
Na terceira publicação da série sobre o arquivo Florestan Fernandes, trazemos o manuscrito “Os Cronistas”, roteiro de uma conferência preparada para a Columbia University, em 1965, acompanhado de uma entrevista concedida por Florestan ao Diário de S. Paulo em 1949. A apresentação é de Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB), curador da série.
Os dois documentos foram encontrados no Fundo Florestan Fernandes da Coordenadoria de Obras Raras e Coleções Especiais da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos. Neles, Florestan pensa a crônica dos séculos XVI e XVII como forma de conhecimento histórico e defende reinterpretar o Brasil-colônia a partir da perspectiva dos “vencidos”, reconhecendo os povos indígenas como agentes da história.
Ao longo do ano, publicamos outros manuscritos de Florestan na série, sempre acompanhados de comentários do curador.
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Os Tupinambá de Florestan Fernandes: crítica à produção literária dos cronistas
Por Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB)
No dia 27 de outubro de 1965, Florestan Fernandes apresenta o seminário intitulado “A natureza da crônica como forma de conhecimento histórico” no curso de História da América Latina na Columbia University1. Apresentaremos, mais adiante, o roteiro de aula desse seminário. Também iremos disponibilizar ao público da BVPS uma entrevista com Florestan Fernandes, publicada no Diário de S. Paulo em 23 de junho de 1949, sobre o seu livro recém-lançado, A organização social dos Tupinambá. O livro recebeu o Prêmio Fábio Prado, foi festejado nos meios acadêmicos paulistanos e ajudou a projetar o nome de Florestan Fernandes. Tratava-se de uma monografia etnológica em moldes clássicos – surpreendentemente elaborada, não com vivências etnográficas de longa duração nem com imersão nas comunidades pesquisadas, mas a partir de relatos de cronistas estrangeiros, invasores e colonizadores europeus – e, ao mesmo tempo, impulsionada por um desejo político de enfrentar e superar o colonialismo cultural na interpretação da história brasileira.
As temporalidades históricas se misturam no plano psicológico. Em geral, as teses sobre os Tupinambá foram interpretadas como uma estratégia do jovem aprendiz de sociólogo para galgar posições no campo de disputas simbólicas, por prestígio, poder e consagração no espaço acadêmico em formação no Brasil. Talvez, para Florestan Fernandes, estudar os Tupinambá tivesse outro sentido. As correntes epistemológicas historiográficas presentistas argumentam que os problemas de pesquisa sobre fatos históricos do passado só fazem sentido a partir de preocupações políticas e filosóficas significativas para o tempo presente. O acaso contou nas escolhas temáticas. Florestan não teria se dedicado aos Tupinambá se não tivesse participado de uma pesquisa sobre as situações de contato entre indígenas e colonizadores, como bolsista da Smithsonian Institution na Escola Livre de Sociologia e Política, sob supervisão inicial de Donald Pierson. Após alguns desentendimentos teóricos e metodológicos com Pierson, a orientação de Florestan Fernandes passa a ser de Herbert Baldus. Foi na disciplina intitulada “Seminário sobre Índios do Brasil”, deste último, que Florestan desenvolveu o tema “O Valor dos Quinhentistas para a Etnologia Brasileira”2. Essas experiências o motivaram a se dedicar às pesquisas sobre a civilização tupinambá. Isso não exclui, entretanto, que possamos tentar reconstruir a sua ressignificação política no pensamento do autor, em termos de acerto de contas com a nossa origem histórica colonial e do propósito de superar a dependência cultural.
A presença dos professores estrangeiros correspondia, mutatis mutandis, a uma nova situação colonial no que se refere à compreensão da realidade brasileira. No tempo dos cronistas dos séculos XVI e XVII, o território dos povos originários invadido pelos colonizadores, que viria a ser conhecido como Brasil; no caso dos professores estrangeiros que foram contratados para ensinar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP), um Brasil republicano que buscava se construir como nação, muitas vezes tomando como impedimentos para se alçar ao rol da civilização ocidental suas raízes culturais ibéricas e a miscigenação racial. Mesmo os cientistas sociais nativos se sentiriam, no dizer de Octavio Ianni (1991), como se pertencessem a outro mundo. “Parecem cronistas, viajantes, brazilianistas nativos, residentes, deslocados no próprio país que não está à altura das suas ideias” (Ianni, 1991, p. 33). Esse “bovarismo intelectual” seria causa e consequência da impossibilidade de superar o “dilema social brasileiro”3, que se caracteriza pela inconsistência entre as práticas sociais e políticas conservantistas dos agentes históricos e a autoimagem de uma nação civilizada pautada nos valores liberais do Ocidente. Florestan não se recusava a pensar o Brasil dentro dos parâmetros das ciências sociais de origem ocidental, mas compreendia a presença de professores estrangeiros como uma etapa necessária para superar a “dependência intelectual” (Fernandes, 1966, p. 215)4. A cooperação internacional deveria se dar em novas áreas de especialização, levando-se em conta as exigências de uma produção cultural autônoma, isto é, voltada à compreensão e à solução dos problemas sociais brasileiros. A análise sociológica que Florestan Fernandes faz da contribuição etnográfica dos cronistas leva em conta, portanto, uma crítica às suas descrições e impressões etnocêntricas sobre os povos originários, produzidas na condição de invasores coloniais, nos marcos da Conquista. Nesse sentido, submete a uma crítica prévia todo o material compulsado nas fontes quinhentistas e seiscentistas.
