
Recomendamos o livro Ciência, desenvolvimento e democracia no Brasil: trajetórias, instituições e agendas de pesquisa, 1945-2000, organizado por Oliva Freire Junior (UFBA), Silvia Figueirôa (Unicamp), Antonio Augusto Passos Videira (UERJ) e Maria Margaret Lopes, publicado este ano pela Editora Fiocruz.
Para estimular a leitura de seu capítulo e da obra como um todo, Gilberto Hochman (Fiocruz) nos brinda com “Meus caros amigos: a conversa epistolar entre Haity Moussatché e José Leite Lopes como testemunho de cientistas no exílio, 1969-1973”, um paratexto inédito que integra a terceira parte do livro (Autoritarismo, Ciência e Cultura). Com um título que remete à canção de Chico Buarque e Francis Hime, lançada em 1976, o capítulo parte de uma ressalva feita pelo próprio autor: a correspondência entre Haity Moussatché e José Leite Lopes não possui o mesmo lirismo da canção. A partir da análise dessa escrita de si, Hochman examina as cartas trocadas pelos dois cientistas desde a decretação do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em 1968, até 1973, período que compreende os primeiros anos de seus exílios.
Boa leitura!
“Meus Caros Amigos: a conversa epistolar entre Haity Moussatché e José Leite Lopes como testemunho de cientistas no exílio, 1969-1973”
Por Gilberto Hochman (Fiocruz)
Pois as saudades são grandes. E a preocupação com os meninos – pois embora saibamos que vão bem, estudando e trabalhando, o fato de estarem longe nos deixa sempre a pensar neles com saudades. É o exílio. É o peso do exílio. É a dor do exílio (de José Leite Lopes, em Estrasburgo para Haity Moussatché, no Rio de Janeiro, em 13/9/1970)
As cartas trocadas entre cientistas exilados são vestígios da ruptura que lhes foi imposta pela ditadura militar no Brasil, especialmente a partir da decretação do Ato Institucional n. 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968. A solidão como rotina, a vida ordinária longe do laboratório e da sala de aula, a busca por notícias e a saudade dos filhos, dos demais familiares e dos amigos são sentimentos que, registrados em papel, foram vivenciados por muitos dos que foram expulsos de instituições de pesquisa e das universidades. Ameaçados e sem horizontes profissionais, foram compelidos a deixar o Brasil. As relações entre autoritarismo e ciência são complexas (Freire Jr. et al., 2026) mas me interessam os seus impactos do fim da democracia sobre a ciência brasileira com base na análise dessa “escrita de si”. Sem o lirismo de Chico Buarque e Francis Hime (1976) que inspira o título, trata-se de compreender as dimensões mais subjetivas na constituição de testemunhos sobre os impactos da ditadura militar na ciência brasileira. Seguindo o que propõe Foucault, as cartas são entendidas como uma prática relacional de “produção do eu” e do “Outro” em um contexto de rupturas e deslocamentos abruptos.
Nesse capítulo busquei analisar a correspondência entre o físico José Leite Lopes (1918-2006), do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), e o fisiologista Haity Moussatché (1910-1998), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) que estão nos arquivos do CPDOC e da Casa de Oswaldo Cruz. O período aqui examinado vai da cassação pelo AI-5 até 1973, abrangendo as cartas dos cinco primeiros anos de seus exílios. Ambos foram renomados cientistas em seus respectivos campos de atuação, amigos, ativos em sociedades científicas, fundadores e lideranças na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), participantes de associações científicas internacionais, entusiastas do papel da ciência no desenvolvimento nacional e na paz mundial e críticos severos do regime autoritário que os vigiou e perseguiu desde os primeiros dias de sua instauração. Foram compulsoriamente aposentados pelo AI-5 e perderam seus direitos políticos. Para Leite Lopes e dezenas de outros professores universitários, a cassação ocorreu em 25 de abril de 1969. Em 1º de abril do ano seguinte, seria a vez de Moussatché e de mais nove colegas do IOC, no episódio cunhado por Herman Lent em 1978 como o “Massacre de Manguinhos”, que resultou no fechamento de laboratórios, na interrupção de pesquisas, no abandono de coleções científicas e na dispersão de equipes e de alunos (Santos, 2020). Pelo Ato Complementar n. 75, de 20 de outubro de 1969, estavam impedidos de trabalhar em instituições públicas em qualquer esfera de governo. Com base nesse ato, Leite Lopes foi demitido do CBPF.
