
Em mais um texto para a série A virada, Fernando Tavares oferece uma análise que nos convida a efetuar uma leitura a contrapelo da superfície de uma vitória eleitoral sem precedentes, como a que se deu no último dia 25 de outubro. Seu texto não se circunscreve apenas a números expressivos, uma vez que as eleições presidenciais de 2026 revelam trajetórias de mobilização, escolhas coletivas e dinâmicas sociais que não são detectadas à primeira vista. O autor percorre uma espécie de geografia da Virada (com v maiúsculo), a fim de compreender de onde vieram os votos decisivos e descobrir como as diferenças regionais, a participação eleitoral e a força dos grandes centros urbanos, particularmente no Sudeste, lograram imbricação na definição do resultado do pleito. Ao propor uma “sociologia do voto”, o texto codifica uma reflexão que vai além de mapas e de estatísticas, chamando nossa atenção para os desafios de transformação de uma vitória nas urnas em mobilização e sustentação políticas efetivamente duradouras.
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Boa leitura!
Espacialidades sociais: topologias e utopias da mobilização
Por Fernando Tavares (UFJF)
“Existe é homem humano! Travessia…”
As flutuações da ação humana, por vezes, nos atormentam e atravessam e, por outras, trazem surpresas sublimes. Os números compartilhados nos últimos dias refletem um desses casos. Os mais de 64 milhões de sorrisos e alegres lágrimas no último domingo se somaram aos mais de 240 milhões já vividos antes e tornaram Lula o político mais votado na história de todas as democracias no planeta, mesmo considerando apenas um único turno por pleito, alcançando mais de 305 milhões. Está longe de representar algo comum. É muito. É histórico. É único!
Essa história esteve perto de ser escrita de outra forma, mas não o foi. Foi travesso e atravessou gargantas com angústias seguidas de brados emocionados. Muita gente foi às ruas e principalmente às urnas. Com chuva. Sem transporte público. Travessia de desafios dos mais diversos. A queda da abstenção e dos votos inválidos (brancos/nulos), como já abordado, adicionou ao pleito 4,8 milhões de votos e essa mobilização, por si só, já representou mais do dobro da diferença observada entre os candidatos no primeiro turno, que havia sido de 2.224.965. Dando continuidade ao esforço de oferecer interpretações à Virada, cabe dedicar uma atenção a mais à espacialidade geográfica e social desse fenômeno: quais foram suas travessias? De onde veio tanta mobilização? O que nos ensinam os votos adicionados? A diminuição percentual da diferença entre os candidatos entre o primeiro e o segundo turno, que seria, aparentemente, o indicador mais direto da Virada, é de fato um guia interpretativo?
A resposta direta à última questão é: não! É preciso superar a que está mais aparente e superficial. Por exemplo, foi em Goiás onde houve maior “ganho” percentual de votos: 9,28%. Todavia, havia lá grande estoque de votos entre candidatos que não foram para o segundo turno e que, portanto, estavam em aberto. Foram aproximadamente 700 mil votos agregados aos candidatos, sendo que, desses, Lula recebeu em torno de 100 mil votos a mais que o derrotado. Óbvio que todo e cada voto faz muita diferença, mas foi um dos Estados em que Lula não venceu, tendo recebido quase 760 mil votos a menos. A abstenção também caiu pouco: 76 mil. A queda da abstenção no Centro Oeste[i] agregou menos de 200 mil votos ao pleito. No Norte, a abstenção, de forma agregada, cresceu. Centro Oeste e Norte praticamente se anulam neste quesito.
Foi nos maiores colégios eleitorais em que houve maior diferença. O Sul agregou pouco mais de meio milhão de votos com a diminuição da abstenção, mas entregou a Lula 1.3 milhão de votos a mais, 466 mil a mais do que seu adversário. Foi mais do que o Norte e o Centro Oeste juntos. A abstenção no Nordeste caiu aproximadamente 2%: de 18,4% para 16,5%. Foram mais de 800 mil novos eleitores. O Sudeste dobrou a aposta e agregou 1.613.691 de eleitores. Observou-se algo proporcionalmente similar na abstenção: de 22,7% para 20,3%. As razões de chance foram similares, em torno de 10%, ligeiramente maior no Sudeste.
Foi no Sudeste, especialmente nos grandes centros e metrópoles, onde ocorreu a grande mudança que tornou possível a Virada. Em São Paulo, Lula ganhou na capital tanto no primeiro quanto no segundo turno, agregando 932 mil votos. No Rio de Janeiro, Lula virou na capital, do primeiro para o segundo turno, agregando 374 mil votos – mais do triplo do candidato derrotado. Embora não tenha liderado no conjunto da região, foi no Sudeste onde Lula recebeu o volume de votos (quase 5 milhões) que sustentou a onda que vinha já do Nordeste desde o primeiro turno (mais 3 milhões no segundo).
Soma-se a virada em Minas Gerais, ainda que por um percentual discreto (50,43%). O caso mineiro mais uma vez é simbólico. Mineiras e mineiros adicionaram a Lula mais de um milhão e cem mil votos em relação ao primeiro turno. Esse montante foi 700 mil votos superior ao que seu adversário conseguiu atrair. Foi o único Estado em que se observou de fato a Virada. Nele estão todos os elementos: 400 mil votos agregados pela diminuição da abstenção e outras centenas de milhares advindas de eleitores de outros candidatos (especialmente de centro direita) ausentes no segundo turno, como Cury, Santos e Caiado, que haviam recebido quase 900 mil votos, enquanto o ex-governador recebeu menos de 100 mil votos – o que denota seu frágil capital político.
Historicamente, tão assertiva quanto a associação entre os resultados eleitorais em Minas Gerais e no Brasil, é a associação entre a afluência/crise econômica e a continuidade do grupo político no poder federal. Reconhecemos os novos e complexos desafios empíricos, interpretativos e conceituais à análise e compreensão da estrutura de classes, derivados especialmente das transformações contemporâneas na produção material, sua concentração regional e distribuição global. Todavia, não podemos nos furtar a eles. Esse tema é árido e pode, por hora, ser deixado para outra prosa. Importa aqui compreender melhor a topologia da Virada.
A mobilização nos grandes centros e metrópoles, especialmente no Sudeste, foi decisivo e continuará fundamental para viabilizar apoio e sustentação política ao governo eleito. Ainda que não tenha sido majoritário em alguns dos maiores colégios eleitorais, como São Paulo e Rio de Janeiro, Lula agregou nesses Estados os milhões de votos que diminuíram a diferença e viabilizaram a Virada. As diferenças eleitorais que são mais facilmente notadas em mapas escondem contrastes sociológicos, econômicos e estruturais que merecem nossa atenção. Será preciso, além de conseguir manter viva a mobilização, alcançar o interior. Será preciso compreender melhor a sociologia do voto, para além de suas primeiras camadas demográficas e geográficas.
(continua…)
Nota
[i] Embora sociologicamente considere mais adequado analisar o DF entre as UFs mais ricas do país, junto do Sudeste, compreendo o contraponto em prol da perspectiva tradicional.
Sobre o autor
Fernando Tavares é Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também é Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação Profissional em Gestão e Avaliação da Educação Pública (PPGP-UFJF).
