Centenário de Octavio Ianni | A sociologia de Octavio Ianni e o discreto charme da dialética, por Conrado Pires de Castro

Publicamos hoje a última rodada de textos da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?. Assinado por Conrado Pires de Castro (UFLA), o texto apresenta Ianni como um “apanhador de minúcias”.

O que significa pensar a sociologia a partir dessa imagem? Castro argumenta que a força da obra de Ianni reside na capacidade de transformar detalhes aparentemente secundários em chaves para compreender processos históricos mais amplos. É nesse trânsito entre parte e totalidade, entre rigor analítico e liberdade criadora, que o autor identifica o “discreto charme da dialética” que singulariza a sociologia de Ianni.

Na próxima terça-feira, 13 de outubro, dia do aniversário de cem anos de Octavio Ianni, faremos uma publicação especial na série. Não perca!

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Boa leitura!


A Sociologia de Octavio Ianni e o discreto charme da dialética

Por Conrado Pires de Castro (UFLA)

a questão nem sempre é tão mecânica quanto aparenta. Mas por vezes é – pelo menos se os temas estão devidamente isolados e esclarecidos. Mas aí está a questão. Pois aquilo que no contexto do artesanato literário tem o nome de tema, no contexto do trabalho intelectual recebe o nome de ideias. – Wright Mills, A imaginação sociológica.

Vários eixos temáticos percorrem o conjunto da obra de Octavio Ianni. De maneira recorrente, abordados de forma mais direta ou menos explícita, nos deparamos, em seus escritos, com a abordagem de questões relativas à sociologia das relações raciais, à sociologia política das muitas faces das relações entre Estado e sociedade – Estado e capital, Estado e movimentos sociais, Estado e planejamento, o ciclo das revoluções burguesas no Brasil etc. –, à sociologia do populismo e da dependência, à sociologia da sociologia latino-americana e do pensamento social brasileiro e, finalmente, à sociologia da globalização. Não raro, esses temas são reconsiderados, retrabalhados, senão mesmo reintegrados entre si, diante das exigências relacionadas às transformações globais em distintos momentos históricos.

Se fosse possível reduzir essa densa e vasta obra sociológica a uma breve fórmula sintética, arriscar-me-ia a dizer que ela poderia ser traduzida no seguinte enunciado: Octavio Ianni era um minucioso apanhador de minúcias. A metáfora é produtiva; vale a pena esmiuçá-la com mais zelo e vagar. 

Para apanhar, colher, desfrutar, é preciso cuidar e atentar para o tempo e para as temporalidades do cultivo. O tempo orgânico para a semeadura, para a maturação, para o labor das messes. O tempo lógico do planejamento para o sulcar do solo, para o amanho da terra e para o esquadrinhamento de searas novas. Transitando do orgânico ao lógico, do lógico ao ontológico e deste último ao histórico; movendo-se pelas “várias dimensões do real”, perseguindo o “problema da metamorfose dos eventos sociais” em suas múltiplas determinações (Ianni, 1989: 145), apanhando minúcias e tecendo com elas uma fina malha conceitual. Essa malha conceitual vai se compondo e recompondo a cada nova investigação, ganhando novos nós, assumindo novas configurações para ser nova e cuidadosamente lançada sobre as estruturas sociais, de modo a arrastar consigo relações, processos e representações emblemáticas de diferentes instantâneos da dinâmica das sociedades.

Esse traço está presente tanto nas suas obras mais conhecidas, lidas e debatidas como também nas contribuições mais ou menos laterais, secundárias, que, sabe-se lá por que razão, não encontraram idêntica acolhida na comunidade sociológica. Dentre as primeiras, nos deparamos com seus trabalhos sobre as relações raciais; dentre as últimas, encontram-se os estudos circunstanciais sobre a problemática da cultura da dependência e do imperialismo. Em ambos os casos, é possível extrair exemplos do apelo às minúcias dos rudimentos e das situações sociais como procedimento metodológico imprescindível para se flagrar o essencial da vida coletiva em meio à sua incontornável opacidade.

