
A Back to the 70s retorna hoje para o último post da série especial Dois cinquentenários das Ciências Sociais: Anpocs e CEDEC, para celebrar os cinquenta anos de duas instituições marcantes das Ciências Sociais brasileiras neste ano de 2026.
No artigo “A Sociologia e a Ciência Política criadas pela Anpocs” – publicado originalmente em 2017 na revista da Canadian Sociological Association –, assinado por André Botelho (UFRJ), Bernardo Ricupero (USP) e Antonio Brasil Jr. (UFRJ), os autores traçam um panorama da sociologia e da ciência política praticadas no Brasil a partir dos balanços bibliográficos produzidos pela Anpocs nos últimos quarenta anos.
Da recorrência de “desigualdade” e “violência” na sociologia à passagem, na ciência política, do estudo do autoritarismo para o do funcionamento da democracia, o texto mostra como as duas disciplinas combinam uma vocação universalista com um interesse persistente pelas especificidades da formação do Estado-nação brasileiro. Afinal, o que essas escolhas temáticas revelam sobre o modo particular como pensamos, no Brasil, a relação entre Estado e sociedade?
Confira os demais posts da série aqui.
Boa leitura!
A Sociologia e a Ciência Política criadas pela Anpocs[1]
André Botelho (UFRJ) &
Bernardo Ricupero (USP)
& Antonio Brasil Jr. (UFRJ)
Pode-se dizer que as ciências sociais no Brasil, a depender do critério utilizado, já conta com uma longa história. Afinal, o processo de construção de um moderno Estado-nação em um país de origem colonial, com forte peso do escravismo e do privatismo agrário na modelagem das relações sociais e das instituições políticas, jamais se fez desacompanhado de reflexões (mais ou menos sistemáticas) que buscavam discernir as especificidades propriamente sociais e políticas da sociedade em formação, marcando suas diferenças em relação aos casos clássicos de revolução burguesa.
Em termos mais específicos de sua consolidação disciplinar, a implantação das ciências sociais em universidades e em centros de pesquisas remonta às décadas de 1930 e 1940, ganhando considerável impulso e difusão nacional nas décadas seguintes. Já a criação de um programa nacional de pós-graduação em ciências sociais ganha força sobretudo a partir da década de 1970. A criação, em 1977, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) reflete, em boa medida, tal desenvolvimento das ciências sociais na universidade, especificamente por meio de programas de pós-graduação. Sinal disso é que das 13 instituições fundadoras da associação, 10 têm esse perfil, apenas o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) destoando da feição mais geral (ANPOCS, 1997).
Hoje, a ANPOCS é a principal associação científica em ciências sociais no Brasil, reunindo as suas três áreas, a antropologia, a sociologia e a ciência política – fazendo parte da associação mais de 100 instituições de ensino de Pós-graduação e de pesquisa. Desde a sua fundação, a ANPOCS vem realizando encontros anuais que, especialmente a partir de seus Grupos de Trabalho, organizam parcela considerável dos debates destas três disciplinas no Brasil.
Neste texto, apresentamos um breve retrato das ciências sociais praticadas no Brasil a partir da ANPOCS, analisando de modo mais detido os balanços bibliográficos induzidos diretamente pela associação ao longo dos últimos vinte anos para as áreas de sociologia e de ciência política. Por motivos de espaço e de competência profissional dos autores deste artigo, não discutiremos aqui os balanços para a área de antropologia, embora existam certas áreas temáticas com grande sobreposição entre sociologia e antropologia, como estudos urbanos, relações raciais, religião e violência, por exemplo.
É claro que, de antemão, já sabemos que este retrato será parcial e limitado, pois a dinâmica da sociologia e da ciência política no país não se limita à ANPOCS (as duas disciplinas contam com associações científicas próprias, a partir de suas identidades disciplinares)[2] e, apesar da abrangência da ANPOCS, nem todas as especializações intra- ou interdisciplinares se encontram igualmente representadas nos encontros anuais da Associação. No entanto, por sua centralidade na comunidade científica das ciências sociais, por um lado, e pelo esforço recorrente em promover reflexões e balanços das várias áreas disciplinares, por outro, entendemos que o recurso aos materiais da ANPOCS permitirá traçar um painel bastante representativo da sociologia e da ciência política praticadas no Brasil.
Este texto está organizado em três partes. Na primeira, apresentaremos rapidamente o universo da ANPOCS, tanto em termos de sua política editorial de promoção e reflexão das ciências sociais quanto em relação aos seus Grupos de Trabalho mais recorrentes. Na segunda e na terceira, discutiremos os balanços bibliográficos produzidos a partir da Associação para as áreas de sociologia e ciência política, respectivamente, a fim de detectar o que eles revelam sobre a prática destas disciplinas no Brasil. Em termos mais gerais, procuraremos demonstrar como certas predominâncias temáticas e de enfoque teórico-metodológico parecem exprimir as especificidades do modo pelo qual se deu a formação do Estado-nação e de uma comunidade política moderna no país, ainda que os desafios impostos pela atual crise por que passa o país pareçam exigir saídas novas e mais criativas por parte dos cientistas sociais brasileiros.
1. O universo da ANPOCS
Apresentamos nesta seção informações sobre os balanços bibliográficos produzidos a partir da associação e sobre os Grupos de Trabalho aos quais eles se referem. É notável a preocupação recorrente da Associação com o estado da arte de suas disciplinas, pois ela tem sido pródiga na indução e mesmo promoção direta desse tipo de pesquisa e material bibliográfico. Suas atividades nessa direção incluem pelo menos dois tipos distintos de materiais: periódicos e coletâneas. No primeiro grupo, a ANPOCS é a responsável pela publicação da Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS), lançada em junho de 1986 e atualmente em seu número 96, em cujas páginas podem se encontrar diferentes balanços sobre a produção das disciplinas, de suas áreas de pesquisa e de seus temas ou fenômenos específicos, ainda que não se delineie em sua política editorial qualquer orientação específica nesse sentido. Mais significativo a esse propósito é um segundo periódico mantido pela Associação, a Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais (BIB), mantida desde a sua fundação, em 1977. Como seu título sugere, a proposta editorial do BIB é justamente veicular balanços bibliográficos das áreas cobertas pelas Ciências Sociais, propósito com o qual se consolidou como uma das principais fontes de referência, principalmente para estudantes de pós-graduação em fase de pesquisa. Uma terceira publicação da Associação, a Brazilian Review of Social Sciences (BRSS), cujos dois únicos números foram publicados em outubro de 2000, também tem interesse para o problema em questão neste estudo, uma vez que, justamente por ser uma publicação em inglês, busca divulgar a produção das ciências sociais brasileiras num contexto mais amplo de leitores do que o lusófono. Sem dúvida esses periódicos são fontes muito importantes para a análise dos balanços bibliográficos das ciências sociais brasileiras, ainda que estejam necessariamente sujeitos a oferta dos autores de artigos e às suas políticas editoriais, entre outros fatores.