Sem perspectivas de fazer ciência e de viver no “Brasil: ame-o ou deixe-o” – slogan da ditadura militar –, muitos dos cassados foram obrigados a buscar refúgio fora do país. Leite Lopes rumou, ainda em 1969, ao seu segundo exílio no pós-1964, desta vez nos Estados Unidos, na Carnegie Mellon University, em Pittsburgh. Um ano depois, mudou-se para a Universidade Louis Pasteur, em Estrasburgo, na França, onde foi professor do Centro de Pesquisas Nucleares até 1985. Foi para o exílio acompanhado de sua mulher à época, Maria Laura Leite Lopes (1917-2013), professora do Instituto de Matemática da UFRJ, igualmente cassada pelo AI-5, e de sua filha caçula, Angela Leite Lopes, então com 12 anos (Lopes, 2025).
Em meados de 1971, Moussatché, por sua vez, rumaria para a Universidade Centro-Ocidental Lisandro Alvarado, em Barquisimeto, na Venezuela, onde se aposentaria em 1985. Viajou em companhia de Cadem Soriano Moussatché (1925-2013), sua esposa, que, como bibliotecária do Arquivo Nacional, teve de se licenciar para acompanhá-lo. A anistia incompleta de agosto de 1979, que não lhes restituiu imediatamente os empregos nem a plena cidadania, e a vigilância continuada do regime, inclusive no exterior, resultaram em mais de uma década de afastamento das instituições brasileiras de pesquisa e ensino. Tal afastamento seria encerrado apenas com a redemocratização do país a partir de 1985, quando, aposentados nas universidades que os acolheram, reintegraram-se – já septuagenários e com status especial – às suas instituições de origem. O retorno após a Anistia não seria um recomeço, mas sim a conclusão de suas carreiras.
Intelectuais, literatos e políticos, ao escreverem no exílio, não o fazem necessariamente sobre essa experiência, mas certamente são condicionados por ela. O exílio modifica a percepção de seus espaços originários, dos quais foram expulsos ou que abandonaram por coação, e promove a reflexão sobre o lugar que os acolheu. Para Peter Burke (2017), a emigração e o exílio são mecanismos fundamentais na longa história da circulação de ideias e de conhecimento, e os intelectuais expatriados são atores cruciais nesse processo. A condição de estrangeiro, a mobilidade, as novas e múltiplas interações e contradições, seguindo Georg Simmel (1983), são o que torna essa experiência excepcional um legado em livros, artigos de jornal, cartas, autobiografias, diários, romances, textos memorialísticos, entrevistas, músicas, poesias e imagens fotográficas e em movimento. São fontes que devem ser compreendidas como manifestações de experiências singulares, definidas por assinaturas individuais, mas também como manifestações de um coletivo que as partilha em um dado contexto histórico – fontes que, com suas incompletudes, limites e possibilidades, devem passar por um olhar atento e crítico.
Diferentemente das biografias, entrevistas e memorialística, encapsuladas e temperadas pelo tempo, especialmente no pós-exílio, o diálogo entre Leite Lopes e Moussatché permite acompanhar cientistas em ação, como diria Bruno Latour (2000). Todavia, na ação de registrar, enunciar e compartilhar com um leitor destinatário a escrita “quente” de suas vivências e horizontes, deslocados de seus lugares “originais” – os laboratórios e as salas de aula –, eles buscam outros “espaços de ciência”. Essa escrita difere radicalmente daquela dos artigos científicos, que, como parte do ofício regular do cientista, caracteriza-se pela linguagem objetiva, impessoal e “fria”, ditada pelas regras da comunicação de resultados de pesquisa e dos periódicos. Nem mais nem menos autênticas, são escritas distintas que se articulam. No caso de Leite Lopes, a leitura de sua escrita “íntima” pode até mesmo ampliar a compreensão de sua vigorosa “escrita pública”, que constituiu o debate sobre o papel da ciência e dos cientistas no processo de desenvolvimento brasileiro entre as décadas de 1950 e 1980 (Botelho, 2008).
