BVPS Acervo: escolher a democracia | Da borduna ao pincel, por Alcida Rita Ramos

Republicamos texto de Alcida Rita Ramos (UnB) sobre as transformações nas atitudes e nas estratégias da luta indígena por reconhecimento e respeito. O ensaio foi publicado originalmente em 2024, na coluna Desassossegos, e agora se junta à ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia.

Se, no passado, as bordunas e os arcos eram os instrumentos de resistência, hoje essa luta se amplia com câmeras e pincéis, que ressignificam a presença indígena nos campos cultural e político. Apesar das ambiguidades e contradições do que se convencionou chamar de “era digital”, é fato que os povos indígenas também ampliaram suas possibilidades de resistência e afirmação identitária, com artistas protagonizando uma nova fase de “demarcação das telas”. Dessa forma, Alcida nos relembra três aspectos importantes: que o Brasil é vasto, que as violências e as resistências são múltiplas e que, sobretudo, ainda vale a pena acreditar e lutar pela democracia, como tão aguerridamente fazem os povos indígenas.

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Da borduna ao pincel

Por Alcida Rita Ramos (UnB)

Quando Bruce Albert e eu decidimos organizar uma coletânea sobre a visão indígena das ações destrutivas que lhes chegavam em ondas de invasores, fomos movidos pela frustração de não podermos voltar à Terra Indígena Yanomami, proibidos que estávamos, principalmente pela ala militar que, no auge da corrida do ouro na virada dos anos 90, ainda dominava a Amazônia. Já que não podíamos estar no campo, o melhor era escrever sobre o penoso tema da invasão “branca” que assolava aquela imensa região. O resultado é o livro Pacificando o Branco: Cosmologias do contato no Norte-Amazônico, publicado em 2000 pela Editora Unesp. Na introdução, diz Bruce: “O campo geográfico e etnográfico recortado na coletânea é a região norte-amazônica, palco do Projeto Calha Norte, réplica tardia do modelo de desenvolvimento característico dos regimes militares” (p. 11).

A ênfase dos 17 capítulos que compõem o volume está na reação indígena a essas investidas, seja pela introdução de doenças, crenças e objetos, seja pela própria presença dos colonizadores. Diante da impossibilidade de barrar tais intrusões, povos indígenas de distintas etnias e histórias mobilizavam recursos próprios para se proteger dos males advindos do contato caótico. Revelando estratégias das mais variadas como, por exemplo, a cura preventiva de objetos alienígenas, tornando-os seguros para uso nas aldeias (p. 51), ou seja, a “domesticação dos objetos industriais” (p. 71), ou as fugas do “branco canibal” em tempos coloniais (p. 500).

Pacificando o Branco dedica-se a explorar os recursos indígenas de proteção contra o jugo dos dominadores. São dispositivos, digamos, para uso interno, só conhecidos pelos próprios indígenas e que só têm sentido para eles. Tais procedimentos não são dirigidos ao agressor, que, via de regra, nem chega a saber que existem. Há, porém, outros caminhos de defesa, esses, sim, intencionalmente orientados aos “inimigos”. São mecanismos de rechaço explícito ou de convencimento via educação e arte que não podem ser ignorados. Como contraponto àquela coletânea, voltada, digamos, para dentro, propus-me organizar um seminário que mostrasse a outra face da autodefesa indígena, ou seja, o confronto, seja agressivo, seja persuasivo. O seminário, Do tacape ao vídeo, teve lugar no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília nos dias 29 e 30 de maio de 1996. Participaram pesquisadores do México, do ISA, da USP, da UnB e da UNICAMP, incluindo o saudoso John Monteiro. O denominador comum das oito apresentações foi a questão dos direitos à terra e como povos no Brasil e no México enfrentavam invasões e resistiam à depredação e desapropriação de seus modos de vida. Por uma série de razões fora do meu controle, o seminário nunca foi publicado. No entanto, continuo interessada no tema e acompanho, fascinada, as transformações nas atitudes, estratégias e resultados da perene luta indígena por reconhecimento e respeito.

Nos anos 70, as Assembleias Indígenas promovidas pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) mostraram-nos com que timidez e receio indígenas do Nordeste, do Norte, do Centro-Oeste começavam a sair da invisibilidade centenária que encobria sua dolorosa caminhada pela estrada da dominação. Alguns se surpreendiam ao ver que não eram os únicos caminhantes e se regozijavam ao se comparar com outros tantos indígenas anônimos, abatidos por abusos centenários que, de repente, vinham à tona.

No fim dos anos 80, com a debilidade da ditadura militar e a grande efervescência da Assembleia Constituinte, aqueles invisíveis do Nordeste, do Norte, do Centro-Oeste, fortalecidos no processo de conscientização, desceram em massa a Brasília para ocupar o Congresso Nacional, paramentados comme il faut para delírio dos jornalistas, monitorando os movimentos dos políticos e exigindo que observassem aos seus direitos. À frente, os Kayapó. Descendentes dos famosos guerreiros que, com bordunas e armadilhas, mantiveram castanheiros invasores à distância até os anos 50, esses homens e mulheres agora usavam sua presença imponente e numerosa como arma de defesa.

Borduna Kayapó

Com a experiência malograda do confronto bélico dos seus antepassados contra o cerco cada vez mais fechado da colonização, os Kayapó e tantos outros povos indígenas que, no dizer dos detratores, impediam o Brasil de se desenvolver, a inventividade indígena descobriu ferramentas não letais com muito maior rendimento na sua luta por direitos que a lei brasileira lhes garante. A oratória em lugares públicos levou à fama alguns líderes indígenas. Desses, destacou-se o Xavante Mário Juruna que, com seu famoso gravador, registrou muitas promessas vãs de políticos inescrupulosos (se me permitem o pleonasmo).

Nos anos 90, veio o vídeo. Passando suavemente da oralidade para a imagem, indígenas de diversos povos atiraram-se à fotografia e ao filme como guerreiros pegavam em bordunas e arco-e-flecha para autodefesa. O projeto Vídeo nas Aldeias, de 1986, teve impacto semelhante ao das Assembleias Indígenas do CIMI. O despertar de vocações artísticas veio acompanhado da consciência da justiça étnica. Filmaram-se rituais, trabalho na roça, na pesca e na caça, na construção de casas, no ofício dos artesãos, na socialização de crianças e nos encontros e desencontros com forasteiros. Criou-se um acervo de recursos culturais e políticos produzido pelos próprios indígenas como nunca houve antes.

Com a brilhante iniciativa de criar o projeto Vídeo nas aldeias, o cinegrafista Vincent Carelli, juntamente com a indigenista Virgínia Valadão e outros colegas, abriu uma arca de tesouro, até então escondida dos olhos indígenas. O objetivo foi fortalecer a sua identidade, formando diretores que, com pontos de vista próprios, enfatizavam aspectos que julgavam importantes e que nem sempre eram capturados por cineastas forasteiros. No catálogo de 2000, o projeto contava com 23 filmes realizados por indígenas.

Catálogo 2000

Uma das primeiras pessoas indígenas a usar uma câmera de vídeo pertence ao aguerrido povo Kayapó. Seu etnógrafo mais conhecido, Terence Turner, enfatizou o aspecto da resistência cultural, mas não perdeu a oportunidade para criticar um certo tipo de cientistas sociais, ao dizer que os vídeos indígenas “ajudam a expor o triunfalismo gratuito ocidental e o etnocentrismo implícito em muito daquilo que atualmente passa por crítica da representação na antropologia e nos estudos sociais” (artigo na coletânea Indigenous movements, self-representation, and the state in Latin América, 2002, p. 232). Sim, ao se apropriar dessa potente ferramenta dos brancos, os indígenas matam uma série de coelhos interétnicos de uma só vez e nos ajudam, antropólogos indignados, a descartar de um golpe algumas ideias fixas sem data de validade.

Não demorou muito para que o interesse indígena no vídeo se ampliasse para gerar o gênero cinema indígena. Com a perspicácia que o caracteriza, Ailton Krenak associa a luta pela terra à produção cinematográfica. Chama a essa nova ocupação “demarcação das telas” e, assim, marca o duplo terreno étnico e político que move esses artistas: retomada de territórios e tomada de cenas da vida indígena. A última década trouxe aos olhos e às consciências nacionais a arte cênica de dezenas de mulheres e homens que, de câmera em punho, desvelam mundos que as etnografias, escritas com suor e lágrimas, raramente conseguem divulgar fora dos muros da academia. De norte a sul do Brasil, membros de distintas etnias abordam temas internos às suas culturas e outros ligados à defesa de seus direitos. Uma longa lista inclui cinegrafistas Awá-Guajá, Kaingang. Kisedje, Kuikuro, Maxacali, Mbya Guarani e Yanomami. Numa fração de segundo, se contarmos a longa duração do contato interétnico, com vivacidade e sagacidade invejáveis, os indígenas identificaram o potencial de certos dispositivos alheios às suas tradições, adotaram-nos e domesticaram-nos à sua imagem e propósito.

Folha de S. Paulo, 13/06/1998

Chegamos ao século XXI vendo os indígenas se apropriarem de mais um aparato da cultura ocidental: as artes plásticas. Um panteão de artistas invade as exposições de pequenos e grandes museus e galerias nacionais e estrangeiras. Jaider Esbell, o Macuxi que encantou o mundo com seus quadros impactantes, e não resistiu ao lado escuro da fama ‒ o assédio; Carmézia Emiliano, também Macuxi, pintora desde 1996, que dá vida à filigrana cultural do mundo indígena com sua arte classificada como naïf; Aislan Pankararu, o médico que trocou a medicina pelo pincel, revelando magníficas paisagens culturais da sua tradição Pankararu; Daira Tukano, a genial muralista que conheci menina, filha de mãe antropóloga e de um pai Tukano que enfrentou desafios inenarráveis, imerso no movimento indígena nos momentos mais angustiantes do indigenismo contemporâneo. E, aderindo ao desenho como instrumento de divulgação e afirmação étnica, Joseca Yanomami, que expõe em poucos traços e muita cor o que muitos dos nossos escritos acadêmicos tentaram e não conseguiram: a admiração incondicional pela vivacidade e riqueza poética do seu povo.

Capa do livro A árvore da vida

Escrever sobre toda essa pujança artística e lhe fazer justiça é tarefa impossível. Todos esses artistas tiveram suas obras expostas no Brasil e no exterior. Seja pela busca espúria do exótico ‒ como ocorreu com muito da arte africana na Europa na virada do século XX ‒, seja pela genuína surpresa de encontrar tão belas artes entre os nativos, o sucesso dessas obras repete-se a cada exposição, a cada catálogo, a cada viagem. Cores, motivos, cenários, composições criam mundos próprios que contrastam com a visão domesticada das belas artes europeias e que estendem uma ponte à vanguarda não indígena.

A era digital abriu ainda mais o campo já quase ilimitado dos artistas indígenas, cujo talento é sempre aplicado a promover seus modos de vida, tocando a sensibilidade da sociedade que os rodeia e que, ignorante do manancial de sabedoria que contêm, insiste em desrespeitar os direitos que protegem esses modos de vida. O vídeo, o pincel e agora o livro digital substituíram com vantagem a borduna e a flecha ao mudarem o alvo para a conquista dos sentidos do observador. Destaco dois exemplos. Um é o livro digital Teatro e os povos indígenas: Janelas abertas para a possibilidade, escrito por 21 indígenas, dentre os quais, Naine Terena, João Paulo Barreto Yepamahsã e e Juão Nyn Potiguara, além de Luiz Davi Vieira Gonçalves, professor da Universidade do Estado do Amazonas. É, como diz a apresentação do livro, “uma produção inquieta de arte, pesquisa e encontros para a sobrevivência física e cultural”.

O outro livro digital também traz uma peça de teatro: TYBYRA: Uma Tragédia Indígena Brasileira (Teatro de Retomada). É escrito por Juão Nyn (Potiguara), ilustrado por Denilson Baniwa, com prólogo de Eliane Potiguara e edição de Daniel Minchoni, diretor de arte. A história é potente e, embora se passe no século XVI ou XVII, tem uma atualidade avassaladora. Diz a apresentação do livro: “Preso à boca de um Canhão, prestes a ser executado por sodomia por soldados franceses, Tybyra, Indígena Tupinambá, relembra a própria vida e propaga suas últimas palavras como se, depois de relâmpagos, o som dos trovões saísse de sua boca”. Juão Nyn, o diretor, enfrenta um dos problemas atuais mais gritantes ‒ o preconceito contra a homossexualidade. Há certa curiosidade sobre se ela existe entre indígenas, assunto sobre a qual a antropologia emudece. Juão Nyn, pela via artística, aborda-o com tal dramaticidade que faz calar os mais empedernidos detratores.

“E são os sonhos de poder que mostram o caminho que devemos seguir”

– Sibupá Xavante


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