A investigação socioantropológica da civilização tupinambá passou a ter o sentido de reconstruir o “marco zero” da história colonial brasileira. Como se verá na entrevista transcrita mais adiante, de 1949, Florestan Fernandes representava A organização social dos Tupinambá como uma monografia acadêmica de valor científico. Ele não desconsiderava que os resultados alcançados poderiam proporcionar uma visão mais objetiva e verdadeira do Brasil-colônia, isto é, contrária às mistificações e mitificações do papel construtivo e heroico do português na formação nacional. “Em nossos trabalhos de história […], tem prevalecido uma orientação atomizadora e uma preocupação por assim dizer intimista, de endeusamento do português” (Fernandes, 1949). É como se o rigor da ciência estivesse a serviço da construção de uma imagem objetiva da sociedade brasileira, na qual a perspectiva dos colonizados se fizesse presente. Ao contrário de um aproveitamento impressionista da literatura dos cronistas, Florestan Fernandes submetia as informações nela colhidas a um escrutínio minucioso com vistas a realizar a crítica interna e externa das fontes historiográficas, rejeitando os elementos etnocêntricos de raízes colonialistas e ocidentais. Os procedimentos metodológicos de Florestan Fernandes seriam, nos planos descritivo e interpretativo, o analítico e o sintético. No procedimento analítico, procede-se à divisão temática das ocorrências de informações contidas nos relatos dos cronistas. Das 35 fontes primárias analisadas, Florestan elenca um total de 92 itens de conteúdo, indicando os cronistas que produziram informações pertinentes. Na tabela I do ensaio Um balanço crítico da contribuição etnográfica dos cronistas, irá dispor os temas em ordem alfabética (alienação de bens pessoais; antepassados; antropofagia; área de dominância; armas; ataque; caça e guerra etc.), correlacionando com um sinal positivo (+) os cronistas (Fernandes, 2009, p. 291-296). Referente ao tópico geral “alienação de bens pessoais”, constam, por exemplo, apenas os nomes de Cardim e de Gabriel Soares. A crítica comparativa das fontes permitiria distinguir entre as impressões preconceituosas, de um lado, e o que se poderia extrair de um relato mais objetivo dos acontecimentos históricos, de outro. Quanto ao procedimento sintético, Florestan Fernandes procura reconstruir, numa espécie de indução amplificadora, os elementos constitutivos da organização social. Primeiro, cada um desses aspectos era examinado individualmente (vida econômica, relações de parentesco, religião etc.) para, num segundo momento, dar vida a um todo vivo integrado. As limitações das fontes, tão variadas e obtidas num lapso temporal de mais de um século, recomendavam prudência nas generalizações e conclusões possíveis. Não era viável, nesse sentido, proceder a uma interpretação diacrônica ou temporalmente histórica. O tempo histórico de seus estudos sobre os Tupinambá se situa no tempo sociológico das estruturas.
Se formos analisar os resultados a que chega em A organização social dos Tupinambá, defendida em 1947, Florestan Fernandes vai muito além de um esforço meramente descritivo, vendo o que está oculto nas fontes e sempre fazendo ressalvas quanto ao caráter conjectural de algumas de suas conclusões, todas elas, porém, fundamentadas empiricamente. A tentativa de uma compreensão e explicação mais arrojadas da civilização dos Tupinambá, cuja inspiração foi buscar nos trabalhos de Marcel Mauss sobre os Esquimó (Fernandes, 2009, p. 287), emerge apenas em sua tese de doutorado, A função social da guerra na sociedade tupinambá, de 1951. Ao contrário do que alguns críticos costumam sugerir (Oliveira Filho, 1987, p. 157-159), Florestan não aplica um modelo teórico pré-moldado, a análise estrutural-funcional, às informações produzidas pelos cronistas. A construção do modelo teórico interpretativo vai sendo realizada simultaneamente com a produção de evidências empíricas relevantes para a explicação dos fenômenos sociais, no confronto entre a teoria e a realidade. A análise crítica das fontes que descrevem as situações de contato entre os colonizadores europeus e os povos originários, como procedimento metodológico preliminar embasado na sociologia do conhecimento, faz com que a reconstrução da sociedade tupinambá não seja encarada como um sistema fechado, avesso aos conflitos sociais e às mudanças. A rotulação do estrutural-funcionalismo como uma perspectiva conservadora da ordem social não condiz com a riqueza de sugestões e possibilidades das conclusões empíricas e teóricas alcançadas por Florestan. Não apenas os conflitos internos e as temporalidades próprias das sociedades tupinambás são abordados, mas também, e principalmente, os choques interétnicos transparecem na reconstrução dos modos de vida dos grupos locais desses povos originários. Na linguagem particular da época, Florestan chegou até mesmo a projetar um estudo sobre o processo histórico de destribalização5. Nesse sentido, é possível afirmar que, nos estudos sobre os Tupinambá, alimentava uma perspectiva bastante crítica sobre o colonialismo europeu nos trópicos. A sua interpretação sociológica das reações dos povos indígenas à conquista seria diametralmente oposta à de Gilberto Freyre (Fernandes, 2009, p. 138-139). O latifúndio e o açúcar não teriam simplesmente matado o “índio”, mas este resistiu, de formas diversas, inclusive a guerreira, e tanto quanto lhe foi possível, à conquista colonial e às ameaças aos seus valores culturais, modos de vida e organização social.