A escrita científica é condicionada por um tempo acelerado que pode lhe garantir originalidade, novos recursos e o reconhecimento de leitores especialistas, muitas vezes incógnitos. Ao contrário, as escritas da vida cotidiana, tais como cartas, cartões-postais, aerogramas e diários, resultam dos esforços pessoais dos escribas, nem sempre coerentes ao organizar ideias e sentimentos e em lhes dar sentido – para si e para o interlocutor –, no calor dos acontecimentos, alegres ou dolorosos. São recursos de que os exilados dispunham para se adaptar à nova situação ou, como escreveu Hannah Arendt (1943), sobre sua própria condição de refugiada, para buscar “o próprio modo de dominar um futuro incerto”. No exílio, há “perdas e ganhos”, cujo balanço dependerá das circunstâncias e dos contextos históricos, como nos lembra Peter Burke (2017).
O tempo das cartas é imprevisível e lento. Inclui o tempo da escrita, manual ou datilografada, da aquisição e da colagem dos selos e envelopes, da postagem em um serviço de correio, do trajeto até o destinatário e da espera por uma resposta que deveria seguir o mesmo roteiro e trajeto, no sentido inverso. Uma resposta esperada, porém, incerta, muitas vezes irregular, faz da escrita para o “Outro” uma escrita para “si”, assim como também o é a carta redigida, contudo, não enviada. A data assinalada nas cartas quase sempre não corresponde à da postagem; nesse sentido, o tempo é incógnito e incontrolável, como a experiência do exílio. A conversa epistolar entre Leite Lopes e Moussatché é, fundamentalmente, sobre o tempo, “compositor de destinos” (Veloso, 1978) como o leitor interessado no capítulo poderá concluir.
O envio de cartas por meio de portadores – colegas, parentes e amigos que viajavam para o Brasil ou dele – não era incomum. Isso assegurava que a carta seria recebida mais rapidamente e evitava que fosse interceptada pelos órgãos de repressão. Por receio, muitos correspondentes, no Brasil e no exterior, chegavam a omitir o endereço do remetente no envelope ou a enviar a correspondência para endereços diferentes daquele em que o destinatário residia. Na década de 1970, as viagens aéreas tornaram-se mais corriqueiras e, com a difusão da telefonia, as cartas deixaram de ser o único meio de comunicação interpessoal, ainda que continuassem a ser o menos dispendioso. Entretanto, ao perderem esse monopólio e seu caráter utilitário, elas permaneceram como veículo que oferecia uma experiência singular, material e íntima de registro de ideias e experiências, passível de guarda e de compartilhamento.
A conversa cotidiana entre amigos, agora sob a forma de cartas, foi, muitas vezes, uma conversa coletiva. As notícias pessoais e “do Brasil” eram comentadas, copiadas e partilhadas com os outros. Há recados, anotações nas margens, papéis timbrados, manchas e rasuras, menções, críticas e vozes de terceiros nas cartas – muitas delas, aliás, eram endereçadas e assinadas por casais; por exemplo, “Leite e Maria Laura” e “Haity e Cadem”. Fotos, diapositivos, recortes de jornais e cópias de outras cartas acompanharam diversas missivas. Música, teatro e artes plásticas compõem a conversa entre amigos. Esses escritos, em sua materialidade e em seu conteúdo, são elementos de conexão de uma rede sociocientífica que havia sido abalada pela distância entre alguns de seus principais personagens. E, principalmente, restabeleciam, em novos termos, uma sociabilidade que envolvia esposa, filhos, netos, políticos, colegas, assistentes, alunos e amigos. Essa rede – afetiva, científica e política – construída ao longo de décadas também se mobilizaria para apoiar cientistas perseguidos na obtenção de empregos, bolsas e recursos, no Brasil e no exterior. Na correspondência entre Leite Lopes e Moussatché, não há fronteiras entre amizade, ciência e política. As cartas são esforços para superar distâncias e diferenças. Também são registros de um capítulo da história dessa amizade – ou, como sugere Vincent-Buffault (1996), de uma “amizade nômade”. Se o exílio é um ato de natureza política, a correspondência entre os amigos exilados tem, intrinsecamente, essa característica.
