BVPS Coletâneas | Mário de Andrade e as falas brasileiras: entrevista com Eduardo Coelho


Democratização da cultura é a primeira parte da BVPS Coletâneas lançada ontem, 9 de outubro, em homenagem aos 130 anos de Mário de Andrade. O organizador, Maurício Hoelz (UFRRJ), adota a expressão tomada ao clássico de Karl Mannheim para referir o longo processo, não simplesmente de substituição – porque nada na vida social é linear -, mas de conflito entre ideais de cultura e educação: o humanista tradicional, dependente de um eu cultivado e autocentrado, capaz de ascender e fruir “a” cultura, de um lado; e os saberes e as experiências forjadas no dia a dia de grupos os mais diversos que se inscrevem num aprendizado social de reconhecimento e religação, de outro. 

Como sabemos, sobretudo com a experiência dos últimos anos, a democratização não é o sentido único da história, avanços são acompanhados de recuos e elitismo e autoritarismo estão vivos. Os quatro textos reunidos nesta seção discutem diferentes dimensões do modo pioneiro com que Mário de Andrade deu vida a esse ideal de democratização.

Neste post, Eduardo Coelho (UFRJ) ressalta o principal legado de Mário de Andrade para a literatura brasileira ainda atual e provocativo: a aproximação da língua escrita à falada como campo aberto de experimentações estéticas e políticas.

Para conferir a apresentação e o sumário da BVPS Coletâneas, clique aqui. Os posts da seção Democratização da cultura podem ser conferidos aqui, aqui e aqui.

Boa leitura!


Mário de Andrade e as falas brasileiras: entrevista com Eduardo Coelho

BVPS. No artigo “A memória da poesia modernista”, publicado na revista Estudos Avançados n. 104, você analisou, entre outras questões, a importância do português do Brasil no projeto de construção de uma nova brasilidade através da literatura. Em que medida Macunaíma, de Mário de Andrade, pode servir ao debate em torno desse aspecto tão relevante para os modernistas?

Eduardo Coelho. Poucas obras da literatura brasileira recorreram tanto à oralidade quanto Macunaíma. Não à toa, a rapsódia de Mário de Andrade, publicada em 1928, mobilizou, igualmente, críticos da literatura e linguistas. Também nesse sentido, Macunaíma é singular.

As pesquisas de Edith Pimentel Pinto, uma das maiores estudiosas do português do Brasil, são exemplos notáveis do interesse que linguistas manifestam sobre textos de Mário de Andrade acerca dessa questão. A gramatiquinha de Mário de Andrade: texto e contexto, lançada em 1990, é um dos trabalhos imprescindíveis dessa professora. Na contracapa da edição da Duas Cidades e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo há um trecho de Mário de Andrade em destaque que aponta a relevância das investigações linguísticas: “Si cada um fizer também das observações e estudos pessoais a sua gramatiquinha muito que isso facilitará pra daqui a uns cincoenta anos se salientar normas gerais, não só da fala oral transitória e vaga porém da expressão literária impressa, isto é, da estilização erudita da linguagem oral. Essa estilização é que determina a cultura civilizada duma raça sob o ponto-de-vista expressivo. Linguístico.” Nessa obra, Edith Pimentel Pinto se dedicou cuidadosamente aos originais de Mário de Andrade constituídos de “anotações fortuitas, descontínuas” e depositados no Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Macunaíma é um dos exercícios máximos de “estilização erudita da linguagem oral”, aproveitando variações linguísticas, ditos populares, palavras faladas que não circulavam na boca do povo em Portugal. Nesse sentido, é importante esclarecer que Mário de Andrade adotou, em Macunaíma, uma estratégia de dissolução dos limites regionais, o que se constata facilmente por meio das descrições da fauna e da flora em suas páginas. Numa única descrição da paisagem, encontramos elementos da flora brasileira dos mais diversos cantos do país. Mário de Andrade fez o mesmo em relação à fala brasileira.

Por causa disso, não me parece exagero afirmar que Macunaíma funciona como um arquivo de falas brasileiras, com uma série de índices que, por sinal, foram sendo abandonados, tornaram-se inusuais. Alguns desses índices de brasilidade da fala estão preservados através de Macunaíma e das anotações que Mário fez, hoje depositadas no Arquivo Mário de Andrade do IEB. O mesmo pode ser afirmado em relação ao português aqui escrito, que macaqueava a sintaxe lusíada, conforme Manuel Bandeira, em versos de “Evocação do Recife”. Esta cópia da sintaxe lusíada também está presente em Macunaíma, e não apenas as variações linguísticas do português do Brasil, seus ditos populares, entre outros. Afinal de contas, na seção mais paródica de Macunaíma Mário de Andrade reproduziu frases de autores que faziam uso ortodoxo da gramática portuguesa, como esclareceu no texto “A Raimundo Moraes”, publicado em Macunaíma: a margem e o texto, também de Edith Pimentel Pinto, publicado em 1974: “Quer saber mesmo? Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndios, mas ainda, na Carta pras Icamiabas, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais, e devastei a tão preciosa quão solene língua dos colaboradores da Revista de Língua Portuguesa.