O primeiro documento apresentado é o roteiro de uma conferência de Florestan Fernandes. Composto por 15 páginas digitalizadas, inicia com uma página em branco, apenas com a indicação “Conferência USA/1965”. Na sequência, duas páginas de uma “primeira aula” com o título geral “Os cronistas”; depois, oito páginas intituladas “Os cronistas (conclusões)”, iniciando-se com uma nova numeração no canto superior direito a partir do algarismo 1; uma página intitulada “Anexo” e outra, “Anexo A”; por fim, duas páginas que constituem, respectivamente, o plano da primeira aula e o da segunda. O documento pode ser consultado no Fundo Florestan Fernandes da Coordenadoria de Obras Raras e Coleções Especiais da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (FFF/ColEsp/UFSCar), sob o código 02.12.8429. É interessante notar que, no seu roteiro de exposição, Florestan Fernandes se propôs a debater o valor literário da contribuição etnográfica dos cronistas. A que tipo de literatura pertenciam? A que público os cronistas se dirigiam? Como se dava a circulação de ideias? Como as crônicas se distinguem do ensaio moderno? O desafio de Florestan Fernandes foi como aproveitar fontes tão questionáveis sobre os povos Tupinambá em um trabalho de reconstrução de seus modos de vida, evitando o etnocentrismo dos povos invasores e colonizadores. A antropóloga Alcida Rita Ramos, em sua coluna Desassossegos da BVPS, brindou-nos com excelentes sugestões sobre como Florestan lidou com os dilemas teóricos e metodológicos na reelaboração dos relatos dos cronistas. Transcrevo aqui uma das passagens do texto da autora, mas recomendo a leitura de todo o artigo:
Florestan Fernandes, nosso etnólogo ancestral, tomou esses vetustos alfarrábios como matéria-prima para moldar uma etnografia tupinambá no passado remoto como se estivesse numa aldeia contemporânea. Trazendo a diacronia ao altar da sincronia, Florestan produziu um clássico da antropologia brasileira: A função social da guerra na sociedade tupinambá. Com que propósito? Num nível, digamos, trivial, para obter seu grau de doutor na USP. Mas, indo além das razões especificadas na sua monumental monografia, é possível detectar o ar do seu tempo: tornar clara a potência do método funcionalista, ou seja, os Tupinambá não faziam guerra por fazer, como o que nos é dado perceber no mundo atual, que transborda de pugnas armadas aparentemente sem sentido. Guerreavam para se manter Tupinambá, ou seja, seus inimigos eram condição sine qua non para que fossem e continuassem a ser o que eram. (Ramos, 2024)6
O mais importante na contribuição de Alcida Rita Ramos é que suas observações não retalham o método de Florestan nem fragmentam sua obra com referenciais teóricos externos ao autor de A função social da guerra na sociedade tupinambá7, nem restringem seus estudos sobre os povos originários ao cumprimento das exigências de um título acadêmico, como fazem certas interpretações ao situá-lo em meio às disputas por consagração no campo intelectual, numa utilização bastante reducionista de conceitos bourdieusianos. Assim como foi necessário resgatar, do silenciamento histórico, a integridade do modo de vida Tupinambá, seria preciso restituir o contexto da pulsão científica de Florestan Fernandes ao se lançar a um trabalho minucioso de cotejar, uma a uma, as fontes dos cronistas. É preciso se perguntar por que Florestan se dedicou com tanto empenho a essa tarefa: apenas para alcançar um título acadêmico não seria uma explicação simplista, enviesada por uma perspectiva sociológica que isola os sujeitos numa redoma de redes de sociabilidade institucionais? O objetivo de conquistar posições de relevo no campo acadêmico poderia ter sido alcançado por meios muito menos desgastantes em termos de energia física e mental despendida no labor intelectual. Quem teve a oportunidade de contar e separar, por temas, os fichamentos de Florestan Fernandes, escritos durante a produção de seus trabalhos sobre os Tupinambá, sabe o quanto foi um trabalho hercúleo. Tal obsessão pelo rigor científico não se explica apenas pelo desejo de se diferenciar da produção literária e do ensaísmo de interpretação histórica da formação brasileira, mas, principalmente, pela necessidade de contribuir com conhecimentos objetivos para repensar a sociedade brasileira. Aliás, Florestan considerava muitos de seus trabalhos ensaios. O problema não era o ensaio em si, mas quando escrito sob a perspectiva apologética da história colonial e do início da era republicana, a partir da visão dos estamentos e classes dominantes. A sociologia possibilitava a Florestan Fernandes um horizonte objetivo, nunca neutro, de restituir à história as vozes “dos de baixo”, como ele mesmo nos seus estudos sobre o folclore urbano da cidade de São Paulo e, agora, com os seus Tupinambá, resgatando do olvido a resistência que opuseram à conquista pelos portugueses e outros europeus.
Por tais razões, resolvi acrescentar um segundo documento nesta coluna dedicada aos manuscritos inéditos de Florestan Fernandes: a entrevista que ele concedeu ao Diário de S. Paulo, em 1949, por ocasião do Prêmio Fábio Prado, com o seu livro A organização social dos Tupinambá. Nela, Florestan relata como interpretava o valor de seu livro para repensar a história colonial do Brasil sob a perspectiva dos vencidos. Na sua atividade como parlamentar na Constituinte, atuou em solidariedade e na defesa dos movimentos indígenas que emergiram autonomamente, superando o indigenismo que vicejou entre as décadas de 1940 e 1970 (movimento importante do qual participaram amigos de Florestan Fernandes, dentre eles Darcy Ribeiro e Roberto Cardoso de Oliveira), como retratam muito bem Fátima Silveira e Aristeu Portela Jr. (2025) em artigo recentemente publicado, intitulado Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan Fernandes e Ailton Krenak na Assembleia Nacional Constituinte. Florestan se reencontra simbolicamente com seus antigos Tupinambás em sua militância política. A conquista não foi uma descoberta, mas uma invasão colonial.
Na preparação do manuscrito “Os Cronistas”, as notas de rodapé foram representadas por letras. Espero, sinceramente, que o público leitor da BVPS aproveite esse trabalho para formular novas hipóteses interpretativas sobre o pensamento antropológico e sociológico de Florestan Fernandes, bem como para romper com alguns consensos estabelecidos em torno de sua trajetória intelectual.

Notas
1 Informação colhida do relatório de atividades de Florestan Fernandes, durante sua permanência como Professor Visitante no Institute of Latin American Studies da Columbia University, no semestre letivo de 1965 a 1966. O convite foi feito por Charles Wagley. É importante mencionar que Florestan estava sendo processado pelo Superior Tribunal Militar (STM), tendo sido decretada a sua prisão preventiva, conforme carta de Luiz Pereira, datada de 4 de outubro de 1965 (Fundo Florestan Fernandes/02.05.7187). Wagley havia assinado um abaixo-assinado em 31 de março de 1965, dirigido ao ditador Costa e Silva, manifestando preocupação com “as ameaças à liberdade acadêmica e individual dos professores Florestan Fernandes, Mario Schemberg, João Cruz Costa, Fernando Henrique Cardoso e o estudante Fuad Daher Saad” (Fundo Florestan Fernandes/02.09.0290). É muito provável que o convite de Charles Wagley, para a estadia de seu colega brasileiro na Columbia University, tenha sido um gesto de solidariedade para evitar uma possível prisão. A estadia no exterior era uma estratégia para escapar da reclusão. No mesmo período, Mário Schemberg havia viajado ao Japão e Fernando Henrique Cardoso estava no Chile. No Habeas Corpus No 28.463, descobre-se que Florestan foi denunciado pelo Prof. Ricardo Roman Blanco. Conhecido nos meios repressivos da ditadura como informante, Roman Blanco foi expulso da USP por ter falsificado um documento histórico que estabelecia novos limites ao Tratado de Tordesilhas. O referido Habeas Corpus pode ser consultado no Fundo Florestan Fernandes da Universidade Federal de São Carlos, sob o código de registro 03.10.10486. Sobre Ricardo Roman Blanco, ver https://www.terraredonda.com.br/post/brasilia-1968-livro-relata-expulsao-de-professor-dedo-duro?srsltid=AfmBOor9dJi_4KLeVIH30a0ZNnyhI3tgqt-gH-PJkTaOzrEkFc5IBE-H.