Um segundo grupo de publicações da Associação relevante para nossos propósitos são justamente as coletâneas reunindo apenas balanços os mais exaustivos possíveis sobre o estado da arte de áreas de pesquisas, temas e questões das disciplinas escritos por especialistas, em geral, de renomada reputação acadêmica em suas respectivas áreas, ainda que em diferentes momentos da carreira. Nesse subgrupo, destacam-se o anuário Ciências Sociais Hoje, publicado entre 1980 e 1996 com o intuito de reunir os melhores trabalhos apresentados nas reuniões anuais da ANPOCS; os quatro volumes intitulados O que ler na ciência social brasileira, publicados os três primeiros em 1999, o último em 2002; e, por fim, a coletânea em três volumes também divididos por disciplinas (Antropologia, Ciência Política e Sociologia), como os três primeiros volumes da coletânea anterior, publicada em 2010 e intitulada Horizontes das Ciências Sociais no Brasil.
Mais do que os periódicos publicados pela Associação, em cujas páginas podem ser encontrados balanços bibliográficos ocasionais, ou do anuário que reúne os considerados melhores trabalhos apresentados em suas reuniões científicas, estas duas últimas coletâneas são especialmente importantes para a discussão que estamos realizando na medida em que constituem objeto explícito de uma política acadêmica voltada para a realização de balanços sistemáticos sobre a produção das ciências sociais brasileiras. Isto é, não representam modalidades mais espontâneas de reflexão individual ou de um grupo de pesquisa localizado sobre o estado da arte de um tema, mas são encomendas que seguem objetivos e parâmetros mais amplos compartilhados institucionalmente numa política editorial da Associação sobre a produção das suas disciplinas. Procuram, assim, reunir análises reflexivas e inéditas sobre a produção intelectual substantiva num conjunto de áreas temáticas relevantes, redigidas por cientistas sociais qualificados selecionados pela Associação junto aos organizadores das coletâneas.
Justamente por isso, concentremos nosso comentário nos volumes de O que ler na ciência social brasileira e nos volumes da coletânea Horizontes das Ciências Sociais no Brasil dedicados à sociologia e à ciência política. Balanços das realizações bibliográficas e intelectuais de uma disciplina certamente apresentam limites significativos para a reconstituição de sua prática. Sobretudo por tenderem a operar com procedimentos estabilizadores, como a criação de “genealogias” e “cânones” muito parciais, que implicam, necessariamente, a exclusão de propostas marginais aos grupos que organizaram as revisões etc. Todavia, num estudo como o que estamos realizando, esses limites parecem poder representar, antes, a própria condição de percepção sobre a formação de uma rotina intelectual no interior das disciplinas (Botelho & Hoelz, 2016). Interessante também é a leitura atenta das introduções dos organizadores dos volumes e também dos autores dos artigos nelas coligidos, nos quais toda sorte de procedimentos, códigos e convenções são mobilizados no sentido de justificar as escolhas inevitáveis nesse tipo de trabalho, sobre o que decidiram comentar ou que ficou de fora. São peças retóricas ricas justamente na formação de rotinas intelectuais. Os temas escolhidos em cada disciplina para objeto de levantamentos bibliográficos encomendados pela Associação encontram ressonância e correspondência (ainda que não estrita) com as trajetórias dos seus principais Grupos de Trabalho (GTs).
Dos mais de duzentos Grupos de Trabalho que já foram apresentados à ANPOCS ao longo das últimas quatro décadas – de acordo com as informações disponíveis na última edição do Livro dos nomes (2016) da ANPOCS, publicação que reúne os principais dados sobre os participantes dos encontros anuais da associação –, listamos abaixo os GTs que, com o mesmo nome (ou com poucas variações), estiveram presentes na ANPOCS por pelo menos dez anos. Embora este critério de recorrência não esteja isento de problemas, pois tende a sub-representar temas/áreas emergentes ou marginais, além de não capturar áreas com maior fragmentação na apresentação de seus GTs, acreditamos que ele pode oferecer um quadro sintético dos principais eixos a partir dos quais se organiza a reflexão das ciências sociais no Brasil em suas três áreas (antropologia, sociologia e ciência política):
Quadro 1. Grupos de trabalho mais presentes na ANPOCS
| Nome do Grupo de Trabalho (GT) | Período |
| Direito e sociedade | 1979 a 1989 |
| Educação e Sociedade | 1982 a 1989, 1991, 1992, 1994 a 1996, 1998 a 2000, 2002, 2003, 2005, 2006, 2008, 2009, 2011, 2012 |
| Elites Políticas | 1978 a 1989, 1991, 1992 e 1994 a 1996 |
| Estado e Agricultura | 1980 a 1989, 1991 e 1992 |
| Estado e Democracia | 1979 a 1986 |
| Estudos Legislativos | 1983 a 1985, 2002, 2003, 2005, 2006, 2008, 2009, 2011, 2012 |
| Estudos Urbanos | 1987 a 1989, 1991, 1992, 1994 a 1996 |
| Família e Sociedade | 1981-1989, 1991, 1992, 1994 a 1996, 1998, 2000 |
| Forças Armadas, Estado e Sociedade | 1984, 1998, 1991, 1992, 1994 a 1996, 2005, 2006, 2008, 2009, 2011, 2012 |
| História Indígena e do Indigenismo | 1978, 1984 a 1986, 1989, 1991, 1992 a 1996 |
| Lutas Urbanas, Estado e Cidadania | 1978 a 1989, 1991 e 1992 |
| Migrações Internacionais | 1998 a 2000, 2002, 2003, 2005, 2006, 2008, 2009 |
| Mulher na Força de Trabalho | 1979 a 1985, 1987 e 1989 |
| Partidos, Eleições e Problemas institucionais | 1978 a 1989 |
| Pensamento Social no Brasil | 1983 a 1989, 1991, 1992, 1994 a 1996, 1998 a 2000, 2002, 2003, 2005, 2006, 2008, 2009, 2011, 2012, 2014, 2015 |
| Pessoa e corpo (e variações) | 1994 a 1996, 1998 a 2000, 2002, 2003 |
| Política e Economia | 1982 a 1987, 1989, 1998 a 2000 |
| Política Indigenista | 1981 a 1985, 1989, 1991, 1992 e 1994 a 1996 |
| Políticas Públicas | 1982 a 1989, 1991, 1992, 1994 a 1996, 2002, 2003, 2005, 2006, 2008, 2009, 2011, 2012, 2014, 2015 |
| População e Sociedade no Brasil | 1987, 1989 e 1991 |