É importante ressaltar que, em Macunaíma, se trata de falas brasileiras, no plural. Em torno disso, podemos ainda levar em consideração que há culturas diversas que circulam por meio dessas falas. Certa vez, em sala de aula, lendo Macunaíma com uma turma de graduação, comentei que não sabia o sentido de uma frase que parecia dito popular. Uma estudante dessa turma levantou a mão e falou que sua avó, rezadeira, falava tal frase durante suas rezas. E foi assim em todas as vezes em que trabalhei com Macunaíma em sala de aula: estudantes colaboravam com a leitura, explicando-me ditos populares, expressões de que suas famílias se valiam cotidianamente. Pouco a pouco, ia adicionando à margem do livro as considerações de estudantes em torno de frases que, para mim, eram enigmáticas. 

BVPS. Como o posicionamento de Mário de Andrade pode ser lido em relação aos demais usos do português do Brasil pelos seus antecessores da literatura brasileira?

Eduardo Coelho. Foi por volta de meados do século XIX que o português do Brasil começou a se tornar um motivo de debate. Nesse sentido, Varnhagen foi um dos precursores, como podemos constatar no “Prólogo” (1847) de Florilégio da poesia brasileira, ao tratar da “divisibilidade das literaturas portuguesa e brasileira, o que vários julgam impossível, em consequência da uniformidade da língua”, conforme suas palavras. Alguns parágrafos depois, ele faria a seguinte problematização: “É porventura, tão verdadeira, tão estrita essa identidade da língua?” Varnhagen destacava as diferenças entre a “pronunciação brasileira” e o português falado em Portugal como uma das razões de tornar a divisibilidade das referidas literaturas possível. Mas a pesquisa em torno da fala brasileira e a tentativa de estilizá-la literariamente tiveram maior impacto sobretudo com José de Alencar.

José de Alencar abriu um caminho mais profícuo em torno da investigação do português do Brasil e sua incorporação pela literatura. Era um dos seus modos de singularizar a literatura produzida no Brasil, nacionalizando-a, o que lhe rendeu duras críticas à época. Estas, por sua vez, foram exigindo a produção de paratextos, por meio dos quais defendia não uma “nova língua”, mas a “transformação do idioma de Portugal”, conforme um “Pós-escrito” (1865) publicado em Iracema: “não obstante os clamores da gente retrógrada, que a pretextos de classismo aparece em todos os tempos e entre todos os povos defendendo o passado contra o presente: não obstante a força incontestável dos velhos hábitos, a língua rompe as cadeias que lhe querem impor, e vai se enriquecendo, já de novas palavras, já de outros modos diversos de locução”. Em um “plano” escrito por José de Alencar referente ao desenvolvimento do texto “A língua portuguesa no Brasil”, lemos: “As línguas progridem e se transformam – Se a língua portuguesa não pode progredir, há de transformar-se para formar a língua brasileira. Negá-lo é negar o futuro do Brasil.”

Lembremos que, não por acaso, nos dois primeiros manuscritos de Macunaíma consta a seguinte dedicatória: “José de Alencar, pai-de-vivo que brilha no vasto campo do céu”. É claro que a dedicatória, posteriormente deixada de lado por Mário de Andrade, não se devia apenas ao desenvolvimento da estilização da fala brasileira: havia todo um projeto alencariano de mapeamento do Brasil com que o escritor paulista se afinava, levando-o adiante e o aprofundando. José de Alencar me parece um escritor fundamental para compreendermos o projeto literário de Mário de Andrade e de boa parte dos modernismos brasileiros, mas sobretudo para compreendermos Macunaíma, que ao mesmo tempo apresentou traços de continuidade e ruptura em relação à literatura alencariana.

BVPS. Como o problema da fala brasileira de Mário de Andrade se manifestava em relação aos autores do seu tempo?

Eduardo Coelho. Já no início do século XX, o português do Brasil ia se tornando um problema mais compartilhado entre escritores, ganhando mais terreno nos debates em torno da construção de uma literatura menos dependente. Inicialmente, talvez Monteiro Lobato tenha sido o maior responsável por tratar dessa questão. Por sinal, é um ponto de sua obra que aproxima Monteiro Lobato dos modernistas, ao contrário do que as histórias da literatura costumam apontar devido à sua crítica sobre a exposição de Anita Malfatti, realizada em 1917. Refiro-me à crítica de Lobato intitulada “Paranoia ou mistificação?”.

Contudo, acredito que os trabalhos mais importantes em torno da fala brasileira e do português do Brasil vinham dos linguistas, entre os quais destacaria O dialeto caipira (1920), de Amadeu Amaral, e A língua nacional (1933), de João Ribeiro. A contribuição desses autores, além de Antenor Nascentes, Sousa da Silveira, entre outros, foi determinante para pautar um campo muito rico de pesquisas que, aliás, orientou a produção de alguns modernistas, como Manuel Bandeira. Nesses casos, é importante ressaltar diferenças sintomáticas referentes aos modos de tratar a fala brasileira e o português do Brasil: elas se tornam evidentes na correspondência entre Manuel Bandeira e Mário de Andrade, por exemplo.