2 No Fundo Florestan Fernandes, foi encontrada apenas a primeira página do trabalho de Florestan Fernandes (localizado sob o código 02.09.1605), sinalizando uma primeira exposição mais sistemática das ideias que desembocariam no futuro artigo “A análise funcionalista da guerra: possibilidades de aplicação à sociedade Tupinambá. Ensaio de análise crítica da contribuição etnográfica dos cronistas para o estudo sociológico da guerra entre populações aborígenes do Brasil quinhentista e seiscentista”, Revista do Museu Paulista, n.s., São Paulo, 1949 (vol. III, p. 7-128, com 8 pranchas fora do texto). Depois republicado em A etnologia e sociologia no Brasil, São Paulo, Anhembi, 1958 e, por fim, em A investigação etnológica no Brasil e outros ensaios (na primeira edição pela Vozes em 1975 e, na segunda edição, mais recentemente, pela Global em 2009). Nessas duas últimas edições, o título do artigo foi modificado para “Um balanço crítico da contribuição etnográfica dos cronistas”. O texto do artigo não sofreu transformações substanciais entre uma edição e outra. O texto completo do trabalho de Florestan Fernandes para a disciplina de Herbert Baldus pode ser consultado na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Agradeço a Matheus de Carvalho Barros, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGS/UFRJ), pelo envio do texto integral do trabalho “O Valor dos Quinhentistas para a Etnologia Brasileira”. Trata-se de um documento fundamental para compreender como Florestan Fernandes foi gestando as ideias fundamentais de suas teses de mestrado e de doutorado sobre os Tupinambá, respectivamente, A organização social dos Tupinambá (1947) e A função social da guerra na sociedade tupinambá (1951).
3 A análise de Octavio Ianni sobre o colonialismo mental nas ciências sociais periféricas se baseia na caracterização sociológica e política que Florestan Fernandes realiza do “dilema social brasileiro”, tal como contido no ensaio Reflexões sobre os problemas de mudança social no Brasil, de 1962, depois republicado em A sociologia numa era de revolução social, de 1963.
4 O artigo “Os professores estrangeiros” foi publicado originalmente no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo em 14 de junho de 1958, depois no livro Educação e sociedade no Brasil (Fernandes, 1966).
5 “Eu tinha ideia de fazer um estudo dos contatos com os brancos, até tinha separado um material sobre destribalização para isso e tinha ideia de estudar o sacrifício humano, mas isso ficou para o futuro” (Fernandes, 1995, p. 11). O trabalho não foi concluído, mas Florestan Fernandes chegou a formular o sumário de um trabalho intitulado “Colonização e Destribalização. Ensaio Sociológico sobre os contatos raciais e culturais dos Tupinambá com os brancos” (Fundo Florestan Fernandes/tombo 4618). O trabalho mais próximo da temática da destribalização, efetivamente publicado, foi o ensaio Os Tupi e a reação tribal à conquista, de 1960 (Fernandes, 2009: 22-43).
6 Disponível em: https://blogbvps.com/2024/09/17/desassossegos-coluna-de-alcida-rita-ramos-15/#more-19528.
7 A crítica mais conhecida sobre os Tupinambá de Florestan Fernandes se deve ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Em Arawaté: os deuses canibais (Viveiros de Castro, 1986), o autor dialoga criticamente com as interpretações de Florestan sobre o significado mágico-religioso da guerra, do sacrifício e da antropofagia ritual entre os Tupinambá. Viveiros de Castro discorda da ideia de que o sacrifício antropofágico seria um meio de restaurar a ligação com os ancestrais mortos, preservando a integridade da ordem social. A vingança seria uma forma de projeção para o futuro, pois os mortos de cada grupo seriam um “elo de ligação com os inimigos”; assim, “a vingança não era um retorno, mas um impulso adiante; a memória das mortes passadas, próprias e alheias, servia à produção do devir. A guerra não era uma serva da religião” (Viveiros de Castro, 1992: 49). A interpretação da temporalidade tupinambá difere entre os dois autores devido às suas divergências de orientação teórica: Florestan Fernandes se inspira nos escritos antropológicos de Marcel Mauss e Viveiros de Castro em Lévi-Strauss. Podemos questionar a exatidão de uma crítica que se baseia em categorias teóricas externas à obra analisada.
Referências
FERNANDES, Florestan. (1949). Entrevista sobre “A organização social dos Tupinambá”. Diário de S. Paulo, São Paulo, 23 jun. 1949. Editoriais, p. 4.
FERNANDES, Florestan. (1966). Educação e sociedade no Brasil. São Paulo: Dominus.
FERNANDES, Florestan. (1995). Florestan, história e histórias. Novos Estudos/CEBRAP, 2 (42), p. 3-31, jun. 1995.
FERNANDES, Florestan. (2009). A investigação sociológica no Brasil e outros ensaios. 2. ed. São Paulo: Global.
IANNI, Octavio. (1991). Florestan Fernandes e a formação da sociologia brasileira. In O. Ianni (Org.), Florestan Fernandes: Sociologia. 2. ed. São Paulo, SP: Ática.
OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (1987). Os atalhos da magia: reflexões sobre o relato dos naturalistas viajantes na etnografia indígena. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, Série Antropologia, 3 (2).
SILVEIRA, Maria de Fátima Souza da; PORTELA JR., Aristeu. (2025). Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan Fernandes e Ailton Krenak na Constituinte. Política & Trabalho, João Pessoa, 62, p. 148-174. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/politicaetrabalho.