| Relações Internacionais e Política Externa | 1980 a 1989, 1991 e 1992 |
| Relações Raciais e Etnicidade | 1994 a 1996, 1998 a 2000, 2002, 2003, 2005, 2006 |
| Religião e Sociedade | 1980 a 1989, 1991, 1992 e 1994 a 1996, 1998 a 2000, 2002, 2003, 2008, 2009 |
| Sociologia da Cultura Brasileira | 1979 a 1989, 1991, 1992, 1994 a 1996 |
| Sexualidade, corpo e gênero (e variações) | 2005, 2006, 2008, 2009. 2011, 2012, 2014, 2015 |
| Temas e Problemas da População Negra no Brasil | 1980 a 1989, 1991, 1992 |
| Teoria Política (e variações) | 1994 a 1996, 2008, 2009, 2011, 2012, 2014, 2015 |
| Teoria Social (e variações) | 1998 a 2000, 2002, 2003, 2005, 2006, 2014, 2015 |
| Trabalho (e variações) | 1994 a 1996, 1998 a 2000. 2005, 2006, 2008, 2009, 2011, 2012, 2014, 2015 |
| Violência (e variações) | 1998 a 2000, 2002, 2003, 2011, 2012, 2014, 2015 |
Uma olhada rápida nos títulos dos Grupos de Trabalho mais presentes na ANPOCS indica que a sociologia e a ciência política praticadas no Brasil combinam, de um lado, uma vocação universalista – seus temas acompanham, em geral, as especializações que costumam marcar as disciplinas em outros contextos – e, de outro, um interesse prioritário nas questões próprias à sociedade brasileira, como revelam tanto a presença do termo “no Brasil” em vários GTs quanto o baixo interesse pela comparação com outros contextos nacionais[3]. Além disso, como os balanços da sociologia e da ciência política – que analisaremos a seguir – também evidenciam, não faltam espaços de discussão voltados para as dimensões mais reflexivas das ciências sociais no Brasil, como os temas ligados às tradições intelectuais nacionais e/ou às condições institucionais das ciências sociais no país. O GT “Pensamento Social no Brasil”, por exemplo, está presente ao longo de quase toda a história da ANPOCS (de 1983 até o presente). No caso específico da ciência política, os GTs de teoria política vêm abrigando também as reflexões sobre o pensamento político brasileiro, entendido como parte integrante da história da disciplina[4].
2. Sociologia
Considerando as três coletâneas com balanços da área de sociologia em conjunto, tal como dispostas nos quadros abaixo, isto é, levando em conta os 29 textos neles reunidos (25 balanços temáticos/subáreas e 4 comentários críticos, sem considerar apresentações e introduções), chama a atenção a concentração em temas substantivos da sociologia: são 17 temas substantivos contra 6 reflexivos, por assim dizer, sem contar os 2 mais ligados a, provavelmente, interesses muito específicos da sociologia brasileira (“identidade nacional” e “intelectuais brasileiros”), que, inclusive, poderiam ser assimilados, numa classificação mais geral, à “sociologia da cultura”.
Quadro 2. O que ler na ciência social brasileira (1970-1995) – Sociologia (1999)
| Temas/áreas de pesquisa | Autor | Comentário crítico |
| Classes sociais | Antonio Sergio Alfredo Guimarães | |
| Mobilidade social | Nelson do Valle e Silva | Sonia M. G. Laranjeira |
| Intelectuais brasileiros | Sergio Miceli | |
| Interpretações sobre o Brasil | Lucia Lippi Oliveira |
Quadro 3. O que ler na ciência social brasileira (1970-2002) (2002)
| Área | Temas | Autor | Comentário crítico |
| Cultura | Identidade nacional | Ruben George Oliven | Maria Arminda do Nascimento Arruda |
| Indústria cultural brasileira | Esther Hamburger | ||
| Sociologia brasileira | Leopoldo Waizbort | Fernando A. Novais | |
| Pensamento social | Elide Rugai Bastos | ||
| Justiça e segurança | Sistema de justiças | Maria Tereza Sadek | |
| Monopólio estatal da violência na sociedade brasileira contemporânea | Sergio Adorno | ||
| Agricultura | Questão agrária | Afranio Garcia Jr. & Mario Grynzpan | |
| Educação | Educação no Brasil | Clarissa Eckert Baeta Neves | Carlos Benedito Martins |
Quadro 4. Horizontes das ciências sociais no Brasil: Sociologia (2010)
| Temas/áreas de pesquisa | Autor |
| Teoria | Sergio Costa |
| A produção da pesquisa sociológica | Renan Springer de Freitas |
| Desigualdades, classes e estratificação social | Celi Scalon & José Alcides Figueiredo Santos |
| Desigualdades raciais | Antonio Sergio Alfredo Guimarães |
| Sociologia da educação | Carlos Benedito Martins & Silke Weber |
| Espaço urbano no Brasil | Fraya Frehse e Rogerio Proença Leite |
| Sociologia da cultura e sociologia da comunicação de massa | Maria Arminda do Nascimento Arruda |
| Sociologia da religião | Antonio Flavio Pierucci & Ricardo Mariano |
| A violência na sociedade brasileira | Cesar Barreira & Sergio Adorno |
| Meio ambiente rural | Julia S. Guivant |
| Movimentos sociais na atualidade | Remo Mutzenberg |
| Ciência, tecnologia e inovação no Brasil | Maíra Baumgarten |
| Pensamento social brasileiro | Elide Rugai Bastos & André Botelho |
Se indagarmos as grandes áreas/temáticas que perpassam as três coletâneas tratadas, perceberemos assim, que (1) a sociologia brasileira parece estar integralmente voltada às questões da sociedade brasileira – inexistem, por exemplo, balanços sobre estudos comparados ou de outras sociedades; ainda assim com (2) maior concentração de temas gerais da sociologia (estratificação, mobilidade social, violência, religião, cidade e campo, movimentos sociais, educação, indústria cultural) – ainda que vistos de um ponto de vista da sociedade brasileira ou circunscritos empiricamente a ela; e (3) menor concentração em temas particulares ligados provavelmente à tradição intelectual nacional vista em sua especificidade, tendo em vista, inclusive, a geopolítica da sociologia internacional (história das ciências sociais, pensamento social, intelectuais, identidade nacional, teoria social no Brasil). Chama a atenção, porém, a concentração, neste subgrupo, de temas relacionados justamente à prática da sociologia no Brasil, o que parece indicar ainda um alto índice de investimento da ANPOCS na avaliação do que poderíamos chamar, provisória e genericamente, de condições sociais/institucionais e padrões intelectuais/cognitivos da sociologia no Brasil.
