
Publicamos hoje a última rodada de textos da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?. Assinado por Lucas van Hombeeck (UFRJ), o texto propõe uma leitura formal de Enigmas da modernidade-mundo, um dos últimos livros publicados por Ianni.
Que reflexão sobre o conhecer, o narrar e o figurar o mundo social se esconde numa obra habitualmente associada às análises da globalização? O autor mostra que o livro se situa entre ciência e arte e que, sempre atento à condição periférica e dependente do país, Ianni segue propondo como tarefa uma teorização criativa, capaz de romper com o dogmatismo e o nacionalismo metodológico. Nesse movimento, reafirma o cosmopolitismo e a imaginação sociológica como dimensões centrais de uma sociologia crítica.
Na próxima terça-feira, 13 de outubro, dia do aniversário de cem anos de Octavio Ianni, faremos uma publicação especial na série. Não perca!
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Boa leitura!
Ianni-enigma (uma máquina do mundo)
Por Lucas van Hombeeck (UFRJ)
Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar.
Que o mundo por ser redondo tem por destino embolar
– Siba
Entrar e sair da sociologia
Enigmas da modernidade-mundo é um dos últimos livros de Octavio Ianni. Publicado quatro anos antes da morte do autor, em 2004, ele foi reconhecido com o Prêmio de Ensaio, Crítica e História Literária da Academia Brasileira de Letras e está normalmente associado à última fase da obra do sociólogo. Começando por seus livros da década de 1990, como A sociedade global (1992) e Teorias da globalização (1996), esse momento de seus escritos é normalmente referido por sua ênfase temática na crítica da globalização.
Mas, além do tema, é a forma desse livro tardio que merece atenção. Ela se divide em doze capítulos que podem ser lidos como ensaios relativamente independentes, percorrendo questões fundamentais para a reflexão moderna sobre o mundo, essa totalidade fragmentária que só é possível apreender em movimento. Como na máquina de Camões e Drummond, o intérprete desmonta e rearticula as partes para tentar compreender e explicar o todo. E fica, a um tempo, instigado e desconfiado da soma dos conhecimentos ora oferecida como recompensa pelos feitos do herói, ora recusada pelo homem humano – esse bicho que sai do poema como quem lava as mãos.
A forma da escrita de Ianni em Enigmas da modernidade-mundo, além de uma escolha estética, tem consequências cognitivas e assume um partido epistemológico. Recusando a ilusão de transparência do mundo social, o autor o encara como um conjunto de enigmas. Algo a ser desmontado e remontado para ser conhecido, mas não exatamente resolvido – o que, afinal, acabaria com a brincadeira; algo a ser aproveitado, fruído e desdobrado; explicado, talvez, mas nunca domesticado: a realidade é móvel e fugidia, e sua observação envolve a articulação, por um sujeito, de singularidades numa forma. O enigma solucionado deixa de ser um puzzle, armadilha, perde a graça. Sua vida está em propor uma dinâmica de interação que envolve sujeito e objeto numa trama que altera a experiência de um e outro, lembrando a todos da contingência que nos une. Se o jogo está armado de uma forma, isso não quer dizer que ele não poderia estar arrumado – e ser jogado – de outra forma.
Por isso, a primeira leitura do livro de Ianni que gostaria de propor é a de que ele configura uma experiência (e uma tarefa sociológica) localizada entre a ciência e a arte. Na composição de uma perspectiva crítica, não é possível abrir mão das escolhas temáticas e de recorte, assim como não é possível abandonar a preocupação com a objetividade construída pela saturação de evidências empíricas e teóricas da análise. Aqui, o pensamento não se submete nem à ilusão da representação do mundo, capaz de dominá-lo, nem à desilusão da impotência das palavras diante da sociedade e de suas formas.
Linguagem e dominação
A recepção do livro de Ianni se concentra em torno dos problemas da comunicação, da figura do “príncipe eletrônico” (cap. VI) e do par modernidade e pós-modernidade, caracterizados, no capítulo X (de XII), como “estilos de pensamento”. Em resumo, seria possível dizer que a principal questão a partir da qual o livro é lido em sua fortuna crítica é a da relação entre linguagem, dominação e crítica em suas transformações contemporâneas.
