
O Blog da BVPS publica hoje o poema “Dados do Espaço”, de Victor Hermann (UFRJ), que se hospeda no poema “Frutos do espaço”, de Silviano Santiago.
O post dá continuidade à Hospedagem Vale quanto pesa, um experimento intelectual e estético inspirado na categoria de “hospedagem” de Silviano Santiago, voltado para as comemorações do seu segundo livro de ensaios, Vale quanto pesa, de 1982. Propomos um exercício de comentário, repetição, suplementação, hospedagem dos 18 textos nele reunidos. Autores e autoras de 40 anos ou menos comentam Vale quanto pesa em seus 40 anos ou mais.
É uma alegria proporcionar esse encontro, ainda mais porque, como espaço de formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes, o Blog da BVPS aposta sempre na conversa entre diferentes gerações.
Acompanhe as postagens da Hospedagem, sempre às segundas e quartas-feiras. Para saber mais sobre a iniciativa, clique aqui.
Boa leitura!
Dados do espaço
(Texto inspirado por *Através*, de Cildo Meirels)
Por Victor Hermann (UFRJ)

O progresso já não convence
o homem do parque industrial:
ele adormece entre ruínas
e projeta – como derradeiro impulso
humano – a própria obsolescência
nas vagas de nuvens negras, digitais
Semanticamente a dadosfera
se constrói pela referência à linguagem,
para negá-la. Para destruí-la.
Nos dá em jogo de palavra
o que nos rouba em
céu, imagem, identidade.
“Eis o que não há: o mundo pronto”
Para os pintores do Séc. XIX,
a nuvem era um dado incalculável. Através de
sua forma pincelada, diáfana, sonhavam
os habitantes das cidades
com o que havia mais acima da fumaça:
o fim da planificação em perspectiva
das ruas, das almas.
No trabalho de Cildo Meireles
Através
de delicadas armações
a ruína reencontra a nuvem.
O espaço labiríntico não impede
a circulação do olhar entre grades
o espaço dado é visto, entrevisto, composto, enquadrado,
lisonjeado, pisado, tocado.
O celofane, nuvem, esmaece
o ponto de fuga prometido
o chão dado, de vidro, desativa
o destino estocasticamente traçado
E eu espectador, perdido nesse labirinto vazado,
me vejo visto, entrevisto,
composto, enquadrado, lisonjeado,
pisado, tocado pelo espaço.
Tudo é “suposto vazio”;
tudo é “cheio”. Através.
Cildo Meireles pega o grid e faz dele
greta
Cildo pega o que é dado e faz dele
nuvem
nos convida a atravessar o que envem
depois do progresso
A imagem que abre o post é de autoria de Lena Bergstein, Série Galáxias, 2018. Fotografia e superposições