
Em texto originalmente publicado no site do jornal digital Nexo, e republicado na série A virada, Luiz Augusto Campos nos convida a refletir sobre uma pergunta inescapável, especialmente em um momento crucial no qual a democracia parece cada vez mais vulnerável ao redor do mundo: seria possível deter o avanço de autoritarismos e populismos de extrema direita e revitalizar a confiança nas instituições democráticas?
Entre o ressentimento, a ascensão de movimentos autoritários e o enfraquecimento das regras do jogo político institucional, o autor argumenta que as eleições presidenciais de 2026 ofertam elementos para pensarmos não apenas como as democracias adoecem e morrem, mas também como podem resistir e reviver. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surge como uma espécie de fármaco, ponto de partida marcante para uma reflexão sobre o poder da mobilização popular através de uma militância democrática, ativa e plural, o papel das lideranças políticas e a força de uma sociedade disposta a defender os direitos de cidadania.
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Boa leitura!
Como as democracias revivem? As lições da eleição de Lula[1]
Por Luiz Augusto Campos (IESP-UERJ)
Se dois mandatos costumam bastar para que a extrema direita destrua uma democracia, um quarto mandato de Lula certamente ajudará a fortalecê-la.
A democracia foi colocada em xeque na última década. As ameaças multiplicaram-se em contextos tão distintos quanto os Estados Unidos de Donald Trump à Hungria de Viktor Orbán, da Argentina sob Javier Milei à Rússia de Vladimir Putin, de El Salvador de Nayib Bukele ao Mali de Assimi Goïta. Uma bibliografia vultosa vem se dedicando a identificar os sintomas desses retrocessos, especialmente após a publicação do best-seller de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt Como as democracias morrem? (Zahar, 2018). Pouco nos perguntamos, contudo, sobre o caminho inverso: como uma democracia ferida pode se recuperar ou ao menos se proteger? A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato como presidente da República certamente oferecerá pistas nesse sentido.
A despeito da bibliografia acumulada, as causas da crise da democracia ainda desafiam os especialistas. Ao que parece, as mudanças do capitalismo e da geopolítica contemporâneas vêm criando o caldo necessário para que movimentos extremistas busquem corroer as democracias por dentro. A transição para um capital hiperfinanceirizado de exploração plataformizada do trabalho concentrou riqueza e poder ao mesmo tempo em que destruiu as redes de regulação do trabalho e proteção social. As reformas neoliberais, apresentadas durante décadas como remédio inevitável, revelaram-se incapazes de responder às angústias concretas das pessoas. No vazio deixado por essa frustração, prosperou uma política do ressentimento, que encontrou em imigrantes, negros, indígenas, pessoas LGBTQIAPN+ e mulheres os bodes expiatórios de um mal-estar cujas raízes estão em outro lugar.
Levitsky e Ziblatt mostraram como esse caldo social tem servido de pretexto para que a extrema direita abandone, de modo insidioso e nem sempre declarado, seu compromisso com as regras do jogo democrático. O roteiro quase sempre envolve a negação da legitimidade dos adversários, convertidos de rivais em inimigos da pátria, encorajando a intolerância e a violência até a restrição de liberdades civis e políticas, bem como a captura das instituições de controle. Tudo isso, quase sempre, pelas vias aparentemente legais de maiorias parlamentares dóceis e tribunais domesticados.
Apesar da versão “moderada” produzida pela campanha de Flávio Bolsonaro, não há nenhuma dúvida de que ele seguiria esse receituário. Em mais de uma vez, seu discurso demonizou a esquerda, exaltou a violência policial, ameaçou mudar a Constituição de 1988 e enquadrar a Suprema Corte. Mas a lição mais importante da história recente das extremas direitas é de que as democracias raramente morrem no primeiro mandato de seus algozes: o golpe decisivo costuma vir no segundo. E tudo indica que o Brasil caminhava para esse desfecho.
Jair Bolsonaro deixou estragos indeléveis em nossa vida pública, mas acumulou derrotas no Congresso e no Supremo Tribunal Federal, instituições que repetidas vezes se ergueram contra suas investidas. Flávio Bolsonaro, se eleito, teria herdado o projeto sem os mesmos obstáculos: um Congresso muito mais amigável, um Supremo mergulhado em crise e, portanto, os ingredientes clássicos de um mandato imperial, capaz de aprovar reformas constitucionais regressivas e de tornar permanente aquilo que, até aqui, foi apenas ameaça.
