aos quais se dedicou. Nessa obra, a inspiração marxista o leva a formular uma interpretação renovada sobre a abolição da escravização no Brasil, por meio de uma reconstrução histórica do processo de formação, funcionamento e extinção do regime escravocrata no Paraná. O estudo percorre diferentes fases do modo de produção escravista, desde o tráfico de escravizados, a formação das comunidades na região e as relações de exploração do trabalho escravizado até a imigração de trabalhadores europeus, os movimentos abolicionistas e, por fim, a extinção do regime escravista na região.

Talvez a principal inovação trazida por essa nova forma de interpretar a escravidão tenha sido sua compreensão sobre o processo da metamorfose do escravizado, que passou de simples mercadoria à mão de obra livre. Este foi um dos processos econômicos que tornou insustentável a continuidade do sistema escravocrata no Brasil, visto que o desenvolvimento dos modos de produção capitalista passava a tornar mais vantajosa a utilização do trabalhador livre sob o regime de horas do que a manutenção do trabalho escravizado. Em termos econômicos, o trabalhador representava uma forma de capital variável compatível com o novo modo de produção que se formava e era utilizado de acordo com suas necessidades, inclusive em termos de sazonalidade climática. Já o escravizado representava capital imobilizado e continuava figurando como um custo fixo para o seu empregador, independentemente de sua utilização.

Além disso, seu trabalho chamou a atenção para a miscigenação e para como as tensões sociais existentes entre brancos, negros e mulatos atuaram de forma decisiva no processo de desagregação do regime, influenciando os valores morais e confundindo, de certo modo, a lógica da ideologia racial do branco, mantida por tanto tempo para que o regime pudesse ser conservado. Nesse sentido, para ele, a “questão da cor” tinha tanta importância quanto a nova identidade econômica que surgia, uma vez que a miscigenação teria trazido para o regime escravocrata uma forma de antítese que seria capaz de contribuir para o fim da escravidão.

O mulato, nesse sentido, ajudou a subverter a ordem que classificava o branco como senhor e o negro como escravizado. Sua presença teria funcionado como uma espécie de elemento desestabilizador de uma ordem em que a cor estava colada à posição econômica ocupada pelos indivíduos. Segundo Ianni, “O mulato, como se verá, é um produto dessa situação, exercendo, independentemente da sua consciência real da situação, efeitos sociais ativos, contraditórios com os requisitos de estabilidade do regime” (Ianni, 1962: 173) e, além disso, “O mulato é, por isso, um produto dialético, negação do escravo e do senhor, e, em decorrência, um dos agentes de destruição da escravatura” (Ianni, 1962: 197).

Durante o processo de abolição, os escravizados teriam sofrido as dificuldades decorrentes de uma dupla identidade enquanto indivíduos. Por um lado, deixavam de ser mercadoria no regime escravista que se extinguia e, por outro, passavam a compor o mercado de trabalho como mão de obra livre no regime capitalista que se constituía. Este intermezzo teria levado os escravizados a um sofrimento psíquico enorme quando a abolição se realizou, visto que não conseguiam se reconhecer em nenhuma das duas identidades e em seus modos de agir em relação à nova vida.

Além dessa dimensão, Ianni chamava a atenção para o fato de que, além de assumir um novo papel social no campo econômico, os escravizados sofriam com a própria condição de liberdade diante de um cenário em que não haviam sido treinados para o mundo do trabalho e, tampouco, auxiliados pelo Estado através de políticas públicas que lhes permitissem ter condições de moradia, educação, trabalho e lazer para uma vida melhor. Essa nova forma de interpretação não consistiu apenas em pintar de vermelho o funcionalismo de Florestan na análise da escravidão e de sua abolição. Unindo o rigor analítico na compreensão da questão de cor e raça a uma metodologia rigorosa, essa forma de olhar para a miscigenação lançou luz sobre um aspecto social que foi decisivo no processo de abolição no Brasil.

Ianni tornou-se também um dos principais teóricos do populismo no Brasil a partir de suas obras O colapso do populismo no Brasil (1968) e Formação do Estado populista na América Latina (1975), ambas publicadas pela Civilização Brasileira. Tendo participado da fase inicial do Seminário de O Capital, suas análises estão mais próximas de um marxismo estrutural, mas, ainda assim, próximas das interpretações realizadas pelo grupo que se formou em torno de Weffort para estudar o tema.

Ianni via o populismo como uma fase de aprofundamento do capitalismo no Brasil, identificando-o como a última e decisiva etapa do processo de dissociação entre os trabalhadores e os meios de produção, uma vez que estava em curso, durante a Era Vargas, o processo de formalização das relações de produção capitalista. Segundo Barboza Filho, “O populismo (para Ianni) teria aparecido como uma espécie de ‘intermezzo’, no trânsito da hegemonia oligárquica para a hegemonia da burguesia urbana e industrial” (Barboza Filho, 1980: 221).