Os Cronistas
Conferência USA/1965
Os Cronistas: → cit. → {vol. III, 1949]
Etnol. x Sociol.
Primeira aula =
- Apresentação da Bibliografia = colocar Caminha na posição.
- Apreciação geral = o cronista como parte de uma civilização em expansãoa. Uma sociedade do tipo “sagrado” e “fechada”, mais ou menos religiosa e intolerante → (portanto, “etnocêntrica” em limites mais profundos que a “sociedade moderna”). Nos limites dessa sociedade → uma concepção do mundo que confinava o homem ao agir cristão. É peculiar e pode ser testado = se os selvagens nascem com pelo ou não; não temb Deus, Lei nem Rei (ou Governo). A descoberta do outro lado do humano = opera-se pela experiên-[p. 1]cia concreta.
- A evolução dessa experiência: a) inicialmentec → o exótico é o principal centro de interesse; b) em seguida, quando o branco passa a fixar-se = seus centros de interesse são utilitários (imitação de técnicas e de comportamentos de cunho adaptativo); c) quando entra em posse da terra e submissão do gentio = descobrir e aniquilar os valores centrais da cultura e da sociedade (usar o índio contra o índio; quebrar os padrões de solidariedade tribal; impor o domínio do branco na esfera ecológica, social e moral); d) perda de significação histórica = desaparece como tema relevante.
- Exemplos de sua qualidade literária = estilo denso, objetivo e informativo, com frequência de bom sabor estético → ver anexo Ad [p. 2; a mesma numeração do tópico 4 continua na ficha seguinte]
Os Cronistas (Conclusão):
- Exemplos da qualidade literária = estilo denso, objetivo e informativo (transmitir ao leitor mais do que uma concepção literária ou um estado de espírito estético → uma experiência humana). Textos = Staden (38-39e; 42f; referir o texto = lá vem nossag comida pulando); Léry (83-84); Thévet (79; 82); Abbeville (67-68); Evreuxh (69-70); Gandavo (84-85 → 57); Gabriel Soares (“são os Tupinambá tão belicosos que todo o seu fundamento é como fazer guerra a seus contrários”; 54; 57 = dois trechos → no texto e no rodapé; 84); Cardim (o mais completo escritor e que escreveu as mais belas descrições; 50); Anchieta (61 e 62; muito castiço e inconfundível); deixo de lado outros = como Nóbrega, Salvador, Brandão, Knivet, Vasconcellos, etc.
- Portanto, não falta à crônica qualidade literária e ela-[pág. 1i]-boração estilística. Ambos eram necessários = por que (sic) se destinavam a um público e devia satisfazer os padrões de gosto literário desse público (quer ele fosse o leitor letradoj; quer ele fosse parte de um sistema de comunicação letrado = a Coroa, implicava no ledor, no rei e nos cortesãos, daí a elaboração da carta de Caminha; = a Companhia de Jesus, implicava o principal, os diferentes dirigentes regionais ou locais e os demais membrosk → pela finalidade da carta se firmava o discernimento e as aptidões do jesuíta diante do seu mundo. Além disso, muitas das cartas dos jesuítas eram escritas para “circular” → principalmente nos meios oficiais e deviam ir aos ouvidos dos poderosos e mesmo do monarca).
- Instrumento de natureza literária e de comunicação literária = a crônica não era obra de criação literária. Não [p. 2] conferia ao escritor a liberdade pressuposta na poesia ou na novela. Onde a fantasia aparece, ela é produto ou do horizonte cultural (influência da concepção religiosa de mundo, crença na afirmação dos autores clássicos, etc.), ou da deformação pessoal da verdade (informações fantásticas aceitas sem espírito crítico, elaboração da experiência entre pessoas de convicções religiosas profundas, etc.) ou um produto de ambas as coisas. Nesse sentido, ela estaria mais próxima do ensaio. Mas, ela também não é, formalmente, ensaio no sentido moderno. Só num sentido amplo e figurado, à falta de uma identificação melhor. Ela é, literalmente, história do presentel = e uma história que apanhava o homem como parte do seu ambiente total (natural x social x sobrenatural) → (desenvolver). Ela difere, portanto, da crônica tradicional, que representava os fatos da cidade, de uma casa importante ou da igreja; [pág. 3] passa a ser uma espécie de “enciclopédia do humano”, de suas atividades e das condições ou produtos dessas atividades. O cronista aparece como precursor do historiador, mas este também é um zoólogo, um geógrafo, um antropólogo, etc. Essa totalidade na percepção da realidade custava um preço = a análise era superficial; não se detinha na explicação de fatores e efeitos. Apreendia as coisas e suas conexões no plano em que elas pareciam evidentes ao conhecimento de senso comum.
- Essas razões me levaram a descrever a crônica como equivalente do conhecimento científico (da biologia, da antropologia, da sociologia) na configuração civilizatória de que ela fazia parte. Nesse sentido, ela era = como a sociologia na crise da civilização moderna = [p. 4] uma técnica de consciência social. Elevava a experiência à esfera da percepção sistemática e da consciência objetiva, trabalhava-a através de um padrão de conhecimento que é pré-científico: o conhecimento de senso comum. No contexto dos séculos XV-XVI-XVII, o conhecimento de senso comum informava-se, principalmente, do saber religioso e filosófico. Contudo, em seu pragmatismo, ele convertia-se em funcional: devia dar conta do que o homem aprendia pela experiência virgem e pura (explicar sua conexão até com a revolução institucional do mundo capitalista; a hipótese de Mannheim a respeito dos efeitos dos critérios divergentes de verdade = aplicada aqui = antes do aparecimento do conhecimento científico → operou-se uma rotação do conhecimento de senso comum). Portanto, ainda que se ligue aos clássicos da filosofia ou da [p. 5] ciência, por suas citações = o cronista apenas forra o seu saber com os ensinamentos do passado. Na verdade, ele é um agente genuíno de saber novo e original, que provinha da liberdade e da objetividade relativa com que ele aplicava funcionalmente os critérios de saber do conhecimento de senso comum. Ele não só é novo; ele também produz um conhecimento novo. E nesse conhecimento, afora a aplicação dos critérios de saber do conhecimento de senso comum, duas coisas são típicas e essenciais: 1o) o cronista é principalmente e acima de tudo um homem de ação (o seu conhecimento brota de sua experiência humana = é um conhecimento interessado e que se vincula à condição do observador participante e atuante; ou, um conhecimento desse tipo, por mais “superficial” que seja, apanha as conexões da realidade que afloram como [p. 6] parte das funções sociais manifestas do comportamento humano); 2o) como forma de comunicação, ou seja, como produto de uma elaboração propriamente letrada e literária → o cronista propende a explorar antes a arte, que a ciência (descrições brilhantes, vivas, em que prepondera a sensibilidade e a liberdade por vezes arbitrária de comunicar a experiência vivida → suas descrições da vida social são, assim, mais “artísticas” que “científicas”. Como escrevi em trabalho anterior: “… a arte como técnica de interpretação do mundo adequa-se mais do que a ciência à interpretação do singular e do irreversível”m → p. 90. O domínio da técnica artística deu ao cronista, portanto, um instrumento adequado e sensível de investigação, consideradas as condições em que observavam a realidade e o objeto de suas preocupações. Explicam-se, assim, o sentido de minúcia e a penetração estética, evidentes nas descrições mais vigorosas deixadas por estes autores. Ao mesmo tempo, tais descrições constituem, na verdade, os textos cujo [p. 7] teor informativo é mais elevado e consistente” (p. 90).