Ainda que não precisem ser tomadas de um modo estritamente funcional, essas constatações gerais parecem guardar relações significativas entre si, que cabem ser qualificadas para que, em conjunto, possam fazer sentido. Seria preciso, de todo modo, sugerir alguns motivos gerais para entendermos basicamente como a vocação universalista da sociologia praticada no Brasil (observação 2) se relaciona ao interesse prioritário pelos problemas sociais brasileiros (observação 1) e ao alto índice de observação e reflexividade que tem demonstrado sobre suas realizações e produções (observação 3). No rápido comentário que se segue, procuraremos, então, apresentar os principais problemas que parecem vir orientando a reflexão da sociologia brasileira nos últimos 40 anos, tanto em termos substantivos quanto analíticos. Não pretendemos, porém, resumir os desenvolvimentos temáticos das diferentes subáreas exaustivamente. Mas propomos uma interpretação sobre a relação de sentido entre os diferentes níveis destacados.
Comecemos pelo que estamos convencionando chamar de temas “substantivos”/ “gerais” da sociologia. Parece ficar claro, a esse propósito, como dois eixos principais vêm estruturando o interesse da sociologia brasileira nos últimos 40 anos: a questão das “desigualdades sociais” e a da “violência”. Esses dois temas estão presentes em todos os balanços encomendados até hoje pela ANPOCS. Constatação que se impõe, mesmo sem considerar suas áreas afins e associadas, que, ademais, não podem ser consideradas intercambiáveis ou equivalentes, como, por exemplo, “estratificação social” e “mobilidade social”. A propósito, estes dois temas se fazem presentes diretamente no primeiro balanço (o de 1999) com três textos e no terceiro (2010) com dois textos. No segundo balanço (de 2002) eles aparecem centralmente também nas discussões sobre “questão agrária” e “educação” no Brasil, o mesmo podendo ser observado, no caso do terceiro balanço, ao menos no caso dos textos sobre, novamente, “educação” e o “espaço urbano” no Brasil. Na mesma direção, “violência” que na primeira série de O que ler na ciência social brasileira (1970-1995) aparece no volume disciplinar da Antropologia, no caso da Sociologia, nas duas séries seguintes, comparece com dois textos no segundo balanço (2002) e um no terceiro (2010); ainda que se possa perceber sua importância também na discussão sobre a “questão agrária”, no segundo balanço (2002), e novamente “espaço urbano”, no terceiro (2010).
Temos assim, delineados, os eixos substantivos de maior continuidade na sociologia brasileira nos últimos 40 anos. Registre-se ainda a permanência de “educação” ou “sociologia da educação” nas duas últimas coletâneas. É o caso também, embora com um pouco mais de nuance, de “indústria cultural”, na coletânea de 2002, a que se agrega “sociologia da cultura” em “sociologia da cultura e sociologia da comunicação de massa”, na de 2010. Mudanças mais importantes na apresentação dos temas/subáreas como objeto de balanços podem ser observadas, sobretudo, em relação à sociologia rural que, identificada por “questão agrária” na coletânea de 2002, passa a “meio ambiente rural”, na de 2010.
Tomemos com mais atenção aqueles dois eixos substantivos de continuidade na sociologia brasileira. Parece significativo que, digamos, no campo problemático mais amplo sobre desigualdade social, os dois balanços sobre temas/subáreas lançados na coletânea de 1999 tenham sido identificados genericamente por “classes sociais” e “mobilidade social” para ganharem novos contornos na terceira coletânea, de 2010 (lembremos que estavam presentes apenas tangencialmente na segunda coletânea). Assim, tanto “classes” e “estratificação” passam a estar associados diretamente à “desigualdade social”, que se torna uma chave mais ampla para análise daqueles fenômenos, quanto variáveis propriamente brasileiras do fenômeno geral ganham destaque como objeto de um balanço específico – a propósito, escrito pelo mesmo autor do balanço sobre “classes sociais” na primeira coletânea do gênero da ANPOCS. Referimo-nos à questão das “desigualdades raciais”, cuja figuração brasileira, por assim dizer, é apreciada na coletânea de 2010 como um elemento desafiador aos estudos sobre relações raciais e desigualdades sociais na sociologia em geral – daí o título sugestivo de “Sociologia e desigualdades: desafios e abordagens brasileiros”. No texto do balanço, Guimarães observa como a história representa desafio importante para a teoria sociológica, na medida em que “fenômenos universais” como “desigualdades” e “racismo” se “desenvolvem imbricados em diferentes construções nacionais e contextos diversos de poder e de economia”, destacando diferentes respostas dadas à força particular que a noção de “cor” – e não de “raça” – tem no Brasil como elemento de classificação social e, portanto, de “sistemática reprodução de desigualdades raciais” (Guimarães, 2010: 107-28). Na mesma direção, os autores do balanço sobre “desigualdades, classes e estratificação social” na mesma coletânea abrem seu texto com a afirmação bastante forte de que a “desigualdade é a marca mais expressiva da sociedade brasileira e apresenta-se como um fenômeno multidimensional, transversal e durável”; e completam: “O que torna o Brasil um caso especial é a sobrevivência de desigualdades históricas em meio a um processo de modernização acelerado. Mais ainda, nossos níveis de desigualdade de renda são extremamente elevados, até mesmo para um continente tão desigual quanto a América Latina” (Scalon & Santos, 2010: 79).