No campo da história e da sociologia da ciência no Brasil, independentemente da disponibilidade de acervos pessoais de cientistas, ainda não há muitos trabalhos sobre a correspondência entre eles. Os trabalhos sobre cartas de cientistas no Brasil partem, muitas vezes, da assunção, ainda que não explícita, de uma separação entre indivíduo, ciência e política, na qual a escrita epistolar é tomada quase exclusivamente como fonte de informação sobre processos, trajetórias e práticas científicas, bem como sobre a criação e a gestão de instituições. As cartas são examinadas no capítulo como dimensões subjetivas constitutivas dessas mesmas práticas, que se diferenciam e dialogam com uma prolífica tipologia de documentos produzidos por cientistas, como relatórios, artigos, papers, manuais, livros técnicos e didáticos e imagens.
Como recurso analítico, o capítulo foi organizado com base em um repertório temático identificado na correspondência selecionada – ou seja, as “primeiras cartas do exílio” de José Leite Lopes e de Haity Moussatché –, que abrange os cinco primeiros anos de seus desterros: a busca de lugares mais seguros para viver e fazer ciência; a chegada e as primeiras impressões dos novos espaços; as notícias do Brasil, dos que ficaram e dos que partiram; a solidariedade e o auxílio aos colegas; os dilemas e as possibilidades de permanecer ou de retornar ao Brasil, bem como o que seria negociável para um retorno; a rotinização do exílio e da ciência possível no exílio; as saudades e um permanente e doloroso balanço de “perdas e ganhos”. Lidas em 2026, essas cartas escritas há mais de 50 anos, nos alertam sobre o que significa perder a democracia.
Referências
BUARQUE de HOLANDA, Chico & HIME, Francis (1976). “Meu caro amigo”. Intérprete: Chico Buarque. In: Meus Caros Amigos. S.l.: Philips Records. disco de vinil, lado b, faixa 5.
ARENDT, Hannah. Nós, os Refugiados (2013). Covilhã: Universidade da Beira Interior.
BOTELHO, André (2008) . “Ciência pelo desenvolvimento: a escrita pública de José Leite Lopes”. In: BOTELHO, André; BASTOS, Élide Rugai & VILLAS BÔAS, Glaucia. (Orgs.). O Moderno em Questão: a década de 1950 no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks.
BURKE, Peter (2017). Perdas e Ganhos: exilados e expatriados na história do conhecimento na Europa e nas Américas, 1500-2000. São Paulo: Editora Unesp.
FREIRE Jr., Oliva. et al. (Orgs) (2026). Ciência, desenvolvimento e democracia no Brasil: trajetórias, instituições e agendas de pesquisa, 1945-2000. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.
LATOUR, Bruno (2000). Ciência em Ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora Unesp.
LOPES, Angela Leite (2025). A Vida em Outro Lugar: crônica do exílio. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.
LENT, Herman (2019). O Massacre de Manguinhos. 2. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, Edições Livres.
SANTOS, Daniel Elian (2020). O Massacre de Manguinhos: a ciência brasileira e o regime militar (1964-1970). São Paulo: Hucitec.
SIMMEL, Georg (1983). O estrangeiro. In: MORAES FILHO, E. (Org.). George Simmel: sociologia. São Paulo: Ática.
VELOSO, Caetano (1979). “Oração ao tempo”. Compositor e intérprete: Caetano Veloso. In: Cinema Transcendental. S. l.: Philip Records. disco vinil, faixa 2.
VINCENT-BUFFAULT, Anne (1996). Da Amizade: uma história do exercício da amizade nos séculos XVIII e XIX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.