
Nesta edição da coluna Renato Ortiz (Unicamp), o sociólogo traça um paralelo entre a busca pelo indo-europeu no século XVIII e a inteligência artificial generativa na hipermodernidade, mostrando como a noção de previsibilidade lógica articula esses dois momentos aparentemente díspares. Enquanto os linguistas do passado postularam uma língua e um povo originais sem evidências concretas, os modelos de linguagem atuais geram textos baseados em probabilidades estatísticas e treinamentos intermináveis; em ambos os processos, diz Ortiz, o que há de comum é a busca por uma ordem previsível.
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Previsibilidade
Por Renato Ortiz (Unicamp)
O indo-europeu é uma verdade linguística que não se realiza como uma verdade histórica, a previsibilidade lógica que encerra nunca se materializou. No final do século XVIII, Sir William Jones, funcionário do poder britânico na Índia, fascinado com a estrutura maravilhosa e perfeita do sânscrito, sugeriu que existiria semelhanças profundas entre esse idioma milenar, o latim, e o grego. O que parecia distante, incomunicável, se desvendava em proximidade e complementaridade. Seria o caso das palavras mãe e pai: mater/pater em latim, matar/pitar em sânscrito, meter/pater em grego; todas comungariam uma mesma raiz, teriam a mesma proveniência. O indo-europeu constituiria assim uma família de línguas, envolvendo variações diversas, do armênio ao albanês, das línguas românicas às germânicas, e cobriria uma vasta região da Eurásia, a ponte entre o Ocidente e o Oriente. Os linguistas saudaram com entusiasmo a intuição deste administrador colonial, sua conferência, pronunciada em Calcutá, tornou-se um marco para o desenvolvimento dos estudos comparativos da língua (há um certo exagero na valorização de seu papel, mas como se diz em espanhol, “asi es”). O raciocínio subjacente à proposta dos linguistas era simples, se existiam palavras recorrentes em idiomas distintos, a comparação entre elas necessariamente os conduziria à língua original da qual todos teriam derivado. A análise do presente conteria a previsão do que havia se perdido nas brumas do tempo. O corolário deste princípio, a crença em uma língua primeva, implicava em se postular a existência de um povo e de um lugar no qual os falantes imaginários deste idioma se encontrariam. A descoberta das origens completaria assim a hipótese formulada. Uma primeira possibilidade, logo descartada, foi considerar a Índia como o berço desta civilização; ali teriam vivido os “arianos”, indivíduos nobres cujo destino seria “conquistar o mundo”. Entretanto, a interpretação proposta se mostrou fantasiosa, por isso novos lugares, outros povos, foram considerados como eventuais portadores desta virtude cultural e filosófica. Alguns eruditos pensaram na Escandinávia, outros na Turquia ou nas estepes russas, os alemães encontraram dentro de si mesmo as autênticas raízes desta raça ariana. Havia, porém, um problema, nenhuma evidência concreta ou resquício arqueológico conseguia demonstrar com exatidão a presença desta civilização primordial, predeterminada pelo pensamento. As respostas disponíveis eram vagas, imprecisas, meras intenções incidentais de uma lógica sem materialidade. Mas talvez isso tenha pouca importância, afinal, a previsibilidade é um esforço analítico que se faz a despeito do real.
Em tempos de hipermodernidade, linguística e técnica se encontram enquanto previsibilidade presumíveis. É o caso dos modelos de linguagem e a inteligência artificial generativa (os especialistas utilizam o termo generativo para diferenciar um tipo específico de inteligência – IAG – capaz de gerar conteúdos: texto, imagem, som). Como os seres humanos, a máquina virtual escreve. Mas qual é a natureza do escrito que produz? Os modelos de linguagem atuam através da ideia de previsão, funcionam como as regras interiorizadas pelo computador para jogar Xadrez ou Go. O desafio para disputar uma partida é de se prever o próximo lance, isto é, antecipar os movimentos das peças de um jogador. Esse é o intuito dos modelos de linguagem, prever o próximo “lance” de uma frase. Por exemplo: “o carro é….”. A sequência da frase incompleta é preenchida por palavras próximas ou distantes do contexto enunciado (“vermelho”, “cinza”, “o limite”, etc.). “Vermelho” e “cinza” têm chances parecidas de serem escolhidos, “o limite”, baixa probabilidade. Neste sentido, os modelos de linguagem são “completadores de frases”, são acionados por uma pergunta (diz-se prompt, em inglês significa impulsionar, solicitar) e proporcionam uma resposta adequada ao que é demandado. Para isso é necessário um aprendizado exaustivo da máquina que memoriza um conjunto colossal de fragmentos de textos durante seu “treinamento” (ChatGPT-3 é o resultado de um corpus de 410 bilhões de unidades semânticas e 300 milhões de palavras retiradas de 16% de livros, 80% da internet, 3% da Wikipedia, 90% do todo sendo em inglês). Não se deve imaginar que a inteligência artificial tenha um conhecimento específico das coisas, a pergunta apenas envia uma instrução tratada matematicamente pelo modelo linguístico. Impulsionada por um prompt o escrito se faz. Entretanto, a previsibilidade do “próximo lance” abarca as respostas plausíveis e implausíveis, dito de outra forma, ambas são variáveis contidas no raciocínio deste tipo de inteligência; o que as diferencia é a alta ou a baixa probabilidade de se manifestar em relação à pergunta formulada. Retiro um exemplo da literatura especializada. Pergunta: “Qual é a diferença entre os ovos da vaca e os ovos da galinha”; resposta:
Existem várias diferenças entre os ovos da vaca e os ovos da galinha, em particular: Tamanho: Os ovos da vaca são geralmente muito maiores do que os ovos da galinha. Os ovos da vaca podem ser até 5 vezes maiores que os ovos da galinha. Casca: A casca dos ovos da vaca tem uma textura rugosa, enquanto que a casca dos ovos da galinha é lisa…. É importante notar que os ovos da vaca são relativamente raros e geralmente não se encontram disponíveis nos supermercados. Se você quiser comprar ovos de vaca deve procurar as lojas de alimentos especializados ou as fazendas locais.
A afirmação é surpreendente para nossos ouvidos e os especialistas explicam que se trata de uma “alucinação” (termo técnico utilizado para se referir à falha ocorrida). Ela seria, talvez, resultado de algum disfuncionamento durante o treinamento da máquina; pode-se ainda argumentar que a pergunta é capciosa, pressupõe em sua formulação algo sem propósito. Mas resposta não está “errada”, não é “falsa”, simplesmente completa a frase em função das probabilidades estatisticamente determinadas. O texto gerado é inédito e coerente, não há nenhuma incoerência lógica na frase “os ovos da vaca são relativamente raros e não se encontram disponíveis nos supermercados”. A previsão assim se realiza.
O indo-europeu estava comprometido com o passado, as origens imaginadas do esplendor ocidental; a IAG se volta para o futuro, o que ainda não foi enunciado. Entretanto, a noção de previsibilidade atravessa ambas intenções. Talvez pudéssemos dizer que o indo-europeu é uma alucinação cuja verdade é previsível, e a inteligência artificial um artifício para tornar o implausível uma realidade procedente. Passado e presente seriam assim variáveis bem definidas de uma ordem impecável e coerente. Conteriam, em seus parâmetros analíticos, a imprevisibilidade do flagelo do mundo. O perdemos de sua sabedoria e discernimento quando viemos habitar outros confins da galáxia.
