Série Back to the 70s | Dois cinquentenários das Ciências Sociais: Anpocs e CEDEC | CEDEC: 50 anos de compromisso democrático, por Leonardo Belinelli

A série Back to the 70s traz hoje o primeiro de três textos comemorativos “Dois cinquentenários das Ciências Sociais”: o da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e o do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC). Leonardo Belinelli (UFRRJ) assina o texto sobre o CEDEC.

Nascido em 1976, em meio à sociedade civil brasileira que se reerguia contra a Ditadura Militar, o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) não apenas testemunhou a transição democrática, mas ajudou a inventar sua linguagem. Foi na criação da instituição, entre Francisco Weffort, Marilena Chauí e uma geração de pesquisadores que recusava tanto o autoritarismo militar quanto o populismo da própria esquerda, que se formulou o que Belinelli chama de compromisso democrático. Cinquenta anos depois, a história do CEDEC nos indaga sobre o que ainda podemos aprender com esse compromisso.

Não perca, nas sextas-feiras seguintes, os próximos textos da série homenagem.

Boa leitura!


CEDEC: 50 anos de compromisso democrático

Por Leonardo Belinelli (UFRRJ)

“[…] o sentido da revolução no Brasil é o de criar a democracia.”

Francisco Weffort, Por que democracia? (1984)

No seu clássico sobre o Partido dos Trabalhadores (PT), a cientista política Margaret Keck assinala como o período compreendido entre 1974 e 1985 no Brasil foi um daqueles “raros e especiais” porque “a interação entre a ação humana e as determinações estruturais torna-se visível, e crenças aceitas sobre os limites do que é e não é possível abrem-se a inesperados desafios.” (Keck, 2010: 64). Esses são momentos “eminentemente políticos” na medida em que a luta política não se resume a uma “batalha pelo poder no interior de um campo bem definido, segundo regras bem definidas, mas é também uma luta relativa à forma desse campo e à natureza das próprias regras.” (Keck, 2010: 64 – grifo nosso).

Com efeito, a vitória acachapante do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) nas eleições de 1974 e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-CODI em São Paulo, parecem ter sido pontos decisivos na aceleração da transição democrática. Embora refreado institucionalmente pelos imensos poderes dos militares, o processo continuou “por baixo”, sob o mote da emergência da sociedade civil em processo de organização. O resultado foi o (res)surgimento, na segunda metade dessa década,  de diversos atores coletivos que marcariam uma nova etapa da teoria e da prática democrática no país, entre os quais poderíamos citar o retorno do Movimento Estudantil às ruas em 1977, as articulações em torno do Novo Sindicalismo (1978), a fundação do Movimento Negro Unificado (1978), além da consolidação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e do processo de organização do movimento feminista desde, pelo menos, 1975, designado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o “Ano Internacional da Mulher”.

É nessa sociedade em movimento que, em 1976, surge o Centro de Estudos da Cultura Contemporânea (CEDEC), sob a liderança intelectual de Francisco Weffort, a quem se juntaram, inicialmente, José Álvaro Moisés, Marilena Chauí e José Augusto Guilhon Albuquerque. Se até então os temas relativos à caracterização do Estado autoritário hegemonizavam o debate intelectual e político – do que resultariam, na sequência, importantes debates sobre a “transitologia” -, a fundação do CEDEC permitiu a ampliação do olhar analítico para os então nascentes movimentos sociais e para as questões organizativas da classe trabalhadora formada no processo de industrialização dependente-associado implementado pelos vitoriosos de 1964.  Se é produto do processo histórico mencionado, igualmente verdadeiro é o fato de que o CEDEC tornou-se parte dele – isto é, um espaço institucional no qual se encontravam atores à esquerda interessados em formular estratégias de ação.

Assim, não se tratava apenas de fazer a crítica do autoritarismo militar; o CEDEC nascia para também acertar as contas com o “populismo”, visto como forma diversa de autoritarismo, que marcava a cultura política da esquerda brasileira. Como salientaram José Szwako e Ramon Araujo (2019), em boa medida esse programa teórico e político já estava formulado nos trabalhos críticos de Francisco Weffort (1972; 1973) sobre o sindicalismo populista.

