BVPS Edições | A virada | Democracia como resistência, por Maria Arminda do Nascimento Arruda

Em mais um texto da série A virada, a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda (USP) reflete sobre as forças sociais que conferiram impulso renovado à dinâmica política das eleições presidenciais de 2026. A autora concede ênfase ao protagonismo de jovens, mulheres e pessoas idosas, assinalando ainda o papel fundamental das redes sociais digitais e das práticas democráticas.

Para Arruda, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ser entendida como expressão da ação coletiva em defesa das liberdades, dos direitos de cidadania e da justiça social. A imagética de uma primavera política nos convida a pensar a respeito dos sentidos da experiência histórica que vivenciamos e a reconhecer, haja vista o surgimento de novos portadores sociais, os sinais de esperança e de uma possível renovação para o futuro da democracia no Brasil.

Boa leitura!


Democracia como resistência

Por Maria Arminda do Nascimento Arruda

Raramente eleições para a Presidência da República no Brasil — como as realizadas no domingo, 25 de outubro — foram acompanhadas de tanta expectativa. Diria mais: de tanta paixão e tensão, combinadas à sensação de mal-estar diante das incertezas sobre o resultado das urnas. Para as pessoas identificadas com os valores progressistas, a esperança era o antídoto contra o sentimento de sufocamento e contra o aviltamento que parecia anunciar-se no horizonte, pois estavam em questão os rumos civilizatórios do país. No curto período que antecedeu o processo eleitoral, a história brasileira rompeu o marasmo e mergulhou em um ritmo efervescente, cuja intensidade não experimentávamos havia muito. Entraram em cena atores que instituíram um novo campo de significação e alargaram as fronteiras da cena política brasileira, como costuma acontecer em momentos transformadores. As experiências de resistência ao arbítrio da ditadura — ainda revividas após a democratização — gestaram um tecido social amadurecido por práticas democráticas, fortalecidas ao longo das últimas décadas sob o manto da Constituição de 1988. Essas práticas foram, finalmente, responsáveis pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

É consensual afirmar que os movimentos de jovens universitários que ocuparam ruas e avenidas em dezenas de cidades brasileiras criaram um novo mood. Também foi decisivo o papel desempenhado pelas tecnologias de comunicação e pelas redes sociais na construção épica de uma virada eleitoral que as pesquisas mais consagradas não haviam previsto. De fato, não há como negar a importância fundamental dos protestos, que forneceram matéria para a vocalização digital. Todavia, a marca democrática do processo tem origem em uma espécie de consciência dos riscos regressivos que rondavam o país. Essa consciência, tributária da rejeição a uma visão profética do passado, ajuda a explicar a união de atores tão diversos: jovens, mulheres e idosos, que foram os sujeitos mais relevantes. Como entender essa solidariedade, formada no bojo de eventos aparentemente circunstanciais?

Penso ser possível identificar dois pares identitários. De um lado, a juventude, que se insurgiu espontaneamente contra uma candidatura que representava um risco real de retrocesso político em razão de seu perfil autoritário, atuou em sintonia com a comunicação digital, cuja força transformadora também lhe confere dimensões revolucionárias. Ambos os fenômenos expressam, por motivos diversos, um caráter de vanguarda e representam, por isso, projetos voltados para o futuro. De outro lado, mulheres das camadas populares e das classes médias afluentes, juntamente com os idosos, ergueram as bandeiras de um mundo mais equânime e avesso às discriminações. A convergência desses grupos confrontou, por fim, preconceitos de gênero e de idade, revelando a beleza da presença de pessoas mais velhas nas seções eleitorais, algumas em condições surpreendentes. A queda vertiginosa da abstenção revelava desejos de mudança e unia pessoas tão diversas.

Foi nesse contexto que surgiu a homologia entre a reeleição extraordinária de Lula e a metáfora da primavera política, associada às ideias de renascimento e criação. Retoma-se, assim, o léxico que atribui à estação um novo regime de vida, pelo menos desde as revoluções antiabsolutistas de 1848, reconhecidas como época do florescimento dos povos. Não é casual que movimentos de contestação surgidos ao longo dos séculos XX e XXI tenham recebido essa mesma denominação, usada para caracterizar a recusa à opressão e o repúdio às ditaduras, em analogia à estação mais esplendorosa do ano. Naturalmente, há inúmeras diferenças entre a democracia brasileira atual e a realidade das sociedades submetidas a regimes autoritários e opressivos. Aqui, insurgiu-se contra um risco possível; ali, contra uma realidade existente. Ainda assim, importa compreender os desejos subjacentes, expressos em ações abertamente voltadas à defesa da liberdade e dos direitos de cidadania, ameaçados por riscos reais ou projetados. A incorporação da primavera como metáfora das paixões e dos desejos — linguagem recorrente, vale dizer, no cânone da poesia ocidental para expressar o amor — restitui à criação sua qualidade originária. A linguagem poética adquire, então, surpreendentemente, a capacidade de representar de forma viva o sentido transformador da história, presente na ideia da poiesis do mundo.

A lição a reter diz respeito a uma experiência que, uma vez nomeada, nos alivia do fardo da perplexidade e nos distancia do absurdo que nos molestava — quando não da tragédia que se avizinhava e apontava na direção da barbárie civilizatória. É fundamental reconhecer que, no transcurso dessas semanas, novas personagens emergiram no cenário político, capazes de ofuscar lideranças consagradas. Esse movimento é sintoma de uma sociabilidade política que se desprendeu do conforto das burocracias partidárias. Não por acaso, esses representantes surgiram em estados situados fora do centro decisório, como os do Nordeste e Minas Gerais, cujas lideranças emergentes ficaram mais ao abrigo das escolhas políticas centralizadas, emanadas de dirigentes conhecidos. O horizonte anuncia um novo cenário para o futuro, uma vez que um código renovado de atribuição de sentido à política brasileira, no campo do ideário progressista, poderá abrigar novos impulsos vitais.


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