
Dando continuidade à sétima rodada de posts da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Valter Roberto Silvério (UFSCar), que situa a questão racial no centro da interpretação de Octavio Ianni sobre o Brasil.
Em vez de tratá-la como resíduo da escravidão ou tema lateral da formação nacional, o autor acompanha, a partir da obra de Ianni, as “metamorfoses do africano” – de escravo a trabalhador livre, de negro racializado a sujeito político – para demonstrar que modernização, sociedade de classes e democracia se constituíram preservando hierarquias raciais. A força da leitura está em afirmar que, para Ianni, a democracia brasileira só se completa quando a cidadania formal se transforma em igualdade efetiva, reconhecimento substantivo e participação política plena.
Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.
Boa leitura!
Raça, modernização e democracia em Octavio Ianni
Por Valter Roberto Silvério (UFSCar)
Em 2026, ano em que Octavio Ianni completaria cem anos, vale retomar uma dimensão decisiva de sua obra: a interpretação das relações raciais como eixo estruturante da formação social brasileira. A tese que orienta este texto é que as “metamorfoses do africano” constituem uma chave privilegiada para compreender, em Ianni, a passagem da escravidão ao trabalho livre, da sociedade de castas à sociedade de classes e da cidadania formal à luta por reconhecimento substantivo.
Mais do que um tema circunscrito à história da escravidão ou à denúncia do preconceito, a questão racial aparece articulada às transformações do trabalho, à construção do Estado nacional, à modernização desigual, à expansão da sociedade de classes e às disputas em torno da democracia. Africano, escravo, negro, trabalhador e cidadão não são, nesse percurso, nomes sucessivos de uma mesma identidade. São categorias produzidas em configurações históricas específicas. Cada uma delas expressa uma posição social, uma forma de dominação, uma modalidade de consciência e uma possibilidade de ação política.
Essa leitura supõe situar Ianni no contexto intelectual e político do pós-Segunda Guerra Mundial. A crítica internacional ao racismo, a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e o protagonismo da Unesco na defesa da diversidade cultural e dos direitos humanos redefiniram os termos do debate sobre raça, cultura e democracia. Nesse cenário, o Brasil passou a ser visto como possível laboratório de convivência racial. Essa imagem orientou o chamado Projeto Unesco, mas as pesquisas realizadas no país frustraram a expectativa de encontrar uma experiência simples e positiva de harmonia racial. Ao contrário, revelaram padrões variados de preconceito, distância social e discriminação.
A participação de Ianni nessas pesquisas, ainda como jovem sociólogo vinculado à Escola Paulista de Sociologia, foi decisiva. Ela lhe ofereceu um campo empírico e teórico para articular raça, trabalho, estrutura social e cidadania. A pergunta deixou de ser se o Brasil confirmava a promessa da democracia racial e passou a ser outra: como uma sociedade formada pela colonização, pela escravidão e pela imigração incorporou ideais modernos de liberdade, igualdade e cidadania sem eliminar as hierarquias raciais que organizavam a vida social?
É nesse ponto que a ideia de metamorfose ganha força analítica. A primeira grande transformação consiste na conversão de africanos de origens étnicas diversas em escravos. Esse processo apagou pertencimentos específicos e reuniu sujeitos distintos sob classificações raciais, como preto ou negro. A segunda metamorfose emerge com a crise do escravismo: o escravo deixa de ser juridicamente propriedade, mas passa a ser incorporado à sociedade de classes sob marcas raciais que condicionam sua posição no trabalho, na cidade e na ordem política.
As pesquisas sobre o Brasil meridional – especialmente Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre e Pelotas – foram fundamentais para essa interpretação. Ao privilegiar comunidades do sul do país, Cardoso e Ianni examinaram formações histórico-sociais distintas das áreas de povoamento mais antigo e das zonas de grande lavoura tropical. Nesses espaços, a escravidão teve extensão e intensidade menores do que em outras regiões, e a colonização estrangeira contribuiu para produzir padrões próprios de convivência racial e étnica. O objetivo era verificar se, mesmo em uma região marcada por outro tipo de colonização, os padrões contemporâneos de relações interraciais preservavam vínculos com a ordem tradicional de acomodação racial.
