BVPS Coletâneas | “Artimanhas da oralidade”: conversa com Flora Thomson-DeVeaux, por André Botelho e Pedro Meira Monteiro

Democratização da cultura é a primeira parte da BVPS Coletâneas lançada ontem, 9 de outubro, em homenagem aos 130 anos de Mário de Andrade. O organizador, Maurício Hoelz (UFRRJ), adota a expressão tomada ao clássico de Karl Mannheim para referir o longo processo, não simplesmente de substituição – porque nada na vida social é linear -, mas de conflito entre ideais de cultura e educação: o humanista tradicional, dependente de um eu cultivado e autocentrado, capaz de ascender e fruir “a” cultura, de um lado; e os saberes e as experiências forjadas no dia a dia de grupos os mais diversos que se inscrevem num aprendizado social de reconhecimento e religação, de outro. 

Como sabemos, sobretudo com a experiência dos últimos anos, a democratização não é o sentido único da história, avanços são acompanhados de recuos e elitismo e autoritarismo estão vivos. Os quatro textos reunidos nesta seção discutem diferentes dimensões do modo pioneiro com que Mário de Andrade deu vida a esse ideal de democratização.

Neste post, o sentido da oralidade de Mário é explorado na entrevista com a tradutora de O turista aprendiz para o inglês, Flora Thomson-DeVeaux (Rádio Novelo), que nos revela ter sido atingida de modo contundente e definitivo por suas possibilidades.

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Boa leitura!


“Artimanhas da oralidade”: Conversa com Flora Thomson-DeVeaux

Por André Botelho (UFRJ) e Pedro Meira Monteiro (Princeton University)

André Botelho. Você é tradutora de Machado de Assis, tendo como resultado do seu doutoramento apresentado uma tradução reconhecida de Memórias póstumas de Brás Cubas. Como chegou a Mário de Andrade? E por que escolheu O turista aprendiz?

Flora Thomson-DeVeaux. Parece que é minha sina chegar nos projetos de tradução meio sem querer – ou fazendo uma partezinha que quase que me obriga, depois, a fazer o resto. No caso do Mário, foi a Oficina Poéticas Amazônicas, em 2019, em que, a convite de vocês dois meliantes, traduzi o texto de um dia d’O turista aprendiz: 7 de junho de 1927, em que Mário descreve o encontro com a imponente vitória-régia numa lagoa brutalmente silenciosa. Fiquei muito impactada, tanto pelo trecho, quanto pela luta que foi tentar chegar numa primeira versão. Mas em um primeiro momento não pensei dar continuidade à obra. Minha tradução das Memórias póstumas já estava sendo editada pela Penguin e sairia no ano seguinte; naquele momento, nem sabia como seria a recepção da tradução, e se a editora ia querer outra tradução minha. Quando, depois da aceitação positiva do Brás Cubas, meu editor pediu mais algumas sugestões de títulos, O turista aprendiz estava no topo da minha lista. Unfinished business, vocês sabem como é.

André Botelho. É inevitável te pedir para comparar um pouco – já que são linguagens e talvez até línguas tão diferentes – as experiências de tradução de Machado e Mário.

Flora Thomson-DeVeaux. Essa foi uma das coisas que me atraíram nesse desafio. Após passar vários anos debruçada sobre um único romance machadiano, talvez o passo natural fosse andar na mesma seara, passar para um Quincas Borba ou Dom Casmurro – mas, como Brás Cubas, eu sentia vontade de espairecer. Neste caso, “espairecer” significava trabalhar com uma obra profundamente diferente em termos de estilo, gênero, e época; e, sobretudo, uma obra que ainda não havia sido traduzida. O resultado foi como pular do convés do vapor nas águas do Amazonas, com roupa e tudo.

Se, no caso do Brás Cubas, desvendar os enigmas do texto parecia sempre factível, embora nunca fácil, no caso deste diário eu esbarrava muito mais nos limites do incognoscível: a pura e simples impossibilidade de saber qual foi o significado por trás daquela frase entreouvida e transcrita às pressas numa tarde amazônica em 1927, por mais que eu raciocinasse e esperneasse. Isso apenas em termos do material mais documental; o resto foi igualmente desesperador, no sentido de exigir um jogo de cintura muito maior, umas invencionices que a prosa arquitetônica do Machado não me propunha. Afinal era exatamente esse choque do sistema que eu tinha procurado, mas não deixou de ser violento.

André Botelho. Como lidou com a espécie de multiculturalismo avant la lettre que parece caracterizar o “relato de viagem” de Mário nos planos linguístico e literário?

Flora Thomson-DeVeaux. Tive que abraçar o texto enquanto colcha de retalhos – as várias vozes que o narrador adota, os trechos escritos e reescritos, as vozes de terceiros que entram e saem, registros mais sérios, registros mais fugazes… Um texto tão radicalmente polifônico impõe uma polifonia à tradução, e eu tive que tentar imaginar a personalidade e o saber de cada uma dessas vozes.

André Botelho. Qual a seu ver a atualidade de O turista aprendiz para os leitores, em geral, e para os leitores de língua inglesa, em especial?

