Crônicas de um brasilianista do Sul | Vamos comer o Brasil, vamos comê-lo bem, por Mario Cámara

Apesar de o Brasil ser um dos destinos de férias favoritos dos hermanos, nossa rica gastronomia raramente conquista a mesa do dia a dia em Buenos Aires. Na edição de setembro de Crônicas de um brasilianista do Sul, Mario Cámara (UBA) investiga esse fenômeno cultural, argumentando que o estereótipo de “eterno cartão-postal de verão” impede os argentinos de incorporarem a inigualável diversidade de sabores do Brasil: “O Brasil é, para a maioria, um imaginário de férias reduzido a uns poucos pratos”. Nesse cenário, diz Cámara, restaurantes brasileiros na Argentina estão quase sempre fadados à argentinização ou à falência.

Crônicas de um brasilianista do Sul mistura Argentina e Brasil em pequenas crônicas mensais sobre livros, filmes, exposições e reflexões diversas. Ou, melhor dizendo, compartilha um pouco de um Brasil hermano, vizinho não longe daqui, traduzido desde as margens e o Sul.



Vamos comer o Brasil, vamos comê-lo bem

Por Mario Cámara (UBA)

A primeira vez que tive contato com a gastronomia brasileira foi aos quinze anos. Dois amigos, um pouco mais velhos que eu, tinham passado uma temporada no Rio de Janeiro e voltavam com uma ideia que parecia genial: vender milho quente nas praias de Mar del Plata. Lembro que prepararam um carrinho lindo, e lembro também que não conseguiram vender um único milho quente para ninguém. O fracasso comercial produziu um certo estupor: não conseguíamos entender porque algo que no Rio se vendia muito bem, em Mar del Plata só tinha despertado, no máximo, olhares de desconfiança.

Muitos anos depois, em 2002, já morando em Buenos Aires, depois de ter viajado dezenas de vezes ao Brasil, abriu um restaurante brasileiro bem perto da minha casa. Ainda me lembro do nome: Me leva Brasil. Era bem autêntico, os donos eram cariocas e lá dava para comer uma boa feijoada ou até um respeitável frango a passarinho; também dava para tomar um guaraná, difícil de achar naquela época, e claro, uma caipirinha. O lugar ficava em Palermo, que naquele momento vivia um acelerado processo de gentrificação e começava a concentrar boa parte da oferta gastronômica da cidade. Em poucos anos tinham aberto restaurantes de comida mexicana e japonesa, além dos nossos clássicos de carne assada, pizza e massa. Entre a mexicana e a brasileira, duas cozinhas variadas e complexas, o público portenho sempre privilegiou a primeira, apesar de muitos mais argentinos viajarem ao Brasil do que ao México. E embora os restaurantes mexicanos que conheci em Buenos Aires reduzissem o cardápio a uma série de tacos e margaritas, em geral estavam mais cheios que os pouquíssimos brasileiros, entre eles o Me leva Brasil.

Eu poderia seguir enumerando: Imperio da Coxinha, Brasileirinho, O Meu Lugar, Maluco Beleza, muitos deles pontos de encontro da comunidade brasileira na cidade. Mas me interessa mais pensar qual é a nossa relação com essa comida. Um dos meus exemplos preferidos é meu amigo Martín, com quem fiz minha primeira viagem ao Brasil, reclamando que não havia bife à milanesa. Anos depois entendi que essa ausência não existia: nós o procurávamos em botecos, quando dezenas de restaurantes o serviam, como o Lamas, em Flamengo, que tem um bife à milanesa gigante e tão bom quanto qualquer um de Buenos Aires. A gastronomia caseira da classe média portenha se apoia centralmente na carne e nas farinhas, e embora muitos viajem com frequência ao Brasil, cozinhar feijão preto em casa continua sendo uma raridade. A ninguém ocorre um prato de arroz com feijão como acompanhamento, muito menos como prato principal. Sem dúvida a disponibilidade de carne bovina foi determinante para que nem o feijão — branco ou preto — nem o arroz se incorporassem à nossa dieta diária. Mas além disso, minha hipótese é que associamos essa gastronomia a uma temporalidade de férias: sempre a imaginamos à beira de uma praia, uma coxinha ou uns camarões na mão. O Brasil é, para a maioria, um imaginário de férias reduzido a uns poucos pratos, um cartão-postal de Carnaval e praia que vem se alimentando há décadas do próprio aparato turístico: os folhetos de agências de viagem, o eterno “Verão no Brasil” como gênero discursivo dos nossos verões, a publicidade que insiste em nos mostrar sempre a mesma caipirinha ao entardecer. Não é casual que outras cozinhas latino-americanas tenham conseguido se instalar na mesa de todo dia em Buenos Aires: o ceviche ou a arepa chegaram pelas mãos de comunidades migrantes que cozinhavam para se sustentar, não de turistas que voltavam com uma vontade pontual. A comida brasileira entrou quase exclusivamente por essa via das férias, sem uma comunidade que o instalasse nas panelas portenhas, e ficou presa ali: não é que o latino-americano não pegue da nossa dieta, é especificamente o Brasil que segue reduzido ao cartão-postal de praia. E assim, há pouca informação sobre sua cultura, e menos ainda sobre sua gastronomia, tão variada quanto seu território. Por isso os restaurantes brasileiros que abrem na cidade vivem um período de relativo sucesso e depois, inevitavelmente, vão definhando até fechar.

Faz uns dois anos, na esquina da minha casa, abriu um barzinho, uma espécie de boteco, bem simpático, chamado Obrigado. Seu dono, um carioca extrovertido, sempre tinha coxinha, pão de queijo, prato feito e boa música; dava para levar tudo para casa também. Aviso aos leitores: o bar continua aberto, e João, seu dono, continua tão simpático quanto sempre. Mas o cardápio foi mudando: o prato feito, que comprei inúmeras vezes, desapareceu, e em seu lugar agora oferece empanadas argentinas e nada menos que bife à milanesa com batata frita. Ou seja, o pobre João, para sobreviver, não teve outro remédio a não ser se argentinizar.