Sobre “violência”, reconhecido como um dos problemas sociais nacionais mais dramáticos, pode-se observar o mesmo movimento de uma coletânea a outra, ainda que a explicitação da preocupação com o sentido particular do fenômeno no Brasil já oriente o balanço desde a segunda coletânea, de 2002. De fato, o problema é tratado do ponto de vista da dificuldade do Estado em monopolizar a violência física legítima na e em face da sociedade brasileira, o que constitui um problema evidente tendo em vista a definição do Estado como autoridade pública na sociologia política desde pelo menos Max Weber. Autor do primeiro balanço e coautor do segundo, Sergio Adorno argumenta que, de um lado, a tarefa a que se propõe o Estado moderno de assegurar o monopólio estatal da violência, no Brasil, segue inconclusa e precisa ser concluída; ao mesmo tempo, não há como enfrentá-lo, no entanto, nos termos do passado. Por isso, buscou situar, sobretudo no primeiro balanço, a reflexão brasileira e tradição estrangeira “em confronto com o propósito de responder inquietações que povoam nosso imaginário de cientistas sociais, tais como: aquelas tradições fazem eco em nossas reflexões? Em qual direção e sentido? Nossas singularidades contrastam com as heranças europeias e norte-americanas nas ciências sociais modernas, em especial no campo da sociologia política?” (Adorno, 2002: 271). Importante assinalar, por fim, que “violência” esteve presente desde a primeira iniciativa organizada de balanços pela ANPOCS, ainda que no volume disciplinar dedicado à antropologia.
Já sobre os temas/subáreas que estamos chamando de “reflexivos” porque voltados, prioritariamente, para a discussão das condições sociais/institucionais e dos padrões intelectuais/cognitivos da sociologia no Brasil, como observamos, nota-se seu incremento crescente nas diferentes coletâneas aqui tratadas. Presentes desde as primeiras publicações da ANPOCS, destacam-se os temas “interpretações do Brasil” na primeira coletânea, “pensamento social” e “sociologia brasileira” na segunda, e “teoria”, “metodologia” e “pensamento social” na última – isso para não incluir “intelectuais brasileiros”, objeto de balanço também na primeira coletânea, mas que pode ter uma importância mais particularista dentro da tradição intelectual brasileira em geral, e não na sociológica em particular.
Tradicionalmente, essas questões relativas às condições sociais/institucionais e dos padrões intelectuais/cognitivos da sociologia no Brasil vêm sendo investigadas, sobretudo, no âmbito da subárea de pesquisa conhecida pelo termo nativo de “pensamento social brasileiro”. Esta subárea, embora muito marcada pela reflexão sobre a tradição intelectual brasileira, também vem conhecendo, nas últimas quatro décadas, um crescimento quantitativo significativo de praticantes, bem como uma diversificação dos seus objetos, metodologias empregadas e teorias propostas. Hoje, as pesquisas desenvolvidas nesta subárea compreendem tanto os temas clássicos da formação da sociedade brasileira, em suas várias dimensões, como, por exemplo, modernização, modernidade e mudança social; construção e transformação do Estado-nação; cultura política e cidadania; quanto diferentes modalidades de produtores e de produção cultural em sentido amplo, literatura de ficção, artes plásticas, fotografia, cinema, teatro; e a própria “cultura” como sistema de valores e formas de linguagem. De modo que um dos principais efeitos desse processo tem sido justamente o alargamento da própria noção de “pensamento social”, cujas fronteiras com outras especialidades acadêmicas, como a sociologia da cultura (Arruda, 2004) ou a teoria sociológica (Botelho, 2009; Maia, 2009) para ficarmos apenas no campo das ciências sociais, passam a ser, então, mais sistematicamente problematizadas e exploradas.
No balanço publicado na última coletânea comentada, Bastos & Botelho argumentam que, longe de constituir um traço idiossincrático da sua prática no Brasil, o interesse pelo pensamento social pode ser relacionado de várias formas à controvérsia mais ampla sobre a importância dos clássicos nas ciências sociais como um todo: Fundamentalmente, expressariam uma característica crucial da sociologia que, como toda disciplina de natureza intelectual, traz em si uma história construída no âmbito da qual se desenvolvem de modo mais ou menos permanente ou cíclico diversos conflitos a respeito de sua própria identidade. E, mais ainda, “indica também que o exame constante de suas realizações passadas, inclusive através da exegese de textos e de outras fontes de pesquisas documentais, assume papel muito mais do que tangencial na prática corrente das disciplinas que a compõem” (Bastos & Botelho, 2010: 477). Talvez pudéssemos acrescentar que essas características da sociologia, em geral, uma ciência “que sempre se pensa, ao mesmo tempo em que se realiza, desenvolve, enfrenta impasses, reorienta” (Ianni, 1990: 92), também ganham contornos e sentidos particulares numa experiência como a brasileira, relativamente tardia em relação aos centros hegemônicos da disciplina, e em permanente conflito entre localismo e cosmopolitismo aguçado pelo sentido de premência que os dramáticos problemas sociais assumem e, mais recentemente, também pela crítica ao seu eurocentrismo constitutivo, justamente como chama a atenção um dos balanços da última coletânea considerada (Costa, 2010).
3. Ciência Política
Pode-se observar na ciência política produzida no Brasil a mesma tendência da sociologia de combinar a vocação universalista da disciplina com um interesse prioritário pelos problemas do país. No entanto, no caso da ciência política é possível perceber a orientação principalmente em termos históricos, relacionados, de alguma maneira, com o contexto sociopolítico mais amplo do país.
Na verdade, a história da disciplina no Brasil é, como ressalta Renato Lessa (2010), em balanço escrito para a ANPOCS, uma história extremamente curta. Como é sabido, a ciência política brasileira da maneira que a conhecemos é um produto do golpe de 1964. A relação da disciplina com o autoritarismo não deixa, porém, de ser ambígua, já que deseja explicá-lo e é, ao mesmo tempo, beneficiária do sistema de pós-graduação produzido pela modernização autoritária brasileira.
