BVPS Edições | A virada | Modos de construir coalizões políticas: a vitória em 2022 e a virada de 2026, por Jorge Chaloub

Em mais uma afiada reflexão da série A virada, Jorge Chaloub (UFRJ) se debruça sobre as diferenças entre os processos eleitorais de 2022 e 2026, destacando o papel decisivo das mobilizações populares, descentralizadas e diversas, nas ruas e nas redes sociais digitais, para a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo, 25 de outubro.

A despeito das decisões de altas cúpulas políticas e articulações de bastidores, a participação de estudantes, artistas, influenciadores, idosos e outros grupos sociais ampliou as formas de organização e atuação políticas. O autor argumenta que essa mobilização será também fundamental à sustentação do quarto mandato de Lula, à resistência às renitentes ameaças golpistas, ao enfrentamento da crise democrática e à construção de caminhos renovados para a política brasileira.

Boa leitura!


Modos de construir coalizões políticas: a vitória em 2022 e a virada de 2026

Por Jorge Chaloub (UFRJ)

A análise política brasileira tem um forte cacoete elitista, que leva muitos jornalistas e cientistas políticos a concentrarem suas atenções nas manifestações das cúpulas políticas e nas conversas de bastidor. Este tipo de olhar, sem dúvidas capta algo, já que o movimento das elites e os diálogos dos corredores palacianos são importantes para melhor compreendermos o mundo da política. Existem, porém, elementos centrais que transbordam esse horizonte mais restrito. As diferenças entre a vitória de 2022 e a virada de 2026 oferecem pistas nesse sentido.

A coalizão construída no segundo turno de 2022 foi montada a partir de candidatos derrotados no primeiro turno (como Simone Tebet e Marina Silva), antigos adversários políticos (caso de Geraldo Alckmin e de diversos economistas historicamente vinculados ao PSDB), setores do empresariado e da grande mídia, que assumiram uma rara postura simpática a candidaturas petistas. O triunfo envolveu as massas populares, como é inevitável em regimes democráticos, mas foi forjada de cima para baixo. Apesar das concessões de cargos importantes a políticos mais à direita – como a Vice-Presidência, o Ministério do Planejamento e o Ministério de Minas e Energia -, o perfil do mandato deixou marcas nos apoiadores de ocasião, que até hoje atribuem boa parte das mazelas nacionais ao excesso de petismo. Não é possível tomar como idênticas as coalizões de campanha, mesmo as do segundo turno, e as do governo, mas muitas das feições do terceiro mandato de Lula decorreram do enredo da última vitória.

Os caminhos da virada e da construção da coalizão do segundo turno de 2026 são completamente diferentes. As ações mais importantes vieram de fora dos ambientes controlados pelas elites políticas, a partir de iniciativas descentralizadas e capazes de mobilizar, em grande número, diversos tipos de pessoas. Dos estudantes universitários e secundaristas, que tomaram as ruas, até ações de pequenos influencers nas redes, passando pela ampla mobilização de idosos, tivemos um movimento pautado por um profundo senso de urgência, no qual um sentimento antibolsonarista se misturava à valorização de traços do passado e a novas perspectivas para o futuro. As interpretações que resumem tudo a um pedido por nova frente ampla mais projetam seus próprios desejos e interesses do que analisam a conjuntura.  

A pulverização do movimento era perceptível nas ruas e redes. Os apoios a Lula iam desde perfis distantes da bolha de esquerda, usualmente envolvida nesse tipo de campanha, até influencers de corrida, que listaram as agressões abertas e a perda de seguidores por se posicionarem politicamente. Ao lado do usual apoio de artistas à esquerda, surgiu um bom número de comentaristas de futebol, muitos dos quais pareciam mais afinados com o mundo das bets, e até mesmo fandoms de divas pop. Nas ruas do Rio de Janeiro, o volume e a diversidade dos manifestantes foram impressionantes. A estética de esquerda, com o predomínio do vermelho e do amplo repertório socialista, convivia com o verde-amarelo, que adornava cartazes e camisetas diversos. Boa parte se moveu pelo temor da vitória do bolsonarismo, mas era possível ver outras pautas e temas, como a defesa de políticas sociais, o legado de Lula para a educação ou de medidas a favor da igualdade de gênero e raça. Aliás, quem viu nas ruas um afã anti-identitário está, mais uma vez, expondo seus incômodos e anseios.

Pulverização não quer dizer espontaneísmo ou ausência de organização. O enredo do segundo turno ganhou sentido nas redes sociais a partir da articulação centralizada de André Janones, assim como contou com a musculatura anterior de organizações estudantis, sindicatos, coletivos autonomistas, movimentos sociais de tipos diversos, mandatos parlamentares e partidos políticos. Houve, portanto, a ação decisiva de uma ampla rede institucional preexistente. Ainda assim, perde um elemento fundamental quem olha apenas para o que já existia ou concentra a virada em uma estratégia solitária de um ou outro ator virtuoso.

O discurso golpista não esperou sequer o fim da apuração. Antes mesmo da confirmação do resultado, personagens como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato já acenavam com a derrubada do futuro governo, ora recorrendo às velhas teorias conspiratórias sobre as urnas, ora retratando a esquerda como ator intolerável. Os Bolsonaro, por sua vez, repetiram um roteiro batido de questionamento do processo eleitoral. Não estamos diante de excessos de ocasião. A aberta contestação de processos democráticos é parte constitutiva da prática política da ultradireita, o que faz do golpe, mais do que uma ameaça retórica, um horizonte permanente da oposição ao quarto mandato de Lula.

Com essas ameaças à espreita, um governo impopular pode seguir um enredo similar ao do segundo mandato de Dilma, em 2015. O apoio das ruas e das redes será importante não somente para a construção de políticas públicas bem-sucedidas, mas também para a sobrevivência do próprio mandato. As negociações com a direita, dentro ou fora do Congresso, continuam necessárias, mas não podem esgotar as estratégias políticas. Já há, por exemplo, uma forte pressão de representantes do mercado financeiro para um ajuste fiscal recessivo, que corre o risco de soar como estelionato eleitoral para as massas do segundo turno. É necessário dialogar com esses setores, dada sua ampla influência, porém o acordo ocorre em outros termos quando o governo é capaz de expor sua popularidade.

A simples continuidade tende a ser trágica. Diferentemente de 2022, a maior parte da direita e do centro não fez acenos ao governo. Muitos até mesmo apoiaram, de forma mais ou menos explícita, Flávio Bolsonaro. A construção de uma frente ampla tradicional parece fechada. Em meio a essa encruzilhada, a mobilização do segundo turno sugere outras possibilidades, nas quais o repertório da República de 1988 se encontra com novas linguagens políticas. Assim como ocorreu na proibição das bets e na aprovação do fim da jornada 6×1, as escolhas envolverão alguma dose de risco e enfrentarão resistência. A inação não aponta, porém, para um clima mais ameno. Dada a disposição de derrubar a todo custo o governo, a popularidade e o domínio da agenda política são os caminhos mais seguros não apenas para a subsistência do mandato, mas também para pensarmos formas de saída da crise democrática da última década. Sem enfrentar esses desafios, seguiremos à beira do abismo.


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