- Por aí se vê que os cronistas se situam dentro de marcos que fazem deles parte da literatura. No entanto, eles colocam um problema literárion: a que literatura pertencem? Como parte da literatura da conquista: tanto pertenciam ao país colonizador, quanto podiam pertencer ao país colonizado. Tudo depende da perspectiva de que encaremos a sua localização. Do ângulo brasileiro = representam os primórdios da elaboração literária e a primeira manifestação da tentativa de tomar consciência da realidade humana no Brasil. É um ponto de partida, de importância indireta = se não contêm uma teoria da literatura, oferecem uma visão do homem e do seu mundo materialo e moral no período de formação incipiente da civilização no Brasil (como tal = influenciam ou condicionam outros desenvolvimentos). [p. 8]
→ tem pelos etc.; lei, rei e Deus Anexo
– apontar as razões do interesse do europeu
inicialtep a) o elemento “exótico”;
em fase + adiante b) o aproveitamento de itens ou padrões da cultura nativa nos processos de adaptação (e tb. conquista da terra e submissão do gentio);
posteriormente = enquanto o índio “contava” c) focalização dos valores centrais da cultura e da sociedade x política (sistemáticaq) de destribalização.
→ núcleor = Thevet, Staden, Léry, Gabriel Soares, Evreux, Abbeville, Gandavo e Cardim. Anchieta, Brandão, Knivet, Vasconcellos e Nóbregas.
→ exemplo = aspectos da guerra que caíram sob seu campo de observação = 32 x 33 x 34-35
Anexo A
*situação do prisioneiro no grupo local inimigo = 36-87 → foi o tópico escolhido; com isso, para descrever o estilo → tirei trechos daí.
Staden = 39 + lá vem nossa comida pulando > como reproduz com pitoresco e sinteticamente as descrições dos nativos.
39 → 42 → trecho referente ao seu aprisionamento (graça x objetividade e conclusão).
Abbeville = 67-68 → Salvador = os relatos da conquista → c/ Knivet → os + impress.
Evreux = 69-70
Lery = 83-84
Thevet = 79 x 82
Brandão = 42
Gandavo = 84-85
Gabriel Soares = 54 e 57 → 84 → “São os Tupinambás muito belicosos e todos os seus fundamentos são como fazer a guerra aos seus contrários”
Cardim = 50 (notar = as mais belas descrições)
Anchieta = 61 e 62
Plano da primeira aula
1 – Apresentação da bibliografia
2 – Apreciação geral = a situação do cronista em face da realidade: o que ela possuía de estranho para um homem que vinha de um mundo relativamente fechado, religioso e intolerante x interesses de conhecer o “gentio” (com as gradações assumidas por tais interesses no decorrer da evolução da situação de contato). No extremo = valor zero (deixa de ter significado básico).
3 – Exemplos do estilo literário e de elaboração descritiva dos cronistas.
4 – O problema literário = fazem parte ou não da literatura brasileira. É claro que sim = todas as provas → técnicas transplantadas → literatura do descobrimento. É ainda uma literatura parcialmente ou totalmente estrangeira. Mas conta, em sentido amplo (quem ou o que seria “brasileiro” naquela fase?).
→ Segunda Aula = vire →
Plano da Segunda Aula:
- A Natureza da Crônica como técnica de consciência social;
- Tem valor como meio literário
- O problema literário colocado pela crônica = como parte da literatura de conquista, tanto pertence à literatura do país coloniz.[[ador]]t, quanto do país colonizado. Tudo depende da perspectiva de que ela seja encarada. Do ângulo brasileiro = representa os primórdios da elaboração literária. Tosca, mas importante e um ponto de partida. Sua importância indireta é grande → se não contém uma teoria da literatura, oferece uma visão do homem e da realidade e, com isso, ao longo do tempo acaba condicionandou a formação e as orientações daquele (pois não se pode pensar numa teoria da literatura sem uma teoria do homem).
Diário de S. Paulo – Quinta-feira, 23-06-1949 (Pág. 4 – EDITORIAIS)
Nota explicativa do editor do texto: Esta entrevista, concedida por Florestan Fernandes, pode ser consultada sob o número 02.12.8461 no Fundo Florestan Fernandes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A sua leitura é fundamental para as pesquisas sobre a trajetória do sociólogo paulistano. Muitas interpretações têm sido produzidas sobre o motivo de Florestan Fernandes ter se dedicado aos Tupinambá. A entrevista ao Diário de S. Paulo reflete a forma como significava as contribuições de seu livro recém-publicado A organização social dos Tupinambá. É certo que ressalta a importância científica da obra, mas ao mesmo tempo entra em considerações sobre a necessidade de reinterpretar a história do Brasil-colônia, não mais a partir de uma perspectiva de “endeusamento do português”, que rejeitava como uma atitude beletrista e, podemos acrescentar, eurocêntrica e colonialista. Havia um sentido político mais amplo que Florestan atribuía ao seu estudo; ou seja, sua trajetória não estava restrita às disputas no campo institucional das ciências sociais em São Paulo. Para além das disputas por consagração no campo intelectual, encarado como sistemas de posições e relações de poder, há nexos sociológicos mais amplos que envolvem os conhecimentos produzidos nas ciências sociais como forças atuantes no conjunto da sociedade, na sua vida política, ideológica e cultural. A interpretação de que Florestan Fernandes teria abandonado o doutorado sobre a aculturação dos sírios e libaneses porque esse estudo não lhe traria grande reconhecimento, como no caso de uma pesquisa de reconstrução histórica sobre a função social da guerra entre os Tupinambá, merece sérias restrições. Assim, havia um intuito político, que se pode vislumbrar nessa entrevista, publicada em 1949, de reinterpretar a história brasileira sob a perspectiva dos vencidos.