A resposta de Ianni é clara: a abolição, considerada isoladamente, não explica a transformação do escravo em trabalhador. Essa transformação deve ser compreendida em articulação com a imigração, a formação do mercado de trabalho livre, os projetos de embranquecimento, a hierarquização racial e a reorganização da sociabilidade após o fim formal da escravidão. A discriminação racial não desaparece com a passagem da escravidão ao trabalho livre; ela se reorganiza.
Em Florianópolis, a acomodação interracial entre negros, brancos e mestiços organizava-se em torno de uma dicotomia socialmente reconhecida. A cor da pele funcionava como símbolo de posições sociais, expectativas de comportamento e distâncias herdadas do regime escravocrata. Por isso, a discriminação permanecia ativa mesmo quando a escravidão já havia sido formalmente abolida. O ponto decisivo é que a dominação racial adquire centralidade própria. Mais do que a figura individual do senhor, era a posição social do branco que organizava obrigações, hierarquias e expectativas impostas ao negro.
Essa é uma das contribuições mais importantes de Ianni: deslocar a análise do plano exclusivamente jurídico da abolição para o plano histórico das relações sociais. A propriedade sobre a pessoa escravizada foi abolida, mas os códigos sociais que associavam cor, posição social e comportamento permaneceram ativos. A liberdade formal inaugurou uma nova etapa da desigualdade, não sua superação automática.
A passagem para a ordem social competitiva aprofunda essa ambiguidade. Industrialização, urbanização e sociedade de classes modificaram o lugar social do negro, mas não eliminaram as classificações raciais herdadas da escravidão. A ordem competitiva aparece, em Ianni, como força simultânea de transformação e conservação. Transforma porque reorganiza ocupações, posições e possibilidades de mobilidade. Conserva porque distribui essas possibilidades de forma desigual, preservando marcas de cor, origem e pertencimento étnico-racial.
Assim, a metamorfose do escravo em trabalhador livre não equivale à conquista plena da cidadania. O antigo cativo deixa de ser definido juridicamente como propriedade, mas continua a ser classificado socialmente pela cor e pela origem. A liberdade formal introduz o negro em uma ordem de competição estruturada por desigualdades anteriores. A modernização abre oportunidades, mas também institui novos mecanismos de seleção, peneiramento e exclusão.
Essa interpretação impede compreender o racismo apenas como resíduo de um passado arcaico. Em Ianni, o racismo também se reorganiza no interior da modernidade brasileira. A industrialização e a urbanização criaram novos espaços de contato, novas expectativas de mobilidade e novas linguagens de integração. Mas esses processos não dissolvem automaticamente as hierarquias raciais. Ao contrário, tornam visíveis novas formas de integração desigual.
A integração de negros, indígenas, poloneses, alemães, sírio-libaneses e japoneses à sociedade de classes revela que a industrialização não produz uma homogeneização social imediata. Diferentes grupos são incorporados de maneiras distintas, segundo critérios de origem, cor, cultura, qualificação, localização e reconhecimento social. A ordem competitiva não é neutra. Ela seleciona, classifica e hierarquiza.
Por isso, Ianni não separa a questão racial da formação do Estado, da organização do trabalho e das disputas em torno da cidadania. O negro aparece não apenas como trabalhador incorporado ao mercado, mas como sujeito cuja integração é atravessada por classificações raciais, preconceitos e obstáculos institucionais. A modernização brasileira, nessa perspectiva, não pode ser lida pela simples oposição entre atraso e progresso. Ela carregou, em seu interior, marcas coloniais e raciais que condicionaram a formação do trabalho livre e da cidadania.
A última metamorfose examinada por Ianni diz respeito à passagem do trabalhador negro, incorporado de modo desigual à ordem social competitiva, ao sujeito político que reivindica reconhecimento, direitos e memória. Se as etapas anteriores acompanharam a passagem do africano ao escravo, do escravo ao negro e do negro ao trabalhador livre racializado, trata-se agora de compreender como a integração limitada se converte em disputa por cidadania substantiva.