Que esse desfecho tenha sido evitado deve-se, em boa medida, ao renascimento de algo que muitos davam por extinto: uma militância democrática viva e plural. A campanha eleitoral de Lula reorientou por completo sua presença nas redes sociais e voltou a ocupar as ruas nas maiores passeatas da história recente. O que se viu foi que a defesa da democracia também pode não apenas ser apaixonada e mobilizadora, como eleitoralmente bem-sucedida.
Graças a isso, Lula conseguiu vários feitos inéditos com apenas uma vitória. Ele se tornou um dos poucos líderes democráticos a conseguir um quarto mandato, garantindo ao Partido dos Trabalhadores toda uma era na presidência. Segundo, ele inverteu pela primeira vez na história do Brasil as preferências manifestadas no primeiro turno. Se não bastasse, Lula abriu uma vantagem de mais de quatro milhões de votos em relação a Flávio, o que supera em muito o minguado 0,9% que lhe garantiu a eleição em 2022. Tudo isso ainda tendo de enfrentar todo tipo de golpes de órgãos públicos e empresas privadas, que vão desde a perseguição às suas redes sociais por parte do ministro Kássio Nunes Marques aos vieses algorítmicos da Meta, passando pela redução das frotas de ônibus em vários municípios no dia da eleição.
Esse reavivamento da campanha e do eleitorado teve muitos autores. Uma nova geração de políticos alinhados à esquerda, mais sintonizada com a linguagem das redes, como Ana Elisa, André Janones, Erika Hilton e Jones Manoel, soube mobilizar a atenção num território que parecia monopólio da direita. A mobilização foi capaz de encher as ruas de modo inédito. Por mais ambivalente, não podemos ignorar também o papel do Partido dos Trabalhadores. Apesar dos erros crassos cometidos por sua cúpula no primeiro turno, o partido relembrou os elos com as forças que um dia o fundaram: dos bispos católicos aos militantes marxistas, dos estudantes universitários aos sindicalistas, dos idosos aos jovens.
No centro disso tudo está um homem que, por mais críticas que se possam fazer ao seu modo de governar, deu ao país as maiores provas de lealdade à democracia. Lula sempre negociou com as forças políticas legítimas, incluindo golpistas arrependidos, e sempre “dentro das quatro linhas da Constituição”. Não faltam provas eloquentes do seu respeito às instituições. Sem convocar desobediência, nem pregar a ruptura, ele aceitou passar 580 dias na prisão em razão de um processo cuja parcialidade é hoje notoriamente conhecida. Tudo isso depois de assistir ao impedimento de sua sucessora, Dilma Rousseff, também em um processo política e juridicamente contestável. Poucos líderes no mundo suportariam tais injustiças sem se voltar contra as instituições que as permitiram.
Nada disso torna fácil a tarefa que o espera. Lula terá diante de si o mandato mais desafiador de sua vida: um Congresso bem mais bolsonarista, uma oposição mais golpista, uma Suprema Corte em frangalhos, uma economia desindustrializada e em desaceleração, um partido com dificuldades de renovação, um cenário internacional cada vez mais hostil. Mas, se dois mandatos costumam bastar para que a extrema direita destrua uma democracia, um quarto mandato de Lula, com todos os problemas que venha a ter, certamente ajudará a fortalecê-la. Além dos desafios institucionais e econômicos, Lula terá que encontrar um modo de reorganizar o governo para canalizar e manter animadas as ruas e as redes em suporte à democracia. A vitória de Lula não foi um alívio apenas para os democratas brasileiros, foi um sinal ao mundo de que as democracias não estão condenadas a morrer.
Nota
[1] Texto originalmente publicado no site do jornal digital Nexo. Link para acesso: https://www.nexojornal.com.br/eleicao-lula-democracia-licoes. Acesso em 04/11/2026.
Sobre o autor
Luiz Augusto Campos é Professor de Sociologia e Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), onde coordena o núcleo de pesquisas DARA: Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo.