Em termos de agendas de pesquisa, articulava-se, portanto, a reflexão crítica sobre as violências estatais e sociais que comprometiam os direitos humanos e políticos (Cohn e Vigevani, 2002) com as críticas sobre os modos anteriores pelos quais a classe trabalhadora e demais grupos subalternizados eram incorporados à cena política. As formas pelas quais esse mix seria trabalhado são diversas.  A crítica do populismo weffortiana abriu caminhos para a releitura da história intelectual e política do Brasil à luz da crítica da ideologia – que, como se sabe, sempre é crítica da dominação -, como também para a incorporação de um conjunto de categorias analíticas que privilegiava as ações dos sujeitos no processo de resistência e sua autoconstrução coletiva. Ideologia e mobilização popular (1978), de Marilena Chauí e Maria Sylvia de Carvalho Franco, e Quando novos personagens entraram em cena (1988), de Eder Sader, representam, respectivamente, os caminhos assinalados. Essa forma de pensar (Brandão, 2007) ganhava particular concretude quando associada ao próprio processo de reorganização autônoma dos trabalhadores preconizado pelo Novo Sindicalismo. Embora distintos em seus objetos e preferências teórico-metodológicas, esses trabalhos convergiam em um deslocamento decisivo: a política deixava de ser pensada exclusivamente a partir do Estado, dos partidos e das elites e passava a ser analisada também a partir da capacidade dos sujeitos sociais de produzir suas próprias formas de organização, interpretação e ação.

Assim, por meio da introjeção do processo social na reflexão informada pela prática, tratava-se de formular coletivamente uma nova forma radical de pensar (Brandão, 2007) que fosse capaz de sugerir novos caminhos de ação (Szwako & Araujo, 2019). Não por acaso, alguns “pesquisadores passa[ra]m a estudar e, em alguns casos, a prestar assessoria indireta ao novo sujeito social presente ativamente no cenário político do final dos anos 70 e nos anos 80 [….].” (Cohn & Vigevani, 2002: 43). Criava-se, pois, uma nova forma de articular teoria e prática que poderíamos designar como compromisso democrático.[1]

Valor, programa e ação: o compromisso democrático

O compromisso democrático articulava teoria e prática a partir de um conjunto definido de orientações: a crítica do autoritarismo militar, a crítica à inserção subordinada dos trabalhadores na vida política brasileira, a valorização da autonomia dos sujeitos coletivos em processo de organização e a compreensão da democracia como forma de expansão da cidadania.  Além de uma agenda coletiva de pesquisa, esse conjunto de orientações definia uma maneira de conceber a relação entre ciência e política: compreender os conflitos sociais sem substituir os sujeitos que os protagonizavam.

Não surpreende, portanto, que o CEDEC tenha sido o espaço em que o debate democrático passou a ser associado a uma concepção renovada do socialismo. Exemplares dessa postura são Cultura e democracia (1980), de Marilena Chauí, e Por que democracia? (1984), de Francisco Weffort. Em ambos encontramos uma crítica da democracia representativa como necessária, porém insuficiente, para garantir o aprofundamento da democratização. É particularmente significativo que Weffort busque fundamentar sua defesa de uma “democracia revolucionária” em Hannah Arendt, ela própria uma autora cuja concepção de política acentua a liberdade à maneira republicana, isto é, como agir coletivo. Abertamente inspirado na concepção de revolução da pensadora alemã, Weffort afirma que “o que distingue, essencialmente, uma revolução não é a violência, mas a predominância dos mecanismos de democracia direta sobre os mecanismos de representação.” (Weffort, 1984: 120).

No mesmo sentido, Chauí (1989) rompe com a concepção de democracia como método de seleção de elites; como forma de organização política, a democracia seria fundada na igualdade, na soberania popular, na liberdade – no sentido acima referido, no reconhecimento dos interesses da maioria e nos direitos das minorias.  Além de um regime, a democracia seria uma forma política de convívio assentada na participação direta na contínua busca pela ampliação da cidadania.

Assim, Weffort e Chauí sugeriam que o aprofundamento da democratização propiciado pela própria democracia permitiria chegar a uma democracia socialista, não mais concebida à maneira pura e simples da socialização dos meios de produção – a qual, como provou a história política do século XX, pode conviver com formas autoritárias do poder político -, mas como socialização do poder voltado para a igualdade cidadã (Barros, 2022). Essa concepção a respeito dos vínculos entre democracia e socialismo dialogaria com a formulação do “socialismo petista”, orientado para se afastar tanto do socialismo burocrático sovietizante como da social-democracia (Garcia, 1990) e calcado no pluralismo (Singer, 2001). Em uma frase, o socialismo passa a ser percebido como movimento democratizante da própria sociedade.