Em “O príncipe eletrônico” (cap. VI), o autor retorna a Maquiavel e Gramsci para armar uma perspectiva histórica a partir da qual ler as dinâmicas de construção de soberania e hegemonia que traduzem o social no político e sustentam a comunidade política moderna. O problema é colocado para a discussão dos sistemas de comunicação contemporâneos, com destaque para a televisão e, menos diretamente, para a internet da maneira como vinha se estruturando até ali.
Lendo o texto em 2026, é impossível não sentir o efeito da rotação da modernidade-mundo quando, no trecho citado de uma fala do presidente da Nestlé Coordination Center for Nutrition, lemos que “precisamos afirmar o pluralismo e a diversidade da condição humana, um exemplo que é dado pela democracia tanto quanto pelo livre mercado de mercadorias e idéias” (apud Ianni, 2003: 151). A fala de 1983, contra os “detratores do capitalismo multinacional”, chama atenção num contexto em que os detentores de empresas de redes sociais como o X e a Meta, meios de comunicação que desafiam a lógica da transmissão de massa pela agência dos algoritmos, se aliam a um governo autocrático em seu país-sede, numa afirmação aberta do imperialismo contra a regulação de sua atividade nos países consumidores.
O caso ilustra a dinâmica observada por Jorge Chaloub em uma de suas respostas ao simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?, publicado nesta BVPS, segundo a qual os discursos de legitimação da ordem capitalista no pós-1945 passam de uma naturalização das relações entre capitalismo e democracia, construída ao longo da Guerra Fria, à tensão explícita entre eles, na forma de utopias autoritárias fascistas, aceleracionistas ou anarcocapitalistas. É como se, entre as décadas que nos separam de Ianni e as que o separam daquele burguês, a autocracia tivesse saído da sombra, tornando a defesa pública de valores como a pluralidade e a democracia algo desnecessário para legitimar a dominação de classe.
Ao mesmo tempo, e aí está algo do que podemos aprender com a dinâmica contrapontística do pensamento de Ianni, é na “ágora eletrônica, na qual muitos navegam, naufragam ou flutuam, buscando salvar-se” (Ianni, 2003: 166) que Rick Azevedo, um então atendente de farmácia de 29 anos, postou, em 2023, um vídeo criticando a escala 6 × 1. A performance deu início ao Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), organização que, em aliança com o mandato da deputada Erika Hilton e o governo federal, mobilizou a redução constitucional da jornada de trabalho aprovada na Câmara e atualmente sob análise do Senado Federal.
Fabulação e crítica
O problema da linguagem, que atravessa todo o livro performativa e tematicamente, é tratado de maneira mais direta em “Razão e imaginação” (cap. VII), no qual o movimento entre ciência e arte é desenvolvido por meio da relação entre sociologia e literatura. A exploração começa pela afinidade entre as duas práticas, já que, para começo de conversa, muitas vezes ambas se dedicam aos mesmos enigmas. Além disso, o autor lembra que faz parte da atividade sociológica elaborar tipos, imagens, personagens e metáforas para produzir interpretações e explicações, o que é dizer o mesmo que uma teoria do social produz uma figuração do social (enquanto uma figuração do social pode produzir teoria). Mas o ponto alto do ensaio está numa citação de Marx, retirada do primeiro volume d’O Capital, que, de certa forma, codifica a sofisticação teórica que permite a Ianni ver a sociedade, historicamente, em sua estrutura e em suas desigualdades, ao mesmo tempo em que afirma que “o mundo pode ser lido como um texto, uma imensa e babélica narrativa” (Ianni, 2003: 115 [cap. IV, “Transculturação”]). Diz o velho leitor de Goethe e Balzac, citado pelo professor paulista:
A realidade nunca aparece na interpretação, a não ser figurada e significativamente, por suas articulações, nexos e tensões, que não se dão empiricamente. São articulações, nexos e tensões que se depreendem ou constroem logicamente. É, sem dúvida, necessário distinguir o método de exposição formal, do método de pesquisa. A pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real (Marx apud Ianni, 2003: 173).