Flora Thomson-DeVeaux. Larry Rohter falou uma coisa interessante na resenha dele na New York Review of Books – que quando ele conheceu a Amazônia, nos anos 1970, logo depois de ler o recém-publicado Turista, a região era substancialmente a mesma descrita pelo Mário. Hoje, o mundo amazônico que os dois conheceram está cada vez mais distante de nós, mais desfigurado do que transformado. Nesse sentido, o relato do Turista é um importante e belo registro de tudo aquilo que a Amazônia compreende e compreendia, muito além de estatísticas e taxas de desmatamento. Além disso, uma das coisas que sempre me encantaram no texto é a universalidade do viajante desconfortável – desconfortável no deslocamento, no personagem, na própria pele. Sofro muito ao viajar, lutando com e contra minhas expectativas, minhas referências e a realidade. Nesse sentido, o Mário poderia estar em qualquer lugar, em qualquer tempo, que o pêndulo entre o êxtase e o sofrimento seria o mesmo.

Pedro Meira Monteiro. O “Black Turn” nas interpretações de Mário de Andrade, assim como as discussões às vezes ruidosas em torno de sua sexualidade, foi algo que ocupou a sua mente enquanto traduzia e pensava no projeto?

Flora Thomson-DeVeaux. Esse assunto estava presente, claro; mas confesso que com essa tradução, por se tratar de uma primeira versão do texto em inglês, eu pensava menos na posicionalidade específica da minha versão do que no caso do Brás Cubas, em que uma questão central era a justificativa e a orientação de mais uma abordagem a um texto tão conhecido. Tanto a angústia do desejo quanto um deslocamento identitário estão à flor da pele no texto. Mário se descobre o único autoidentificado “brasileiro” no meio de gaúchos, suíços e paulistas; mas é visto por fora, por olhos amazônidas, como alguma espécie indefinida de europeu. E um dos refrões mais pungentes do texto é a dor do desejo, o excesso de desejo que não consegue se expressar, nem se saciar. Em minha leitura, o Turista traz uma contribuição importante para os dois debates, mas não procurei ressaltar esses elementos de forma específica no texto per se.

Pedro Meira Monteiro. Como foi a decisão sobre a capa, o título em inglês, e demais questões editoriais?

Flora Thomson-DeVeaux. A capa foi uma proposta da Penguin a partir das riquezas fotográficas produzidas pelo Mário durante a viagem, e acrescentando uma boa dose de cor – algo que falta, naturalmente, às imagens em preto e branco guardadas no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros e reproduzidas, algumas, no interior do livro. Quanto ao título, acabamos por decidir que o mais interessante seria nos ater ao título do datiloscrito de 1943. Infelizmente, as espinhas dos livros da Penguin não comportam subtítulos do tamanho que o Mário cometeu – “Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega” – mas consegui enfiar numa das primeiras páginas.

A única coisa que não cabe nem a mim, nem à Penguin, mas que não deixa de ser engraçada, é a dificuldade que todo mundo parece ter em categorizar a obra. Acabei de checar na Amazon e, por enquanto, The Apprentice Tourist está colocado como um livro de referência de estilo de escrita. Numa livraria, achei na seção de literatura de viagem; em outra, no saco de gatos que é “literatura latino-americana”, e assim vai.

Pedro Meira Monteiro. Como o livro foi “vendido” para a Penguin, em que termos, e por que você acha que interessou à editora?

Flora Thomson-DeVeaux. O turista aprendiz foi um de vários títulos que sugeri na época, mas foi o que mais interessou ao meu editor, acredito sobretudo por ser um livro que aborda a questão amazônica, se dá para falar assim, de um jeito profundamente inusitado. Numa obra compacta e muito íntima, acabamos por ter acesso a um mundo em franca extinção, mas junto com mundos imaginados e com essa experiência da viagem sofrida que transcende as décadas, as línguas e os países.

Pedro Meira Monteiro. Você sente que o seu próprio inglês se altera depois de uma submersão desse tamanho numa outra língua, e uma língua tão especial quanto a empregada e elaborada por Mário?

Flora Thomson-DeVeaux. Sinto como se meu cérebro tivesse passado por muitas sessões vigorosas de alongamento, mas não saberia dizer exatamente como meu inglês mudou depois dessa viagem em companhia do Mário. Tenho a impressão de que minha escrita, de forma geral, está descendo a ladeira sem freio rumo à oralidade – mas isso é em parte por culpa do Mário e boa parte por culpa da lida diária na Rádio Novelo, em que passo meu tempo tentando puxar a expressão escrita de volta para a espontaneidade e o vigor da palavra falada. Imagino que o Mário ficaria feliz com isso.

Sobre a entrevistada:

Flora Thomson-DeVeaux é tradutora e diretora de pesquisa da Rádio Novelo, nascida nos Estados Unidos e radicada no Rio de Janeiro. Na vida tradutória, verteu Memórias póstumas de Brás Cubas (2020) e O turista aprendiz (2023) para o inglês; na vida podcasteira, ajudou a produzir Praia dos Ossos, Retrato Narrado, Crime e Castigo, o projeto Querino, e o Rádio Novelo Apresenta, entre outros programas da Novelo.

As fotografias de Chico Antonio no post são de Mário de Andrade e as ilustrações são de Joana Lavôr.

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