Tão significativas quanto tais formulações teóricas foram as ações dos intelectuais vinculados ao CEDEC, uma vez que o centro conectava pesquisadores universitários a sindicalistas e atores partidários, configurando-se como um ponto privilegiado de aprendizado social da democracia naquele período (Eder, 2001; Botelho & Pereira, 2025).  Em outras palavras, o CEDEC não apenas produzia interpretações sobre a democratização brasileira, mas se constituía como um espaço de aprendizado democrático no qual pesquisadores, sindicalistas e atores partidários experimentavam novas formas de diálogo entre conhecimento, organização coletiva e intervenção pública.

Tratou-se de um encontro em um momento paradoxal: a universidade brasileira se profissionalizava ao mesmo tempo em que a ditadura tornava particularmente intensa a dimensão política da atividade intelectual. Muitos pesquisadores passaram a combinar especialização acadêmica, intervenção pública e diálogo com atores sociais (Pécaut, 1990). O resultado prático dessa combinação entre “ciência” e “política” foi um momento de fecundação mútua, no qual debates intelectuais ganhavam ampla ressonância pública, como revelam os encontros da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) naquele período.

Nessa circunstância, ao enfatizarem a importância do autonomismo das classes subalternas e recusarem uma postura demiúrgica, característica tanto de pensadores à direita como à esquerda, os quadros do CEDEC apresentaram uma nova forma de articulação entre intelectuais e sociedade no Brasil. Sendo um valor e um programa, a democracia tornava-se também uma forma de agir. O resultado foi uma incidência transformadora na própria linguagem da esquerda brasileira, reposicionando a democracia como princípio de transformação social.

O compromisso democrático em (novos) tempos sombrios

Se o CEDEC emergiu como resultado do processo de abertura democrática no qual a chamada “sociedade civil” se movimentava contra o autoritarismo, cabe assinalar o contraste com a situação em que vivemos, marcada por um processo global e local de erosão dos valores e práticas democráticas. A longa hegemonia neoliberal, caracterizada não apenas pela precarização das relações trabalhistas e pela financeirização da vida, mas também pelo próprio ataque ao conceito de sociedade (Brown, 2019), produziu uma esfera pública de baixa intensidade (Singer, 2026) dependente de algoritmos controlados privadamente pelos novos donos do poder. Como lembrava Hannah Arendt (2008), os “tempos sombrios” não são apenas aqueles em que a violência política se torna explícita, mas também aqueles nos quais o espaço público perde sua capacidade de tornar visíveis os conflitos, os sujeitos e as alternativas existentes. No Brasil, as ameaças das sombras assumem dupla forma, tanto a abertamente autoritária, como a oligarquizante (Singer, 2026; Belinelli, 2026).

Nesse cenário, o compromisso democrático formulado pelo CEDEC adquire especial relevância. Se há uma lição em sua trajetória, talvez seja esta: a democracia, se pretende emancipatória e não apenas um método mais aprazível de dominação institucional, depende de sujeitos capazes de defendê-la, reinventá-la e ampliá-la. Nesse sentido, o compromisso democrático deve ser encarado como uma prática social e intelectual: uma forma de pensar a política, de produzir conhecimento e de agir sobre o mundo. Não se trata, portanto, de reproduzir respostas de 50 anos atrás, mas de recuperar seu método: a combinação entre reflexão crítica, valorização da autonomia dos sujeitos, pluralismo intelectual e político, participação e intervenção pública.


Nota

[1] Registre-se: o primeiro a formular a questão, de modo explícito, foi Carlos Nelson Coutinho em “A democracia como valor universal” (1979), saudado por Francisco Weffort (1984) como um “ensaio brilhante”.

Referências

ARENDT, Hannah. (2008). Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras.

BARROS, Celso Rocha de. (2022). PT, uma história. São Paulo: Companhia das Letras.

BELINELLI, Leonardo. “Lula diante da autocracia burguesa? Duas hipóteses a respeito do terceiro mandato”. Lua Nova, no prelo.

BRANDÃO, Gildo Marçal. (2007). Linhagens do pensamento político brasileiro. São Paulo: Hucitec.

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BROWN, Wendy. (2019). Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente. São Paulo: Politeia.

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COHN, Amélia & VIGEVANI, Tullo. (2002). “A produção do conhecimento e os centros de pesquisa: a trajetória do CEDEC”. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, 16(3), 42-47.

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WEFFORT, Francisco. (1984).  Por que democracia? São Paulo: Brasiliense.

Sobre o autor

Leonardo Belinelli é professor do Departamento de Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (DDAS) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA), ambos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).