Negritude, cidadania e africanidade recriadas aparecem como respostas históricas aos limites da inclusão formal. A cidadania, nesse percurso, é um horizonte incompleto: formalmente prometida pela ordem democrática, mas historicamente restringida por preconceitos, discriminações e desigualdades produzidas desde a escravidão. A luta negra atua tanto pelo reconhecimento desses obstáculos quanto pela revelação daquilo que o mito da democracia racial impede de ver plenamente: a africanidade que atravessa territórios físicos, simbólicos e subjetivos da experiência brasileira e latino-americana.
A negritude, nesse sentido, não deve ser compreendida apenas como afirmação identitária abstrata. Ela constitui uma forma histórica de consciência social elaborada no confronto com a racialização, com a memória da escravidão e com as promessas não cumpridas da cidadania. Ao deslocar o negro da posição de objeto de integração para a posição de sujeito político, a negritude recoloca a questão racial no centro da democracia. A cidadania deixa de ser pensada como simples incorporação à ordem existente e passa a ser compreendida como disputa pela redefinição dessa própria ordem.
Nos textos finais de Ianni, a globalização amplia esse problema. O mundo globalizado aparece como espaço de pluralização, deslocamento e recomposição de identidades. As singularidades locais, nacionais e regionais não desaparecem; elas são reconfiguradas em um quadro mais amplo, no qual culturas, civilizações, temporalidades e formas de pertencimento se entrecruzam. Nessa chave, a africanidade deixa de ser apenas resíduo do passado escravocrata e passa a figurar como dimensão ativa da modernidade-mundo.
Com isso, as metamorfoses do africano no Brasil não se encerram na passagem ao trabalho livre. Elas se prolongam na transformação do negro em sujeito coletivo, na crítica à democracia racial, na luta por cidadania substantiva e na recriação de vínculos culturais transnacionais. A africanidade recriada no cotidiano das nações expressa uma dupla temporalidade: remete à violência histórica da escravidão e, ao mesmo tempo, projeta novas formas de pertencimento, memória e ação política.
Pensar com Ianni, portanto, é compreender que as relações raciais brasileiras exigem uma análise simultaneamente histórica, sociológica e política. Histórica, porque as categorias raciais são produzidas em processos de longa duração que articulam colonização, escravidão, imigração, trabalho livre e globalização. Sociológica, porque essas categorias expressam posições na estrutura social, formas de interação, estereótipos, classificações e modalidades de consciência. Política, porque a sequência das metamorfoses somente se completa quando o trabalhador negro deixa de ser apenas objeto de integração desigual e emerge como sujeito coletivo de direitos, memória e transformação democrática.
A atualidade de Ianni está precisamente nesse ponto. Ao articular passado escravocrata, sociedade de classes, democracia e globalização, sua obra demonstra que a questão racial não é um capítulo lateral da formação nacional, mas um de seus centros estruturantes. Recolocar as metamorfoses do africano no centro da interpretação do Brasil significa reconhecer que a modernização permaneceu limitada enquanto preservou hierarquias raciais sob novas formas. Significa, sobretudo, afirmar que a democracia brasileira só se realiza plenamente quando a passagem do africano ao cidadão deixa de ser uma promessa formal e se transforma em igualdade social efetiva, reconhecimento substantivo e participação política plena.
Referências
CARDOSO, Fernando Henrique & IANNI, Octavio. (1960). Cor e mobilidade social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil Meridional. Prefácio de Florestan Fernandes. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
IANNI, Octavio. (1962). As metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil Meridional. São Paulo: Difusão Europeia do Livro.
IANNI, Octavio. (1966). Raças e classes sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (1972). Raças e classes sociais no Brasil. 2. ed. revista e modificada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
IANNI, Octavio. (1978). Escravidão e racismo. São Paulo: Hucitec.
IANNI, Octavio. (2003). Enigmas da modernidade-mundo. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
RAMOS, Arthur. (1949). The question of race and the democratic world. UNESCO Courier. v. 1, n. 3-4, p. 9.
SILVÉRIO, Valter Roberto. (1999). Raça e racismo na virada do milênio: os novos contornos da racialização. Tese (Doutorado em Sociologia). Campinas, Universidade Estadual de Campinas.
UNESCO. (1950). The race question. Paris: UNESCO.
Sobre o autor
Valter Roberto Silvério é professor titular do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre relações raciais. Desde 2013, atua como vice-presidente do International Scientific Committee for Volumes IX, X and XI of the General History of Africa, da UNESCO.
