BVPS Edições | A virada | Votação dos 70+ deu visibilidade à velhice dependente, por Jorge Félix

Dando continuidade à série A virada, Jorge Félix (USP) reflete sobre como pessoas idosas, muitas delas dependentes de cuidados e invisibilizadas pela sociedade, deixaram a quietude de seus lares e instituições para exercer seu direito de voto. Sua chegada às urnas, além de decisiva, levanta uma questão fundamental: quem cuida de quem envelhece, e como evitar que a dependência de cuidados seja sinônimo de exclusão social e política?

Partindo do segundo turno da eleição presidencial de 2026, o texto vai além das imagens emocionantes das redes e da mídia tradicional, destacando o poder transformador do cuidado solidário, os limites das políticas públicas e a responsabilidade coletiva de garantir que os direitos de cidadania não tenham idade e nem barreiras.

Boa leitura!


Votação dos 70+ deu visibilidade à velhice dependente

Por Jorge Félix (USP)

Cânulas de traqueostomia, botijões de equipamentos autônomos para respiração, macas hospitalares, andadores, cadeiras de rodas, além de insuficiência renal e cardiovascular, sarcopenias e diversas comorbidades típicas da velhice saíram de seu silêncio residencial ou institucional, no último domingo, e foram votar no segundo turno da eleição presidencial.

As cenas surpreenderam muita gente. Quarenta e oito horas depois da votação, enquanto este texto é redigido, ainda “explodem” nas redes digitais comentários de “heroína!”, “guerreiro!”, “lutou a vida inteira pela democracia!” e por aí vai. Talvez essa seja a herança maior do pleito histórico para um Brasil que envelhece a passos bem mais largos do que essas pessoas idosas podem dar depois de seus 70, 80, 90, 100 anos para chegar às urnas. 

A velhice dependente foi chamada a sair dos aposentos. Ela fez a diferença. Em uma eleição decidida com uma margem de 4,4 milhões de votos, os 17,2 milhões de pessoas idosas com mais de 70 anos, aptas a exercer sua cidadania, tiveram peso inquestionável no resultado daquela que é considerada a eleição mais importante da história.

No primeiro turno, 8,8 milhões de pessoas com 70 anos ou mais, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, compareceram às seções eleitorais. Um aumento de 2,2 milhões de votantes em relação a 2022. No segundo turno, embora ainda sem dados oficiais, a abstenção foi a menor em 20 anos e a participação das pessoas que tinham o direito ao voto facultativo foi ampliada. De 2022 a 2026, houve um crescimento de 15,75% no número de eleitores 70+. Em duas décadas, de 2006 a 2026, o aumento foi de 120%. É o superenvelhecimento batendo à porta da democracia.

O episódio da “virada” com protagonismo dos “mais idosos” suscita, por obrigação, o questionamento óbvio: por que essas pessoas estavam sem votar? Por vontade própria ou por falta de um cuidado específico? É nesse ponto que a situação do eleitor ou eleitora 70+ espelha a crise de cuidado da contemporaneidade com a velhice dependente.

O Brasil tem sido referência na legislação para a garantia da proteção social das pessoas idosas desde a Constituição de 1988, quando pela primeira vez tornou esses indivíduos sujeitos de direitos, até o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), entre outras normas. No entanto, as políticas públicas foram mais direcionadas à velhice independente do que à velhice que carece de cuidados de longa duração por alta complexidade em saúde. A velhice independente, saudável ou ativa também é a preferida da imprensa, da mídia, do cinema, sempre a destacar as novas possibilidades nessa fase da vida, alimentada pela avalanche da auto-ajuda.

Até que, em um domingo de eleição, a velhice marcada por um “pacto de silêncio” atende ao chamado cívico e sai de seu espaço privado para votar. E como isso foi possível? Por enquanto, na ausência de pesquisas, fiquemos com as imagens. O primeiro dado que salta aos olhos em vídeos e fotos é a participação dos homens nesse trabalho que poderíamos chamar de cuidado eleitoral.  Eles, tradicionalmente mais ausentes das tarefas de cuidar, eram os que carregavam pessoas idosas no colo, em cadeiras de rodas, colocavam força para subir escadas em zonas eleitorais sem adaptação para a mobilidade problemática.  Esforço muscular, quase sempre, imposto às mulheres no desempenho do cuidado no ambiente privado.

Os comentaristas de TV, talvez incrustados pela cultura familista da nossa sociedade, deram destaque ao papel de filhos e netos na empreitada nacional de fazer as pessoas mais idosas chegarem ao local de votação. É preciso, porém, relativizar essa exclusividade da família. Em todo o país, houve uma grande mobilização da sociedade civil, vizinhos, ativistas do envelhecimento para oferecer condições de mobilidade para milhões de pessoas idosas que vivem sozinhas. Esse cuidado eleitoral foi, sobretudo, solidário – como deve ser o cuidado no cotidiano.  Essa foi mais uma lição da virada. A sociedade se mobilizou por aplicativos de mensagens para desempenhar esse trabalho. Bateu literalmente na porta de pessoas idosas e perguntou se desejavam receber esse tipo de cuidado. Nem sempre é assim na vida diária.

Em uma eleição marcada também pelo idosismo contra o candidato vitorioso por ter 80 anos, o aparecimento, “de repente”, de tantas pessoas idosas dependentes, mas perfeitamente capazes de viver sua cidadania plena é um alerta. Podemos dizer que essas pessoas estavam invisibilizadas? Ou seria melhor recorrer a François Dubet e sua preferência pelo “desprezo”? A votação de domingo mostra toda a complexidade da sociedade envelhecida. O desespero democrático acendeu um alerta sobre o perigo desse pacto de silêncio promovido pela própria sociedade.

A eleição indicou os desafios de uma Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024) em plena implementação no país. Mostra mesmo o valor gerado por uma economia do cuidado. Desafia a sociedade para iguais mobilizações para as próximas eleições, sob pena de cairmos em uma solidariedade por interesse pontual. Qual seria o dever da Justiça Eleitoral para evitar esse risco? O percentual de eleitores e eleitoras “mais idosos” crescerá cada vez mais com o acelerado envelhecimento da população. É preciso garantir o direito de voto desse segmento, principalmente, daqueles e daquelas que não podem contar com a família. Desprezar esses votos pode ser temerário e, certamente, injusto. Se os jovens podem muito, essa eleição mostrou também que eles não podem sozinhos.


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