BVPS Acervo: escolher a democracia | A receita para virar: a reação da sociedade nas ruas e nas redes e a votação do fim da escala 6 x 1, por Josué Medeiros

Escolher a democracia passa pela votação do fim da escala 6×1. Nesta quarta-feira (14), o Senado Federal decide uma pauta que pode mudar a vida de milhões de trabalhadores e que está no centro da disputa pela democracia.

Em texto inédito escrito para compor a série BVPS Acervo: escolher a democracia, Josué Medeiros (UFRJ) mostra como a atual mobilização popular ajuda a manter a disputa aberta e como a votação por uma nova escala de trabalho pode ser um fator novo capaz de mudar o cenário das eleições, porque a grande política e a pequena política se encontram amanhã.


A receita para virar: a reação da sociedade nas ruas e nas redes e a votação do fim da escala 6 x 1

Josué Medeiros (UFRJ)

O resultado do primeiro turno foi desastroso para a democracia brasileira. Além da liderança de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, as urnas confirmaram a força da extrema-direita, que conquistou a maior bancada da Câmara dos Deputados em 40 anos e ampliou sua presença no Senado Federal. Não restam dúvidas de que o sentimento de mudança que mobilizou parte significativa do eleitorado foi capturado pelo bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, porém, as urnas também confirmaram a polarização da disputa e a resiliência de Lula. A onda bolsonarista da reta final — já esperada à luz do padrão observado nas eleições de 2018 e 2022 — não foi suficiente para encerrar a disputa no último dia 4 de outubro em favor de Flávio Bolsonaro. Lula segue sendo a maior liderança popular do país e a principal força política capaz de frear o avanço da extrema-direita no Brasil.

A combinação dessas dinâmicas — o sentimento de mudança, a polarização, a força da extrema-direita e a resiliência de Lula — permite vislumbrar uma virada na disputa presidencial. Diante de uma diferença tão estreita de votos, essa virada depende de dois eixos complementares: a reação da sociedade e a capacidade da campanha de produzir fatos novos. É nesse cenário que a mobilização social, nas ruas e nas redes, e a proposta de fim da escala 6 x 1 ganham centralidade na disputa eleitoral.

A reação da sociedade e a ocupação das ruas e das redes

A ocupação massiva das ruas nas capitais e nas grandes cidades brasileiras, acompanhada pela mobilização nas redes, foi o primeiro e importante fato novo da disputa eleitoral. Sua relevância é ainda maior porque essa reação foi espontânea, sem depender de um comando partidário centralizado, e se disseminou por todo o território nacional, mobilizando diferentes perfis e redes de ativismo digital, tais como o “exército de Lula” e a nova geração de parlamentares de esquerda com amplo domínio do algoritimo.

Embora parte da grande imprensa venha tratando a ofensiva política e social contra uma possível vitória de Flávio Bolsonaro como uma “campanha do medo”, é nítido que a ocupação das ruas e das redes também projeta um sentido de esperança: a possibilidade de construir um Brasil mais justo e solidário. A mobilização, portanto, vai além da rejeição e das denúncias sobre o que representaria um novo governo de extrema-direita no país. A imagem de uma criança em um ato bolsonarista portando uma arma, confrontada com a de outra criança em um ato pela democracia e a favor de Lula segurando um livro, expressa essa dupla dinâmica da ocupação das ruas e das redes: de um lado, o medo e a ameaça; de outro, a esperança e a defesa da democracia.

Algumas pessoas questionam a eficácia desse tipo de mobilização física e digital, temendo que nenhuma das duas consiga “furar a bolha”. Entretanto, as primeiras pesquisas de intenção de voto indicam que a reação da sociedade já pode estar produzindo efeitos eleitorais, contribuindo para manter Flávio Bolsonaro próximo de Lula na disputa. Isso porque, no início do segundo turno, é comum que o candidato que terminou o primeiro turno à frente e conseguiu criar uma onda favorável amplie sua vantagem na primeira semana, quando a campanha ainda não foi plenamente retomada.

O cenário atual, contudo, aponta para uma vantagem estreita do candidato bolsonarista, que começou na faixa de 52% a 53% dos votos válidos, contra 47% a 48% de Lula, e que nessa segunda semana já reduziu para a faixa dos 51% a 52% dos votos válidos para Flávio contra 49% a 48% de Lula. Trata-se, portanto, de uma diferença que já está diminuindo e que pode ser revertida a partir de um fato novo produzido pela campanha de Lula.