Exemplo da preocupação com o golpe é a afirmação que abre a tese de Wanderley Guilherme dos Santos, The calculus of conflict: impasse in Brazilian politics and the crisis of 1964, defendida na Universidade de Stanford: “a tomada de poder militar em 1964 foi uma surpresa para muitos, um choque para outros e um alívio para aqueles que acreditavam que o presidente João Goulart havia comprometido seriamente seu governo em uma aventura populista de tipo radical”. Nessa referência, o autor de Quem dará o golpe no Brasil? convida “aqueles que estão insatisfeitos com suas avaliações anteriores a repensarem a política do período e a buscar uma explicação mais aprofundada para este evento decisivo” (SANTOS, 1979: V). Pouco antes, Bolívar Lamounier, também na sua tese de doutorado, Ideology and authoritarian regimes: theoretical perspectives and a study of the Brazilian case, defendida na Universidade da Califórnia/Los Angeles, argumentara, em sentido semelhante, que o golpe evidenciara que “nossas referências teóricas fornecem pouca orientação em situações concretas” (Lamounier, 1974: 13).[5]
Por outro lado e de maneira complementar, o autoritarismo brasileiro também é modernizador, promovendo o estabelecimento de um sistema de pós-graduação, cujo marco é a Reforma Universitária, de 1968. Assim, os primeiros mestrados em ciência política são criados na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1965, e no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), em 1969. Concomitantemente, a afirmação da ciência política como disciplina se beneficia de uma atuação agressiva da Fundação Ford que, desde a Revolução Cubana, se envolve numa disputa pela hegemonia cultural na América Latina, promovendo a vinda de professores norte-americanos e concedendo bolsas para que estudantes brasileiros realizem pós-graduação nos EUA (Forjaz, 1997; Keinert & Silva, 2010; Lessa, 2010).
Mas se, na verdade, a preocupação com o autoritarismo está presente no conjunto das ciências sociais produzidas no Brasil depois de 1964, o desafio é especialmente relevante para a ciência política até em razão de tradicionalmente seu objeto privilegiado ser o Estado.[6] Talvez ainda mais importante, o golpe acaba representando uma oportunidade para se afirmar a autonomia da política diante de outras esferas, como a social e a econômica. Na afirmação da especificidade da política e, junto com ela, da ciência política, os praticantes da disciplina voltam-se especialmente contra a sociologia e o marxismo, que tinham uma posição de destaque nas ciências sociais brasileiras antes do golpe. Em termos contrastantes com a orientação até então dominante, valorizam a pesquisa empírica diante da preocupação conceitual. Nessa orientação, é possível tanto destacar o peso dos processos políticos como variáveis independentes para a quebra da democracia, como faz Santos (1979), como indicar que desafios políticos poderiam atrapalhar a consolidação do arranjo autoritário, como faz Lamounier (1974). Em termos mais amplos, depois de 1964 o Estado assume uma importância ainda maior no desenvolvimento do país, que estimula o estudo dos processos a ele associados.
Particularmente sugestivo é como tanto Santos (1978) como Lamounier (1982) e, depois deles, Gildo Marçal Brandão (2007) e Lessa (2010), ao pensarem a ciência política brasileira, valorizam a anterior tradição ensaística como elemento próprio e distintivo da disciplina no país. O pensamento produzido no Brasil sobre questões políticas antes da institucionalização da disciplina funcionaria mesmo, segundo Lamounier (1982), como uma espécie de “estoque” de temas e problemas disponível para os posteriores cientistas políticos. Tal valorização contrasta com a conhecida avaliação de Florestan Fernandes sobre o ensaísmo, identificado como pré-científico e representativo de uma visão estamental de mundo.[7] O pensamento político na sua relação com a ciência política brasileira assumiria, assim, um lugar diferente da análoga relação do pensamento social com a sociologia brasileira. Se no segundo caso se assistiria a um progressivo alargamento da noção de pensamento social, o pensamento político seria constitutivo da própria ciência política tal como entendida no Brasil.[8]
Ainda em termos históricos, é possível assinalar que se a ciência política brasileira se ocupa privilegiadamente, nos anos 1960 e 1970, do autoritarismo, a disciplina passa a tratar, na década de 1980 e 1990, sobretudo da transição, consolidação e qualidade da democracia. Como na primeira situação, a orientação teórica não deixa de estar relacionada com desenvolvimentos políticos mais amplos, em especial, a progressiva retirada dos militares do poder. Em contexto como esse a democracia passa a ser entendida até como um “valor universal” (Coutinho, 1980). Concomitantemente, o interesse pelo Estado vai cedendo espaço para a sociedade civil, categoria que, durante a transição, assume um significado bastante específico. Particularmente influentes no período é a literatura que passou a ser conhecida como “transitologia”. Na defesa da democracia, estes trabalhos assumem claramente uma posição normativa. Ao mesmo tempo, se mostram bastante pessimistas em relação ao funcionamento das “novas” democracias. Guillermo O’Donnell, cientista político argentino que morou alguns anos no Brasil, considera, por exemplo, que estas democracias não seriam consolidadas ou institucionalizadas, mesmo que passassem a ser duradouras. Nessa referência, chega a defender que a melhor caracterização para elas não seria como democracias representativas, mas como “democracias delegativas”, em que quem “ganha uma eleição presidencial é autorizado a governar o país como lhe parece conveniente” (O’Donnell, 1991: 30).
Em sentido oposto, desde meados dos anos 1990, a ciência política brasileira assiste, nas palavras de Fernando Limongi, “a passagem dos estudos voltados para a consolidação da democracia para os estudos sobre o funcionamento da ordem democrática” (Limongi, 2010: 163). O motivo mais profundo para que se assumisse tal perspectiva seria que “o sistema político brasileiro é um sistema democrático e estável, qualquer que seja o critério que se queira adotar para mensurar estabilidade ou a consolidação da democracia” (Limongi, 2010: 186). Tem especial impacto na nova orientação o artigo de Argelina Figueiredo e do próprio Limongi (1995) que indica que o Executivo conseguia aprovar a grande maioria das suas iniciativas no Legislativo. Os autores explicam tal capacidade por dois fatores fundamentais: o controle do Executivo sobre a agenda legislativa e a centralização do processo decisório no Congresso. É revelador que muito da repercussão do trabalho deriva de ele ter ido contra o que era então uma visão difusa sobre o funcionamento da democracia no Brasil.
Junto com a mudança de avaliação sobre o desempenho da democracia no Brasil, há também um certo deslocamento analítico: de um enfoque mais global, preocupado com questões mais amplas, como o Estado e regimes políticos, passa-se para abordagens mais específicas, que lidam com Estudos Legislativos, Políticas Públicas, Controles Democráticos, etc. Não são, contudo, sempre evidentes os contornos dessas subáreas, cujas fronteiras frequentemente se confundem. De qualquer maneira, como sinal da nova orientação, o importante GT da ANPOCS, Estado e Democracia, que existiu entre 1979 e 1985, com uma pequena interrupção em 1984, desaparece.[9] Mesmo destino tem o GT Política e Economia, que funciona entre 1985 e 1989 e entre 1998 e 2000.