Ao estudar a “elaboração do regime escravista” numa área colonial periférica, onde nem sempre se encontram as possibilidades de “um amplo desenvolvimento da escravatura”, mas nem por isso significa um condicionamento social “menos caracterizado, ou fracamente estruturado”, a perspectiva do sociólogo se constitui e se define a partir do foco nos detalhes aparentemente insignificantes:

é justamente aí que se encontram os fatores que atraem a nossa atenção para o seu estudo: são exatamente os elementos e condições peculiares à comunidade que sugerem a possível riqueza de significações sociológicas (Ianni, 1962: 10).

Inquietação similar aparece nos ensaios sobre diferentes facetas do imperialismo na América Latina e suas conexões com a sociologia da cultura, onde o jogo entre níveis de escala ilumina a importância das representações sociais, “com as quais se codificam, legitimam e reproduzem as relações, processos e estruturas de dominação política e apropriação econômica” nos países colonizados e dependentes:

Em âmbito internacional, as relações capitalistas de produção revelam peculiaridades culturais que não aparecem em nível nacional; que neste nível aparecem de forma imprecisa ou pouco desenvolvida. Para que possa reproduzir-se, as relações imperialistas dependem da produção cultural, tanto quanto da material (Ianni, 1976: 7).

Nesses movimentos que vão do detalhe à estrutura, da escala internacional às peculiaridades nacionais, das partes ao todo, do geral ao particular, visando estabelecer relações entre momento e processo, residem o discreto charme da dialética presente na obra de Ianni. Esse aspecto foi bem captado por Gabriel Cohn, em ensaio dedicado a considerações metodológicas a respeito da obra de Octavio Ianni. Nele, o antigo discípulo identifica com maestria o traço nuclear de seu dileto mestre ao fazer notar que, no trânsito entre “a forma específica do particular” e os elos que a vinculam a “um processo, um devir, um entrelaçamento de metamorfoses”, de suas “características intrínsecas”, configurando, assim, uma totalidade em curso de constituição, estão contidas toda a força (e as eventuais fragilidades) das “tendências criadoras da reflexão científica” de Ianni (Cohn, 1996).

De acordo com Gabriel Cohn, o trânsito entre esses polos limites corresponde ao modo como o autor de As metamorfoses do escravo busca “dar conta simultaneamente do que se poderia chamar de processos de alcance geral no interior da sociedade e que só podem ser pensados em sua particularidade, na forma específica como se manifestam” (Cohn, 1996: 148). Eis, em sua plenitude, a questão da metamorfose, termo recorrente nos escritos de Ianni, como que a revelar uma verdadeira problemática central ao seu pensamento:

O que está em jogo é precisamente o processo de constituição e de emergência de novas formas de relações no interior das antigas, imbricadas na sua própria tessitura. (…) Trata-se de surpreender a sombra da nova forma na fisionomia da antiga, e os traços da antiga na forma nova. O importante na análise de Ianni é mostrar como a emergência dessas novas formas corresponde a um processo necessário, e responde a outras tantas mudanças na própria matéria, no próprio conteúdo da vida social (Cohn, 1996: 146).

O que remete à famosa distinção entre método de exposição e método de pesquisa, cara ao materialismo histórico e também à envergadura dialética do pensamento de Ianni. Enquanto compete ao processo de pesquisa o esforço do exame detalhado da matéria, analisando suas várias formas de evolução no rastro de suas conexões mais íntimas, ao processo de exposição cabe o trabalho de retratar adequadamente o movimento do real. Todavia, esse resultado só é alcançado após a conclusão de um exaustivo esforço de pesquisa, reunindo os mais variados enquadramentos da matéria a ser transformada pelo trabalho da escrita, conferindo formas vivas à dinâmica da realidade social. Essa realidade material, quando rigorosamente trabalhada, transposta e traduzida pelo pensamento humano, não raro pode tomar a aparência de uma construção a priori (Marx, 1985: 20). Em seus momentos menos felizes, há sempre o risco da tentação dos esquematismos ou das reduções apressadas, quando a lógica dialética parece ceder à lógica da inexorabilidade das convicções peremptórias.