A votação do fim da escala 6 x 1

A votação, pelo Senado Federal, prevista para o dia 14 de outubro, de uma proposta de mudança no regime de trabalho das pessoas contratadas pela CLT representa, em um só movimento, uma oportunidade de dialogar com o sentimento de mudança e de produzir um fato novo na disputa eleitoral. Até o momento, a capacidade da extrema-direita de mobilizar esse sentimento tem se apoiado na exploração do caos institucional, especialmente em torno do STF, e do mal-estar da população com suas condições de vida. Flávio Bolsonaro, entretanto, ainda não apresentou uma grande proposta capaz de pautar o debate político.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu conduzir uma campanha sem precisar responder a questionamentos mais incisivos, sem ser confrontado sobre suas propostas e seu programa de governo e sem ter de enfrentar um debate mais aprofundado sobre o legado da gestão de seu pai. Tudo isso muda no segundo turno, quando se abre espaço para uma estratégia que explore a rejeição a partir de fatos concretos: as condições de vida da população pioraram durante o governo Jair Bolsonaro em diferentes áreas. Esse balanço teve pouca centralidade na campanha do primeiro turno. Se uma parcela expressiva do eleitorado manifestou um sentimento de mudança, parte da disputa consiste em mostrar que, sob Flávio Bolsonaro, essa mudança pode significar um agravamento das condições de vida. E há elementos concretos da experiência recente do país que permitem sustentar esse argumento.

Entretanto, apenas intensificar a rejeição ao filho de Bolsonaro pode não ser suficiente. É preciso apresentar propostas capazes de produzir mudanças concretas. Por estar no governo, Lula tem o ônus de não poder fazer promessas sem demonstrar como pretende realizá-las. Por outro lado, tem a vantagem de poder transformar compromissos em ações concretas. Foi o que ocorreu com as medidas de restrição às apostas eletrônicas, as chamadas bets, embora o alcance e os efeitos dessas medidas precisem ser distinguidos do debate mais amplo sobre o apoio popular à regulação do setor.

O mesmo raciocínio se aplica à votação da proposta de fim da escala 6 x 1 pelo Senado, qualquer que seja o resultado. Pesquisas de opinião citadas no debate público indicam apoio expressivo à mudança, que chegaria a 70% da população e a 80% entre as pessoas em idade de trabalhar, excluídos aposentados e jovens que ainda não ingressaram no mercado de trabalho. A defesa de uma jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial, não se explica apenas por seus possíveis efeitos econômicos. Ela envolve, sobretudo, a conquista de tempo livre e as possibilidades de melhoria da qualidade de vida: mais descanso e lazer, mais tempo com a família, mais disponibilidade para cuidar da saúde e mais oportunidades de investir na própria formação e capacitação.

Caso a maioria dos senadores aprove a proposta de fim da escala 6 x 1, Lula poderá apresentar um exemplo concreto de mudança nas condições de vida que seu governo apoiou ou ajudou a viabilizar. Caso a proposta seja rejeitada, a votação poderá evidenciar a resistência de setores políticos à mudança nas relações de trabalho e abrir uma disputa pública sobre a responsabilidade dos parlamentares e das forças políticas envolvidas. Uma eventual derrota da proposta seria profundamente frustrante para milhões de brasileiras e brasileiros que reivindicam melhores condições de trabalho e mais tempo para viver. Seus efeitos políticos, contudo, dependerão de como esse resultado será interpretado pela sociedade e disputado pelas campanhas.

Pequena e Grande Política

Aliás, muitas pessoas têm perguntado por que Davi Alcolumbre vai colocar em votação o fim da escala 6 x 1. É aqui que se encontram o que Antonio Gramsci chamava de grande política e pequena política. Alcolumbre foi um dos grandes derrotados do primeiro turno. Seus aliados perderam o governo e uma das vagas do Senado no Amapá para o bolsonarismo. Ao mesmo tempo, ele viu a bancada bolsonarista crescer a ponto de ameaçar sua posição de comando no Senado.

Alcolumbre errou grosseiramente ao não colocar em votação a PEC do fim da escala 6 x 1 ainda no primeiro turno. Esse erro retirou uma bandeira importante da campanha de diversos senadores que tentavam a reeleição e acabaram derrotados. Pior: ao não viabilizar uma medida concreta capaz de pautar o debate eleitoral, permitiu que o bolsonarismo transformasse a disputa pelo Senado em um plebiscito sobre o STF. Enquanto a extrema-direita mobilizava eleitores contra Alexandre de Moraes e o Supremo, a direita tradicional e parte da esquerda ficaram sem uma agenda propositiva com força equivalente. A votação do fim da escala 6 x 1 poderia ter equilibrado esse jogo e contribuído para preservar algumas das cadeiras perdidas.

Em suma, a sobrevivência política de Alcolumbre depende, em alguma medida, da continuidade de um governo Lula capaz de conter o avanço do bolsonarismo. Se, para a campanha do presidente da República, a votação do fim da escala 6 x 1 representa um elemento estratégico da grande política, por sua capacidade de conectar a democracia às demandas concretas da população, para Alcolumbre ela também pode representar uma questão de sobrevivência política, no terreno da pequena política.

É preciso, portanto, preservar a energia das ruas e das redes que se organizou após o resultado do 1º turno e direcioná-la nos dias 13 e 14 de outubro para a votação do fim da escala 6 x 1.

Esse será o fato novo capaz de conectar Lula ao sentimento de mudança e trazer para o centro da disputa eleitoral uma proposta concreta de melhoria das condições de vida, ao mesmo tempo que obriga Flávio Bolsonaro e seus aliados a se posicionarem diante de uma demanda popular de grande alcance.


Sobre o autor

Josué Medeiros é cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS-UFRRJ. Coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL).