
Como a experiência pessoal e a política se encontram? Numa espécie de auto-etnografia, o antropólogo Luis Felipe Kojima Hirano recupera a tensão do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, que opôs as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Qual o destino do casamento intenso entre mobilização das redes sociais e das ruas?
Entre o temor diante do avanço da extrema direita e a esperança na força do processo de mobilização popular, a partir de Goiânia, o autor narra seu engajamento e nos faz pensar sobre as tarefas dos intelectuais nesse novo e, talvez, admirável mundo novo que estamos protagonizando e se abre à nossa frente. Que o relato de um jovem, embora já experiente cientista social, nos aqueça e alimente a esperança.
Boa leitura!
Diário do 2º turno das eleições presidenciais de 2026: as três semanas mais importantes das nossas vidas
Por Luis Felipe Kojima Hirano (UFG)
Dia 4 de outubro – #vaisernoprimeiroturno
Era a primeira vez que votava em Goiânia. Nas eleições anteriores, retornei a São Paulo para cumprir meu dever cívico. Neste ano, sabendo que as eleições seriam apertadas, fiz uma campanha entre colegas para transferirem o título para cá, ou fazerem voto em trânsito. No 1º turno, no colégio eleitoral e nas ruas, não havia tantas pessoas de verde e amarelo. Era um indício de que, se não fosse vitória no primeiro turno, Lula terminaria à frente de Flávio Bolsonaro.
A apuração foi mais tensa do que eu imaginava… Sabia que o PT sempre começava atrás na apuração, que a virada costumava vir com a abertura das urnas do Nordeste, mas, dessa vez, Lula não avançava e havia o perigo de perder naquele dia.
Às 21 horas, com Flávio à frente no 1º turno, começou a comemoração no Setor Bueno, bairro nobre da cidade. Estava colocando meus filhos de 7 anos para dormir e eles me perguntaram o que estava acontecendo. Eu disse que o Lula estava perdendo e eles ficaram tristes…
As semanas seguintes – #boravirar
Os dias seguintes foram duros. Carregava um sentimento de luto no peito. Havia grandes chances de a extrema-direita dominar os três poderes. O que poderia significar o fim da democracia, das conquistas da Constituição de 1988 e a ascensão do neofascismo nas próximas décadas no Brasil. Ao meu redor, vizinhos com semblante mais alegre desfilavam com a camisa da seleção. No trânsito, começaram a pulular adesivos a favor do Flávio e outros com teor violento contra Lula e o PT. “Nunca na Nova República algum candidato à presidência havia virado no 2º turno” era a frase repetida ad nauseam pelos jornalistas da mídia tradicional. Sabíamos que seria muito difícil ganhar de virada, mas não havia alternativa: ou lutávamos com todas as forças, ou jogávamos a toalha. Entrei no exército do Janones, na tropa da Erika Hilton, passei a seguir todos os canais da campanha do Lula e, em todas as horas vagas, fiquei curtindo, comentando, repostando e reenviando postagens em diferentes redes sociais. Meus dedos cansaram de escrever as hashtags: #boralula, #comlulanarua, #esquerdaedireitacontraobolsonarismo, #justiçaporanaclara, #abreosigiloflávio, #flaviodevolveailhaparaoricharlison, #metanãosemeta, entre outras tantas. Tinha a esperança de furar a bolha e os algoritmos da Meta, X e TikTok. A cada dia, o exército do Janones ganhava milhares de seguidores. Era uma ação inédita no mundo e que seria crucial para a vitória do campo democrático no Brasil.
Eu, que sou uma pessoa muito reservada, que sempre evitei falar de política entre os familiares e conhecidos, passei a procurar todos os meus contatos novos e antigos para virar votos. Tomei coragem e gravei vídeo selfie inspirado pela Ana Elisa, que, com um celular na mão e um fundo sempre amarelo, foi a mulher mais jovem a ser eleita para a Câmara dos Deputados, conquistando “o sonho mais sonhado” de suas ancestrais negras!
A intenção nunca foi ser um influencer, mas, como aprendi nas lives de Janones, cada “soldado do exército do Lula” precisava gravar vídeos para sensibilizar seus seguidores, que são amigos e conhecidos.
Foram três semanas de militância intensiva nas redes e nas ruas, em meio a uma mobilização que crescia a cada dia, fazendo o impossível para tornar possível a virada. Nunca imaginei que a juventude mostraria tamanha força em meio às eleições. Mais do que nunca, vi o quanto nossos esforços como docentes universitários estavam dando frutos. Foram nossas/os alunas/os que primeiro ocuparam as ruas e criaram a onda da virada.
Dia 25 de outubro – #boralula
Acordei com um misto de esperança e temor… Os resultados da maioria dos institutos de pesquisa davam vitória para Flávio. Ao mesmo tempo, via nas redes sociais imagens de pessoas do Brasil inteiro se mobilizando para viajar quilômetros de distância a seus locais de votação e levando avós idosos para apertar o 13 nas urnas. Passei a manhã com a sensação de dever cumprido e com a esperança de ganharmos. Uma rápida olhada nas redes sociais no final da manhã fez retornar todo o receio… Havia muitos relatos de eleitores em Salvador, São Paulo, Belém, Rio de Janeiro, Niterói, Aracaju e João Pessoa, entre outras cidades, com dificuldades para conseguir uma condução para chegar a seus locais de votação, pela falta dos ônibus ou transporte gratuito, que é garantido em lei. Voltei à batalha das redes. Escrevi para amigos nessas cidades, e já estavam organizando caronas solidárias. Mandei denúncias para o Direct de Boulos, Sâmia e Jandira, entre outros deputados do PSOL e do PT.
Foi a tarde de domingo mais agonizante de nossas vidas, entre cards de defesa da extensão do tempo de votação, abaixo-assinados, reclamações na página do TSE e os movimentos erráticos do presidente do TSE, que protelava a decisão. Certo alívio veio com a ampliação do prazo, anunciada em cima da hora. No entanto, chegavam notícias de todos os lados – pelos feeds, pelos grupos de WhatsApp e pelos contatos com amigos mesários – de que as urnas já estavam lacradas, os portões das escolas fechados, e não havia cédulas de papel como último recurso, entre outras informações desencontradas. O comando do exército da Erika Hilton foi incentivar as pessoas a irem votar. Pessoas saíram de carros anunciando a extensão do horário de votação e, nas redes, publicando orientações para quem encontrasse sua seção fechada… Tudo isso sendo feito, em meio à lição de casa dos meus filhos e ao temor de que a eleição fosse melada…
Às 19 horas, a apuração retornou. Incrivelmente, Lula saía na frente; certo alento, mas a ampliação do horário de votação havia embaralhado a apuração, e não dava para se fiar nas apurações anteriores, que tinham começado com o Sul e o Sudeste. Dezesseis minutos depois, comemoração estrondosa em meu bairro: Flávio ultrapassara Lula com pouca margem. O nervosismo voltava, mas os indicadores apontavam para um avanço de Lula em vários colégios eleitorais em relação ao primeiro turno. O dado mais surpreendente vinha justamente de Goiás, berço da UDN, onde Lula registrava seu maior crescimento.
Às 20h27 minutos, das janelas do meu apartamento, eu ouvia uma comemoração mais tímida, acompanhada de xingamentos. Lula estava à frente novamente… Logo depois, o ICL cravou a vitória, em seguida, o Datafolha, até que todos os veículos de comunicação finalmente manchetaram a virada histórica e a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Silêncio sepulcral da vizinhança. Eu, minha companheira e meus filhos comemoramos discretamente, com medo dos bolsonaristas ao redor.
Enfim… Vencemos a eleição e tantos outros poderosos que buscaram interferir em nossa democracia ao redor do mundo. A extrema-direita continua firme e forte… Essas três semanas nos ensinaram que, há tempos, precisamos fazer política de outra forma e cotidianamente: nas redes e nas ruas!
Sobre o autor
Luis Felipe Kojima Hirano é professor de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

É exatamente isso o que também aprendi nesse transe, Luis Felipe: “precisamos fazer política de outra forma e cotidianamente: nas redes e nas ruas!”
Luiz Fernando Dias Duarte, UFRJ