Nada mais distante do pensamento de Ianni do que semelhante pendor para o dogmatismo teórico, ou, mais propriamente, doutrinário. Afinal, esse procedimento não se harmoniza com sua obstinada “busca das diferenças finas no interior dos fenômenos” (Cohn, 1996: 150). É isso que confere um elemento de tensão reiterada a seus escritos, um “viés típico” de seu pensamento, segundo Gabriel Cohn. Um pensamento que adota, ao longo de seu trabalho, um delicado equilíbrio entre rigor e liberdade, erudição e imaginação, duração e devir, imprimindo – ainda segundo as palavras de Cohn (1996: 150) – o máximo de rigor na análise “macro” e reservando o máximo de liberdade criadora para o nível “micro”:

Quando escreve, Ianni tende a enfatizar fortemente a dimensão cognitiva dos fenômenos sociais, a “consciência”. Sua aversão às dimensões não racionais da vida social parece ser tão acentuada que, quando pode inclinar-se para o lado da racionalidade, dos processos cognitivos e da consciência da sociedade, ele o faz sem restrições. E acaba às vezes atribuindo ao seu objeto uma capacidade de discernimento que a própria análise que ele faz da sociedade sugeriria que não é bem assim (Cohn, 1996: 155).

Assim, quando menos se espera, uma fagulha dialética é inserida no texto, implodindo os reducionismos fáceis, muitas vezes desconcertando suas leitoras e seus leitores. Em suma, emerge, surpreendentemente, uma charmosa discrição dialética e uma astuta movimentação metodológica. Um discreto charme dialético e uma sagacidade analítica que se deixam melhor apreender quando flagrados durante a própria confecção das já mencionadas redes conceituais, uma vez que elas se tecem vinculadas aos requisitos necessários para envolver processos, relações e estruturas em distintas dimensões, mas também levando em conta a desenvoltura do arremesso dessa malha teórica sobre a realidade que se pretende alcançar.

Como é sabido entre os praticantes das artes da pesca – incluída a de ideias –, o segredo no uso das redes e tarrafas está no manuseio dos pesos distribuídos em suas franjas e na precisão e sutileza do giro do corpo – do corpo teórico, inclusive, a depender dos casos. Todavia, devido ao risco do uso inconsequente ou irresponsável de seus valiosos préstimos, o emprego de tais apetrechos é exclusivo de profissionais vocacionalmente orientados, assim como ética e tecnicamente bem formados. Nesses quesitos, além de outros tantos, a atividade intelectual de Octavio Ianni continua exemplar, não apenas por seu vasto alcance, mas também por seus inevitáveis limites. Há muito que se aprender e desenvolver a partir da sobriedade de suas lições. Sua obra e sua fisionomia humana como que se agigantam nesse seu primeiro centenário.


Referências

COHN, Gabriel. (1996). Crise e metamorfoses: aspectos metodológicos da obra de Octavio Ianni. In: FALEIROS, Maria Izabel Leme & CRESPO, Regina Aída (Orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni. São Paulo: Editora da UNESP.

IANNI, Octavio. (1962). As metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil meridional. São Paulo: Difusão Europeia do Livro.

IANNI, Octavio. (1974). Imperialismo na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1976). Imperialismo e cultura. Petrópolis: Vozes.

IANNI, Octavio. (1989). Sociologia da sociologia. 3. ed. revista e aumentada. São Paulo: Ática.

MARX, Karl. (1985). O capital: crítica da economia política. v. 1, t. 1. São Paulo: Abril Cultural.

Sobre o autor

Conrado Pires de Castro é professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Atua nas áreas de Economia Social do Trabalho, Ciências Sociais e Sociologia.