O populismo foi entendido por Ianni como um fenômeno típico da transição das sociedades latino-americanas – especialmente o Brasil – de uma economia agrária e oligárquica para uma sociedade urbano-industrial. Para ele, o populismo não era apenas um “estilo de liderança”, mas uma forma específica de articulação política entre Estado, massas urbanas e classes sociais durante o desenvolvimento do capitalismo dependente. O populismo fazia parte da própria dinâmica do capitalismo dependente latino-americano. Ou seja, ele não via o populismo apenas como manipulação ideológica, mas como uma forma histórica concreta de organização do poder em países periféricos em vias de industrialização.

Sua interpretação buscava na ideia de movimento seu locus de análise, uma vez que o populismo teria como base as diferentes transformações no interior de um pacto entre diferentes classes. Em outras palavras, seria um momento de transformação em que as classes se opunham umas às outras, mas não de maneira explícita. Esse fato teria levado o pacto à ruptura no momento em que as classes se revelaram contraditórias umas em relação às outras, interrompendo as alianças estabelecidas anteriormente.

Nesse sentido, o surgimento do populismo teria se dado a partir do momento em que as elites tradicionais já não conseguiam governar as massas, mas a classe trabalhadora ainda não possuía uma forma de organização autônoma suficiente para disputar o poder diretamente. Haveria, portanto, uma forma de incorporação “controlada” das massas: os trabalhadores ganham participação política e direitos, mas continuam subordinados à direção do Estado e das elites dirigentes. Era a partir dessa dimensão que Ianni denunciou o caráter contraditório do fenômeno populista: por um lado, ampliava a participação popular e promovia certa modernização social; por outro, limitava a autonomia política dos trabalhadores, uma vez que a mobilização popular era conduzida “de cima para baixo”.

Também chamou a atenção para outro duplo caráter do fenômeno: o populismo das elites e o populismo das massas. O primeiro apareceria como instrumento de dominação de massas por parte das elites, em favor da construção da hegemonia burguesa e industrial da época, em termos gramscianos. Além disso, apropriar-se-ia das possibilidades das massas, instrumentalizando-as de acordo com seus interesses hegemônicos. Na análise do autor – assim como na maioria dos intérpretes do populismo no Brasil – a ideia de contradição dava lugar à noção de conciliação ou pacto de classes, ignorando a autonomia dos indivíduos.

No caso do populismo das massas, identificava o proletariado como estando a meio caminho da formação de sua própria consciência, como produto da transição de uma sociedade tradicional agrária para uma sociedade moderna urbano-industrial. Ianni afirma: “Devido às condições histórico-culturais e políticas da época, a visão de mundo das massas permanece em atraso, relativamente à sua situação real no processo produtivo” (Ianni, 1975: 84). Tratava-se, nesse caso, de uma análise que ainda não havia abandonado por completo a chave interpretativa dualista do atraso versus moderno e ainda emprestava à economia, e não à política, o principal mecanismo de explicação da sociedade.

Essa forma de compreensão sobre a visão de mundo atrasada das massas no populismo repete seu modo de interpretação sobre a escravização e sua abolição, demonstrando sua capacidade analítica a partir de uma mesma perspectiva interpretativa. Sabemos que Ianni seguiu fiel ao marxismo até o final de sua vida e, longe de essa perspectiva tê-lo tornado insuficiente, analítica e normativamente, ela lhe permitiu compreender importantes marcos e acontecimentos nacionais com ineditismo, o que o posiciona, até hoje, como um dos intérpretes mais importantes do Brasil. É preciso, além de homenageá-lo nesta ocasião, lutar para que suas obras sigam como referência tanto no campo acadêmico como nos ambientes de ensino da educação básica formal.


Notas

[1] Decidimos manter a palavra mulato devido ao significado conotativo exato emprestado a ela no momento de escrita do autor.

[2] Sua tese de doutorado, O Negro na Sociedade de Castas (1961), foi publicada posteriormente, em 1962, pela editora DIFEL, sob o título As Metamorfoses do Escravo (1962).

Referências

BARBOZA FILHO, Rubem. (1980). O conceito de populismo: uma revisão teórica. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais.

IANNI, Octavio. (1961). O negro na sociedade de castas. Tese de Doutorado. São Paulo, Universidade de São Paulo.

IANNI, Octavio. (1962). As metamorfoses do escravo. São Paulo: DIFEL.

IANNI, Octavio; SINGER, Paul; COHN, Gabriel; WEFFORT, Francisco. (1965). Política e revolução social no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1968). O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1975). Formação do estado populista na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio; CARDOSO, Fernando Henrique. (1960). Cor e mobilidade social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil meridional. São Paulo: Companhia Editora Nacional. (Coleção Brasiliana, v. 307).

TAUIL, Rafael Marchesan. (2013). Octavio Ianni e o início de sua trajetória intelectual: uma nova interpretação sobre a “questão racial”. Dissertação de Mestrado. São Paulo, Universidade Federal de São Paulo.

TAUIL, Rafael Marchesan. (2025). Populismo, democracia e tradição republicana: Francisco Weffort entre a teoria e a realpolitik. São Paulo: Paco Editorial.

Sobre o autor

Rafael Tauil é pós-doutorando no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e visiting fellow pelo Departamento de Governo na University of Essex. Integra o Laboratório de Política e Governo (LabPol/Unesp), o grupo de pesquisa Pensamento e Política no Brasil (USP) e o núcleo de conceitos políticos do European Consortium for Political Research (ECPR).