Na discussão sobre a linguagem entre razão e imaginação, para além da relação entre sociologia e literatura, o que Ianni dá a ver é a tensão entre produção e apresentação, que está na raiz de todo processo de conhecimento. Quer dizer que a reflexão sobre a dimensão estético-expositiva da sociologia é condição de possibilidade de sua comunicação e, portanto, de sua existência. Essa problematização não é o capricho beletrista de um sociólogo que gosta de literatura, por uma idiossincrasia ou gosto pessoal. Ela é a possibilidade da crítica de uma condição estrutural do pensamento que atinge a sociologia toda, seja ela feita por literatos ou não, e que os primeiros apenas veem mais imediatamente (por terem, potencialmente, maior consciência da mediação). O caso analisado pelo sociólogo para desenvolver a ideia é o da formalização da relação entre ética protestante e “espírito” do capitalismo em Max Weber e Thomas Mann, apontando para as afinidades entre o livro clássico das ciências sociais e o romance Os Buddenbrook (1901). Mas, hoje em dia, me parece que, tão importante quanto a discussão sobre os potenciais cognitivos da literatura e figurativos da sociologia, é desdobrar o debate que Ianni faz da ideia de fabulação e de seu entrelaçamento com os problemas da memória e da questão nacional.
Se “a história da sociologia pode ser vista como a história de uma extensa reflexão sobre a questão nacional” (Ianni, 2003: 174), e se a disciplina tem uma dimensão narrativa que fabula imagens, categorias e conceitos no âmbito dessa reflexão, é impossível dar sequência ao pensamento de Enigmas da modernidade-mundo sem falar da crítica contemporânea dos princípios de unidade e pureza que, em última análise, organizam muitas das ideias de nação dos últimos dois séculos. Uma dessas críticas, afinada com a lógica dos cultural studies, pode ser lida na obra da autora estadunidense Saidiya Hartman em torno do método da fabulação crítica, proposto num outro livro de fragmentos relativamente independentes, constitutivos de um todo em movimento: Vidas rebeldes, belos experimentos ([2019] 2022).
Muito resumidamente, a nota metodológica lançada por Hartman na introdução desse livro defende a fabulação crítica como forma de escrita sobre vidas que existiram contra a sociedade e a cultura e, por isso mesmo, foram apagadas dos arquivos ou tiveram sua existência registrada por registros disciplinadores, como procedimentos policiais, autos de ações de despejo e outras formas de despossessão. Segundo ela, o compromisso ético com essas vidas contra-hegemônicas exigiria um suplemento de imaginação, construído sobre a empiria do arquivo em seus signos e silêncios, a fim de tornar possível a narrativa, ainda que fragmentada, de histórias que a sociedade escolheu recalcar.
Não é necessário dizer da desconfiança com que a proposição foi e é recebida por uma tendência (assumidamente ou não) neopositivista das ciências sociais, embora o problema da objetividade não seja deixado de lado por perspectivas como a de Hartman, muito pelo contrário. Mas o que me parece que pode surgir do encontro dessa discussão mais recente com o enigma de Ianni é uma postura mais geral, segundo a qual a narração sempre implica escolhas que guardam uma tensão com o método da pesquisa e sua diferença em relação ao método da exposição formal. Isso quer dizer que, reforçando ou contrariando a ideia hegemônica de nação com que dialoga, o sociólogo é responsável pela figura de sociedade que produz – esteja ela articulada a partir da perspectiva dos dominantes ou da dos dominados. A fabulação crítica, então, não é uma escolha metodológica que pode ou não ser feita pelo analista como quem elege uma ou outra ferramenta na hora de consertar um chuveiro. Se quem explica narra e quem compreende imagina, a fabulação (crítica ou não) é condição de um pensamento que se sabe inacabado diante da opacidade do mundo, esse enigma.
Modernidade e pós-modernidade
O terceiro entre os capítulos mais referidos pela crítica – e que fornece outra chave de leitura geral do livro – é “Estilos de pensamento” (capítulo X), sobre o par modernidade e pós-modernidade. No texto, essas são “duas formas de pensar, sentir, imaginar e narrar” que configuram o debate sobre a relação entre linguagem e tempos modernos. A diferença básica é que, “no âmbito da modernidade”, a linguagem “supõe a representação, a mímesis”. Já na pós-modernidade, “que se desenvolve cada vez mais desde fins do século XIX […], a linguagem como que se descola do real, liberta-se da ideia ou ilusão da representação, abandonando a mímesis” (Ianni, 2003: 235-236). Mais que escolas ou tradições intelectuais, então, essas são formas trabalhadas em “contraponto” por um pensador que não abre mão, a priori, de nenhum recurso intelectual disponível à interpretação de seus problemas.