Tendências como essas são indicadas de maneira mais clara nas coletâneas organizadas pela ANPOCS, publicadas significativamente quando já prevalece a orientação mais recente da ciência política brasileira.
Quadro 5. O que ler nas ciências sociais brasileiras – Ciência Política (1999).
| Tema/área de pesquisa | Autor | Comentário Crítico |
| Partidos, eleições e Poder Legislativo | Olavo Brasil de Lima Jr. | |
| Estado, governo e políticas públicas | Marcus André de Mello | |
| Institucionalização política | Fernando Limongi | Fábio Wanderley Reis |
| Relações Internacionais | Paulo Roberto de Almeida |
Quadro 6. Horizontes das ciências sociais no Brasil – Ciência Política (2010).
| Tema/área de pesquisa | Autor |
| Ciência Política | Renato Lessa |
| Teoria Política | Cícero Araujo & San Romanelli Assumpção |
| Democracia e Welfare | Celia Kerstenetzky |
| Direitos Humanos | Luiz Eduardo Soares & Mirian A. Guindani |
| Estudos Legislativos | Fernando Limongi |
| Executivo e Burocracia | Argelina Figueiredo |
| Partidos e Sistemas Partidários | Jairo Nicolau |
| Instituições Políticas e Controles Democráticos | Bruno Reis & Rogério Arantes |
| Estudos Estratégicos | Eurico de Lima Figueiredo |
| Relações Internacionais | Sebastião Velasco e Cruz & Filipe Mendonça |
| Política Comparada | Octavio Amorim Neto |
| Federalismo | Celina Souza |
| Pensamento Político Brasileiro | Gildo M. Brandão |
| Associações, Conselhos e Orçamento Participativo | Ilza Araujo de Lima Andrade |
O crescente interesse por subáreas como Estudos Legislativos e Políticas Públicas casa bem com preocupações presentes na ciência política internacional, especialmente norte-americana. Por sua vez, também refletindo essa tendência, a Teoria Política assume uma feição cada vez mais normativa (Araujo & Assumpção, 2010). Mesmo assim, o conteúdo dos estudos brasileiros assume características bastante particulares, relacionadas com a experiência do país, desenvolvimento que também ocorre na sociologia. Assim, os Estudos Legislativos no Brasil não se definiriam tanto por seu objeto, como nos EUA, mas por seu foco, a relação entre Executivo e Legislativo oferecendo mesmo uma perspectiva alternativa para analisar o sistema político do país (Limongi, 2010). No que se refere às Políticas Públicas, seria especialmente relevante a noção de cidadania regulada, desenvolvida por Santos (1979), segundo a qual, a extensão da cidadania no Brasil se teria dado em termos de estratificação ocupacional – por meio da regulamentação de novas profissões – e não pela expansão de direitos para todos os membros da comunidade política. Em termos até mais fortes, de acordo com Bruno Reis e Rogério Arantes, no país “a questão do controle do poder político assumiu diversas formas, as quais, tecnicamente, ultrapassam o conceito de accountability” (Reis & Arantes, 2010: 248), o que se reflete nos estudos apresentados no GT Controles Democráticos, em atividade na ANPOCS, sob diversos nomes, desde 2002.
Mesmo uma subárea mais antiga, como Partidos e Sistema Partidário, enfrenta uma agenda de pesquisas semelhante. Se, ao longo dos anos 1980 e até meados dos anos 1990, os estudos sobre o tema duvidavam da institucionalização dos partidos e do sistema partidário brasileiro, mais recentemente, a avaliação pessimista parecia estar em vias de ser superada. Dessa maneira, como indica Jairo Nicolau, o primeiro ciclo de pesquisas ressaltava “a inconsistência ideológica das legendas, a alta fragmentação partidária, a migração partidária, a crise dos grandes partidos e a vitória de Collor no final dos anos 1989” (Nicolau, 2010: 234). Nesse quadro pouco animador, o PT apareceria como exceção. Já trabalhos de meados da década de 1990 em diante discutem a atuação dos partidos no Executivo e especialmente, de maneira próxima a Estudos Legislativos, o parlamento, chamando a atenção, em termos mais otimistas, para a coesão e disciplina partidária presentes nesses âmbitos.
Por sua vez, a subárea de Políticas Públicas só teria assumido um caráter mais microscópico e empírico a partir de meados da década de 1980 (Mello, 1999).[10] Um marco importante para estabelecer tal rumo teria sido a criação, em 1984, do Núcleo de Políticas Públicas (NEPP) da Universidade de Campinas (UNICAMP), primeiro centro de pesquisa universitário sobre o tema no Brasil. Quase coincidentemente, se estabeleceu, no ano anterior, o GT de Políticas Públicas da ANPOCS. Ambas as iniciativas teriam sido decisivas para a consolidação da subárea. Além do mais, o interesse por Políticas Públicas teria crescido com os desafios enfrentados pela transição. Particularmente importante para Políticas Públicas, mas também para Controles Democráticos, são as modificações introduzidas pela Constituição de 1988. Em especial, com a nova carta amplia-se o demos eleitoral e as possibilidades de controle popular por meio de mecanismos como os conselhos de políticas públicas. Também se reequilibra a tripartição de poder, além de se manter a descentralização e o federalismo. Por fim, se estabelece uma teia de controles, por meio de instituições como o Judiciário e o Ministério Público. Ou seja, o novo arranjo institucional criaria um importante conjunto de desafios de pesquisa (Reis & Arantes, 2010).
Já Relações Internacionais aparece como uma subárea bastante particular no quadro mais amplo da ciência política brasileira. A questão central enfrentada por ela é a verdadeira explosão que vive e tensiona sua própria relação com a ciência política. Sinal do enorme crescimento das Relações Internacionais é que existiam, em 1995, apenas 3 cursos de graduação da subárea, o número tendo encorpado, em pouco mais de dez anos, em 2008, para 85. Passou-se, assim, só de 81 formandos em 1997 para assombrosos 1985 em 2008. Consequentemente, o peso das Relações Internacionais no interior da ciência política brasileira aumenta exponencialmente; dos 27 programas de pós-graduação em funcionamento dedicados à Ciência Política e às Relações Internacionais, no biênio 2007 – 2008, 12 são da subárea. No entanto, os principais motivos que explicam o crescente interesse por política internacional no Brasil estão relacionados, mais uma vez, com o contexto sociopolítico mais amplo, em especial, ao fenômeno que foi chamado, nos anos 1990, de globalização e a concomitante abertura econômica do país (Cruz & Mendonça, 2010).