“Não foram apenas espectadores, mas agentes da história do Novo Mundo”
A participação dos indígenas na vida da colônia
Sobre o seu “A organização social dos Tupinambá”, fala-nos o Sr. Florestan Fernandes
Já se acha nas livrarias “A Organização Social dos Tupinambá”, livro com que o sr. Florestan Fernandes, assistente da cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia de S. Paulo e estudioso do nosso folclore, estreou auspiciosamente em nossas letras, tendo levantado o Prêmio Fábio Prado. Ouvido a respeito do seu trabalho, disse-nos o sr. Florestan Fernandes:
PESQUISAS DE ETNOLOGIA AMERICANA
“Interessei-me pelo estudo dos tupinambá por várias razões. A mais importante é de natureza científica: nas ciências sociais dedicamos grande interesse ao conhecimento da estrutura e do funcionamento do maior número possível de sociedades humanas. Este é o caminho mais seguro para a descoberta do papel desempenhado pelos fatores sociais na formação da personalidade e na determinação da estabilidade ou da transformação nas condições de existência social. Semelhante conhecimento tanto pode ser obtido através da observação direta, quanto de modo indireto, por meio da utilização de fontes históricas. No caso, como sabe, servi-me da segunda orientação – os tupinambá desapareceram, como unidades tribais, no decorrer da colonização do Brasil, durante os séculos XVI e XVII. A importância científica das contribuições é a mesma, revelando notar que, por sua própria natureza, as investigações de caráter histórico muitas vezes favorecem a colocação de certos problemas técnicos, relativos à explicação dos fatores e das condições em que se processa a mudança social. Outra razão de ordem científica, embora mais particular, animou-me a tentar a pesquisa das fontes quinhentistas e seiscentistas: na etnologia americana é relativamente pequeno o número de investigações sobre a organização social dos povos aborígenes. Há muito tempo Robert Lowie vem procurando estimular essas investigações, mas com poucos resultados. Pareceu-me que uma contribuição concreta, embora modesta, como seria uma análise do tipo que realizei a respeito dos Tupinambá, possuiria bastante utilidade para os especialistas interessados nos problemas de etnologia americana. Isso não só porque os Tupinambá pertenciam a um dos mais importantes grupos étnicos, que entraram em contato com os colonizadores europeus, mas porque ainda hoje existem tribos indígenas constituídas por descendentes dos diversos representantes daqueles grupos étnicos (inclusive, provavelmente, os tupinambá). Em terceiro lugar, não me esqueci de que uma monografia deste tipo constituía uma contribuição à nossa brasiliana. De fato, o conhecimento da organização social dos povos aborígines é capital para a compreensão e a explicação de muitos aspectos importantes da formação e desenvolvimento dos países latino-americanos. Os Tupinambá, por exemplo, atuaram de modo ativo na política colonial dos brancos: a análise de suas relações com os europeus abre uma boa pista para a interpretação do sucesso da política colonial dos portugueses e do fracasso das tentativas de colonização, empreendidas por franceses em vários pontos da costa brasileira”.
RESISTÊNCIA E HOSTILIDADE DOS NATIVOS
Referindo-se, depois, ao papel importante que os Tupinambá desempenharam na história do Brasil, disse o entrevistado:
“Não só ele, mas também os demais povos aborígines, que entraram em contato com os europeus invasores empreenderam papel importante. Há uma tendência beletrista de interpretação das condições de colonização dos países latino-americanos, a qual é responsável por uma série de chavões a respeito de hipotéticas facilidades encontradas pelos brancos em algumas regiões da América, especialmente no Brasil e no Paraguai. Os povos nativos, nestes dois países, principalmente, segundo aquelas interpretações, não estariam em condições de oferecer uma resistência séria ou de assegurar uma colaboração preciosa aos europeus. Nada mais falso. Os homens que colocaram o Brasil dentro da órbita da civilização ocidental e que enfrentaram as duras contingências da vida na colônia, pelo menos nos dois primeiros séculos da colonização, pensam exatamente de modo oposto. Os nativos foram ao mesmo tempo os principais empecilhos e os instrumentos humanos da colonização. Nos escritos dos autores da época, vê-se claramente que os povos indígenas não entraram apenas como espectadores na história do Novo Mundo: dela participaram como algozes, quando e onde puderam, ou como vítimas, mas sempre na qualidade de agentes. A colonização dos países americanos teria seguido outro curso, se as áreas territoriais por eles ocupadas fossem desabitadas ou se estivesse povoadas por grupos étnicos portadores de outros tipos de civilização. Nesse sentido, as relações dos Tupinambá com os brancos podem ser avaliadas de duas maneiras. Do ponto de vista do branco, o comportamento dos europeus possuía um caráter heroico. Todavia, do ponto de vista dos aborígenes, o comportamento dos europeus foi monstruoso e catastrófico. Aonde o branco chegou, seguiu-se, para os indígenas, a escravidão, a destruição e a morte: tribos inteiras desapareciam na voragem dos engenhos, nas aldeias administradas, no trabalho das vilas…”
DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL E DESALOJAMENTO DOS ÍNDIOS
Inquirido sobre estudos em seu livro desses aspectos sociais da colonização do Brasil, respondeu:
“Não. Somente analisei a distribuição espacial dos tupinambá e como eles foram desalojados do litoral pelos portugueses. Pretendo analisar tais aspectos da colonização do Brasil em outro trabalho, especialmente dedicado aos contatos dos tupinambá com os brancos. No livro ora publicado, limitei-me à investigação das condições de existência social dos tupinambá. Alfred Métraux já estudara outros aspectos desta sociedade tribal, como a cultura material, a religião e as migrações históricas. Por isso, podia muito bem restringir a investigação aos aspectos que diziam respeito à morfologia e ao funcionamento da sociedade tupinambá. De acordo com esta orientação, dentro dos limites oferecidos pelos dados e informações disponíveis e aproveitáveis cientificamente, estudei os grupos locais (organização social e sistema econômico das povoações tupinambá), o sistema tribal de parentesco (ordenação das relações sexuais, concepção de parentes, culto dos antepassados, nomenclatura de parentesco, regras relativas ao matrimônio e à organização da família), as categorias de sexo e idade, através das quais era determinada a posição social relativa dos homens e das mulheres, na hierarquia tribal, e o conselho de chefes, através do qual os velhos exerciam domínio político sobre os demais membros da sociedade tupinambá. Contudo, para voltar à pergunta formulada, seria impossível estudar as condições em que ocorreram os contatos dos tupinambá com os brancos, sem contar com uma análise prévia de sua própria sociedade”.