Assim é que o pensamento de Ianni pode tentar combinar aspectos do estilo moderno, como o “compromisso com a razão e a emancipação” e a mobilização de signos como a “liberdade, igualdade e fraternidade; governo do povo, para o povo e pelo povo; revolução e redenção; trabalho e desalienação; solidariedade e humanidade” (Ianni, 2003: 238), junto à forma “fragmentári[a], descontínu[a], desenraizad[a]” do discurso pós-moderno, que analisa a linguagem como modo de acessar o social. Daí que um pensador historicamente ligado ao marxismo e à tradição da chamada Escola Sociológica Paulista, para lembrar o trabalho clássico de Elide Rugai Bastos (2001), possa escrever um livro em que, novamente, “o mundo pode ser lido como um texto, uma imensa e babélica narrativa” (Ianni, 2003: 115).
Dessa forma, a partir da diferença e da interação entre os estilos moderno e pós-moderno, Ianni cria uma composição entre marxismo e pós-estruturalismo que interpela o nosso tempo, desorganizando as brigas de torcida (muitas vezes movidas por interesses comerciais editoriais) em que temos nos encontrado. Nesse projeto, a posição periférica e dependente exige uma teorização criativa que rompa com o dogmatismo e o nacionalismo metodológico em favor de um cosmopolitismo que “acena para a terceira margem do rio” (Ianni, 2003: 239). Não à toa, são autores de um marxismo periférico, como Antonio Gramsci, Mikhail Bakhtin e Lev Vygotsky, que aparecem com especial destaque nesse gesto teórico de atenção à forma e à dinâmica dos atos de discurso em sua fina relação com as desigualdades e dominações que estruturam a experiência moderna, do cotidiano à geopolítica do conhecimento.
Para fechar, na orelha da edição de 2003 de Enigmas da modernidade-mundo, Carlos Nelson Coutinho elogia o “livro-síntese” de Ianni por sua “visão universalista”, que foge dos “apressados diagnósticos dos chamados pós-modernos” e se opõe a “uma visão fragmentada e empobrecida do real”. Me parece, no entanto, que a principal contribuição do livro de Ianni é outra: nele, as dicotomias são muito menos substantivas do que instrumentais, no sentido de capturar um movimento mais do que descrever instâncias ontologicamente distintas do real. A síntese, então, é muito menos importante que as tensões e conflitos que configuram um campo de forças que formam, sem conseguir domesticar, a modernidade. Quer dizer que, da mesma maneira que moderno e pós-moderno são estilos mobilizados em contraponto numa composição perspectivista dos problemas abordados, a relação entre fragmento e totalidade, aqui, não é de oposição. O universalismo – e, por que não, o humanismo de Ianni partem da composição de perspectivas inacabadas e fragmentárias na tentativa de compreender e explicar a máquina da modernidade-mundo, que se desencanta e reencanta por uma mesma linguagem. Aquela encarnada na prática e na tarefa que herdamos do professor nascido em Itu, onde até as coisas aparentemente pequenas são, na verdade, grandes: a de fazer, na periferia do capitalismo, uma sociologia crítica (esse enigma).
Referências
BASTOS, Elide Rugai. (2002). Pensamento social da Escola Sociológica Paulista. In: MICELI, Sergio (Org.). O que ler na ciência social brasileira, 1970-2002. v. 4. São Paulo: ANPOCS; Sumaré; Brasília: CAPES.
CHALOUB, Jorge. Respostas ao Simpósio Internacional “Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?”. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social. Rio de Janeiro, 3 de jun. 2026. Disponível em: https://blogbvps.com/2026/06/03/bvps-simposio-internacional-capitalismo-e-autoritarismo-o-que-fazer-2/. Acesso em: 30 jun. 2026.
HARTMAN, Saidiya. (2022). Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo.
IANNI, Octavio. (2003). Enigmas da modernidade-mundo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Sobre o autor
Lucas van Hombeeck é doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ). Atualmente é professor substituto do Departamento de Sociologia da UFRJ e editor assistente da revista Sociologia & Antropologia.