* * *
Em termos mais gerais, podemos dizer, a partir dos dados da ANPOCS, que a sociologia e a ciência política praticadas no Brasil vêm tentando responder aos desafios postos pelas especificidades do processo de construção do Estado-nação no Brasil, seja em termos empíricos, seja em termos teórico-metodológicos.
No caso da sociologia, os dilemas associados às fortes desigualdades sociais – e seus efeitos duradouros nas formas de solidariedade social e ação coletiva –, bem como as dificuldades envolvidas no assentamento bem-sucedido da autoridade pública na coordenação das relações sociais e na monopolização da violência física legítima, expressam-se na recorrência das temáticas ligadas a “desigualdade” e “violência” nos balanços e nos GTs da Associação. Já no caso da ciência política, os impasses inscritos no processo de construção de instituições democráticas e ajustadas às demandas de participação política e controle público, depois de décadas de regime autoritário, vêm conformando a agenda principal dos pesquisadores da disciplina. Ainda, o levantamento também indicou a forte presença do interesse pelas tradições intelectuais nacionais e pelas condições institucionais das ciências sociais no país. Esta dimensão reflexiva das ciências sociais no país certamente tem relação com o lugar problemático que os intelectuais – cientistas sociais incluídos – costumam assumir em contextos tardios de revolução burguesa.
Este quadro confirma nossa avaliação sobre como se desenvolveram as ciências sociais no Brasil e nos indica que não devemos nos furtar a enfrentar os problemas sugeridos pelo atual momento político do país. Se a reação ao golpe de Estado de 1964 foi de surpresa e de inquietação, tais sentimentos voltam a aparecer hoje, quando uma presidenta legitimamente eleita é removida do poder sem bases jurídicas sólidas. Os jovens cientistas sociais de um passado já aparentemente longínquo perceberam que não possuíam instrumentos analíticos para entender a situação que o país vivia depois do golpe militar. As ciências sociais brasileiras, tais como a conhecemos, são, em grande medida, o resultado da busca de respostas a essa apreensão. Mesmo que a atual conjuntura política seja muito diferente de 1964, o golpe parlamentar tendo se dado num contexto posterior à guerra fria, em que se mantém o parlamento e as liberdades individuais, também não dispomos de ferramentas conceituais para compreendermos o que ocorre nesses dias no Brasil. Até porque, de um momento para outro, se desfizeram boa parte das crenças que se formaram nas últimas décadas sobre a democracia brasileira, para as quais a contribuição das ciências sociais não foi nada desprezível.
No fundo, trata-se de recolocar as relações históricas entre Estado e sociedade no nervo de uma reflexão teórica consistente sobre o país, pois os dois golpes, o de 1964 e o de 2016, a despeito de suas muitas diferenças, chamaram a atenção para a impossibilidade de se tomar, sem mais, a plena realização de uma comunidade política democrática como um processo irreversível, que se cumpriria necessariamente a longo prazo. Em suma, se coloca hoje um desafio cuja resposta determinará a própria relevância das ciências sociais brasileiras.
Notas
[1] Publicado originalmente em 2017 com o título “Cosmopolitism and Localism in the Brazilian Social Sciences”, na Canadian Review of Sociology-Revue canadienne de sociology.
[2] Respectivamente, a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), fundada em 1950, e a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), criada em 1986. Embora não tratemos aqui do caso da antropologia, ela também possui associação própria, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), fundada em 1955.
[3] No entanto, nos últimos anos, há certo crescimento do número de Grupos de Trabalho com interesse em aprofundar a comparação com outros contextos – América do Sul e regionalismos comparados (2008, 2009), Estudos sobre Estados Unidos (2011, 2012), Pensamento social latino-americano (2011, 2012, 2014, 2015) e Entre as Ruas e os Gabinetes: institucionalização e contestação nos movimentos sociais latino-americanos (2014, 2015). Isso sem falar na área das Relações Internacionais, que está presente nos encontros anuais da ANPOCS desde a década de 1980.
[4] Desde 2011, o GT de teoria política possui o título “Teoria política e pensamento político brasileiro: normatividade e história”.
[5] Santos procura demonstrar que a crise que produziu 1964 seria uma crise de paralisia decisória, gerada no contexto de um sistema partidário caracterizado pelo que o cientista político italiano Giovanni Sartori chamou de pluralismo polarizado. Já Lamounier defende que uma ideologia autoritária, criada na década de 1920 e 1930, funcionaria como uma verdadeira tecnologia política para os estratos superiores da burocracia militar e civil, preparando 1964.
[6] Mais especificamente, como indica Luiz Werneck Vianna (1997), as ciências sociais do período voltam-se prioritariamente para interpretar a modernização conservadora brasileira, como se percebe em A economia brasileira: crítica da razão dualista (1972), de Francisco de Oliveira; São Paulo e o Estado nacional (1973), de Simon Schwartzman; Politique et développement économique: structures de pouvoir et système de décision au Brésil (1973), de Luciano Martins; A revolução burguesa no Brasil (1975), de Florestan Fernandes; Elite and state-building in imperial Brazil (1975), de José Murilo de Carvalho; Capitalismo autoritário e campesinato (1976), de Otávio Velho; Liberalismo e sindicato no Brasil (1976), do próprio Werneck Vianna; The agrarian roots of modernization in Brazil: 1880 – 1930 (1979), de Elisa Reis. Significativamente, todos esses trabalhos, com exceção de dois, foram originalmente teses universitárias.
[7] É verdade, porém, que se pode considerar que a polêmica de Fernandes com o ensaísmo se liga a uma certa estratégia de afirmação da sociologia como disciplina científica, procedimento análogo, em boa medida, à posterior controvérsia da ciência política com a sociologia. Sinal da existência de nexos mais complexos do autor de A revolução burguesa no Brasil com esta tradição de reflexão é o próprio subtítulo de sua obra magna: “ensaio de interpretação sociológica”. Ver: Arruda, 1995, 2001; Keinert & Silva, 2010; Ricupero, 2008).
[8] No entanto, apesar do notável crescimento da subárea, é questionável que o conjunto da comunidade de cientistas políticos brasileiros compartilhe da crença na importância do pensamento político mesmo que, inconscientemente, continue a fazer uso do “estoque” fornecido por essa tradição.
[9] No encontro de 1978 esteve presente um GT dedicado simplesmente ao estudo do Estado.
[10] Políticas Públicas não foi, entretanto, objeto de um artigo específico em Horizontes das ciências sociais.