CONTRIBUIÇÃO PARA A REINTERPRETAÇÃO DO BRASIL-COLÔNIA
– Quer dizer, perguntou o repórter – que se pode esperar do trabalho sobre a organização social dos tupinambá uma contribuição concreta para a reinterpretação do Brasil-colônia?
– “Espero que sim, embora isto dependa mais do leitor, do que de mim… Explico-me. No meu estudo, apenas examino, com a objetividade que me foi possível alcançar, as condições de existência social dos tupinambá. Entretanto, como atitude diante do nosso passado, isso envolve uma profunda transformação de mentalidade e de método. Em nossos trabalhos de história, mesmo os escritos por autoridades estrangeiras, tem prevalecido uma orientação atomizadora e uma preocupação por assim dizer intimista, de endeusamento do português. Fala-se em “português”, em “índio”, esquecendo-se que estas ficções não existem na realidade. No Brasil, europeus de diversas procedências e de distintas categorias sociais entraram em contato com índios de vários grupos tribais, e em suas relações prevaleceram móveis materiais, de conquista ou de defesa. Se pretendemos explicar de fato o desenvolvimento e o sentido da colonização, devemos destruir aquelas abstrações e colocar em termos sociológicos os problemas que elas envolvem. Ora, isto é o que comecei a fazer, deslocando o aproveitamento da contribuição dos cronistas do plano beletrista, para o plano científico. Limitei-me aos aborígines, e entre estes aos tupinambá, mas, ainda assim, é inegável que um passo decisivo está sendo dado em uma direção nova, de reinterpretação do “ponto zero” da formação histórica da sociedade brasileira. Outros virão depois e, espero, farão obra mais completa e mais sólida. Além dos resultados parciais positivos da pesquisa, ficarão porém o exemplo do método e a coragem da iniciativa”.
Notas
a Na margem do parágrafo, indicado por uma seta, lê-se: “em termos = produtor e do público para o qual escrevia”.
b Passagem riscada: “letras D, R”.
c Trecho acrescido com uma seta: “≠a moral e cultural flagrante.”
d O manuscrito pode ter sido interrompido aqui. Na página seguinte, Florestan Fernandes passa às conclusões, mantendo a numeração 4 como tópico.
e Florestan Fernandes lista os nomes dos cronistas, seguindo-se algumas páginas. Não tive condições de verificar se as páginas se referem propriamente aos livros dos cronistas que constam em sua biblioteca ou à localização das referências citadas em um de seus trabalhos sobre os Tupinambá. Logo em seguida à página 39, Florestan acrescenta, com uma seta, o número 83.
f Na indicação da página 42 se encontram um sublinhado duplo e uma seta indicando o texto: “próprio aprisionamento”. Refere-se à descrição de Hans Staden de seu aprisionamento pelos Tupinambá.
g Florestan risca “minha” e substitui por “nossa”.
h Junto ao nome de Evreux, escreve “didático; percuciente”.
i Florestan passa a numerar as fichas no canto superior direito. As fichas anteriores não estavam numeradas. Assim, a presente ficha volta a ser a página 1. É provável que tenha repensado a linha expositiva e, por isso, dado outra sequência à organização das ideias.
j Florestan puxa uma seta e observa: “o que era na época”. Provavelmente, trata-se de um aparte para explicar o que era um leitor letrado à época.
k Florestan escreve acima: “copia x recopia x difusão”.
l Passagem grifada por Florestan com um sublinhado duplo.
m Florestan Fernandes introduziu a citação por meio de uma seta e indicou a página 90. Em seguida, continua a transcrição da passagem de seu texto.
n Na escrita da palavra, há um “t” entre a vogal “e” e a consoante “r”. Talvez, na pressa da escrita, Florestan tenha tentado escrever “literatura” e logo em seguida tenha mudado. O restante da escrita, quando comparado a outras palavras “literatura”, contidas no texto, não deixa dúvidas: trata-se de “literário”.
o Há uma passagem riscada logo abaixo desse trecho.
p Inicialte corresponde a “inicialmente”. Esta passagem estava grifada com sublinhado duplo no manuscrito.
q A palavra sistemática se encontra riscada no manuscrito.
r Com uma seta direcionada para baixo começando na palavra “núcleo”, Florestan escreve dentro de um círculo “guerra”.
s Florestan grifa o nome de Staden com um sublinhado duplo. Em alguns dos nomes sublinhados, ele também grifa um pequeno traço transversal, que varia em quantidade: Thevet, 1 traço transversal; Léry, 1; Gabriel Soares, 3; Evreux, 1; Abbeville, 1; Gandavo, 1; e Cardim, 3. Isso pode significar alguma alusão à quantidade de passagens ou citações dos textos que Florestan utilizaria como ilustração de suas ideias.
t Os colchetes duplos representam acréscimos do editor do texto.
u Após “condicionando”, Florestan risca o trecho “o aparecimento”.