Apesar de toda a importância das investigações de Mário de Andrade em torno desse problema, ele com frequência apresentava em sua obra o que Manuel Bandeira caracterizou, em carta de 16 de março de 1925, como “sistematização vonluntária pessoal”, levando em consideração sobretudo o uso que Mário fazia do “pra”: “Digo ‘para’ e ‘prá’. Grafemos ‘para’ e ‘pra’. Se houver vitalidade nas duas formas como inegavelmente há, elas co-existirão. Se o ‘prá’ tiver mais seiva acaba eliminando a outra e então sim, seria pedantismo, arcaísmo querer guardá-la”. Em algumas passagens dessa carta, Manuel Bandeira recomendava cautela: “Que você foi com muita sede ao pote, não tem dúvida”; “Depois acho perigoso tocar no ponto mais controverso desses assuntos – os fonemas e as suas representações. […] E isso de fonemas é um terreno tão instável!”.

Manuel Bandeira parecia exigir de Mário de Andrade a adoção de critérios mais científicos no estabelecimento do português do Brasil através das literaturas modernistas, enquanto seu amigo parecia mais preocupado em estilizar a fala brasileira, independentemente da sua disseminação ou não pelo território nacional. Tratava-se de uma diferença de posicionamento evidente no “Prefácio” que Manuel Bandeira escreveu para a edição das cartas de Mário de Andrade, que se encontra como “Anexo I” da Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira: “Sempre fui partidário do abrasileiramento do nosso português literário, de sorte que aceitava em princípio a iniciativa de Mário. Mas discordava dele profundamente na sua sistematização, que me parecia indiscretamente pessoal, resultando numa construção cerebrina, que não era língua de ninguém. Eu não podia compreender como alguém, cujo fito principal era ‘funcionar socialmente dentro de uma nacionalidade’, se deixava levar, por espírito de sistema, a escrever numa linguagem artificialíssima, que repugnava à quase totalidade de seus patrícios. Mário, que se prezava psicólogo, escrevia-me, para justificar-se de seus exageros, que era preciso forçar a nota: ‘exigir muito dos homens pra que eles cedam um poucadinho’. O reformador não se limitava a aproveitar-se do tesouro das dicções populares, algumas tão saborosas como esse ‘poucadinho’, nascido por contaminação de ‘pouco’ e ‘bocado’. Ia abusivamente além, procedendo por ‘dedução lógica, filosófica e psicológica.”

A exigência de cientificismo também pode ser observada em uma nota de Manuel Bandeira, que está localizada no “Anexo V” da Correspondência: “Há um trecho de sua carta muito pau porque me coloca na posição um pouco torpe daquele seu burguês da Paulicéia ‘que é sempre um cauteloso pouco-a-pouco’. Quem me conhece bem sabe que sou cortante. Não aceito, porém, uma sistematização baseada na observação, como é a sua, que quer saltar por cima de um fato de língua.” Em outras palavras, Manuel Bandeira buscava se orientar por uma sistematização mais cientificista, pautada em métodos linguísticos.

Manuel Bandeira não estava errado, de modo que se torna necessário reavaliar uma consideração que fiz acima, ao me referir a Macunaíma como um arquivo de falas brasileiras, com variações linguísticas que foram sendo abandonadas. Algumas não foram propriamente abandonas porque jamais foram mobilizadas nacionalmente como português do Brasil, caracterizando-se mais como um idioleto, pensemos assim, ou seja, como um uso pessoal ou como um uso mobilizado por um grupo reduzido de pessoas, por habitantes de uma pequena cidade. Enfim, alguns desses índices podiam não alcançar uma escala nacional, não se tornando, consequentemente, um índice do português do Brasil. Mesmo assim, têm sua importância: estão registrados, conservados, manifestando um grau de inventividade em torno da língua que, por fim, também caracteriza o português do Brasil até hoje, como nos atestam expressões como “é nós”, “x-tudo” ou “podrão”, e como também nos atesta a inventividade do brasileiro em relação aos nomes próprios, que verificamos no início de cada semestre, nas listas de grau e frequência.

Obras como Macunaíma consistem no que me parece o maior legado dos modernismos brasileiros: o português do Brasil, a liberdade de se trabalhar, através da literatura, com nossos modos de expressão populares. É uma característica que por fim autorizou muitas outras pessoas a escreverem, a se lançarem à literatura. Talvez, sem a estilização da fala brasileira a que escritores como Mário de Andrade se lançaram, não reconheceríamos a importância e a inventividade de autores como Carolina Maria de Jesus e Geovani Martins.

Sobre o entrevistado:

Eduardo Coelho é professor adjunto de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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